Segunda Chance
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Acordei com uma dor de cabeça forte, e uma dor no braço esquerdo mais forte ainda. Minha visão estava turva, só conseguia enxergar que estava em um lugar coberto, pois percebia a iluminação por fogo.
Aos poucos meus sentidos foram voltando, juntamente com minha dor. O silêncio que eu escutava era agonizante. Sentei-me e pude reparar onde estava. Estava dentro de uma daquelas casinhas que rodeavam a vila. Estava nítido que algum hebreu deveria ter me trazido para cá. Mas eu não sabia o porquê. Mas a única coisa que queria saber naquele momento era saber de Chione, pois não a via. Do canto em que estava, não conseguia enxergar muita coisa.
À medida que enxergava melhor, pude reparar que não estava sozinho. Quando me sentei, vi algumas pessoas sentadas em volta de uma mesa. Eram hebreus, eu não tinha dúvida.
— General. O senhor acordou! — Escutei um deles, que usava uma túnica branca exclamar e se aproximar de mim.
Não consegui falar nada. Me afastei um pouco por impulso. Fiquei um pouco assustado quando ele pegou em meu braço.
— Calma, General. Tá tudo bem. — Quando ele chegou perto de mim, pude perceber de quem se tratava.
— Gahiji?
— Fica calmo. Fui eu que trouxe você pra cá.
— Onde é que está Chione?
— Abigail está cuidando dela. Pode ficar tranquilo que está tudo bem com ela.
— Por que você me trouxe pra cá?
— É que você estava desacordado. — Chibale, que estava perto, pronunciou. — A gente ouviu alguma coisa batendo na parede e vimos vocês dois caídos.
— Eu falei que era arriscado sair. Mas não era certo deixar vocês dois correndo perigo. — Disse um hebreu magro de cabelos e barba bem longos. Já tinha visto ele, mas não sabia seu nome. Era um dos escravos que foi salvo de ser executado.
Levantei-me com muita dificuldade, e quase caí tamanha a dor que eu sentia. E Gahiji acabou me segurando.
— Se acalme, Bakenmut. Está tudo bem agora, só que você está machucado. — Disse me segurando. — Escuta, por que você não se senta e bebe um pouco de água? . Filho, pega a água pra ele, por favor?
O cozinheiro me segurou para que eu pudesse ir até a mesa. A dor continuava intensa. Quando sentei, Chibale me ofereceu um pouco de água. Apenas disse um simples “obrigado” porque não conseguia falar muita coisa naquele momento. Ainda estava atordoado. Pude perceber melhor que não estava sozinho. Pra falar a verdade, a casa estava bem cheia.
Além do hebreu que havia falado comigo, havia outro, mas jovem e baixo que ele. Eles estavam com um certo olhar de indiferença pra mim. Na ponta da mesa, Leila, Hur e Bezalel estavam bem juntos. Não os via desde que eles sairam do palácio. O semblante deles estavam péssimo. Desesperados, segurando o choro. Um tentava consolar o outro, mas parecia que era em vão. Eu já sabia o motivo.
— General, tem notícias de Uri? — Disse Hur.
— A última vez que eu vi, ele estava no palácio. E não pretendia sair de lá. — A minha informação não agradou nada eles. Deu para ver nos olhos.
— E Ikeni, sabe de alguma coisa? — Leila se pronunciou.
— Ele foi preso. — A notícia espantou a família. Pude ouvir reações de surpresa.
— Preso?
— O soberano descobriu que ele mentiu sobre os cordeiros. — Falava pausadamente. Nem condições de soltar a voz eu tinha naquele momento. — Foi Uri quem denunciou. — Depois disso, vi reações de surpresa e decepção.
— Não acredito que meu pai foi capaz de fazer isso. — Disse Bezalel — Ele traiu o nosso povo.
— Com certeza, Uri deve ter pensado que nós voltaríamos para o palácio se ele falasse. — Disse Leila Cabisbaixa.
— Pronto. Deborah está com Chione, que está repousando. — Uma hebreia chegou perto. Ela era magra de cabelos escuros compridos. Mesmos com as marcas da idade, ainda era uma mulher bonita.
— Ela está bem? — Me levantei.
— Sim. Ela só precisa de um descanso. Está muito atordoada.
— Entendo. — Respondi me sentando. — Qualquer um ficaria atordoado com tudo o que aconteceu. Foi tão surreal.
— É apenas a vontade de Deus se cumprindo. — Ela respondeu.
— Uma vontade bem cruel. — Resmungou. — Matar todos os primogênitos, não entendo isso.
— O faraó foi avisado várias vezes que novas pragas viriam. — Hur respondeu. — Se chegamos a esse extremo, foi por única culpa dele.
— As portas pintadas, foram por causa das pragas.
— Sim. — O hebreu mais velho respondeu. — Nós sacrificamos o cordeiro, e comemos a sua carne. O sangue, nós colocamos nas portas. Tudo seguindo as ordens de Deus.
— À propósito. — A mulher hebreia se pronunciou. — Chioñe me contou sobre o que aconteceu com vocês. Como você tentou salvá-la levando ela até a vila. Foi uma atitude muito nobre. — Respondeu com um sorriso singelo.
— Eu não sei direito o que deu em mim. Depois de tudo, não consigo pensar em mais nada. Eu a vi e senti que precisava ajudar. Eu sabia que pelo menos aqui ela estaria segura.
— Será que por um momento, você não acreditou que Deus poderia ajudar?
— Sinceramente, não sei nem mais o que acreditar. Depois do que eu passei, eu não sei mais nem quem eu sou.
— Eu sei muito bem o que é isso. — Respondeu Gahiji. — Parece que tudo desaba, e aí você que que tudo o que viveu foi uma mentira.
— É isso o que estou sentindo. — Abaixei a cabeça.
Era tão estranho eu estar naquela situação. Estava ali naquele lugar, cercado das pessoas que eu fui incentivado a odiar desde que me entendo por gente. E de certa forma, elas me ajudaram, me acolheram naquele momento tão inacreditável. Eu os via e não parecia que eles me odiavam, quer dizer, mais ou menos. Os dois hebreus, o mais velho e o mais novo me olhavam com uma certa repulsa. Mas não tirava a razão deles.
Já Leila, Bezalel e Hur estavam péssimos. Pouco se importaram com minha presença. Eles estavam desesperados, Leila tentava se reconfortar no abraço do sogro, mas não conseguia e desabava em choro. Eu já sabia que isso era por causa de Uri, que eles já esperavam ter morrido nessa praga.
Já presenciei muitas mortes e momentos de tristeza durante todo o meu trabalho como General. Perdi a conta de tantos cortejos fúnebres de nobres tive que organizar. Aprendi a ficar indiferente e evitar qualquer sentimentalismo inútil. Mas não consegui ficar tão indiferente vendo aquela cena deles chorando. Sentia algo estranho, e não era bom.
Ver aquilo me fez entender porque Chione estava tão desesperada. Também me lembrava dos olhos aflitos que eu vi na sala do trono. Era impossível também não lembrar de Ikeni, e seu motivo para ter me enganado. Não gostava de pensar o que pode ter acontecido com Pepy, muito menos o que aconteceu com o príncipe Amenhotep.
Aquela espera só fazia com que eu ficasse com mais agonia. Por não poder sair e saber o que estava acontecendo lá fora. Sem falar na minha outra preocupação naquele momento.
— Eu posso ver Chione? — Perguntei em voz baixa.
— Pode sim. — A mulher respondeu. — Ela está descansando. — Apontou para o quarto.
Levantei da cadeira com um pouco de dificuldade, e fui até o quarto indicado. Chione estava deitada em uma cama bem simples. Estava sendo cuidada por uma moça hebreia, bem mais jovem que a outra.
— Tem algum problema? — Perguntei quando a vi de olhos fechados.
— Não. Ela está bem. Só descansando. — Ela respondeu. — Eu vou deixar vocês dois à sós. — Disse saindo de perto.
Depois que ela saiu, comecei a observar Chione. Ela estava de olhos fechados, deitada em uma cama simples de madeira e palha. Assim que me aproximei, ela abriu os olhos.
— Desculpe, não queria te acordar.
— Não estava dormindo, só fechei os olhos.
— Você está bem?
— Ainda estou sentindo um pouco de dor. Mas tá tudo bem comigo.
— Que bom que você está bem.
— Queria te agradecer, Bakenmut. Se não fosse por você, nem sei o que seria de mim e do meu filho.
— Eu só fiz o que eu achava o que eu deveria fazer. — Olhei em seus olhos.
— Só não entendo por que quis me ajudar. Nós pouco nos conhecemos e tudo o que você fez era tão arriscado.
— Pra te falar a verdade, eu não sei. Só sei que eu senti essa vontade. Não sei direito o que está passando na minha cabeça. Todas essas pragas e mortes…
— Não dá pra ficar indiferente com tudo isso.
— Com certeza eu não serei mais o mesmo depois de tudo. — Virei a cabeça para os lados.
— E isso é uma coisa ruim?
— Eu não sei…
— Desculpa eu falar isso. Mas todos do Egito sabem como você é e age com as pessoas. Depois do que eu vi, acho que no fundo você pode ser um homem bom. — Deu um sorriso fraco.
— Acho que é tarde demais pra eu pensar nisso.
— Acredito que nunca é tarde para fazer as escolhas certas. Eu também fiz muita coisa errada na vida. Se pelo menos eu tivesse feito diferente…
— O que importa agora é que você vai ficar bem. — Dei um sorriso fraco.
— Eu espero que você fique bem também.
— Eu vou ficar. Falando nisso, eu tenho que ir.
— Mas já? Você não pode ficar mais um pouco.
— Eu já fiquei tempo demais aqui por causa dessa praga. E depois, Ramsés não pode sequer desconfiar que eu vim aqui pra vila pra te ajudar. Sem falar que, o palácio certamente está um caos que eu nem quero imaginar. Eu preciso ir. — Estendi minha mão para ela.
— Tudo bem. — Ela pegou na minha mão. — Obrigado por tudo, Bakenmut.
Assenti com a cabeça e me afastei. Depois fui até o canto onde eu estava deitado antes e peguei meu capacete que estava jogado. Pude perceber o péssimo estado em que estava. O tecido branco que estava em minha cintura estava bem sujo de terra. O bracelete do meu braço esquerdo tinha um pequeno rasgo. Além da areia que entrava em minhas sandálias. Dei uma pequena aprumada na farda torcendo para que ninguém percebesse o que aconteceu. Mas depois da tragédia ter acontecido, ninguém se importaria com isso.
Saí da pequena casa simples, e a medida que me afastava, pude ver que a família hebreia que havia sumido, estava do lado de fora. Me escondi em uma das paredes para poder observar melhor. Hur e Bezalel estavam ajoelhados chorando pela morte de Uri. Eles rasgaram as próprias vestes e estavam esfregando a areia do chão nos próprios corpos. Nunca entendi esse costume dos hebreus de fazerem isso. Mas dava pra ver o quanto eles estavam mal pela morte dele. Era tão estranho ver aquela cena, e ao mesmo tempo tão triste.
Me afastei e saí da vila dos hebreus. Fazia caminhos diferentes e tentava me esconder o máximo que pudia, pois jamais poderia ser visto. A sorte é que eu era muito ágil em me esconder e me camuflar, era o melhor do exército nisso. Mas a tarefa de me esconder estava sendo mais difícil que eu esperava.
Durante todo o caminho, eu ouvia gritos e mais gritos. Homens e mulheres, completamente desesperados, andavam pelas ruas. Homens seguravam seus primogênitos mortos nos braços e mulheres apareciam chorando ajoelhadas. Eram cenas que pareciam se repetir em todo o Egito. Os gritos de choro soavam alto continuamente, me deixando em um desespero aterrorizante.
Cheguei no palácio e vi as portas completamente vazias, provavelmente os guardas devem ter fugido ao verem aquelas faixas de luz cortando o céu. Abri o grande portão com uma certa dificuldade por estar vazio e pude ouvir os mesmos choros que escutei durante todo o caminho para a volta. Nitidamente sinalizando o que me esperava.
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