Segredos em Um Jardim Élfico
7 Uma Mente Afiada como Lâmina
O salão já esvaziava lentamente quando Zara, agora sentada de maneira absolutamente nada “élfica” ao lado de Elrond, inclinou-se sobre o mapa estendido à mesa.
Elrond, sempre diplomático, explicava a movimentação de patrulhas no oeste quando ela o interrompeu sem cerimônia:
— Esse percurso aqui — disse, apontando com o indicador coberto de migalhas — está largo demais. Vocês estão pedindo para serem vistos. Orc pode ser burro, mas olho bom ele tem. Encorrala fácil um grupo que anda espalhado.
Elrond ergueu as sobrancelhas, considerando.
— A via larga facilita a movimentação da cavalaria — ele argumentou.
— Só se estiver tudo calmo — rebateu ela, já puxando outro pergaminho. — Numa situação de ataque, vocês viram alvo. Vocês têm boas montarias, mas orcs… orcs têm pressa. E não ligam se estão correndo em lama até os joelhos. — Ela ergueu o olhar para ele. — Use a vantagem que vocês têm: altura e silêncio. Faz uma rota paralela por dentro dos bosques. A curva aqui — ela marcou com tinta — deixa eles expostos por menos de um minuto. É tempo suficiente para surpreender quem estiver esperando.
Elrond olhou o ponto.
E seu rosto mudou.
— Gil-galad — chamou, ainda analisando — ela tem razão. Esse corte na mata… nunca considerei essa linha de avanço.
Gil-galad se aproximou devagar.
Não havia pressa nele.
O rei raramente tinha pressa.
Seu movimento era da mesma natureza da lua sobre Lindon: constante, sereno, impossível de ignorar.
Zara, porém, continuava concentrada como se estivesse dando instruções no campo de batalha:
— E aqui vocês erram feio, desculpe a franqueza — acrescentou, marcando outra seção. — Vocês subestimam a inteligência maligna deles. Acham que eles vão sempre atacar em massa, de frente. Ordinário demais. Fazem isso quando querem assustar. Quando querem matar, vêm pelas sombras. Vocês precisam de duas unidades menores para contra-emboscadas. Colocam atiradores aqui e aqui.
Elrond a observava com atenção absoluta.
Gil-galad também.
Mas a forma como o rei a observava… era diferente.
Ele via uma mente que funcionava como uma lâmina recém-forjada — quente, precisa, flexível.
Via alguém cuja visão estratégica não apenas rivalizava com grandes comandantes élficos… mas os superava em audácia.
E algo dentro dele — algo antigo, profundo — registrou esse fato com uma espécie de fascínio instintivo.
Ela pensa como um general. Mas luta como uma tempestade. E fala como se não houvesse diferença entre a guerra e respirar.
Enquanto analisavam o mapa, Zara explicava as táticas como se narrasse algo óbvio — para ela era. Para eles… era revelador.
— Essa sua… ousadia — comentou Elrond, sorrindo com genuína admiração — pode salvar vidas. De fato, nunca ouvi alguém descrever os orcs dessa forma tão pragmática.
Zara deu de ombros.
— Observação. E sobrevivência. Eles não pensam como vocês. Eu não penso como eles. Eu penso pra ficar viva e manter os meus vivos. — E completou, como se isso encerrasse o assunto: — Simples.
Gil-galad inclinou a cabeça, estudando cada feição dela.
E era impossível não pensar em Galadriel — a determinação inabalável, a habilidade com armas, o intelecto rápido.
Mas Zara… Zara tinha outra luz.
Menos polida.
Mais bruta.
E, paradoxalmente, mais brilhante.
Uma estrela que decidiu arder sozinha no escuro, pensou ele.
— Me pergunto — disse o Alto-Rei, de forma suave, quase meditativa — como alguém com habilidades tão raras permaneceu tanto tempo escondida entre os limites do próprio povo.
Ela ergueu o olhar vagarosamente na direção dele.
— Não estou escondida — corrigiu-o, firme. — Só não me preocupo em ser vista.
Gil-galad sorriu, baixando os olhos, sempre discreto.
Um sorriso que fez o estômago dela revirar involuntariamente.
Ele não respondeu. Mas o pensamento ficou evidente em seus olhos dourados:
Você foi vista. E eu jamais me esquecerei.
O sol avançava através das janelas altas quando um mensageiro o chamou discretamente.
— Alto-Rei, o Conselho já o aguarda.
Gil-galad assentiu com serenidade.
— Deveres chamam — comentou, num tom que soou desapontado para ela e olhou para ela. — Espero que se sinta à vontade em minha casa, Comandante Dulórien.
Ela deu um semi sorriso e cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha.
— Vou tentar não tropeçar em nada dourado.
Elrond tossiu, tentando esconder o riso.
E o rei… o rei apenas deixou escapar um brilho divertido.
— Lindon pertence à luz — disse ele, em despedida. — Que ela guie seus passos.
Ela apenas assentiu, de forma suave.
Mas enquanto Gil-galad se afastava, ele sentiu — de forma intensa, inesperada — o magnetismo dela o acompanhando.
Mesmo sem olhar para trás, ele sabia:
Ela ainda estava o observando.
E Zara, estranhamente e até em tom de auto recriminação, não conseguia tirar os olhos da figura dele.
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