Capítulo 13: Reencontro com os filhos

Scarlett andava pela varanda, apreciando o ar campestre e a manhã de Sol quente. Ela lembrou-se de anos atrás, quando ficava conversando até escurecer com os gêmeos Stuart e Brent Tarleton. Era tão bom, ter aqueles meninos na palma de sua mão, satisfazendo todos os seus caprichos! Quanta tolice, morrerem em uma guerra que para ela nunca teve a menor importância. Eles poderiam ter casado com nobres damas da região e formado uma família. Eram bons meninos, com a mente cheia de sonhos como todos os meninos de Clayton County. Ela sorriu com uma certa nostalgia ao lembrar-se dos dois. Praticamente todos os meninos da região morreram lutando na guerra. Ela não pôde deixar de lamentar. Avistando ao longe, Will e seu filho Wade, chegando da plantação para o almoço, ela lembrou-se de Charles Hamilton. Ela sempre o achou, um verdadeiro palerma e idiota. Mas, sentiu tristeza ao lembrar-se dele naquele momento. Ela lembrou de quando Charles era um menino e vinha passar alguns dias em Twelve Oaks com os Wilkes. Ele era tímido e quase nunca falava. Não brincava ou corria pelos campos como ela e os gêmeos faziam, preferia ler um livro, escutar uma música clássica. Ele era monótono. Nunca sujava a roupa , nunca andava despenteado. Mesmo assim, os gêmeos gostavam dele. Ele era muito educado e inteligente e isso selou uma amizade entre os três, apesar de se verem uma vez por ano durante as férias. Ela sempre sentiu aborrecimento na presença dele. Quando descobriu, que Charles apesar de estar comprometido com Honey, gostava dela, Scarlett gargalhou com desprezo. Se não fosse por Ashley ou pelos gêmeos, ela não faria questão de ser educada para o menino tão enfadonho. Nunca devia ter casado com ele. Seu amor infantil por Ashley Wilkes, a fez cometer diversos erros e casar com Charles, foi um deles.

Mas, agora, meditando sobre o menino tímido, que ela tanto desprezou, não podia deixar de reconhecer que ele foi um bom rapaz e que morreu muito jovem também. Observando Wade se aproximar, ela percebeu que ele lembrava muito o seu pai. Ele tinha os mesmos olhos de Charles, o mesmo sorriso tímido , mas tinha a mesma energia dela. Em Tara, em contato com a terra vermelha, ele se soltou de suas amarrações internas. Ela podia vê-lo correr pelo campo, á frente de Will, que andava tranquilamente e pedia para ele esperá-lo. Wade ria, uma risada gostosa que podia ser ouvida de longe. Ali, naquele momento, ela sentiu orgulho de seu filho. Ele estava tão livre e despreocupado que não lembrava em nada o menino medroso que morava em Atlanta. Ela sorriu, ao lembrar de si mesma, correndo por aqueles campos, durante toda a sua infância. Tara era sinônimo de força, de alegria juvenil e de liberdade. Tara tinha um poder para mudar as pessoas.

Quando Wade Hamilton avistou sua mãe, em pé na varanda, olhando para ele, parou de rir e correr imediatamente. Ele tinha muito medo dela. Nunca tivera tanto medo de alguém, como tinha de sua mãe. Ele caminhou até ela, respirando profundamente para recuperar o fôlego, seguido pelo seu tio Will. Scarlett percebeu que o menino retraiu-se e recuperou a mesma postura do menino medroso que sempre foi. Will alcançou o menino que passou á andar bem devagar e foi o primeiro á falar com Scarlett ao pé da varanda.

" Bom tarde, Scarlett ! Você está se sentindo melhor? "

" Sim, eu estou. Obrigada por se preocupar."

" Eu e Wade passamos a manhã toda na plantação e posso te dizer que esse menino é mesmo o neto do senhor Gerald. Tem talento voltado para a agricultura e até Big Sam ficou impressionado com a sua esperteza e rapidez para aprender as técnicas de plantio." explicou Will, bagunçando os cabelos do menino em sinal de aprovação.

Wade mostrou um sorriso acanhado e gentil. Dificilmente era elogiado por alguma coisa, e saber que tinha algum talento, o deixou feliz.

" Amanhã vou te levar lá de novo. Você quer ir?" Will perguntou animado.

Wade sorriu novamente e balançou a cabeça em sinal de aprovação,mas não disse nada.

Will entrou dentro da casa e deixou Scarlett sozinha com o filho, que não olhava para a mãe e permaneceu com a cabeça baixa. Scarlett ficou aborrecida.

" Wade, olhe pra mim!" ela ordenou.

O menino levantou a cabeça e olhou para ela. Ele não conseguia disfarçar o tremor nas pernas. E Scarlett percebeu que Rhett Butler estava certo sobre uma coisa: Wade morria de medo dela. Ela se sentiu mal. Nunca ligou para os sentimentos do filho. Achava que o medo que ele possuía fazia parte de sua personalidade puxada pelo sangue dos Hamiltons. Mas, agora, ela percebeu que o menino era uma criança diferente quando estava longe dela.

" Wade, eu estou orgulhosa de você. Eu gostei de saber que você tem um certo talento para cuidar da plantação que pertencia ao seu avô..."

" A senhora está orgulhosa de mim?" ele perguntou assustado, tentando assimilar as palavras que sua mãe acabara de dizer.
Scarlett sorriu e tentou passar a mão no cabelo dele. Wade pulou para trás, assustado com o gesto dela.

" Sim, eu estou orgulhosa de você, mas se continuar com medo de mim, eu vou ficar decepcionada. Onde já se viu? Um menino que herdou o talento do avô, ter medo de sua própria mãe? Lembre-se de uma coisa, Wade: você tem o sangue dos O' Haras na veia, o sangue irlandês. E os O' Haras não tem medo de nada nem de ninguém."

" Me desculpe, mamãe, eu apenas fiquei surpreso." Wade tentou justificar.

" Você já está virando um rapaz, deve deixar de ser medroso. Senão vai virar um covarde. Eu não quero que você continue tendo medo de mim, quero somente que você me respeite como um bom filho."

Ele concordou balançando a cabeça, ainda surpreso com a atitude diferente de sua mãe. Wade não esperava um elogio e um gesto de carinho. Ele ficou chocado. Scarlett continuou tentando conversar com ele. Ela sentiu um súbito interesse em conhecer um pouco sobre seu filho e resolveu trocar mais algumas palavras.

" Wade... você sabe sobre a sua tia Melly..."

Wade olhou para ela e não conseguiu disfarçar a tristeza. Mas, não chorou, não queria aborrecer a mãe. Ambos compartilharam o mesmo olhar triste, e Scarlett viu nos olhos de seu filho, o espelho de sua própria dor.

" Sim, mamãe, a tia Sue nos contou que a tia Melly morreu, eu procurei não chorar. Bom, eu chorei só um pouquinho. Procurei agir como um homem, mas eu estou preocupado com Beau."

" Beau está bem, claro que ele está triste, mas está com a sua tia Ìndia e a tia Pittypat. E elas estão cuidando dele."

" Quando voltarmos para Atlanta, eu poderei brincar com ele?"

" Mas, é claro que sim! "

" Mamãe, onde está o tio Rhett?"

" Ele não pôde vir. Tinha um compromisso de negócios em Savannah." Scarlett mentiu mais uma vez, sentindo uma pontada no coração. Ela sabia que as crianças perguntariam sobre ele.

" Mas, ele vai vir pra cá depois?"

" Provavelmente não...ele tem alguns negócios importantes para resolver e não vai sair de Savannah tão cedo, mas logo, estaremos em Atlanta e ele estará em casa de novo." ela explicou com o coração cheio de esperança.

" Que pena! Queria que ele fosse comigo e com o tio Will conhecer a plantação..." Wade lamentou.

" Bom, vamos entrar, Wade. Já passou da hora de almoçar, e eu estou com o apetite aberto."

Scarlett queria mudar de assunto. Falar sobre Rhett doía muito. Ela sentia uma saudade sufocante. Precisava se distrair com outras coisas, enquanto estava em Tara. Precisava esquecê-lo um pouco. Somente assim, conseguiria se regenerar, juntar os pedaços, para depois ir para Charleston, lutar pelo amor dele. Quando ela sentisse que estava inteira de novo, ia trazer Rhett de volta para ela, Wade e Ella.

Logo, que entraram em casa, escutaram os gritos e risadas das meninas. Susie, Camilla e Anna , as filhas de Suellen corríam junto com Ella em direção á porta de entrada. Elas estavam deixando a casinha da árvore para almoçar, após Suellen chamar por elas , várias vezes através do janelão da sala principal.

Logo que Ella entrou em casa e viu sua mãe, ela lembrou de tia Melly e começou á chorar deixando Scarlett furiosa.

" Mamãe, mamãe a tia Melly morreu!"

" Pare com isso Ella! Eu sei que ela morreu! Você estava rindo e brincando até agora. Foi só me ver que começou á chorar! Eu não estou com paciência para os seus choramingos."

Ella enxugou as lágrimas e perguntou:

" Cadê o tio Rhett?Eu quero o tio Rhett!"

" Ele está viajando á negócios. Ficaremos aqui durante algum tempo, depois nos encontraremos com Rhett em Atlanta. Vá lavar esse rosto sujo, depois sente-se para almoçar e não me incomode chorando, pois não poderei suportar." rosnou Scarlett.

" Tudo bem ,mamãe." disse Ella concordando.

Scarlett não suportava o gênio manhoso da filha. Ela achava que Ella era uma inútil e não conseguia ver nenhuma graça na menina. Não conseguia trocar poucas palavras com ela. Tudo em Ella á irritava profundamente.