Segunda Chance
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Essa fanfic surgiu como um sonho. É sério, eu sonhei com isso, e acordei grilado. Então aproveitei e desenvolvi essa ideia.
Essa fanfic traz não só um final alternativo à um personagem que eu me apeguei tanto como também é para mostra o quanto fiquei insatisfeito com o final dele (não só com o final, como também a trajetória dele). A produção da novela fez questão de jogar o trabalho árduo de um ator maravilhoso no lixo, tratando como um nada. E isso me deixou bem revoltado. Isso é a pura verdade, os fatos estão aí e ninguém pode negar.
Bom, mas raivas pessoais a parte, fiz essa história incentivado por amigos, os quais eu quero agradecer de coração. Quero mostrar que SIM, poderia ser diferente, e SIM, o final poderia ser outro. Quem discorda, eu sugiro ver a minha ideia.
E eu espero que vocês gostem da fanfic. Pois ela fala de fé, de redenção, liberdade, enfim, não vou adiantar muito, só lendo.
Boa Leitura!
P.O.V. Bakenmut
O ar gelado invadia a noite no Egito. Enquanto o deus Rá já estava no submundo lutando contra a serpente Apep, eu continuava com as obrigações do meu trabalho. Poderia ter sido uma noite normal. Como eu gostaria que fosse isso...
Por mais que eu fingisse, eu não conseguia acreditar de verdade que estaria tudo bem. Eu me sentia na obrigação de permanecer firme, tanto para mim, quanto para meus soberanos. Depois que Moisés anunciou a praga que seria a última, o clima no palácio estava pior que nunca.
Eu não deveria me preocupar com isso. Meu irmão primogênito já havia morrido em batalha há anos, e eu não tinha filhos. Mas depois daquela praga, eu não poderia esperar mais nada. Assim como eu não esperava que nada do que aconteceu tivesse se tornado realidade. Quantas vezes já corri risco de vida nas tantas batalhas que ingressei. Mas eu só senti que poderia morrer de verdade, foi com as pragas do Deus dos hebreus.
Já passei fome, sede. Senti náuseas, úlceras. Eu sempre tive uma boa resistência física para esses problemas, mas eu não sabia até quando poderia aguentar tudo aquilo. Pela primeira vez eu me sentia impotente e vulnerável. E isso me deixava com muito ódio.
Se eu pudesse eu sairia quebrando tudo. A vontade que eu tinha naquele momento era de arrancar a cabeça de Moisés e de toda aquela corja imunda dele, assim como eu fiz com aqueles hebreus na pedreira. Mas sabia que isso não iria adiantar nada.
O faraó reuniu todos do palácio na sala do trono para tentar acalmá-los. Ele garantiu que nenhum primogênito morreria, mas não adiantou muito. Todos os pais e mães estavam apreensivos e eu não entendia muito. Não era um deles. Talvez nunca seria.
Eu até poderia ter ficado mais tranquilo, se não tivesse acontecido o que aconteceu depois. Ramsés descobriu que Ikeni mentiu sobre os cordeiros que os hebreus estavam pegando. Os escravos não estavam levando os animais para levar ao deserto, era para terem seus primogênitos poupados das pragas.
Mas o pior de tudo foi que Ikeni compactuou com tudo e fez os soldados a ajudarem com tudo aquilo. Ele fez questão de pisar na minha autoridade de General, me escondeu tudo. Isso foi o que me deixou mais enraivecido.
Me senti irritado por ele não ter me falado nada sobre o que fez. Eu até poderia compreender que ele estivesse preocupado com seu filho, mas não ter me dito que ajudou Moisés me deixou muito chateado. Não sei se faria algo para ajudar, mas certamente não o denunciaria para o faraó.
Se eu tinha falado tudo aquilo para ele antes de ser preso foi por pura raiva. Ele poderia estar desesperado, mas todos nós estávamos, de uma forma ou outra. Meu exército ajudou os hebreus a pegarem os cordeiros pros sacrifícios, e logo eu, o comandante, fui o último a saber.
Aquilo foi como uma faca perfurando meu orgulho. Fazia tempos que não conseguia mais exercer a minha autoridade aos soldados. Se eles nem confiavam no soberano, não confiariam em mim. Cada vez mais eu me sentia um inútil dentro da minha própria tropa. As pragas começavam e terminavam, meus homens morriam, outros deserdavam. E eu não podia fazer nada.
Estava eu sozinho, com meu mal estar. Ninguém percebeu, mas eu também sofria com tudo isso. Mesmo fingindo estar tranquilo e mesmo não passando nem metade do que os outros egípcios passavam, eu também sofria. Mas quem se importava comigo?
Nunca, e eu repito, nunca ninguém veio até mim querendo saber se eu estava bem. Dava para se contar nos dedos as pessoas daquele palácio que tinham um pingo de afinidade por mim. Os outros pareciam sentir repulsa, talvez não tirando a razão delas. Já que eu nunca fiz questão de me importar com as outras pessoas. Até um tempo atrás, se alguém me viesse pedindo ajuda, eu virava as costas e seguia minha vida.
Tanto que quando pediam ajuda a alguém, sempre pediam ao Ikeni. Era sempre ele que ajudava todos, inclusive com os hebreus que estavam até pouco tempo no palácio. Eu nunca tive a bondade que ele tinha. E nem a paciência para ajudar os outros. Eu nunca me importei com isso, não deveria. Mas depois…
Foi depois da bagunça que se tornou o Egito que eu senti o real peso da solidão. Um peso que eu já conhecia e estava acostumado. Desde muito novo vivia por conta própria, sem dar satisfações à ninguém. Sem me importar se o que eu fazia afetava os outros. Foi assim durante muito tempo, até perceber que minha vida se resumiu a absolutamente nada. Até perceber que eu poderia morrer e não feito nada de bom de verdade.
Com certeza, eu não era exemplo de nada, mas eu sabia que não era um monstro.
Havia terminado de preparar as tropas como ordenou o rei. Alguns soldados ficaram de prontidão no quarto do faraó enquanto outros ficaram encarregados de proteger o harém. Pela primeira vez em milênios, o exército esteve em tão pouco número como naquela noite. A maioria resolveu fugir amedrontada, preferiram se refugiar na vila dos hebreus. Sem falar os que já haviam morrido nas pragas anteriores. Eu já havia cumprido a minha obrigação por enquanto. Já não precisava fazer mais nada. Só me preparar para esperar o pior. Se é que dava para se preparar.
Aproveitei o tempo livre para dar uma “fugida do palácio” sem ninguém perceber. Para a maioria dos egípcios, a noite amedrontava, mas para mim, ela costumava relaxar. Sentir o ar fresco me acalmava, me deixava menos propenso à fazer uma loucura.
Andava pelas ruas, que estavam completamente desertas, com exceção de poucas pessoas perambulando. O temor por mais uma praga não tirou o sono das pessoas. As tochas iluminavam as ruas, que ficavam mais estreitas a medida que me afastava do palácio. Andava devagar, como não havia ninguém, me senti mais tranquilo a continuar.
Caminhando, avistei uma moça. Era bem mais baixa que eu vestia uma túnica branca que a cobria até os joelhos. A maquiagem era bem leve, mas mesmo assim eu pude reconhecê-la.
— Sabia que não é muio prudente uma dama andar sozinha pela noite sem a proteção de Rá.
— Acho que não estamos seguros nem com a proteção dos Deuses.
Eu conhecia Chione. Era uma dançarina da Casa de Senet. Estava bem diferente de quando a via dançando deslumbrante. Sua barriga grande já deixava claro que estava grávida. O sorriso que eu conhecia não estava mais lá. Seu olhar era triste e aflito.
— O que aconteceu com você? Está diferente.
— Fui expulsa da Casa de Senet, General. Ahmós descobriu o que eu tentava esconder e ele me jogou pra fora no primeiro momento.
Isso explicava o fato de que eu não a via mais. Desde que a Casa de Senet fechou por não resistir as tantas pragas. Mas mesmo que tivesse aberta, eu já tinha perdido totalmente o clima para fazer qualquer coisa que fosse para me divertir. O que ela falou não chegou a ser surpresa. Eu não tinha muita intimidade com Ahmós, mesmo nos conhecendo e conversando as vezes. Mas eu sempre soube que ele não era uma boa pessoa. Ele não estaria no lugar em que estava se não tratasse as mulheres como mercadorias.
— Certamente. Mas de qualquer forma não é muito bom a senhorita ficar andando sozinha à noite.
— Eu não tenho aonde ficar, Bakenmut. Ninguém aceitaria uma mulher grávida. Ainda mais agora com essa nova praga.
— Então você já está sabendo? — Suspirei.
— E tem como não saber? Todo mundo viu os Hebreus avisando todo o Egito sobre as pragas. Hoje mesmo os seus soldados estavam ajudando a pegar alguns cordeiros. O faraó autorizou isso?
— Isso é uma longa história. — Respondi em voz baixa. — Mas, de qualquer forma, o soberano já tomou as providências e nada de ruim vai acontecer com os primogênitos e nem com ninguém.
— Eu não sei se devo ter certeza disso. — Ela virou o rosto.
— Está duvidando do nosso soberano? — Fiz uma careta.
— Não é isso. É que o rei já tentou nos acalmar tantas vezes E as pragas aconteceram.
— Sei muito bem disso.
— Eu estou com medo. Eu não quero que nada aconteça com o meu filho. — Disse passando a mão na barriga.
— Pode ficar tranquila que nada vai acontecer com o seu bebé, Chione. Se precisar de um lugar pra ficar, eu posso te acompanhar até o palácio. A tropa inteira está atenta caso aconteça alguma coisa.
— Você tem certeza de que não vai acontecer nada?
— Claro que eu tenho.
— Tem certeza mesmo?
— Por que você está falando desse jeito?
— Porque você não me parece estar falando a verdade. Me desculpa, General, mas eu estou com medo. O Faraó já falou tantas vezes que não iria acontecer nada, mas isso não se cumpriu. Só vou conseguir ter certeza se você estiver falando a verdade. Então me diga se o palácio é realmente o melhor lugar pra ficar.
Fiquei pensativo e não sabia se assumia a verdade que escondia até de mim mesmo para ela. Mas naquelas circunstâncias, eu já não conseguia pensar direito.
— Não. — Respondi em voz baixa. — Mas é o único lugar que eu posso te proteger.
— Me proteger. Mas por que se importa comigo?
— Não sei. Só acho que não é prudente você ficar andando por aí sozinha. E depois, não sei o que vai acontecer com o Egito daqui a pouco, eu sinto que preciso fazer pelo menos alguma coisa.
— Eu entendo. Tudo bem então, vamos.
Saímos daquele local onde estávamos e seguimos no caminho até o palácio. O Silêncio da noite já deixava de ser tranquilizante para se tornar assustador. Não sei o que deu em mim em ajudá-la. Eu a conhecia mas não tanto para fazer isso por ela. Talvez fosse a vontade de me sentir útil. Um sentimento que ficava maior a cada dia. A cada momento em que eu me tornava impotente.
No caminho do palácio, pensei em algo que pudesse ajudar Chione. Não era uma ideia muito agradável, na verdade era uma péssima ideia. Mas era a única que eu tive naquele momento.
— Espera” — Interrompi meu passo.
— O que foi? — Ela perguntou intrigada.
— Eu me lembrei de alguma coisa que pode te ajudar.
— Então fala.
— Bom. —Me hesitei um pouco para falar. — Os hebreus estavam usando os cordeiros para fazer sacrifícios. Parece que eles vão usar para salvar os seus primogênitos ou algo assim.
— E com eles é seguro?
— Não sei. Mas se eles foram poupados das outras pragas, talvez lá na vila seja melhor pra você ficar.
— Pode ser. Mas eu não sei aonde fica.
— Tudo bem, eu te levo até lá.
Voltamos a andar mudando de direção. Tivemos que nos apressar se não quiséssemos esperar o pior. A ideia de ir para a vila dos hebreus veio de repente, mas não me agradava nem um pouco. Eu nunca me senti bem em passar por aquele lugar. E daquela vez eu não tinha a minha tropa, então tudo poderia ser muito mais perigoso.
Se o Soberano soubesse que eu havia ido para a vila naquele momento, ele poderia muito bem me acusar de traição. Ele foi capaz de mandar prender Ikeni e até a Princesa Henutmire por causa de Moisés. Não queria imaginar o que seria capaz de fazer comigo. Apenas os constantes berros que nos últimos tempos que ele vinha dando nos meus ouvidos.
No caminho para a vila, senti o vento se intensificar cada vez mais. Com seu uivo anunciando a morte. Tentamos correr para chegar ao destino o quanto antes. Chione não conseguia correr com facilidade. Ela não escondia o desespero em seus olhos. Já vi muito esse semblante em anos, e eu sempre permanecia frio quando acontecia. Mas daquela vez não conseguia disfarçar que não me sentia bem em vê-la assim.
Chegando bem próximo da vila, sentimos o vento diminuir e poderíamos nos apressar melhor. De repente, avistei manchas brancas passando de longe. Eram luzes totalmente alvas, não poderiam ser de tochas. As manchas começamos a se aproximar de nós e pudemos ver que se tratavam de feixes luminosos que cortavam o ar violentamente.
Esses feixes se multiplicavam a cada segundo. Mesmo tendo presenciado tantas pragas, aquela visão parecia inacreditável. Nem em meus sonhos mais insanos, aquilo poderia passar pela minha cabeça. As luzes cortavam o seu em várias direções e deixava o cenário cada vez mais aterrorizante. Naquele momento, eu já não poderia mais fingir normalidade. Era mais uma praga do Deus dos hebreus se concretizando.
Fiquei sem reação em ver aquilo. Não sabia o que pensar e o que sentir. Só sabia que aquelas luzes estavam trazendo a morte. Vi Chione cerrar as sobrancelhas de tamanho desespero, parecia querer gritar mas não falava nada.
— Melhor a gente ir. — Puxei ela pelo braço tirando ela e eu do estado de transe.
Tentava correr mas Chione não conseguia se movimentar com tanta rapidez. Ela abraçava a própria barriga como uma maneira inútil de proteger seu ventre enquanto tropeçava pelos próprios pés. Os feixes pareciam se multiplicar como formigas e suas ficavam tão fortes que chegavam a segar.
Já estávamos na vila, o lugar estava totalmente deserto. Quanto mais adentrávamos, mais o lugar ficava estreito, espremido entre tantas casas de barro e palha. Pude notar que em todas elas, as estradas estavam pintadas com um vermelho forte. Nitidamente do sangue dos cordeiros sacrificados.
Já estava bem claro pra mim naquele momento que essas casas seriam poupadas da morte de seus primogênitos. Eu já tinha conhecimento de que os cordeiros seriam sacrificados por causa dessa praga, mas eu não sabia de que maneira isso era feito.
Chione parava a todo instante, assustada com os feixes. De impeto a puxei para minha frente. A minha visão ficava pior com as luzes fortes e o vento jogando areia em meus olhos. Ela parou bruscamente em frente à algumas casinhas parecendo sentir uma dor forte, não conseguia mais correr.
— O que foi? — Perguntei em voz alta.
— Eu não sei. Tá doendo.
Eu fiquei parado e pude sentir meu coração palpitando fortemente. Respirava com dificuldade pela corrida que tive. Mas eu sequer tive tempo para me recompor, pois vi um desses feixes de luz se aproximar bem na nossa frente.
Se me perguntassem o que deu em mim naquele momento, eu jamais poderia explicar. Apenas sei que subitamente agarrei Chione e nos jogamos para o lado para fugirmos dessa luz. Batemos na frágil parede de uma das cabanas. Bati de cabeça nele, e mesmo com meu capacete, acabei sofrendo uma batida forte. O corpo dela caiu em meu braço esquerdo forçando todo seu peso. Depois disso a última coisa que sentir foi uma dor extremamente intensa.
Deixei de senti a dor depois que desmaiei. A última coisa que eu consegui ver foram as luzes se dispersando.
Notas finais
Uma coisinha, em todos os capítulos eu me inspiro em uma música e que simboliza todos os acontecimentos. A desse capítulo é essa:
https://www.youtube.com/watch?v=yMulQgXE1O8
(Me Tira Daqui - Banda Glória)
Quem quiser, pode me seguir no Twitter: @eumarkgarcia
Até a Próxima!
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