Segunda Chance
22 ♛ Frustrações ♛
Notas iniciais
Abigail
Sinto o frio invadindo o quarto e imagino que Ana já tenha vindo aqui abrir a janela. Ela faz isso todas as manhãs. Viro-me e abro meus olhos encarando o teto com estrelas que Christian mandou fazer. Tudo é tão... do jeito que eu sonhava, mas, parece tão material. Eu não quero parecer má agradecida com elas, não posso simplesmente chegar e dizer que tudo que faço é porque sinto falta deles. Das nossas conversas. Ana e Christian vinham me ver todas as noites, nós conversávamos sobre tudo, mas agora todo o tempo que eles têm é dedicado para suas filhas, e eu não sou uma delas, eu sei disso.
Está frio hoje, muito, e eu queria não poder sair da sala, mas graças aquelas garotas da escola, eu tomei uma suspensão, e ainda tenho que aturar o idiota do Jordan vindo aqui. Eu não sei como puder aceitar isso. Aquele garoto só sabe me encher.
—Abigail, levante-se, está tarde e logo o Jordan estará aqui. —Ana grita passando pelo corredor. Sento-me e vejo que a porta está aberta. Anastásia entra no quarto de Clarissa para acordá-la, como faz sempre.
Levanto-me vagarosamente, sem ânimo para receber ninguém. Empurro Fadinha para não cair da cama. Ela é extremamente preguiçosa e acha que a cama é só dela e não tem fim.
Caminho até a minha cômoda e pego meu gorro, depois vou me trocar no closet. Visto um short de pano preto, casaco grande de lã cinza e ponho o gorro depois de escovar os cabelos. Vou para o banheiro e escovo meus dentes.
Anastásia ainda está acordando as meninas quando saio do meu quarto.
—Está frio, você não acha? —Ela diz olhando meu short.
—Vai implicar com a roupa que eu uso em casa também? —Falo sem pensar e ela suspira.
—Ok. O que você precisa comprar?
—Nada, o idiota vai comprar tudo.
—Idiota. —Gabriela repete.
—Abigail! —Ana me reprova e eu reviro os olhos.
—Gabby, idiota é uma palavra feia. Diga sem noção. —Murmuro e ela ri. —Eu tenho que descer agora.
—Vá, e sem gracinhas. —Ana diz e eu reviro os olhos para ela. —Sem revirar os olhos.
—Certo. —Digo batendo as mãos. Dou as costas para ela e desço as escadas correndo, ao mesmo tempo em que Taylor entra na sala com Jordan. Viro-me, mas lembro que não posso correr dela aqui como faço na escola.
Ele me olha como sempre, de cima abaixo e depois sorri amplamente. Reviro os olhos e cruzo os braços encarando sua mochila e os matérias que ele está segurando.
—E ai, ruiva? —Jordan diz e vejo Taylor segurar o riso, ele pede licença e sai da sala.
—Olha só, garoto idiota. —Murmuro se paciência, nós vamos fazer esse trabalho, você vai ficar na sua e depois vai ir embora.
—Ah, que mandona, mas mão. —Jordan diz rindo. —Sua mãe falou para o meu pai que eu ia ficar para o almoço.
—O que? —Pergunto incrédula.
—Ah, foi sim. —Anastásia diz descendo as escadas com as meninas. Ela coloca Mel no chão e Clarissa e Gabriela correm para o sofá. —Olá, Jordan. Como está?
—Muito bem, senhora Grey. —Jordan diz fazendo Ana sorrir. —E a senhora?
—Bem, Jordan. —Ana diz calmamente. —Vem, vamos tomar café. Jordan, pode pôr as coisas no sofá. Meninas, mesa.
Olho para o lado e vejo as meninas correrem, Melissa vem me abraçar e eu a pego no colo, passos por Jordan batendo meu ombro no seu e ele ri, bufo extremamente frustrada e vou para a mesa. Coloco a pestinha em sua cadeirinha e a prendo depois sento-me no meu lugar de costume, ao lado de Clarissa.
—Quem é ele? —Gabriela sussurra quando Jordan entra na cozinha com Anastásia.
—O sem noção. —Sussurro bem baixinho e ela ri.
—Abigail, cuidado. —Anastásia diz reprovando-me e eu reviro os olhos. Ela aponta um lugar para Jordan sentar e depois se senta.
—Mamãe, onde está o papai? —Clarissa pergunta.
—Ele saiu mais cedo, reunião querida. —Ana explica. —Ele vai buscar vocês na escola. Hm... Aby, a Gabriela vai fazer algo na escola dela, e ela precisa de uma foto de todos da família, você tem alguma?
—A da raposa, da raposa. —Gabriela diz e eu sorrio.
—Tenho. Com licença. —Saio da mesa e vou até o escritório de Christian.
Ele insiste em guardar minhas fotos aqui, junto com os álbuns da família.
Abro sua gaveta e pego meu álbum. Meu pai resolver fazer algum tempo... quando... quando ele ainda não me odiava. Foi um ótimo dia. Nós fomos à uma linda fazenda, havia tantas raposas. Lily, uma em especial tirou muitas fotos comigo. Eu só tinha onze anos. Foi tão bom.
Deixo as lembranças de lado e volto a mesa, entro a foto para Anastásia e me sento.
—Eu não sabia que você tinha essas fotos. Você nunca me contou. —Ana sussurra e eu dou de ombros. —Ótimo. Até mesmo a Gabriela sabia.
—Não se faça de vítima, por favor. As fotos estavam na sua casa quando eu fui para lá. O Christian que mexeu nas papeladas e as encontrou. Eu teria queimado uma por uma.
—Abigail, não comece.
—Você começou. E quer saber? Eu perdi a fome! —Jogo o guardanapo na mesa e me levanto.
—Abigail, não ouse sair!
—Você não é minha mãe, pare de falar como ela. Me deixe em paz! Você pediu a foto, aí está!
Saio da mesa e corro para o meu quarto. Tranco a porta e me sento no chão, perto a parede. Encolho-me e as lágrima simplesmente chegam. Eu... estou tão cansada. Sei que estou como uma boba, mas eu simplesmente não consigo controlar. Parece algo que começa por dentro e destrói por fora. Eu... eu acho que eu nunca deveria ter vindo morar com Anastásia. Talvez agora ela tivesse menos problemas.
Fadinha desce da cama e se aproxima, ronronando. Ela começa a se esfregar em mim e rapidamente a puxo para os meus braços. Fico sozinha por algum tempo, até ouvir Anastásia me chamar avisando que preciso fazer o trabalho. Não saio na hora. Decido limpar meu rosto, mas... quando estou para fazer isso ouço meu celular tocar.
—Quem é? —Digo ao atender.
—Olha aqui, garota! —A voz enjoativa de Jenny – ex namorada de Jordan – me faz ter vontade de vomitar. —Eu já disse uma vez, e vou dizer outra, eu quero você longe, bem longe de Jordan.
—Eu não sou obrigada a ficar ouvindo você. —Digo sentindo raiva. —Por que você não fala isso para ele? Já que é ele que não sai do meu pé.
—Escuta aqui! Eu estou falando a última vez, Abigail, fica longe dele. E pode mandando ele apagar aquela foto ridícula.
—Do que você está falando?
—Olha no facebook, flor. —Ela diz destilando seu veneno. —Essa é a última vez, Aby, da próxima, vai ser pior para você.
Desligo o celular revirando os olhos. Ah, como eu odeio essa garota. Jenny Sullivan e suas amigas são as pessoas mais odiosas que eu já conheci. Elas foram expulsas da escola, pela briga que tivemos, mas pelo visto não vou me livrar tão fácil dela. Eu... só espero que ela seja daquele tipo que só ameaça.
Abro meu facebook e sinto o ódio me tomar quando vejo que Jordan postou uma foto minha, a foto que eu entreguei para Anastásia. Há comentários horríveis. Os primeiros são das amigas de Jenny, e há muito mais. Todos me ofendendo.
Sinto as lágrimas tomarem meus olhos, assim como meu coração se fechar. É por isso, por isso eu não quero ele por perto. Ele é um grande idiota que só faz as coisas que sem pensar.
Abro a porta do quarto e desço as escadas correndo, Jordan está na sala com as meninas, e Ana não está por perto.
—Como você pode? —Grito assustando as meninas e log Mel está chorando. Jordan me olha sem entender.
—Do que você está falando, ruiva? —Ele pergunta levantando-se.
—Você não tinha direito algum de postar uma foto minha! —Grito sentindo as lágrimas descerem e agora é Gabriela que começa a chorar.
—É só uma foto.
—Não! Não é! É a minha foto. Você não tem direito algum de invadir a minha privacidade.
—Aby, calma.
—Não me chama assim! Vá embora Jordan, fique longe de mim.
—Abigail, o que você está fazendo? —Anastásia diz entrando na sala. —Você está assustando as meninas.
—Me deixa em paz! —Grito para ela. Olho para Jordan sentindo o ódio me invadir. —Vá embora, entendeu? Vá embora e nunca mais volte. Eu te odeio Jordan, odeio com todas as minhas forças. Nunca mais ouse falar comigo!
Viro-me e subo as escadas correndo, sentindo o ódio apertando meu peito.
Ah, isso não é justo! Não é!
♛ ♛ ♛ ♛
Anastásia Steele
Desço as escadas lentamente. Atordoada, cansada, acabada completamente. Ontem eu tive que ir ao ateliê, para fazer os últimos ajustes no vestido. Só falta duas semanas para o casamento, e, eu estou completamente acabada. Clarissa terá uma apresentação de balé um dia antes do casamento, e eu tive que sair correndo ontem também para arrumar suas roupas. Gabriela ficou doente juntamente com Melissa e eu passei a noite acordada cuidando delas porque Christian teve que ir a Boston e só volta hoje. Abigail caiu em todas as matérias e está correndo o risco de ser reprovada, e eu realmente não ser o que fazer.
No dia que Jordan veio aqui ela simplesmente se revoltou contra o garoto, e o expulsou na mesma hora que ele chegou, depois disso ela simplesmente se trancou dentro do quarto, e é isso que tem feito todos os dias, se trancado no quarto por horas e horas. Eu já nem sem mais o que fazer.
Entro na sala de jantar e vejo as meninas já sentadas tomando café. Mia está aqui também, ela está ajudando Melissa a comer. Eu já nem sei como agradecer. Ela passou os últimos cinco ou seis dias aqui comigo, me ajudando muito.
—Bom dia, mamãe. —Gabriela diz me dando um grande sorriso e eu já me sinto melhor.
—Bom dia, querida. —Sussurro sentando-me no meu lugar de sempre. Esfrego meu rosto com as mãos, atordoada, com dor de cabeça e muito cansaço.
—Aqui, Ana. —Mia diz me dando uma xícara com café.
—Obrigada. —Murmuro bebericando. Olho para Abigail e suspiro contando de um até três. —Eu recebi seu boletim ontem.
—Mesmo? —Ela diz envergonhada.
—Sim, sua maior A- em artes, você tirou F em matemática. —Digo tentando me manter calma.
—Eu... sinto muito, Ana. —Ela sussurra remexendo seu ovo com o garfo.
—Ah, eu espero que você sinta. —Digo realmente chateada. —Nós vamos ter uma conversinha mais tarde, certo?
—Tudo bem. —Abigail diz encolhendo-se na cadeira.
—Mamãe, você convidou o vovô Ray para a minha apresentação? —Clarissa pergunta preocupada.
—Sim, querida, o tio Taylor levou os convites ontem. —Sussurro massageando as têmporas. —Aposto que ele irá adorar ir.
—Eu espero que sim. —Clarissa sussurra.
—Ana, você deveria descansar um pouco. —Mia diz olhando-me com preocupação. —Agora que seu pai está na empresa, você pode descansar mais.
—Ele não ficará para sempre, é a minha empresa. —Digo chateada.
—Sim. —Mia diz rindo. —Srta. Possessiva, é sua, mas já foi dele, e o que eu quis dizer é que ele sabe como administrar. É um estresse a menos.
—Ah, Mia, quando se tem duas filhas doentes constantemente, uma super empolgada com a apresentação de balé, e outra que só saber ser rebelde, é muito difícil.
Mia apenas dá um sorriso e eu encaro as meninas que me olham envergonhadas, principalmente Abigail, ela se levanta depois de pedir licença e sai da mesa. Clarissa e Grabriela terminam de tomar café e vão se arrumar para o colégio, e Melissa fica fazendo sua bagunça diária. Mia logo a ajuda a se limpar e sai da sala, então eu apoio meus braços sobre a mesa, abaixo minha cabeça e desabo em lágrimas.
Eu... eu simplesmente estou ficando louca. Eu me sinto presa novamente. Não saio mais para trabalhar. Há pressão em cima de mim toda hora, e eu sempre tenho que ter calma para não ser rude com as meninas. Eu... me sinto sozinha, exausta. Christian sempre está fora por causa da sua empresa. Kate quase não pode vir aqui porque está trabalhando muito. Eu queria estar trabalhando. Querida poder sair um pouco, mas sempre que as coisas estão calmas algo acontece. Gabriela e Melissa ficam doentes. Clarissa tenha algo destruído por aquele cachorrinho que Christian comprou.
Abigail perde notas, se mete em brigas. Eu... eu simplesmente não sei o que fazer.
Eu amo minha vida, minhas filhas, meu noivo, mas às vezes eu só quero voltar correndo para aquela colina e ficar lá sozinha, sem ninguém que possa me enlouquecer mais.
—Baby?
Levanto a cabeça e me deparo com Christian parado na porta da sala, ele ainda está de terno e com a pasta na mão. A visão dele aqui não me acalma para a minha surpresa, só faz com que eu me sinta mais oprimida, mais cansada e sobrecarregada.
—Ei, baby, o que houve? —Christian pergunta se aproximando.
—Nada. —Levanto-me e saio da sala passando direto por ele, mas logo ele está me seguindo.
—Ana... eu fiz algo? —Christian pergunta quando entramos no quarto.
—Não, você não fez nada. —Sussurro dando um leve sorriso, mas as lágrimas ainda caem. Sento-me na cama e vejo Fadinha, a gatinha de Abigail se espreguiçando. Pego-a e a coloco no chão.
—Me conte. —Christian insiste sentando-se ao meu lado. Ele tira o blazer e afrouxa a gravata puxando-a do pescoço.
—Nada. Me conta como foi a viagem? Conseguiu fechar negócio?
—Sim, mas isso não importa. Eu quero saber o que aconteceu.
Suspiro e pego o boletim de Abigail em cima do criado-mudo. Entro a Christian e analisa parecendo incrédulo.
—Eu estou... cansada. —Murmuro sentindo as lágrimas voltarem. —Ela... eu não sei o que fazer. A Clarissa está incontrolável pela apresentação. As meninas ficaram doentes de novo, e... a Aby, Christian eu não consigo mais.
—Ei, querida. —Christian me puxa para os seus braços e quando sinto seu cheiro, é aí mesmo que desabo em lágrimas, lágrimas quentes e pesadas. —Não chore Ana.
—Eu estou tão cansada. Eu não aguento mais isso. Sua mãe me liga o dia inteiro para resolver coisas sobre o casamento. Eu não trabalho mais. As meninas tomam todo o meu tempo. Há sempre alguém da escola da Abigail ligando e reclamando sobre algo. Você está sempre fora, sempre ausente.
—Ei, baby. Eu sinto muito. —Christian sussurra se afastando. —Eu realmente queria estar presente, mas foi um mês corrido. Você não está feliz?
—Não. —Digo me levantando. —Eu não estou. Eu estou cansada. As meninas dão trabalho, eu estou todos os dias sozinhas. Nós vamos casar dentro de duas semanas e tudo que você faz é ficar fora de casa resolvendo coisas da empresa. Eu quero você comigo, é o nosso casamento.
—Ana, eu sinto muito. —Christian diz novamente e isso me mata por dentro.
—Não, Christian, você não sente, porque você adora isso. —Digo pegando-o de surpresa.
—Do que você está falando?
—De tudo isso. —Falo gesticulando com as mãos. —Você achou melhor adotar a Melissa sem me consultar. Você falou que era uma boa ideia deixar a Clarissa na aula de balé quando ela quis sair. Você escolheu dar um cachorro e um gato para as crianças sabendo que a Gabriela tem alergia. E você não concordou comigo em trocar a Abigail de colégio. Talvez assim ela desse menos trabalho, mas tudo está desabando, e você não está em casa para me ajudar.
—Ana... eu sinto muito, sinto de verdade. Eu errei, porque eu achei que seria o melhor. —Christian diz e ele parece arrependido, mas eu estou tão cansada. —Você quer o que? Desistir de tudo? Quer desistir da nossa vida? Das nossas filhas, do casamento?
Encaro Christian sem saber o que dizer. Tudo que eu queria agora era apenas descansar, sozinha, sem crianças, sem o estresse do casamento. Sem nada disso. Viro meu rosto e vejo Abigail para a porta, seus olhos estão cheios de lágrimas e eu imagino que ela tenha ouvido tudo.
Abro a boca para pedir desculpas, mas fecho novamente e a encaro sem saber o que dizer. Ela se abaixa e pega sua gatinha do chão, logo em seguida sai correndo do quarto. Encaro Christian e ele suspira também magoada. Aproximo-me dele e o abraço, procurando abrigo, e eu encontro, entre lágrimas de desespero, seus braços me envolvem e eu me sinto mais calma, ainda cansada, porém, nós chegamos até aqui. Eu sei que estou sendo boba. Mas casar é tão difícil, não é simplesmente caminhar num tapete vermelho e dizer sim em frente a um pasto e a pessoa que você ama. Casar é se estressar, e abrir mão das suas coisas para poder estar com seus filhos, é saber pedir desculpas quando você está errada. Casar é querer correr de volta para os braços dos seus pais e ainda sim querer estar com a pessoa que você mais ama.
Eu passei por coisas difíceis, mas esse aqui é o meu lugar. Ao lado do homem que eu amo, ao lado das minhas filhas. Ao lado dessa agitação diária, isso não foi só escolha de Christian, foi a minha escolha também. Ele também está cansado, eu não posso culpá-lo. Eu só preciso ter esperança, muita.
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Foto do Jordan e Print ♥

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