Segredos em Um Jardim Élfico
34 Nenhum Brilho Satisfaz os Cegos de Alma
Zara despertou como quem retorna de muito longe.
Não houve sobressalto. Não houve pânico. Apenas uma lenta consciência do corpo — o peso dos lençóis, o aroma conhecido das ervas élficas, o calor suave que envolvia o ambiente. Sua respiração veio primeiro cautelosa, depois mais firme.
Abriu os olhos.
A luz era branda, filtrada pelas cortinas claras do Salão de Cura. Por um instante, pensou estar sozinha. Mas então sentiu.
Uma presença.
— Você voltou. — disse uma voz baixa, contida, próxima demais para ser ignorada.
Zara virou levemente o rosto.
Gil-galad estava ali, sentado ao lado do leito, os traços marcados por noites mal dormidas. Não vestia a coroa. Os cabelos estavam soltos, os olhos atentos demais, como se temesse que ela desaparecesse novamente se piscasse.
— Parece que sim… — murmurou, com um fio de ironia fraca. — Não foi dessa vez que consegui fugir de você.
Ele sorriu — um sorriso pequeno, aliviado, quase quebrado.
— Não ouse tentar isso outra vez. — disse. — Já me custou mais do que batalhas inteiras.
Ela respirou fundo, testando o próprio corpo. Havia dor, sim — mas distante, controlada. Algo, porém, parecia… diferente. Um cansaço profundo, estranho, que não reconhecia como ferimento.
Zara franziu o cenho, mas não comentou.
— Elrond? — perguntou.
— Está bem. — respondeu Gil-galad.
Ela assentiu, em silêncio.
Por um momento, nenhum dos dois falou. As palavras pareciam perigosas demais.
Foi Gil-galad quem quebrou o silêncio.
— Eu sonhei. — disse, com cuidado.
Zara voltou os olhos para ele.
— Era sobre mim? — perguntou, cautelosa.
— Sobre nós. — corrigiu. — Sobre o passado… e sobre algo que ainda não existe.
Zara desviou o olhar por um instante.
— E o que aconteceu?
— Vi um futuro possível. — disse. — Jardins. Luz. Você… sorrindo de um jeito que eu só vi poucas vezes. E uma criança.
O ar pareceu ficar mais denso.
Zara permaneceu imóvel.
— Um filho. — completou ele, com voz baixa. — Um menino. Não como certeza. Mas como promessa. Como algo que poderia existir… se Eru permitir.
Ela respirou fundo.
— E você veio me dizer isso agora? — perguntou, com uma ponta de ironia defensiva. — Enquanto ainda mal consigo me sentar?
— Vim dizer que, se um dia isso acontecer… — ele respondeu, aproximando-se um pouco mais. — Não será peso. Não será exigência. Não será ferramenta de Corte ou de Conselho.
Ele tocou a mão dela com extremo cuidado.
— Será alegria. Para mim. Para nós.
Zara engoliu em seco.
Algo dentro dela se moveu — não dor, não medo — mas um reconhecimento silencioso. Ainda assim, ela não se permitiu nomear.
— Você sempre foi bom em falar do futuro. — disse, desviando o olhar novamente. — Mas por hora, deixemos isso em pausa, por favor…Ainda estou muito cansada.
— Então descanse, meu amor. — respondeu. — Você está viva. Está comigo. Estarei do seu lado e não sairei.
Ela assentiu.
Mas quando levou a mão instintivamente ao ventre — um gesto rápido, quase inconsciente — Gil-galad viu.
E guardou aquilo em silêncio.
Enquanto isso, fora do Salão de Cura, Lindon murmurava.
— A Rainha sobreviveu…
— Sobreviveu… mas por quanto tempo ficará afastada?
As palavras nunca eram ditas em voz alta demais. Mas viajavam rápidas pelos corredores dourados.
— Uma união recente…
— Uma rainha de sangue misto…
— E agora… sequestrada e ferida…
Um conselheiro mais antigo comentou, com falsa neutralidade:
— O futuro de Lindon exige estabilidade. Descendência clara. Continuidade.
Outro respondeu, mais cauteloso:
— Ou talvez… algo novo demais para tempos tão antigos.
Ninguém ousou dizer filho em voz plena.
Mas o pensamento já estava plantado.
E como toda semente em solo élfico…cresceria.
Os dias passaram como folhas levadas por um vento brando.
Zara se recuperava bem — rápido demais para quem enfrentara aço, tortura e quase não retornara. Os curandeiros comentavam em voz baixa sobre sua força incomum; Elrond observava com atenção silenciosa; e Gil-galad… Gil-galad observava tudo.
Ela caminhava melhor. A cor voltava ao rosto. O olhar, porém, carregava algo novo — um brilho contido, inquieto, como se estivesse constantemente avaliando a si mesma.
Naquela tarde, Gil-galad retornou mais cedo aos aposentos que compartilhavam provisoriamente. O Salão estava silencioso demais.
Foi quando ele a viu.
Zara estava diante do grande espelho de moldura prateada, usando uma túnica leve demais para o clima. O tecido caía solto sobre o corpo, mas suas mãos repousavam ali — no ventre.
Não em proteção.
Em observação.
O olhar dela era sério, quase desconcertado, como se o reflexo lhe devolvesse perguntas que ela não queria responder.
Gil-galad parou onde estava.
Não se moveu.
Não falou.
Ela suspirou fundo, desviou o olhar do espelho e então percebeu a presença dele refletida atrás de si.
— Você anda silencioso demais para um rei — disse, rápido demais, afastando as mãos como quem é pega em falta. — Vai acabar assustando alguém.
Ele sorriu de leve.
— Perdoe-me. — respondeu. — Não quis interromper.
Ela virou-se, já compondo a postura habitual — firme, controlada.
— Os curandeiros disseram que estou liberada. — disse, mudando o assunto. — Posso voltar aos aposentos oficiais ainda hoje.
O coração dele apertou pela forma como ela falava, como se estivesse erguendo uma muralha invisível entre eles.
— Isso é… bom. — respondeu. — Lindon sentirá sua presença novamente.
— Sim. — ela assentiu. — Já fiquei tempo demais afastada.
Ele se aproximou devagar.
— Eu pensei… — começou, com cuidado. — Que talvez quiséssemos aproveitar esses dias. Sem Conselho. Sem sussurros. Apenas nós.
Zara desviou o olhar.
— Eu ainda me sinto… estranha. — disse. — Não quero que me veja fraca outra vez.
Gil-galad franziu levemente o cenho.
— Você nunca foi fraca.
— Não me refiro à espada. — respondeu ela, num tom mais baixo. — Há coisas… que não compreendo ainda.
Ele a observou com atenção redobrada.
O modo como ela evitava sua proximidade.
Como se afastava quando ele tentava tocá-la por mais tempo.
O cansaço que vinha rápido demais.
O leve desconforto quando respirava fundo.
E aquele gesto diante do espelho.
Ele sabia.
Mas não disse.
Apenas estendeu a mão, oferecendo — não exigindo.
— Se precisar de espaço, eu respeito. — disse. — Mas não confunda isso com ausência. Eu estou aqui.
Ela hesitou antes de aceitar a mão dele.
— Você sempre percebe demais. — murmurou.
— É parte da maldição de amar você. — respondeu com suavidade.
Ela soltou um meio sorriso — breve, quase involuntário.
— Eu só… — respirou fundo. — Quero ter certeza antes de qualquer coisa.
O olhar dele pousou brevemente, quase imperceptível, sobre o ventre dela — não como confirmação, mas como promessa silenciosa.
— Então teremos tempo. — disse. — Todo o tempo que precisar.
Ela assentiu.
E naquela noite, por mais que desejasse novamente tê-la em seus braços, ele apenas se acomodou ao seu lado, velando o sono dela como algo precioso. E Gil-galad, por um instante, sentiu.
Aquela presença diferente.
Aquela vida discreta, ainda sem nome.
E decidiu, em silêncio, que não pressionaria o destino.
Porque algumas verdades precisam nascer no tempo certo — assim como as estrelas.
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