Segurança Privada
10 IX - Nono.
Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.
—William Shakespeare
O fluxo de movimento nas ruas era intenso. Com as mãos fixas no volante, Sasuke dirigia apressado, ultrapassando sinalizações vermelhas e buzinando freneticamente quando alguém atrapalhava sua dianteira.
A todo instante, ele passava a mão entre os cabelos, conduzindo-os para trás, e quando seus dedos se afastavam, os fios indisciplinados voltavam ao devido penteado costumeiro, caindo em camadas sobre sua face.
Suspirou uma, duas, três vezes.
O crepúsculo surgia e os olhos negrume fitaram o painel do carro, constatando ser por volta das 21h. Sibilou seu costumeiro “Tsc”, erguendo o olhar para a pista úmida. Dirigia com cautela, pois o asfalto estava pós-aquoso.
Dobrou à esquerda, numa manobra esplêndida, e estacionou o veículo próximo a uma padaria já fechada. Olhou ao redor, verificando o ambiente, e saiu do carro. Andou até o poste, dois metros separavam este do carro, e apoiou as costas, dobrando a perna esquerda para trás apoiando o pé também. Levou a mão até o bolso da camisa social, retirando dali o isqueiro prata, com um símbolo esquecido há tempos — lembrança de sua família — e passou a pressionar o botão repetidas vezes olhando o fogo brando. Os minutos passaram-se até que um carro preto virou a esquina, estacionando bem atrás do veículo em que Sasuke viera. Do automóvel, saiu um homem de cabelos platinados. Sua pele clara, olhos negros, e a face, em sua maioria, do nariz para baixo, coberta por uma máscara negra.
Sasuke seguiu os passos do homem com os olhos, até que o sujeito parou em sua frente.
— Você demorou, Kakashi.
Kakashi, com seus trinta e um anos, sorriu por debaixo da máscara. — Acabei perdendo-me no caminho.
Tsc. Sempre a mesma desculpa, pensou Sasuke.
— Ainda não sei o que faz aqui no Reino Unido.
— Negócios, meu caro, negócios. — Kakashi, ainda com o bom humor, retirou o isqueiro da mão de Sasuke. — Você ainda guarda isso.
O mais velho analisou o objeto prateado, passando as digitais sobre a insígnia branca e vermelha.
— Lembrança da família.
— Eu sei, ainda assim acho que não deveria se prender a isso. — levantou o objeto, mostrando com clareza a insígnia que um dia fora algo tão renomado na Espanha.
— Não consigo me desapegar. Deixe isso para lá — Sasuke retirou o isqueiro da mão de Kakashi, guardando-o em seguida no bolso da calça. — Viemos aqui para tratar de outras coisas.
— Ah. Eu sei. — disse, retirando de dentro do paletó cinza um envelope marrom. — Tome.
Sasuke estendeu a mão, pegando o envelope e analisando-o em seguida.
— O que é?
— Trata-se de algumas informações sobre o ruivo. — respondeu Kakashi.
— Espero que contenha informações importantes.
— Pode ter certeza que contém.
Sasuke, sem esperar por mais palavras, abriu o envelope retirando algumas folhas A4 grampeadas. Na primeira, havia a foto de Gaara, com dados pessoais ao lado. Abaixo, havia algumas informações a respeito das atividades que Gaara exercia. A folha seguinte, continha informações mais detalhadas das mercadorias que Gaara exportava.
— Então as mercadorias estão sendo barradas... — murmurou Sasuke, analítico, mais para si mesmo.
— Não só na Espanha, como nos países da América. — Kakashi concluiu.
Sasuke não gostava do rumo que as coisas estavam seguindo.
Primeiro: tinha que preservar-se para conseguir alcançar seus objetivos.
Segundo: com Gaara tendo as mercadorias barradas, logo ele estaria investigando de todas as maneiras o motivo para tal, e isso não era bom já que Kakashi estava metido no rolo.
E por último, mas não menos importante, ele poderia descobrir sua verdadeira intenção.
— Kakashi, preciso que se afaste urgente desse rolo. — disse o moreno, olhando seriamente, em seguida, para o mais velho, que franziu a testa por completo.
— Não estou metido nisso. — respondeu simplesmente.
Sasuke arqueou a sobrancelha direita, duvidando, nitidamente, de Kakashi.
— Vamos lá, não quero problemas em relação a isso. Deixe as mercadorias serem exportadas, por enquanto.
— Já disse, não tenho nada a ver com isso. — afirmou Kakashi.
Agora sim Sasuke estava confuso. Se Kakashi estava dizendo, afirmando, que nada tinha a ver com as barragens das mercadorias, então quem estaria por trás?
— Tem certeza?
— Absoluta!
— Estranho... O que acha que pode estar acontecendo, então? — perguntou, na tentativa fútil de ter suas perguntas sanadas.
— Não tenho ideia. Sasuke, estou tão confuso e perdido quanto você.
“No começo, achei que era você quem estivesse por trás disso e estava pronto para te procurar e dizer para parar com isso, pois algo assim é muito delicado e com certeza Gaara chegaria até você. Mas então, por coincidência ou não, acabei me aprofundando e descobrindo que você estava tão parado quanto eu. Fiquei intrigado, pois se não foi você, nem eu, quem mais seria? Depois de pesquisar a fundo esse, digamos, problema, acabei chegando a uma única conclusão: tem alguém dentro da Espanha que está a par dos nossos segredos.”
Sasuke, involuntariamente, levou a mão ao cabelo, arrastando os fios rebeldes para trás, para então olhar Kakashi, ambos intrigados.
— Quem? — perguntou direto.
— Ainda não sei, mas acredito que seja alguém próximo.
— Quem?
— Eu já te disse, não sei.
— Não tem, ao menos, uma desconfiança?
— Tenho... Mas não quero pressupor algo sem provas.
— Hm. — Sasuke, limitou-se a grunhir. — O que faremos agora?
— Voltarei para a Espanha. Você ficará por aqui seguindo o plano inicial.
— Estou cansado de ficar nesse país. — resmungou Sasuke, fazendo Kakashi revirar os olhos.
— Pelo o que sei, tem se dado muito bem com sua patroa. Sakura, se não me falha a memória.
— Não fale besteiras. — disse Sasuke, recebendo um olhar um tanto acusatório e divertido.
— O que tem em se divertir enquanto não prosseguimos com o plano?
— Pare de falar besteiras, Hatake. Você sabe que não tenho tempo para isso.
— Sasuke, você precisa se distrair. Deixe comigo a parte difícil e se concentre apenas em esperar até que eu descubra mais coisas.
Sasuke, ainda a contragosto, teve de concordar com Kakashi. Estava muito tempo sem distração, ou melhor, sexo. Ainda que seus planos viessem em primeiro lugar, não custava, de vez em quando, distrair-se para aliviar a tensão. Porém, onde Sakura entrava nessa história? Desde quando Kakashi sabia algo a respeito dos dois, quando Sasuke ao menos pensava na rosada de outra forma a não ser para completar seus objetivos?
— Você anda se intrometendo muito na minha vida. — Sasuke falou, o tom de voz nada amigável.
Kakashi gargalhou, virando-se e caminhando até o carro em que veio. — Pense bem, pequeno Sasuke, a Haruno é bem gostosa e parece estar interessada.
— Maldito! — bronqueou Sasuke, sendo ignorado por Kakashi que apenas gargalhou mais uma vez antes de entrar no carro e deixa-lo ali, sozinho e irritado.
Maldito Kakashi, além de deixá-lo intrigado por não ser a pessoa por trás das barragens, ainda estava fofocando sobre sua vida particular. Porra, como o Hatake sabia que Sakura era gostosa? Pior, como ele sabia que ela estava interessada?
Além de se intrometer na sua vida, agora queria mandar nela. É claro que não se envolveria com a Haruno. Não tinha nada nela que o chamasse àtenção fisicamente, somente apreciava sua companhia como passatempo.
Guiou-se até o carro, retirando-se do local rapidamente.
Não queria levar “broncas” do seu patrão, ainda mais agora que as coisas estavam bem complexas.
X
Havia semanas que as coisas estavam desandando e isso não era nada agradável para Gaara, que não conseguia acreditar na incapacidade de seus homens num assunto tão delicado.
Como Diabos não conseguiam localizar Kakashi?
E agora, pior, como Kakashi havia chego a terras Britânicas e ninguém sequer o informou?
— Senhor, só soubemos da presença de Kakashi aqui, quando ele já havia desembarcado na Espanha. — o homem, de mais ou menos um metro e sessenta, falou.
— Não me interessa. Coisas assim devem ser sempre analisadas. Como vocês não souberam da presença daquele crápula por aqui? — jogou a pergunta na cara de seu capanga, e não obteve resposta satisfatória.
— Kakashi tem métodos úteis, ele é bem esperto.
— Foda-se! — esbravejou. — Não me interessa os meios que aquele maldito usa, o que eu quero é que vocês, seus inúteis, não deixem algo assim passar em branco.
— Senhor, nós descobrimos que ele esteve aqui.
— Essa é a questão. — Gaara ergueu um dedo em frente à face do sujeito. — Pense bem: Kakashi esteve aqui por quê? O que ele estaria querendo em meu país?
— Nós estamos tentando descobrir isso.
— Bando de inúteis! — exclamou, furioso. — No mínimo, vocês deveriam saber que o maldito desembarcou por aqui, e me manter informado. Mas não, vocês nem pra isso servem.
— Desculpe. — sussurrou o homem, abaixando a cabeça em redenção.
— Saia daqui, agora! — gritou a última palavra, fazendo o sujeito, centímetros mais baixo que si, tremer assustado e correr para a porta. — Da próxima vez que algo assim acontecer, eu acabo com vocês. — deixou a ameaça pairar no ar. Em contrapartida, teve um aceno rápido de cabeça e a porta batendo levemente.
Que inúteis eram seus homens, nem para isso serviam. Teria de contratar capangas novos, pessoas com habilidades e que não fossem tão imprestáveis quanto os atuais.
Porra, se o Hatake havia estado em terras britânicas, isso significava que ele esteve com alguém. Mas quem? Onde? Por quê?
Haviam inúmeras perguntas em sua cabeça que deveriam ter suas respostas imediatamente. Se Kakashi esteve aqui, então ele poderia estar sendo observado, ou pior, o maldito poderia estar armando alguma.
Entretanto, se pensasse bem, com Kakashi por aqui, como ele estaria barrando suas mercadorias na Espanha? Talvez isso fosse o suficiente para provar que o Hatake nada tinha a ver com as barragens, ou talvez fosse apenas mais um jogo, que Gaara poderia estar caindo facilmente. Quando se tratava de Kakashi, tudo poderia acontecer.
Gaara, que o diga, pois já teve o homem como um de seus capangas e, tinha que admitir, o infeliz era bom no que fazia.
Fora o melhor homem que trabalhou para si, além, é claro, do atual, que era sua carta na manga. Duvidava que Kakashi soubesse quem estava ao seu lado.
Sorriu, satisfatório.
Kakashi nem deveria sonhar quem estava trabalhando para si, e quando soubesse, ficaria frustrado com a notícia. Se Kakashi era bom, seu atual capanga era ainda melhor!
Seus pensamentos foram interrompidos por batidas na porta.
— Entre. — autorizou à entrada de quem quer que fosse.
— Desculpe, senhor — murmurou Sasuke, pondo apenas a cabeça para dentro.
— Entre. — Gaara novamente falou.
Sem esperar por novas ordens, Sasuke adentrou ao cômodo, fechando a porta atrás de si.
— Espero não ter lhe atrapalhado.
— Há quanto tempo está aqui? — perguntou Gaara, quase o cortando.
Não podia se dar ao luxo de ter suas conversas privadas sendo ouvidas por qualquer sujeitinho.
— Acabei de chegar. — respondeu o moreno.
— O que quer? — disse, virando-se e andando até a mesa, onde encheu o copo com whisky.
— Queria avisar que cheguei. A senhorita Haruno ainda não chegou, vim avisar que estarei no meu quarto caso precise. — era tão difícil ter que se submeter a agir assim na frente de alguém tão baixo quanto Gaara. Porém, agiria assim para seus próprios afins.
— Tudo bem. — Gaara, ao menos se deu ao luxo de olhá-lo. Sua atenção estava voltada para o copo em sua mão, balançando-o e observando o gelo mover-se.
Esse Watanabe era um completo paspalho. Sua ficha era tão limpa quanto o céu de verão, e chegava a ser hipocrisia um sujeito como ele trabalhar para si. Todavia, precisava de alguém assim para atentar aos desejos de sua noiva, e não queria alguém sujo ao lado de sua preciosa Sakura.
Sakura... como estava doido para se casar com ela e tocar cada centímetro do corpo alvo e delicado...
— Watanabe. — chamou, antes que o mesmo se retirasse.
Sasuke parou entre a porta. Sua mão ainda na maçaneta.
— Diga, senhor. — o moreno olhou-o, esperando por palavras que não tardaram em vir.
— Deixe para lá. — e sem esperar por mais, Sasuke se retirou.
Hm. Como Diabos pensou em perguntá-lo se gostaria de trabalhar sujo para si? Estava tão necessitado de homens que queria corromper o único sujeito bom que já esteve com seu nome assinado na carteira?
“Gaara, Gaara, deixe que esse aí cuide da Sakura, e arranje alguém que realmente preste para lhe ajudar”, sussurrou para si mesmo, tomando um gole da bebida, sentindo o forte ardor na garganta.
O aparelho celular tocou, chamando sua atenção. Pegou o objeto que estava sobre a mesa, atendendo-o em seguida.
— Gaara? — a voz irritante de Kiba soou do outro lado.
— Fale.
— Está tudo pronto para sua viagem. Estarei esperando no aeroporto, as 21h.
— Perfeito. — respondeu, encerrando a chamada.
X
Havia duas semanas que Gaara partira em sua viagem, duas semanas que Sakura sentia-se livre, duas semanas que Hinata não dera notícias, e duas semanas que Sakura frequentava o quarto de Sasuke. Diariamente.
— Olhe. — apontou para a capa do dvd em sua mão. — O que acha desse filme?
— Bem... — o moreno pensou por alguns segundos, longos segundos, que deixou Sakura afoita.
— Fala logo. — pediu, risonha.
— Acho que esse filme deve ser uma merda. — respondeu sincero.
Sakura, havia sugerido um filme de romance. A típica menina nerd, que se apaixona pelo cara mais promiscuo da escola.
Tsc.
Como se algo assim o interessasse.
— Sasuke, diga-me por que esse filme é uma merda? — pediu, olhando-o séria.
— Porque eu não gosto desse tipo de coisa.
— Você deveria ser mais romântico, senhor Watanabe.
— E você deveria parar de me chamar assim.
Continuaram debatendo sobre qual filme assistir. Se continuassem assim, Sakura tinha certeza que acabariam não assistindo nada.
Esses dias que Gaara esteve fora, Sasuke pareceu mais relaxado. Gostava da companhia de seu segurança, nunca ocultou isso, e estavam mais próximos.
Sakura, nunca teve um amigo do sexo oposto. Sua amiga, única e exclusiva, era Hinata, que por sinal estava sumida há tempos.
Ter Sasuke tão próximo a fazia sentir-se bem. Todos os dias após realizar seus afazeres matinais, Sasuke e ela andavam pelo jardim, conversando sobre assuntos alheios. Vez ou outra o moreno lhe perguntava algo mais intimo, o que fazia Sakura sempre fugir do assunto. Podia dizer, com certeza, ele era seu amigo. Gostava da sua companhia, do jeito que ele falava como se o mundo estivesse à sua disposição, e até mesmo o jeito que ele franzia a sobrancelha toda vez que ela o pegava com perguntas desprovidas.
Uma certa noite, diferente das outras; porque Sasuke insistia em dormir cedo, porém dessa vez ele acabou ficando mais tempo acordado, ela lhe perguntou sobre sua família. No começo, estranhou o jeito que ele ficou nervoso, mas logo ele mudou de assunto, intrigando-a.
Não gostava de ser intrometida, tampouco afoita, apenas, digamos, queria estar a par dos acontecimentos passados sobre o homem que estava tão próximo de si.
— No final das contas não vimos nenhum filme. — reclamou Sakura, deitando-se sobre o colchão que julgava ser um tanto desconfortável.
Sasuke a olhou. Em seguida, sentou-se na borda da cama.
— Está tarde.
— Está me expulsando, senhor Watanabe? — perguntou, fingindo estar ofendida. Sasuke não respondeu. — Uau, você está mesmo me expulsando.
— Eu só disse que está tarde. — rebateu o moreno.
Sakura cruzou o braço, apoiando o cotovelo sobre o almofado e a cabeça na mão. Fitou Sasuke, que olhava para um ponto qualquer na parede.
— Há quanto tempo está na Inglaterra?
A pergunta direta fez com que Sasuke olhasse para a mulher rapidamente. A boca em uma linha reta.
Entendendo que Sasuke não compreendeu suas palavras, Sakura tornou a falar.
— Dá pra perceber que você não é daqui, Sasuke. Seu sotaque é diferente...
— Ah — Ele pareceu pensar em algo, permanecendo calado por algum tempo. — Vim da América.
A resposta fez com que o rosto de Sakura se iluminasse. A jovem muitas vezes sonhara em ir para a América, explorar os países que faziam parte daquele continente.
— Qual país?
Novamente, Sasuke pareceu pensar bastante antes de responder.
— Estados Unidos.
— Nossa. Eu já estive por lá. — Gabou-se a rosada, recebendo um olhar torto do moreno. — É serio, eu já estive nos Estados Unidos. É claro, meus pais estavam juntos, e isso foi terrível, mas estive.
— Hm.
— Pare de fazer esse som irritante. — novamente Sasuke ronronou o costumeiro “Hm”, fazendo Sakura revirar as íris verdes. — Sasuke.
— Hm. — o que significava, no dicionário de Sasuke, “O quê?”.
— Você tem namorada?
Sasuke, não pôde deixar de fitar a mulher em sua cama após a pergunta, que realmente o impressionou por ser tão direta. — Não. — respondeu, olhando-a nos olhos.
Sakura sabia, por alto, que seu segurança era um homem solteiro. Ele já havia dito algo assim uma vez e não tinha como um homem, que vivia praticamente 24h em serviço, namorar.
Ela saberia se ele namorasse, certo?
— Por quê?
Sasuke se calou, desviando o olhar da direção onde Sakura estava.
— Você fala demais.
Não aguentando as palavras do moreno, Sakura gargalhou. — E você insiste em me deixar mal.
— Acho melhor você ir pro seu quarto.
— Acho que vou passar à noite aqui. — a Haruno falou naturalmente, e Sasuke pigarrou duas vezes antes de enxotá-la de seu quarto.
— Nem pensar. — levantou, andando até a porta, abrindo-a. Com um aceno rápido de cabeça, indicou a saída para sua patroa.
— Poxa, Sasuke, assim você me deixa magoada. — disse, levantando-se e andando até a porta.
Sakura parou de frente para o moreno, que continuou ereto esperando que ela deixasse seu quarto.
— Gaara chega amanhã. — falou, como se o assunto fosse do interesse de seu segurança. — Sabe, eu tenho um lugar que quero muito visitar.
Sasuke não precisou dizer nada, apenas deixou que Sakura prosseguisse com as palavras.
— Você me leva ao museu? — o moreno anuiu. Não precisava dizer nada, era o trabalho dele escolta-la, certo?
Sakura sorriu, parecia lembrar-se de algo divertido. A verdade era que esses dias longes de Gaara, longe de sua mãe, pai, e qualquer ser que insistisse em se intrometer em sua vida, a fez sentir-se leve, diferente. E Sasuke, fazendo parte disso, a fez querer agradecê-lo de alguma forma.
Já estava ciente do efeito que seu segurança causava em si.
Sentia-se extremamente atraída por ele, irrevogável, e com a chegada de Gaara tinha plena certeza que suas visitas ao aposento do moreno chegariam ao fim.
— Eu queria te desejar boa noite. — falou, abaixando o olhar, ruborizando no processo.
Ergueu as íris, olhando-o frente-a-frente, esperando uma resposta.
— Boa noite. — foi apenas duas palavras que Sasuke proferiu, e Sakura entendeu o quão debochado ele foi.
Abriu a boca, fechando-a em seguida. Não tinha muito o que dizer, queria apenas agradecê-lo, nem ela mesma sabia pelo o quê.
Graciosamente, se aproximou, parando há poucos centímetros de Sasuke. Ficou na ponta do pé, de maneira que seu rosto estivesse tão perto do rosto dele, tão próximos que as respirações se mesclavam.
Sasuke, nada fez para afastá-la.
“Bom sinal”, pensou Sakura.
— Eu... — sussurrou, sentindo o hálito quente que Sasuke expirava bater-lhe sobre a boca entreaberta. — Senhor Watanabe. — tornou a sussurrar, sentindo-se patética por não conseguir concluir o que tanto queria.
Ele lhe fitava, parecia esperar alguma reação que, não sabia explicar, tardou em vir.
Os olhos negrumes semicerrados buscavam por alguma explicação naquela atitude de Sakura e, enquanto a fitava, não encontrou nada que pudesse saciar suas respostas.
Apenas o desejo integro de acabar com aquele pequeno vão que os separavam.
— Sasuke... — novamente, Sakura sussurrou, perdida na escuridão do olhar do seu segurança.
E que os planos e metas o perdoassem, pois sua mente já não mais conseguia processar com nitidez nada à sua volta.
Saciando de seus desejos, Sasuke rompeu o espaço que separava seus lábios de se tocarem.
Um leve roçar, inicialmente, e os olhos de Sakura permaneceram abertos, assim como os de Sasuke. Ambos se analisavam, temendo que o outro afastasse o contato tão intimo.
Sakura moveu os lábios, acariciando e permitindo-se fechar os olhos.
Em seu intimo, o mais profundo subconsciente, Sasuke gostou tanto daquela imagem. A mulher tão divina, tão próxima de si, tão rendida. E não bastou apenas o simples toque, pois Sakura queria mais, Sasuke queria mais.
Entreabriu a boca, permitindo que sua língua tocasse os lábios macios e rosados. Sakura permitiu aquele toque, separando os lábios, e sentindo a língua áspera lhe invadir a boca. Assim que a língua tocou a sua, seu corpo inteirou estremeceu com o simples ato.
Era tão bom, tão acolhedor e diferente dos beijos de Gaara, que eram tão urgentes, tão descompassados.
Não soube o momento, quando se deu conta seus braços rodeavam o pescoço de Watanabe, puxando-o para mais próximo de si. As línguas dançavam, uma melodia clara e atraente, com passos ensaiados.
As mãos de Sasuke permaneceram do mesmo modo em que estavam. Não ousou tocar com as mãos nenhuma parte do corpo da mulher, pois sabia o quanto seria arriscado e o quanto não conseguiria parar.
Sakura imaginara que beijos assim, tão profundos, teriam gosto de alguma fruta assim como por diversas vezes leu em contos românticos.
Errado.
Os lábios, a língua, e todo o interior da boca de Sasuke não tinha gosto algum. Insipido. Como água morna.
E tão natural como começou, o beijo chegou ao fim. Sakura permaneceu de olhos fechados, recuperando-se de todo o frenesi que lhe invadiu. E Sasuke apenas apreciou aquela imagem.
— Acho melhor eu ir para meu quarto. — a mulher falou, quase num sussurro, ainda de olhos fechados.
— Certo. — Sasuke concordou.
— Nos vemos amanhã, senhor Watanabe. — agora, os olhos se abriram demonstrando o quão satisfeita Sakura estava. E Sasuke pôde perceber isso.
Não precisou se despedir com palavras, pois o beijo havia valido por qualquer despedida. Ainda extasiada, Sakura deixou o aposento de Sasuke. Seu coração acelerado, a mil por hora, e seus lábios repuxados para cima em um sorriso genuíno.
Após chegar ao seu quarto, permitiu-se trancar à porta e apoiar o tronco ali, na madeira maciça, sentindo suas pernas bambas. Seu corpo escorregou até o chão e as costas permaneceram apoiadas na porta. Olhou para o teto, um turbilhão de emoções dentro de si.
Abaixou a cabeça, usando as mãos para agarrar os fios laterais.
O que eu fiz? O que fizemos?
Ainda que o ocorrido minutos antes fosse tão pecaminoso, Sakura não se sentia um pingo arrependida. Seu corpo inteiro, interior, mente e alma, estavam em plena harmonia. Finalmente.
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