Segurança Privada
5 IV - Quarto
Notas iniciais
"...Aceite com sabedoria o fato de que o caminho está cheio de contradições. Há momentos de alegria e desespero, confiança e falta de fé, mas vale a pena seguir adiante..."
—Paulo Coelho
Na manhã seguinte, os primeiros raios solares fizeram com que Sakura suspirasse em frustração, abrindo os olhos lentamente em seguida. Um cheiro diferente lhe atingiu as narinas, algo como tabaco e menta misturando-se com algum tipo de perfume amadeirado. Aspirou o ar profundamente, tentando lembrar que aroma era aquele e de onde vinha, entretanto, nada lhe veio em mente, somente a satisfação que o cheiro lhe causava.
Já passara das 10h da manhã, até agora ninguém ousou interromper seu sono. Levantou-se meio a contragosto, e caminhou até o banheiro, fazendo toda sua higiene matinal. Saiu do banheiro e caminhou até a penteadeira, arrumando os cabelos num rabo de cavalo bagunçado. Arrumou uma muda de roupa, vestindo-a em seguida.
Estava prestes a sair do quarto quando automaticamente olhou para algo que lhe chamou àtenção. Caminhou até o criado-mudo, pegando o blazer, em seguida. O cheiro era o mesmo que sentiu ao acordar e agora soube que ele viera da peça de roupa de seu segurança. Lembrou-se da noite passada. Um sorriso singelo lhe contornou os lábios. Seu segurança, mesmo sendo tão misterioso, conseguia ser um verdadeiro cavalheiro.
Mordeu o lábio inferior, pensando se deveria entregar o blazer ou esperar até que Watanabe lhe pedisse. Optou pela primeira opção, afinal, ele lhe fora tão educado quando a protegeu do frio, não custava nada ser educada a altura e lhe devolver, certo?
Caminhou até o primeiro andar, procurando por uma empregada. Não havia visto Watanabe por lugar algum e precisava saber onde ele se encontrava. Assim que achou a criada, perguntou onde seu segurança estava. Foi informada que Watanabe estava no quarto. Teve que perguntar aonde era o quarto dele, pois nunca havia visitado qualquer quarto de empregado antes. O quarto do homem era a última porta do corredor, à esquerda.
Assim que a criada lhe informou, caminhou no corredor estreito, que ficava depois da cozinha. Recebeu alguns olhares curiosos dos empregados que ali estavam, mas nenhum deles ousou proferir nenhuma palavra. Sakura seguiu rumando firmemente até o corredor, onde encontrou algumas portas trancadas. Andou até a última, ao lado esquerdo, e ergueu a mão direita para bater na porta. Tomou um longo suspiro antes de bater.
Não obteve resposta e pensou que o homem poderia não estar no local. Girou a maçaneta e constatou que a porta se encontrava aberta. Meio hesitante, adentrou ao quarto. O cômodo era pequeno e estreito, não tinha janelas, apenas um ventilador de teto refrescava o ambiente. Uma cama de solteiro com lençóis claros estava localizada no canto direito. Havia uma cômoda de madeira maciça com sete gavetas posicionada de frente para a cama, com uma pequena televisão em cima. No lado oposto a cama, havia outra porta. Observou atenta a cada pequeno detalhe do quarto, parando seus olhos um pouco mais sobre o maço de cigarros ao lado da televisão. Caminhou até lá com o blazer em mãos, pronta para deixar a peça de roupa no local, mas seus olhos focaram em algo que lhe chamou atenção. Na cômoda, na prateleira abaixo da televisão, estava um álbum.
Sakura, com sua curiosidade, não pôde deixar de pegar o objeto. Logo que abriu o álbum, na primeira folha, estavam duas fotos na horizontal e na folha ao lado, uma na vertical. A primeira imagem era de um pôr do sol, minimamente posicionado ao centro, cercado por nuvens avermelhadas que contrastavam perfeitamente com a cor alaranjada.
A segunda imagem era de uma senhora de aproximadamente 70 anos, sentada num banco de uma praça folheando um jornal. Ao fundo, algumas crianças correndo com sorrisos na face davam luz à imagem.
Sakura, continuou a observar as imagens, folheando as páginas uma por uma e admirando o quão bom aquele fotografo era. A admiração da mulher era nítida que, por um momento, se esqueceu totalmente de onde estava e o que foi fazer ali. Sakura foi tirada de seus devaneios com o som da porta se abrindo. Seu coração pulou uma batida enquanto olhava para a figura à sua frente.
— O que faz aqui? — perguntou Sasuke. Sua expressão, diferente de Sakura que estava assustada, era de surpresa.
— Eu... É... — não conseguiu terminar a frase. Seus olhos percorreram o homem à sua frente, dando-se conta do estado em que ele estava. Sasuke encontrava-se somente de toalha, a mesma amarrada na cintura. O peitoral a mostra, ainda com gotículas de água escorrendo. Sakura desviou o olhar, constrangida. Pigarrou duas vezes antes de tentar falar novamente.
— À porta estava aberta... — falou, olhando na direção oposta ao homem. Suas bochechas levemente ruborizadas.
— O que está fazendo aqui? — Sasuke, tornou a perguntar. As duas mãos, ambas em cada lado da cintura, enquanto encarava as costas da mulher.
— Vim lhe entregar o blazer. — Ela conseguiu dizer após alguns segundos.
— Tudo bem. Pode deixá-lo na cama.
— Ok... — a moça se virou lentamente e caminhou até a cama. Tentava ao máximo não olhá-lo. Tinha que admitir, Sasuke era bem bonito. A pele alva contrastava perfeitamente com os olhos e cabelos negros. Ali, naquela situação, podia afirmar que ele era um dos homens mais lindos que já viu. Tão lindo quanto Gaara, se não mais.
Sasuke permaneceu pacífico enquanto Sakura depositou a peça de roupa em sua cama. A mulher, ainda constrangida, se virou para ele tentando parecer o mais natural possível.
— Eu estava vendo seu álbum de fotos, Senhor Watanabe... — cada palavra dita por ela era hesitante. Ele a olhou com o cenho franzido e a sobrancelha levemente arqueada. Seus olhos passaram de Sakura, para a cômoda.
— Você mexeu nele? — perguntou, porém não havia irritação em seu tom.
— Desculpe-me. Ele estava ali em cima e eu não pude evitar olhá-lo. — Sakura se defendeu. O moreno caminhou até a cômoda, pegando o álbum e virando-se novamente para Sakura. Ele abriu e folheou página por página. Assim como Sakura minutos antes, sua admiração também era nítida ao visualizar as imagens. Sakura se aproximou um pouco hesitante e parou ao lado do homem.
— São muito boas. Quem as tirou?
— Eu. — respondeu simplesmente. A moça, surpresa, deixou os lábios levemente abertos. Voltou a fitar o homem, que parecia perdido em pensamentos.
— Você tem talento, senhor Watanabe.
— Me chame apenas de Sasuke.
— Ok. — assentiu levemente. — Mas então, se foi você quem as tirou, tem muito talento, sabia? Eu as achei muito boas.
— É só um passatempo. — disse ele, fechando o álbum em seguida e depositando-o de volta na prateleira da cômoda.
— Já pensou em seguir carreira de fotógrafo? — Sasuke negou com a cabeça. Andou até a cama e sentou-se em seguida.
— É somente hobbie.
— Talentos desperdiçados. — Sakura falou em tom de reprovação. — Muitas pessoas dariam tudo para ter o seu talento e você que o têm, não o usa a seu favor.
— Eu já tenho um trabalho, não preciso de outro.
— Gosta de trabalhar aqui? — perguntou ela. Não conseguia imaginar alguém que gostasse daquele serviço, tampouco as acomodações.
— Não tenho muito do que reclamar.
Sakura, não se sentia confortável. Algo a incomodava, porém não conseguia distinguir o que. Pensou em algo para falar, entretanto nada lhe veio em mente. Suspirou suavemente. Lembrou-se que ainda não havia agradecido por ontem à noite e decidiu que começaria por ali.
— Queria agradecer pelo blazer. — começou falando. Não tinha muito a falar, mas decidiu agradecer pelo gesto do homem na noite passada.
— Estava fazendo apenas o meu serviço. — disse ele.
— Mas não precisava passar frio para que eu me sentisse mais confortável. Enfim, vim somente lhe entregar seu pertence e te agradecer pessoalmente. Tive que pedir ajuda a uma das empregadas para conseguir achar seu quarto. Nunca estive aqui antes.
— Poderia ter esperado meu horário de serviço.
Sakura, sorriu de canto. Sabia que poderia ter o esperado, todavia preferiu entregar-lhe o mais rápido possível. Talvez estivesse instigada a conversar um pouco mais com seu segurança, ou talvez fosse mesmo falta do que fazer e só estivesse querendo passar o tempo.
— Acho melhor eu ir. Devem estar me procurando.
— Encoste a porta quando sair. — Disse Sasuke com total indiferença no tom de voz. Assim que a mulher saiu, Sasuke se levantou e caminhou até seu blazer, pegando a peça de roupa e guardando-a na primeira gaveta da cômoda. Abriu a gaveta de baixo e retirou algumas peças de roupa, vestindo-as em seguida. Não sabia o que tinha dado na mulher para ir até aquele lugar somente para lhe devolver seu pertence, tampouco soubera o que sentiu ao ver o rubor na face dela ao vê-lo somente de toalha.
Achou, digamos, engraçado o nervosismo dela diante da situação e resolveu ignorar as reações dela só para ver o que ela falaria. No entanto, surpreendentemente, ela permaneceu no quarto e tentou a todo custo puxar conversa. Não soube por que gostou disso, porém gostou e não conseguia deixar de sorrir de canto ao lembrar-se da cara de assustada da moça.
Enquanto isso, Sakura andava pelo corredor de volta para a sala, enquanto era observada por um dos assistentes pessoais de Gaara. Esse, cujo nome Yamato, observava a mulher desde que chegara ao quarto até o momento em que saiu. Precisava informar a Gaara as visitas que sua noiva estava fazendo para um dos empregados. Logo que a mulher sumiu de seus olhos, se apressou para procurar por seu patrão.
Uma das empregadas lhe informou que Gaara estava no jardim dos fundos. Não perdeu tempo e rumou até lá. Avistou o ruivo ao telefone, próximo a piscina. Parecia nervoso ao falar no aparelho. Pensou em deixar para informar a novidade depois, porém logo mudou de ideia assim que viu Gaara encerrando a ligação e guardando o aparelho no bolso da calça. Aproximou-se do homem, um sorriso irônico nos lábios.
— Não foi para a empresa? — perguntou.
— Yamato. — falou o ruivo, virando-se para seu assistente. Não respondeu a pergunta que Yamato lhe fizera.
— Como anda os planos? — perguntou, tentando puxar assunto. Gaara repuxou os lábios num sorriso forçado.
— De vento em popa. — o ruivo esperou que o homem ao seu lado dissesse algo a mais, entretanto o homem nada mais falou. — Diga o que queres, Yamato.
— Nada de importante. Só estava andando pela casa, quando encontrei sua querida noiva.
— A casa é dela, é normal encontrá-la aqui. — falou como se fosse o óbvio.
Yamato apenas deu de ombros e continuou a falar. — Estava pelos corredores dos quartos de empregados. Foi estranho vê-la naquele lugar, não combina com ela.
— Como disse? Onde ela estava? — Perguntou o ruivo, agora prestando total atenção a Yamato. Sabia que Sakura não ia aquele lugar. Era reservado a empregados e não tinha absolutamente nada que sua noiva pudesse encontrar por lá. Não estava entendendo o que Yamato queria lhe informando isso, mas sua intuição lhe dissera que não era algo bom.
— Ela estava saindo do quarto de Watanabe. Achei estranho ela demorar tanto tempo trancada lá dentro com ele...
— O que disse? — o tom de voz, que antes estava natural, já começara a alterar-se. Gaara ergueu a sobrancelha esperando pela resposta que não tardou em vir.
— Exatamente o que escutou. Sua noiva estava no quarto daquele segurança, ficou por lá cerca de vinte minutos e saiu um pouco apressada.
— Tem certeza do que está falando, Yamato? Era Sakura que estava lá dentro? — Gaara, não conseguia assimilar o que sua noiva pudesse estar fazendo por lá.
— Tenho certeza. Ela entrou com um paletó em mãos e, quando saiu, estava sem.
— Ela estava com uma peça de roupas dele? O que quer insinuar com isso? — Perguntou visivelmente alterado. Passou as mãos pelos cabelos, bagunçando-os ainda mais.
— Nada, Gaara. Apenas estou te comunicando o ocorrido, afinal, esse é o meu trabalho.
— Tudo bem. — olhou desconfiado para Yamato, que exibia um pequeno sorriso irônico nos lábios.
Gaara andava de um lado para o outro tentando compreender o que Sakura estava fazendo. Tudo bem que o homem era seu segurança, mas que história é essa dela ir ao quarto dele com um paletó em mãos? O que ela fazia com esse paletó consigo? Como ela sabia onde era o quarto de Watanabe? Eram muitas perguntas sem respostas.
Ainda andando de um lado para o outro, decidiu que interrogaria sua noiva depois. Não tinha o porquê de se preocupar com isso, afinal, Watanabe era só mais uma carta na manga, e Sakura nunca se interessaria por um sujeitinho como ele. Ele sabe do que ela gosta. Sabe que ela não optaria por um sujeitinho qualquer, tendo ele, Sabaku no Gaara, como noivo.
— Preciso que ligue para uma pessoa. — Gaara, retirou do bolso da calça um papel dobrado e estendeu para Yamato pegar. — Avise que mais tarde precisamos nos encontrar. Tenho planos a tratar com ele. — dito isso, Gaara se retirou do local, deixando Yamato surpreso pelo autocontrole do ruivo.
Yamato, mais do que ninguém, sabia do descontrole de Gaara. Suas intenções ao avisar sobre sua noiva foram exatamente essas. Pensou que Gaara explodiria ali mesmo e partiria em busca da mulher para tirar satisfações, entretanto, diferente do que pensou, Gaara pareceu muito controlado.
O ruivo era uma verdadeira incógnita quando queria. Sabia deixar qualquer pessoa, independente da situação, intrigada.
Yamato, um de seus assistentes mais próximos, era um dos poucos ao qual confiava, todavia não deixava de ficar enfurecido quando o homem tentava testá-lo. Sabia que Yamato esperava uma súbita explosão por parte de si, porém decidiu controlar-se para mostrar sua superioridade.
O resto do dia passou-se rapidamente. Sakura, que no momento estava em seu quarto, decidiu sair um pouco. Pensou em ligar para Hinata, entretanto sua amiga lhe dissera que tinha compromissos mais tarde. Não tinha muitas escolhas, então optou por um passeio de carro. Talvez assim pudesse ter mais tempo para conversar com Watanabe.
Levantou da cama, deixando o notebook sobre a mesma e caminhou até à porta. Estava quase saindo quando sentiu seu braço ser puxado fortemente. Mal teve tempo de olhar e constatar que era Gaara, e já estava de volta ao quarto. Ouviu a porta ser batida com força. Gaara se assegurou de usar as chaves para trancar e garantir que ninguém interromperia a conversa que ele teria com sua querida noiva.
— Mais que droga é essa, Gaara? — Perguntou Sakura, tentando livrar-se do aperto em seu braço. Gaara, exalava sua ira. Olhou de prontidão para a mulher a sua frente. Sakura, não entendendo o que significava tudo isso, permaneceu visivelmente confusa encarando o ruivo.
— Eu é que te pergunto. Quer me fazer de otário, Sakura? — os dentes trincados enquanto falava, fazia Sakura temer ao homem.
— Não sei do que está falando. Você está bêbado?!
Gaara, sem responder a mulher, arrastou-a pelo braço, prensando o pequeno corpo da moça contra a parede. Ele a olhava com fúria. Queria deixar claro o quanto estava irritado e queria que ela o temesse. Somente assim Sakura poderia ter algum medo de si.
— Me responde uma coisa, só uma coisa: onde esteve essa manhã?
— Passei o dia todo no quarto. — mentiu. — Por que 'tá perguntando isso? Me solta! — tentou puxar o braço, porém Gaara forçou o aperto, deixando visível a vermelhidão no local.
Sabia que não deveria mentir, mas o que poderia responder? Que estivera no quarto de Watanabe? Não, sabia que se respondesse isso, Gaara provavelmente surtaria. Então, simplesmente, optou por mentir.
— Tem certeza, Sakura? — ele pressionou, dessa vez com um meio sorriso. Sakura suspirou antes de responder quase num sussurro.
— Tenho. — olhava apreensiva para ele, que abriu ainda mais o sorriso. Sinceramente, aquele pequeno gesto a fazia sentir medo. Era medonho vê-lo tão sinistro.
— Não foi isso que Yamato me informou.
Imediatamente, Sakura arrependeu-se de sua mentira. Bem que quando estava saindo do quarto de Watanabe percebeu estar sendo vigiada. Na verdade, sentiu algo estranho, como se alguém lhe espionasse, entretanto como não viu ninguém, acabou achando que fosse apenas sua mente lhe pregando peças. Era uma idiota em ter mentido, afinal, Gaara não perguntaria algo assim se não tivesse motivos. Droga. Agora não conseguia pensar em nada para livrar-se desta situação.
Suspirou suavemente.
Teria que contornar a situação e nada melhor do que a calmaria para lhe ajudar.
— Eu estive nos aposentos do senhor Watanabe. Havia me esquecido disso. Desculpe-me. — disse. Seus olhos em momento algum desviaram dos de seu noivo. Queria mostrar que não estava mentindo, mesmo sendo exatamente ao contrário.
— Yamato me disse que você estava com uma peça de roupa do sujeito... O que era?
Sakura, antes de responder, olhou de Gaara, para seu braço. O ruivo entendeu o que sua noiva queria e, mesmo a contragosto, afrouxou o aperto.
— Obrigada. Bem, Watanabe, havia me emprestado seu paletó numa noite, não me recordo qual. Estava frio e eu estava dando uma volta pelo jardim. Ele insistiu que eu deveria usar, pois se ficasse resfriada a responsabilidade seria dele. Mesmo não querendo, acabei cedendo um tempo depois. Essa manhã, procurando um de meus brincos que havia caído no chão, acabei encontrando o paletó embaixo da cama e resolvi entregar ao dono. Não sabia que Yamato iria me ver e fuxicar para você.
— Tem certeza? — Ele pressionou, ainda hesitante se deveria acreditar em sua noiva ou não.
— É claro. Não vejo motivos para duvidar. O que achou que eu estava fazendo no quarto do meu segurança?
— Nada. — seu tom deixara claro que aquele assunto se encerrou ali. Soltou o braço de Sakura, e caminhou até a borda da cama, sentando-se em seguida. Sakura esticou o braço, massageando o local com a outra mão. Afastou-se da parede para fitar Gaara. — Então, eu estava conversando com sua mãe e marcamos a data do casamento.
— Como? — agora era Sakura quem estava indignada.
— A data do casamento está marcada. Será daqui a dois meses. — respondeu calmo.
Essas palavras foram como se tivessem cavado sua cova antes do tempo. Sakura, que até então sonhava com sua liberdade, agora já não conseguia enxergar à luz no fim do túnel. Sentiu seus pés afundando e sua vista escurecendo. Não soube quando, mas em algum momento Gaara a segurava para não cair.
— Dois meses...! — sussurrou quase inaudível.
O que seria de sua vida após esse casamento? O que seria ter que se entregar para este homem ao qual não amava? Não conseguia imaginar um final com um mísero de alegria. Somente via-se presa, involuntária, nessa situação ao qual estava. Era errado o que pensava, mas preferia que um caminhão atropelasse seu noivo para que não tivesse de passar por este casamento de faixada.
Que Deus a perdoe, mas preferia mil vezes Gaara morto a ter que casar-se com ele. Era até irônico, pois podia imaginar a quantidade de mulheres que dariam tudo para se casarem com Sabaku no Gaara. Todavia, ela não era uma dessas. Estava longe de ser e isso era irrevogável.
Gaara, com o cenho franzido, olhava para sua noiva que estava com os olhos em si fisicamente, porém longes. Ergueu a mão para colocar uma mecha de cabelos da mulher atrás da orelha. Aquele simples toque fez Sakura despertar-se de sua batalha interna, afastando a mão de Gaara quase como se estivesse com nojo.
— O que foi agora? — perguntou ele, confuso. Sakura ainda lhe encarava, parecia olhar através de si.
— Não toque em mim. — disse. Recuou alguns passos, minimamente, enquanto olhava para o ruivo.
— Eu sou seu noivo e não posso te tocar? — Gaara bufou. — Sabe que após o casamento você e eu compartilharemos da mesma cama.
— NÃO! — gritou Sakura. Sua cabeça negava, como se aquele gesto pudesse apagar tudo que estava destinada a seguir. Gaara, divertido com a reação da mulher, deu um passo em sua direção. — Não se aproxime.
— Ou então...? — desafiou-a ligeiramente instigado.
— Eu grito. Se você se aproximar de mim eu grito e todos os empregados dessa casa vão achar que você abusou de mim.
Gaara, com seu humor sombrio, primeiro sorriu minimamente, para em seguida gargalhar, deixando todos os dentes, inteiramente brancos e alinhados, à mostra.
— Eu 'tô falando sério. Se você se aproximar eu vou- — e mal pôde terminar a frase, pois Gaara segurou-a pelos ombros, olhando-a insano.
— Cala essa sua boca, sua piranha. Estou farto da sua rebeldia. Você vai se casar comigo querendo ou não. Precisa me respeitar, Sakura, ou eu posso acabar com a sua vida medíocre. — ameaçou-a. Ela apenas o olhava assustada, mostrando o pânico através das íris esmeraldas. — Eu que mando aqui e você apenas obedece, entendeu?
Ele esperava obter resposta, ao menos um aceno com a cabeça, todavia Sakura apenas o encarava boquiaberta.
— Eu perguntei se você entendeu, Haruno Sakura. — falou ele, alterado, enquanto chacoalhava o corpo esguio de Sakura pelos ombros. Sem ao menos analisar as palavras, Sakura abriu a boca e proferiu exatamente aquilo que cutucou a ira de Gaara.
— Vá para o inferno! — disse entredentes. O estalo seguinte fez com que o rosto de Sakura pendesse para o lado direito. Sua bochecha ardia, mas sua cabeça continuou inclinada para o lado, sem saber o que fazer. Não ousou falar, gritar, correr, nada. Apenas permaneceu na posição exata ao qual ficou após a forte mão de Gaara lhe estapear a face. Sentia seus olhos queimarem. A vontade insaciável de chorar fazia-a querer bater em si própria pela covardia. Não ousou olhá-lo depois disso. Seu orgulho falara mais alto e do jeito que estava, ficaria até que Gaara saísse do local.
Naquela posição, reparou que as paredes de seu quarto ainda estavam com a cor que lhe era tão favorável quando criança, rosa. Lembrar daquilo a fazia pensar que as coisas eram tão mais fáceis, tão, incrivelmente, alcançável. Nunca, em toda sua infância, imaginou que um dia se tornaria quem agora era. As lembranças dos dias que passou assistindo a filmes de comédia, onde as amigas viajavam pelo mundo em aventuras inusitadas, era tudo o que queria para si. Por que exatamente tudo que sempre sonhou nunca conseguiu realizar? Tudo ficou somente nos sonhos. Nada, nadinha, havia conseguido tirar daqueles dias em que fechava os olhos e deixava sua mente guia-la para inúmeras aventuras.
Invejava muitas pessoas por sua liberdade. De si, somente sentia pena por ser a “pobre” garota rica. Maldito seja aqueles que acham que dinheiro traz qualquer coisa. Se pudesse, esmurrava a cara de um ser que ousasse falar isso perto de si.
Assustou-se com o barulho a sua frente. Gaara, que agora analisava as feições da mulher com cautela, deixou um suspiro pesado escapar.
— Hoje à noite teremos um coquetel com nossos familiares e alguns amigos. Tenho certeza que essa marca, — passou a ponta dos dedos na bochecha levemente inchada de Sakura. — pode ser escondida com um pouco de maquiagem. As mulheres são assim, usam a maquiagem para esconder seus segredos. — fez piada com a ocasião e sorriu de si próprio. Sem esperar por qualquer resposta de Sakura, decidiu deixar o quarto para que sua querida noiva se arrumasse.
Os soluços que vieram a seguir foram incontroláveis. Suas pernas bambas, falharam à medida em que seu peito arfava em busca de ar, que a pouco prendia. Seus joelhos foram de encontro ao chão e sua mão ao rosto para esconder a vergonha que sentia de si própria, enquanto as lágrimas rolavam bochecha abaixo. Ficou naquela posição por longos minutos. Não soube quantos, ainda assim sentia que poderia permanecer assim à vida toda.
Seria exatamente assim todos os dias após seu maldito casamento. Não sabia se amaldiçoava sua mãe, seu pai, sua vida, ou o Deus que nunca olhou por si. Porque se existe um Deus, ele, sinceramente, quer ferrar legal com sua vida. Só de imaginar que quando criança vivia orando, acreditando cegamente em sua fé, que seus sonhos um dia se realizariam. E agora? Onde está aquele Deus que tanto clamou por ele quando mais nova? Ele, simplesmente, havia virado as costas para si.
Sabia que lamentar agora era inútil, mas não conseguia deixar de fazer. Sua pacata vida era rodeada de mentiras. Tinha uma lista mental das pessoas que mais odiava, e Gaara era o primeiro da lista. Soluçou, tossindo em seguida, deixando um filete de saliva escorrer por entre sua boca e caindo no chão. Abaixou a cabeça, olhando para o local e visualizando as gotículas de lágrimas chocando-se ao chão.
Lembrou-se do coquetel e rapidamente passou o antebraço pelo rosto, secando as lágrimas misturadas com saliva. Correu até a penteadeira para analisar seu rosto. O palmo, com os cinco dedos exatos, estava cravado em sua bochecha esquerda. O local estava levemente inchado e profundamente avermelhado, mas Sakura, em momento algum, sentiu a dor que deveria ter sentido pela bofetada dada por Gaara. A mão pesada do homem deveria ter causado uma forte dor, porém o torpor em que se encontrava deve ter anestesiado toda a dor que pudesse ter sido causada pela agressão. Sorriu para o seu reflexo no espelho. Um sorriso medonho, de puro deboche. Ainda sem opções, resolveu tomar um banho. Só assim poderia limpar as impurezas de si.
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