Segredos em Um Jardim Élfico
33 Um Primeiro Bater de Asas
O mármore frio contrastava com o calor que ainda emanava do corpo de Zara.
Ela foi deitada com extremo cuidado. Curandeiros se moveram em perfeita sincronia, mãos luminosas, ervas, tecidos élficos, palavras antigas murmuradas como preces.
Gil-galad permaneceu ali.
Não como rei. Como marido.
— Majestade… — um curandeiro hesitou. — Precisamos de espaço.
Ele não se afastou.
— Façam o que tiverem de fazer. — disse. — Eu não saio.
Zara gemeu baixo, o corpo se contraindo levemente.
— Gil… — murmurou, sem abrir os olhos.
Ele se inclinou de imediato, tomando-lhe a mão.
— Estou aqui. — disse, a voz quebrada. — Não ouse ir embora agora.
Ela respirou fundo, como se lutasse contra algo invisível.
— Frio… — sussurrou.
Ele levou a mão dela ao próprio peito, ignorando o olhar dos curandeiros.
— Pegue o meu calor então. — disse. — Tudo o que é meu é seu.
Um dos elfos curandeiros trocou um olhar rápido com outro.
— Há algo… estranho. — disse em voz baixa. — O ferimento principal não explica toda a fraqueza.
Elrond se enrijeceu.
— O que quer dizer?
— O corpo dela reage como se estivesse… defendendo algo mais. — respondeu com cautela. — Não afirmo nada. Apenas observo.
Gil-galad ergueu o olhar lentamente.
— Não me esconda nada.
— Não ousaria. — respondeu o curandeiro. — Mas agora o mais importante é estabilizá-la. O resto… o tempo dirá.
O tempo.
A palavra soou cruel.
Zara voltou a se agitar, a respiração falhando por um instante que fez o coração de Gil-galad quase parar.
— Não… — ele sussurrou, inclinando a testa à dela. — Fique comigo. Eu ainda tenho tanto para viver ao seu lado.
As mãos dela apertaram fracamente as dele.
— Não brigue… — murmurou, confusa. — Eu voltei…
Ele fechou os olhos, vencido.
— Eu sei. — disse. — E eu nunca mais vou permitir que te levem de mim.
As luzes élficas se intensificaram ao redor dela, envolvendo-a como um casulo delicado.
Do lado de fora, Lindon mantinha a respiração suspensa.
E pela primeira vez desde o resgate, Gil-galad sentiu algo que nenhuma batalha lhe ensinara a enfrentar: o medo absoluto de perder tudo sem poder lutar.
A noite caiu sobre Lindon como um véu de cristal.
No Salão de Cura, apenas a respiração frágil de Zara quebrava o silêncio, ritmada pelas luzes suaves que os curandeiros mantinham ativas. Gil-galad permanecia sentado ao lado do leito, imóvel havia horas — talvez dias. Já não sabia.
A coroa repousava esquecida sobre uma mesa próxima. O manto dourado havia sido deixado de lado. Ali, não havia Alto-Rei.
Havia apenas Ereinion, filho das estrelas, um homem cansado demais para continuar fingindo que o dever sempre fora suficiente.
Ele segurava a mão de Zara com ambas as suas, como se temesse que, ao soltá-la, ela se perdesse para sempre.
— Volte… — murmurou, quase inaudível. — Mesmo que seja só para me caçoar mais uma vez.
O cansaço, antigo como as próprias eras, enfim o alcançou.
E o sono o tomou.
Ele estava caminhando.
Não sabia onde, mas reconhecia tudo.
Os jardins élficos se estendiam diante dele, vastos e silenciosos, banhados por uma luz branda que não vinha do sol nem da lua, mas de algo mais antigo. As árvores cantavam em murmúrios suaves, e o ar parecia feito de lembrança.
Ele olhou para as próprias mãos.
E eram pequenas.
Era um menino novamente.
Viu-se correndo pelos corredores de um reino que ainda não compreendia, ouvindo nomes sussurrados com respeito e expectativa excessiva. Sentiu o peso de olhares que esperavam grandeza antes mesmo que ele aprendesse a falhar.
As perdas vieram como sombras longas.
Rostos amados desaparecendo. Guerras. Decisões que custaram vidas. A solidão da coroa pousando sobre sua cabeça cedo demais.
— Aguente — diziam as vozes. — Você nasceu para isso.
Ele se viu adulto.
A coroação.
O ouro.
O poder.
E o vazio.
Até que o sonho mudou.
Zara surgiu.
Não como rainha.
Não como comandante.
Mas como ela sempre fora: intensa, viva, com o olhar que desafiava e salvava ao mesmo tempo.
Viu o primeiro encontro. O choque. A paixão que incendiou muros antigos. O afastamento cruel. A escolha errada. O arrependimento que nunca cessou.
Depois, o reencontro.
O casamento.
Dias simples. Risos raros, mas verdadeiros. O toque dela nos jardins. A maneira como ela o chamava pelo nome antigo quando queria quebrar sua armadura.
— Ereinion… — a voz ecoou.
Ele avançou.
E então ouviu.
Risos.
Não apenas dela.
Havia outra voz.
Mais leve.
Mais pura.
Como o tilintar de água em pedra.
Zara estava ali, à frente, sob uma árvore de folhas prateadas. Usava uma túnica clara, solta, os cabelos soltos dançando com o vento.
Nos braços, ela segurava uma criança.
Um menino.
Ainda muito pequeno, mas já forte, com longos cabelos escuros e olhos que refletiam as estrelas. As feições eram inconfundíveis.
Eram dele.
O menino ria, tocando o rosto da mãe, depois estendia a mão na direção de Gil-galad, como se o reconhecesse.
O coração dele quase se partiu.
— Zara… — ele sussurrou.
Ela sorriu.
Um sorriso sereno, completo, sem dor.
E então, das próprias árvores, do céu, da terra antiga, uma voz ecoou em quenya antigo, profunda como o tempo:
“Abraça teu futuro, filho das estrelas.”
O menino riu mais alto.
E a luz ao redor deles se intensificou até tudo se dissolver.
Gil-galad despertou com um sobressalto.
O Salão de Cura voltou, silencioso, imóvel.
Zara ainda jazia inconsciente.
O medo tentou se instalar novamente — até que ele viu.
Uma luz.
Tênue.
Quase imperceptível.
Mas ali.
Emanava do ventre dela.
Não como feitiço.
Não como magia explícita.
Mas como algo antigo, natural, sagrado.
Ele se levantou devagar, ajoelhando-se ao lado do leito, incapaz de conter as lágrimas que escorriam em silêncio.
— Então… é isso. — murmurou, a voz quebrada. — Você não está sozinha. Nenhum de vocês está.
Ele pousou a mão com extremo cuidado sobre o ventre de Zara, como se pedisse permissão até ao próprio mundo.
— Eu prometo. — sussurrou. — Não fugirei. Não vacilarei. Não deixarei que a história se repita.
A luz pulsou suavemente.
Como uma resposta.
Como um coração aprendendo a bater.
E naquela madrugada silenciosa, enquanto Lindon dormia sem saber, o futuro do Alto-Rei dos Noldor respirava pela primeira vez — invisível, frágil, mas real como as estrelas que lhe deram nome.
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