Segunda Chance
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Viagem no tempo.
Diziam aquelas palavras no painel, de repente percebo que estava começando a cochilar em pé. Eu estava estudando como viajar no tempo na noite passada, mas não me lembro o porquê...
— Bom dia, Beto. — A matriarca entrava na sala segurando seus livros de enfermagem, passando rapidamente por mim, indo até a cozinha, ela parece mais jovem e seu cabelo está diferente.
—Bom dia... — Estralo as minhas costas, e provo um pouco de café da mesinha da sala.
—Arrume-se logo, se não estará atrasado para a aula. — Diz a voz feminina da cozinha
Eu odeio meu colégio, com todas as minhas forças, se eu pudesse voltar no tempo e escolher fazer o Ensino Médio em outro lugar, eu o faria.
Vou até o meu quarto, vejo meu irmão em seu sono profundo, seu rosto está diferente, é como se a puberdade ainda não tivesse o afetado, estranho. Mas eu ainda estou com sono, o sono afeta nossa mente.
Procuro meu uniforme por todos os lugares, não encontro. Apenas o da minha antiga escola, achei que o tinha vendido.
—BETO, VAMOS LOGO, ESTAMOS ATRASADOS!!— Os gritos da matriarca ecoam pela casa.
Confuso, procuro meu celular. Onde está meu celular? Ele não está em canto nenhum! Nem o celular do Breno!
Vou até o banheiro, lavar o rosto, tentar acordar, pensar, raciocinar.
Quando ligo as luzes e me encaro no espelho, não acredito no que vejo, meu rosto está limpo e jovem! Sem as olheiras de um vestibulando, sem as espinhas causadas pelo stress e nenhum vestígio das caspas. Eu estou jovem, eu pareço ter 14 novamente.
Como é possível? Eu devo estar sonhando, devo ter dormido na sala. Vou aguardar até acordar.
Corro até o computador. Ligo. Verifico as horas. Abro o calendário.
7 de março de 2014? Estávamos em outubro e... Em 2016! Eu estou com muito sono, não é possível!! Talvez seja um sonho, se eu seguir até onde ele vai, vou acabar acordando.
Visto o meu uniforme do ensino fundamental, eu o odiava, mas agora eu sentia tanto a sua falta, que se tornou bastante confortável. Corro até o carro, e vou para o colégio.
O Colégio João de Camões era uma escola de freiras tradicional, então deveríamos seguir um comportamento cristão nas áreas escolares. Na teoria, pois na prática era bem diferente.
Quando chego no meu antigo colégio, sinto uma forte nostalgia e uma leve vontade de chorar, mas me recomponho e começo a perambular pelos corredores. Como é um sonho, não sou obrigado a assistir aulas, se tornaria um pesadelo.
Porém alguém esbarra em mim, uma figura mais baixa, levanto seu rosto e a reconheço, ela me agarra e beija meus lábios. Violeta, minha namorada dos tempos de fundamental.
— O que está fazendo aqui fora, Beto? Você nunca matou aula! — Violeta sorria e balançava a cabeça de forma negativa, seu sorriso parecia tão real e apaixonado, nós éramos muito felizes juntos, me pergunto o que deu errado...
—Nada, só estou esperando alguém me acordar. — Respondo.
—Acordar!? Vamos assistir aula, você não quer que alguma freira te acorde com uma régua, disso eu tenho certeza. — Violeta me puxa pelo braço enquanto ri, como se eu tivesse contado uma piada. Começo a rir enquanto aquela garota baixinha me guia pelos corredores, talvez esse seja o melhor sonho da minha vida.
A aula ainda não havia começado, quando entro na sala me deparo com dois de meus melhores amigos conversando.
— Então quando eu estava assistindo, alguma coisa explodiu na cozinha... — Paulo contava uma antiga história, mas segundo o sonho, foi ontem. Ver meu velho amigo sorridente e saudável me faz muito bem, sinto um alívio no peito. Paulo de 2014 era diferente, mais ingênuo, inocente, mal sabe que em 2 anos vai se tornar o maior consumidor de drogas da cidade.
— Mas você não sabe como cozinhar um simples omelete? Porra Paulo! — Gisele, minha melhor amiga da época, eu vacilei tanto com ela que nunca mais olhou na minha cara...
Abraço Gisele, mesmo sendo um sonho, sinto falta de sua presença.
—Opa campeão, o que te deixou tão afetivo pela manhã? — Gisele se assustou com o abraço, provavelmente meu subconsciente está seguindo minhas antigas memórias, eu não era um cara afetivo, não abraçava, não sorria muito, e só queria passar o tempo todo com a minha namorada, eu era muito errado.
—A aula vai começar, se sentem por favor. — O professor de Física entra na sala e vai na direção de sua mesa.
Me sento atrás de Violeta, me inclino para sentir o seu perfume, como eu sentia falta daquele perfume. Violeta faz falta...
Durante a aula, que não prestei atenção, observei meus colegas de classe, meu subconsciente foi muito eficiente em projetar cada mania, desde dormir durante a aula até atirar pequenas bolinhas de papel, eu estou começando a desconfiar que isso não é um sonho...
Me belisco, nada acontece.
Tento bater a cabeça na mesa, apenas barulho.
—Algum problema, Beto? — O maldito professor me odiava, e eu o detestava, sempre tentava fazer uma piadinha sobre o meu namoro com Violeta
—O senhor acha possível a viagem no tempo? — Essa pergunta veio do nada, é como se as palavras escapassem da minha boca.
— Acho que está bêbado de amor, meu jovem, mas é uma pergunta interessante. Por acaso traiu sua namorada e quer desfazer a besteira? — O professor ria e com ele, a maior parte da sala.
Respiro fundo. Olho para a Violeta, ela apenas faz uma careta para o professor. Ótimo, ela também o odeia.
— Em termos profissionais, sem criancisse, o senhor pode responder a minha pergunta? — A sala toda fica surpresa com a minha reação, eu normalmente ficaria calado e me encolheria, mas se eu realmente voltei no tempo, eu estou diferente.
—Saia da minha sala, eu não vou tolerar tamanho desrespeito!! — O idiota não suportou ser confrontado, mas eu sabia que enfrentar uma criança de 38 anos seria prejudicial.
Me levanto, faço uma reverência ao babaca, aperto a mão de Violeta e sussurro:
—Eu vou ficar bem.
Vou para a coordenação com um sorriso, eu tenho certeza que voltei no tempo, para os dias mais felizes da minha vida, vou fazer de tudo para que não se tornem o que se tornou.
Eu tenho uma segunda chance.
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