Segunda Chance
2 Capítulo 2
Notas iniciais
A sala da coordenação era abafada e minúscula, entro naquele local me espremendo entre alguns alunos mais velhos e sento em um confortável sofá, esperando minha vez de receber a advertência.
—Roberto Corrêa! — Exclama a coordenadora após todos os outros alunos saírem.
Claudia Serafim era a mulher mais elegante da cidade, nunca descia de seu salto alto e estava sempre de blazer, com um belo broche dourado com o símbolo do colégio.
—Eu mesmo. Estou aqui porque fui desrespeitado. — A encaro nos olhos, tentando transmitir minha indignação.
—Não foi isso que eu recebi no relatório, aqui diz que o senhor confrontou o professor de física agressivamente. — Ela gesticula com as mãos.
—Ele foi extremamente rude comigo e com a minha namorada, nos desrespeitou. A senhora sabe que eu nunca fiz nada de errado nessa escola, e é a minha única advertência em todos esses anos. — Tento amenizar a situação.
— O senhor tem razão, mas o professor também será ouvido. Eu sei que é um ótimo aluno e tem belas notas, mas nós não toleramos atitudes agressivas...
—Acho melhor eu ir embora, para casa. — Interrompo.
—Ainda há algumas horas de aula... — Ela se assusta com a minha reação, não costumava faltar aulas e nem me rebelar como a maioria dos adolescentes.
—Eu não estou me sentindo bem, vou explodir se continuar naquela sala de aula! — Meu rosto se contorce, tentando parecer doente.
—Se o senhor passar por aquele portão, volte apenas na próxima semana! — A coordenadora me encara com um tom reprovador.
—Ótimo! Eu tenho um tempo para pensar e refletir sobre o meu comportamento, com licença! — Me levanto e saio da sala exalando sarcasmo.
Eu não posso desperdiçar essa volta no tempo assistindo uma aula, eu tenho que planejar meus passos para mudar o futuro.
Chego em casa e vou em direção ao painel da sala, e lá estão as palavras.
Viagem no tempo.
Arranco umas folhas do caderno e escrevo alguns nomes com uma caneta vermelha.
Bianca, Paulo, Gisele, Violeta, Meredite, Marcos e Breno.
Eu tenho que mudar a vida dessas pessoas, de um jeito ou de outro.
Minha mente começa a trabalhar em um ritmo absurdo, um dos meus problemas mais fortes é a empolgação exagerada. Começo a andar rapidamente de um lado para o outro, cortando a sala e voltando, sem parar por um segundo.
A Bianca de 2014 estuda em uma escola perto da Universidade Federal, eu tenho que evitar um dos maiores traumas de sua vida. Mas eu tenho um problema, eu só vou conhecê-la em 2 anos, quando eu ingressar no grupo do whatsapp....
WHATSAPP!!!
Uma ideia acaba de explodir na minha cabeça.
Preciso de um celular!
Seguindo a linha do tempo, eu vou ganhar um em outubro, mas estamos em março, outubro será tarde demais!
Não posso deixar Bianca sofrer, não poder conversar com ela me machuca toda vez que eu penso nela, eu sou apaixonado por essa garota, mas o Beto de 2014 é louco pela Violeta, então tenho que manter o personagem até o dia 30 de maio, quando, tragicalmente, ela termina nosso relacionamento. E então seguirei em busca da minha paixão, mas antes preciso observá-la e mantê-la segura!
Ligo o computador e começo a pesquisar os perfis de Bianca nas redes sociais: Orkut, Facebook e o famigerado Tumblr.
Meus dedos digitam tão rápido que começam a suar, minha mão é ligeiramente fofa, logo suava bastante, mas minha mão congelou quando a porta da sala se abriu, minha mãe chegou, eu posso não sair vivo.
—Roberto Corrêa Santos, o senhor pode me explicar que porra foi essa!? — Ela atira uma carta no meu rosto.
Tento responder, mas ela logo me corta.
—Se o rapazinho for suspenso novamente, ficará em casa pelo resto do ano, o trajeto será casa-escola até 2015! — Ela aponta para o calendário.
—Mas...
—Sem "mas"! Seu pai estará aqui amanhã para ter uma conversinha com o senhor! — A matriarca sai de cena extremamente brava, a porta do seu quarto se bate e eu me assusto com o barulho.
Meu pai virá, eu não falo mais com o velho em 2016, ele resolveu desistir de mim. Mas em 2014 eu ainda era seu filho favorito, o brilhante e futuro médico da família.
Eu não estou psicologicamente preparado para uma conversa com o homem que me passou os seus piores genes, o da arrogância.
Esqueço o computador por alguns minutos e observo o meu quarto, penso nas pequenas mudanças que ainda não ocorreram, olho para a minha cama com a madeira nova, meu guarda-roupa com todas as portas, a ausência do cheiro de cigarro...
Breno chega do colégio cansado, ele guarda seu materiail escolar na sala e vem até o quarto, me entrega um bilhete sem dizer sequer uma palavra, mas eu reconheço a folha e a maneira de dobrá-la, é um bilhete de Violeta.
Oi amor, obrigado por ter confrontado o babacão hoje, eu não o suporto. Entre mais tarde no face, Marcos disse que queria fazer um grupo com uma amiga dele, será divertido, e você precisa desestressar, Te amo bjs.
Marcos, meu irmão de outra mãe, ele está estudando no colégio que eu odeio e irei estudar no próximo ano. A amiga é a Yasmin, eu me lembro do dia de hoje, o dia que eu conheço a ruiva mais sarcástica e linda dessa cidade, eu me apaixono por ela em setembro, ou melhor, deveria me apaixonar, mas posso mudar tudo.
Não tenho tempo para os meus erros do passado, preciso me concentrar no mais importante, encontrar Bianca Rabelo.
Volto para o computador, decidi que não irei almoçar hoje, preciso achá-la. Pesquiso sobre alunos da sua escola de 2014, e acho fotos da turma, ela está diferente, a bulimia ainda não a afetou, há tempo.
Ela sempre foi linda!? Seus cachos, seus olhos serenos, seu sorriso sincero , mas algo está diferente, seria a expressão inocente de quem ainda não sofreu com os males da vida? Preciso me aproximar, me tornar amigo dela, cuidar dela a distância.
Uma mensagem surge no inbox. Um desconhecido, literalmente, o nome de seu perfil era Desconhecido.
Desconhecido: Aproveitando a sua viagem?
Solto imediatamente o mouse e pulo da cadeira.
Ele pode me entregar as respostas que necessito!
Inicio a conversa online.
Roberto: Quem é você? O que sabe sobre mim?
Desconhecido: Eu sei tudo sobre você, eu sou apenas um elemento do universo, uma parte que encontrará caso não consiga mudar tudo.
Roberto: Mudar tudo? Está falando de salvar meus amigos? Se eu falhar... o que vai acontecer comigo!?
Desconhecido: Muitas perguntas vazias, para um coração inquieto. Apenas tenha cuidado para não apressar as coisas e causar sofrimento desnecessário. Viagem no tempo não é uma roda gigante divertida com músicas felizes, viagem no tempo é uma montanha-russa que está a todo vapor na descida, te deixando com refluxo e vontade de morrer.
Desconhecido está offline.
Nenhum filme de terror havia me assustado tanto quanto essa conversa, apenas anoto o endereço do colégio da Bianca e desconecto.
Me deito na cama e começo a refletir sobre o que acabou de acontecer.
Eu estou aqui para salvá-los, então é o que farei, aquela pessoa estranha que conversou comigo me alertou da pressa, mas e se for uma pegadinha? Uma brincadeira idiota e... Não, não, eu estou começando a pirar, tenho que me focar na Bianca, tenho que ajudá-la.
*** ***
Acordo no meio da noite, suando frio, o ar condicionado está desligado, meu coração está estranhamente batendo forte. Me levanto e vou até o banheiro, ligo as luzes e me encaro no espelho.
Eu odeio espelhos, odeio a minha aparência, eu estou começando a ficar acabado, tenho que me cuidar. Procuro um barbeador, não acho. Procuro algum creme para a pele, nada. Eu realmente não me importava com a minha saúde e visual.
Ligo o computador, são 4:30 da madrugada. Violeta lotou minhas redes sociais de mensagens. A deixei preocupada, nunca furei com ela ou com Marcos, eu estava afogado na minha obsessão por Bianca.
Tomo um banho longo e inicio o ritual matutino mais cedo, me arrumo e preparo um café da manhã para a minha família.
—Roberto cozinhando? Isso é novidade! — Minha mãe se senta na mesa ainda de camisola e coçando os olhos, ela devora meus mistos quentes.
—Eu sempre soube, só tinha preguiça! — Minto descaradamente, aprendo a cozinhar apenas em meados do inicio de 2016.
Me aproximo do computador e procuro no Youtube, e lá encontro o que procurava...
Do I Wanna Know? Já havia sido lançada nesse ano, essa música me relaxa, toda a tensão da viagem do tempo se foi quando a voz de Alex Turner entra pelos meus ouvidos.
[ https://www.youtube.com/shared?ci=En-Q1lL_V0Y ]
Quando a música termina, noto que todos saíram de casa, o momento perfeito para iniciar meu plano de duas fases.
1. Se explicar para Violeta e Marcos
2. Ir até o colégio de Bianca, observá-lo.
Hoje é sábado, dia de sair com meus amigos. Saio de casa e encaro a minha rua, continua a mesma, porém falta o pênis que desenharam no asfalto após a Copa do Mundo, em breve estará lá.
Vou de ônibus até o shopping onde Marcos e Violeta me esperam.
— Senhoras e senhores, o deliquente juvenil! — Marcos abre um sorriso enquanto me abraça, parece estar orgulhoso do que fiz.
— Está atrasado. — Violeta faz um biquinho irônico e logo em seguida me beija.
—Preciso que vocês me sigam até uma praça, daqui a pouco começa um show daquela banda que você me apresentou, Marcos. — Seguro as mãos de ambos, os levando para fora do shopping.
—Que banda? — Meu melhor amigo freia e sua cara demonstra confusão.
— Os Marechais! — Sorrio tentando o lembrar.
—Eu não sei do que está falando, Beto. — Marcos encara Violeta como se eu estivesse zoando com ele.
Merda, eu errei a data, ele só me apresenta Os Marechais no fim do ano! Que burrice extrema.
—Eu acho que foi o Paulo que me apresentou, estou começando a enlouquecer — Começo a rir para disfarçar, continuo puxando eles para fora do shopping.
*** ***
A praça estava vazia, a banda estava preparando seus instrumentos, eles ainda não são famosos e suas músicas ainda são originais, bons tempos.
Procuro um banco que me dê visão ampla da escola de Bianca, começo a observar que alguns alunos estão saindo da escola. O Ensino Médio tem aulas no sábado, é aqui onde a encontrarei.
— Beto? Beto? Amor? Beto, acorda! — Violeta me balança forte e me encara com seus grandes olhos castanhos. — Onde está a sua cabeça? Está olhando para aquele portão o tempo todo, tem certeza que veio pelo show?
— Desculpa amor, eu estou um pouco cansado com essa suspensão, vai afetar meu currículo escolar. — Disfarço, uso minha artimanha de ator mais uma vez para simular um rosto abalado, enquanto observo o portão.
Violeta apenas passa o braço por cima dos meus ombros e encosta a cabeça, ela realmente era fofa nessa época, se fizesse isso em 2016, eu diria que sua atuação estava impecável.
Marcos se levanta do banco da praça para comprar sorvete, eu o acompanho com o olhar até que ele esbarra em uma garota baixa, eles se desculpam e eu observo o rosto da pequenina.
Me levanto e corro em sua direção, mas na metade do caminho paro.
Ela não te conhece.
Repito na minha cabeça várias vezes, eu sou um estranho para Bianca e eu deixei Violeta assustada no banco, o que eu estou fazendo?
Estou tão perdido na minha paixão que eu estou esquecendo o mais importante? Em manter meus amigos a salvo, eu posso cuidar de Bianca depois...
—Perdeu alguma coisa? — Bianca me encara enquanto estou ali parado impedindo sua passagem.
—Eu... te c-conheço de algum lugar... — O que eu estou falando? Meu deus, alguém me para, por favor.
—Eu acho que está se confundindo, tem certeza que não é a minha irmã? Somos um pouco parecidas. — Ela ajeita o cabelo delicadamente, o colocando por trás da orelha enquanto puxa seu celular do bolso.
—Não, não. É você, Bianca. — Eu percebo que estou com um sorriso bobo no rosto, eu sou completamente apaixonado por ela.
Ela sorri, anota algo em um papel, me entrega e corre. Coloco o papel no bolso sem verificar, eu já cheguei mais longe do que eu pretendia.
—O que foi isso? — Violeta se aproxima assustada. — Você conhece aquela garota? Ela é gata. — Seu olhar é preocupante e seu sorriso indica que eu devo explicações.
—Ela é minha prima... — A mentira sai naturalmente, como sempre.
Marcos volta com 2 sorvetes, eu divido um com a minha namorada e o guloso monopoliza o dele. O show dos Marechais foi encantador, eu sei todas as músicas, o que acabou sendo estranho, pois elas foram tocadas pela primeira vez hoje. Ao fim do dia, Violeta vai para casa e Marcos vem comigo.
—Beto, posso te fazer uma pergunta? — Ele me encara nos olhos, nunca tinha feito isso comigo.
— Claro.
— O que está acontecendo contigo? Mano, eu não estou te reconhecendo, parece mais descontrolado, desligado...
— Marcos, eu estou bem, é só cansaço...
— Me conta a verdade, eu sei quando você está omitindo algo.
Se eu contasse, ele não iria acreditar, então eu resolvi testar.
— Eu viajei no tempo, a minha consciência é de 2016 e eu estou tentando mudar a vida de vocês.
Ele regalou os olhos e abriu um sorriso.
—A sua criatividade foi além dos limites, otário. — Diz Marcos enquanto me empurra de leve.
Entramos em casa rindo até que nos deparamos com meu pai no sofá da sala, ele porta um cinto de couro em suas mãos, entendo o sinal e peço para meu amigo esperar no quarto.
—Nós precisamos ter uma conversinha! — O velho resmungava, usando suas roupas antiquadas e olhando para uma arma descarregada sob a mesa.
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