Capítulo 14: Outra vez em Twelve Oaks...

" Rhett Butler caminhava calmamente no corredor da casa dos Wilkes em direção á entrada, para chegar no grande jardim, onde os fidalgos sulistas estavam reunidos para falarem sobre a guerra após o churrasco. A casa estava silenciosa, pois os rapazes estavam lá fora e as jovens damas, estavam descansando dentro dos quartos no segundo patamar, para o baile mais tarde. Ele enfiou as mãos no bolso da calça e observava a decoração do local, com quadros e estátuas artísticas, completamente distraído.

" Rhett... Rhett..." alguém o chamou.

Rhett olhou para trás e viu Scarlett na porta da biblioteca, chamando por ele com os olhos aflitos e com o peito ofegante.

" Rhett... venha aqui... por favor." ela pediu falando baixinho, quase sussurrando.

Rhett caminhou até a biblioteca, olhando para todos os lados, para ver se alguém os tinha visto ali. Ele percebeu que somente os dois estavam naquele lugar. Logo que entrou, Scarlett fechou a porta atrás dele e ambos ficaram sozinhos lá dentro. Ali, ele não viu a mulher com quem casou, mas a menina de antes da guerra. Com o mesmo vestido verde , mostrando o colo pálido e a curva dos seios, as bochechas coradas e os lábios vermelhos, Scarlett olhava para ele com uma expectativa, que Rhett não conseguiu identificar, mesmo conhecendo-a tão bem. Os olhos negros olhavam para a menina de 16 anos com uma alegria contida. Ele nunca foi um cavalheiro e percebia naquele momento que estava encantado por uma jovem que não era uma dama.

" Scarlett, por quê estamos aqui?" ele perguntou curioso, mas se divertindo com a situação. " E se alguém nos pega aqui dentro? O quê iremos explicar?"

Rhett aproximou-se da lareira, com as mãos dentro do bolso, aguardando uma resposta da bela moça, que arriscava a sua reputação naquele momento. O quê ela queria dizer á um canalha como ele?

" Eu... eu tenho um segredo e quero que você saiba." ela respondeu olhando nos olhos dele que brilharam divertidos.

" Então, me conte, minha cara , se você confia em mim para isso, ficaria honrado em compartilhar um segredo." ele respondeu com um sorriso sarcástico, mostrando os dentes brancos, perfeitamente alinhados e se divertindo com toda aquela situação. Trancado dentro de uma biblioteca, em uma casa estranha, no meio de um churrasco onde ninguém se agradava de sua presença, prestes á ouvir uma menina muito bonita e atrevida contar um segredo para ele.

Scarlett aproximou-se, chegando mais perto dele e com as mãos segurando o coração e o olhar suplicante, sem tirar os seus olhos verdes dos olhos negros, revelou:

"Rhett... Rhett...eu amo você..."

Rhett Butler acordou tremendo mais uma vez. Dentro da cabine de primeira classe no navio que saiu de Charleston com destino á Liverpool, ele praguejou furioso.

" Droga ! Droga! Maldição!"

E deu um soco no colchão. Ele estava sonhando com ela novamente. Ele tinha vontade de chutar e quebrar tudo, pois sua mente continuava traindo-o, principalmente na hora de dormir. Levantou da cama e foi até o pequeno bar dentro da cabine, para beber um copo de uísque. Em Charleston, não conseguiu tirar Scarlett da cabeça, durante os sete dias em que permaneceu na casa da mãe. Logo, que entrou no navio, sentiu-se livre. Olhar para o oceano lhe rejuvenesceu. Ele podia se lembrar de sua época como capitão de bloqueio. Uma época em que ele era livre.

Procurou não beber muito. Desde o primeiro dia em Charleston, principalmente na companhia de sua mãe, ele procurava maneirar com a bebida. Após comprar a passagem para sua viagem á Europa, ele ficou mais feliz e passou a planejar a rota de sua viagem com duração de dois meses, muito antes de chegar no continente europeu. Isso distraiu um pouco a sua dor e a sua revolta. Conforme o navio afastou do cais de Charleston, ele sentiu o ar voltar aos seus pulmões. Agora, ele podia esquecer Scarlett. Mas, na sua primeira noite, foi surpreendido sonhando com ela novamente. Ficou frustrado. Precisava beber, precisava esquecer. Sonhar com Scarlett era uma tortura, praticamente um pesadelo.

" Scarlett maldita!" ele rosnou antes de virar um copo de uísque na boca.

Procurou não se perguntar onde ela estava, com quem ela estava e o que ela estava fazendo. Ele não queria saber. Procurou convencer á si mesmo de que não tinha interesse em nada sobre ela. Aprendeu com o decorrer dos anos e a experiência com os jogos de pôquer á dissimular e esconder sentimentos. O problema era o coração e a mente. Ele sabia que no mais profundo do seu íntimo, estava se enganando. O coração o entregava ao bater descontroladamente de raiva ou paixão feroz e reprimida quando pensava nela, e a mente projetava sonhos, lembrando constantemente que Scarlett permanecia mais viva do que nunca em sua vida. Naquela noite, ele bebeu uma garrafa inteira de uísque após acordar, praguejando durante todo o tempo contra aquilo que sentia, que estava escondido dentro dele. Depois vestiu-se e saiu da cabine em direção ao salão de jogos e o cassino. Decidiu jogar pôquer ou qualquer coisa que pudesse ganhar dinheiro e se distrair um pouco.