Zara fora acompanhada por duas elfas pelas longas passarelas elevadas de Lindon.

Elas caminhavam em silêncio — elegante, disciplinado, o típico silêncio desconfortável para qualquer Dulórien.

A meio-elfa tentava não parecer impressionada, mas cada detalhe do palácio parecia feito justamente para impressionar:

Arcos tão altos que pareciam tocar o vento.

Esculturas tão leves que poderiam voar.

Tecidos dourados que ondulavam mesmo sem brisa.

Zara franzia o cenho a cada dez passos.

— Vocês fazem tudo… brilhar? — perguntou, apontando para um conjunto de cortinas.

A elfa à sua esquerda sorriu pacificamente.

— A luz é uma dádiva, senhora Dulórien. A refletimos sempre que possível.

— Bom — murmurou Zara — no meu povo a gente reflete mais o suor mesmo. Mais prático.

As duas elfas sorriram — daquela forma doce e compassiva típica dos que acreditam que o mundo sempre será gentil.

Zara revirou os olhos.

Quando abriram a porta, Zara parou.

E piscou.

Muito.

O quarto era… enorme.

As janelas iam do chão ao teto, revelando uma vista ampla do mar cintilante.

Tecidos dourados se misturavam com branco e prata.

Havia arranjos florais que exalavam um perfume tão delicado que a lembrava da primavera em seu lar.

A cama era tão fofa que parecia feita de nuvens de luz.

Zara cruzou os braços.

— Eles querem me matar sufocada em plumas? — comentou alto.

A elfa sorriu.

— Esperamos que se sinta confortável.

— Confortável? — Zara passou os dedos pelo tecido da cama. — Isso aqui me engole. No meu povo, se a cama não faz a gente acordar com uma dorzinha na lombar, está macia demais.

As elfas tentaram manter a compostura.

Falharam miseravelmente.

Riram baixinho.

Zara, por sua vez, abriu um baú no canto e encontrou roupas limpas, leves, claramente mais elegantes do que qualquer peça que ela já usara.

— Elfos não sabem fazer roupa resistente, né? É tudo muito… fino. Se eu cair numa vala, isso rasga.

— Acreditamos que não cairá em uma vala dentro de Lindon — respondeu a elfa com doçura.

— Você ficaria surpresa — murmurou Zara, largando o tecido como se fosse perigoso.

Por fim, as elfas saíram, fechando a porta com a graciosidade habitual.

Zara respirou fundo.

Sozinha.

E por alguns instantes, deixou cair a guarda.

Aquele lugar… era bonito. Era leve. Era feito de luz e música.

E apesar de tudo dentro dela gritar que aquilo era território estranho, diferente, arriscado…

parte dela se sentia bem.

Mas ela afastou essa sensação imediatamente.

— Concentra, Zara — murmurou para si mesma. — Você veio aqui pra cumprir uma obrigação. Nada mais.

Até porque, quanto mais bonita a prisão, mais fácil esquecer que ainda é uma prisão.

Ela se jogou na cama — que, de fato, quase a engoliu — e soltou um gemido de frustração e surpresa.

— Que droga… é realmente confortável.

Já era um pouco tarde para o início das atividades do Conselho. Mas o que incomodava Gil-galad,— e compreenda que para um rei élfico milenar, poucas coisas realmente o incomodariam — era que ele mal conseguia prestar atenção nas discussões e queixas que chegavam até ele.

Tinha diante de si três pergaminhos, dois conselheiros falando ao mesmo tempo e uma mapa das rotas marítimas do Golfo de Lhûn que requeriam sua aprovação.

Nada.

Absolutamente nada penetrava sua mente.

O rei fitava o vazio, aparentemente sereno… mas internamente havia um caos cálido e insistente.

Ela pensa como um general veterano.

Fala com a franqueza de um mortal que não teme coroas.

Luta como se cada golpe fosse uma promessa.

E aquela presença… tão viva, tão indomável…

Gil-galad respirou fundo, recostando-se na cadeira.

Pela primeira vez em eras, sentiu algo que não sentia desde a juventude:

Curiosidade verdadeira.

Atração genuína.

E uma inquietação que queimava sob a pele, suave e constante.

Elrond, atento, inclinou-se discretamente para ele.

— Alto-Rei — sussurrou — o senhor está em silêncio há quase cinco minutos.

Gil-galad piscou, retornando.

— Cinco?

— … Quase seis.

O rei pigarreou, recompôs o semblante e sinalizou para que o conselheiro continuasse.

Mas sua mente?

Sua mente estava nos aposentos dos convidados do palácio, onde uma certa guerreira provavelmente estava desmontando alguma peça de decoração só para entender como funcionava.

Como alguém assim passou despercebida por tanto tempo?

E por que sinto como se… já a conhecesse?

A imagem do sonho voltou a ele.

A mulher na luz da lua.

A voz doce, distante, que sussurrou palavras tão doces como mel.

Gil-galad fechou os olhos por um instante.

Quando os abriu, questionou em um ato que mal teve tempo de compreender racionalmente:

— Elrond — disse ele, em tom baixo — quando terminarmos aqui, quero saber em qual parte de Lindon nossa convidada está instalada.

Elrond tentou não sorrir.

— Curiosidade estratégica, imagino?

Gil-galad voltou seu olhar para ele — um olhar imponente, firme, mas suavizado por uma centelha que Elrond conhecia bem demais.

— Digamos — respondeu o rei — que desejo garantir que a luz de Lindon… não seja intensa demais para ela.

Elrond inclinou a cabeça, respeitoso — e totalmente divertindo-se.

— Como desejar, meu rei.

Gil-galad então voltou a atenção ao Conselho.

Ou pelo menos tentou.

Porque no fundo da mente dele, algo o chamava.

Algo que já conhecia seu nome.

E não importava o quanto tentasse ignorar…

A presença de Zara Dulórien brilhou dentro dele como uma estrela recém-desperta.