O sol ainda não havia tocado os telhados dourados de Lindon quando Zara deixou o quarto. A noite tinha sido uma desastre e pouco descanso seu corpo ou espírito teve.

As amas mal tiveram tempo de trançar os cabelos dela antes que ela colocasse um traje de montaria simples, verificasse a espada, amarrasse as botas e anunciasse, com a voz firme:

— Não me esperem antes do meio-dia. Apenas quero que me arrumem rápido água, pão e algumas frutas… e mantenham silêncio. Absoluto! — fez um movimento com o dedo, impaciente.

As amas se entreolharam, quase acostumadas àquela dureza, mas percebendo o desassossego que a guerreira tentava desesperadamente esconder.

Quando Zara montou em Melfa e partiu pelo portão leste, a luz do amanhecer ainda era apenas uma linha tênue no horizonte. O animal disparou, e o vento cortou a tensão acumulada no peito dela — mas só por um instante.

Porque nada… absolutamente nada… acalmava o pensamento que insistia em retornar ao quase toque do Alto-Rei.




Gil-galad havia dormido menos que ela.

A noite fora longa.

Inquieta.

Cruel.

Ele se levantou antes do canto dos primeiros pássaros, o rosto impecavelmente composto, mas a mente em completo caos. Enviou Elrond aos salões de estudos com mapas e pergaminhos, planejando chamar Zara para aprofundar estratégias. Ou simplesmente passar alguns momentos na companhia dela. Não sabia ao certo. O convite ainda estava fresco em sua mente.

Mas quando chegou à porta dos aposentos dela…

— Ela saiu, Alto-Rei — informou uma das amas, baixando a cabeça. — Antes do nascer do sol. Apenas pediu que pudéssemos preparar provisões para se alimentar e partiu sozinha.

Gil-galad fechou os olhos por um instante.

Uma parte dele queria montar seu cavalo e ir atrás dela.

Outra sabia que isso a espantaria como vento forte afugenta uma chama frágil.

E então ele apenas murmurou:

— Deixem-na. — mas sua voz traía a preocupação. — Ela … deve sentir-se à vontade.

Apesar do esforço, a ansiedade acompanhou-o durante toda a manhã.

E por toda a tarde.

Elrond observou, silencioso, enquanto o rei tentava ler pergaminhos e falhava três vezes na mesma linha.

Algo estava errado.




O som de passos urgentes ecoava pelos corredores prenunciando a urgência.

— Alto-Rei!! — um guarda bateu à porta do conselho. — Os salões de cura pedem sua presença. A… visitante Dulórien foi trazida ferida.

Gil-galad levantou tão rápido que a cadeira quase tombou.

Elrond ficou pálido.




Quando Gil-galad entrou nos salões de cura, o mundo pareceu encolher até existir só ela.

Zara estava sentada na maca, as vestes parcialmente rasgada, sangue seco no ombro e na cintura, respiração pesada. Porém, ao perceber a entrada do Alto-Rei, endireitou-se imediatamente, tentando esconder o corte mais profundo.

— Zara… — Gil-galad pronunciou seu nome como se a vida dependesse disso.

Ela estreitou os olhos.

— É só um arranhão — disse, forçando dureza na voz.

O curandeiro élfico olhou o rei desesperado, como quem implora ajuda.

Gil-galad aproximou-se devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse fazê-la fugir.

— Estava com a patrulha? — perguntou, estremecendo ao ver o machucado no flanco dela.

— Eles foram cercados por orcs iniciantes… sem disciplina. — Zara respirou fundo, a dor latejando. — Eu só… fiz o que precisava. Não ia deixar aqueles garotos morrerem.

A mão de Gil-galad tremeu quase imperceptivelmente.

Ela os protegeu.

Sozinha.

— Sente dor? — perguntou ele, a voz inesperadamente suave.

— Não mais do que senti em outras vezes — ela retrucou. — Já estou acostumada.

Mas quando tentou descer da maca, perdeu o equilíbrio por um segundo.

Gil-galad segurou-a pelo braço.

E o mundo congelou.

A pele dela — quente, firme, viva.

A mão dele — forte, protetora, desesperadamente cuidadosa.

Ela o encarou, surpresa.

Ele… não.

Ele a olhava como se aquela imagem estivesse marcada em fogo em sua alma.

— Permita-se ser cuidada — murmurou, os olhos presos nos dela. — Não como comandante. Não como guerreira. Mas como… você.

Zara engoliu seco.

— Não preciso de…

— Precisa. — a voz dele saiu baixa, intensa, quase íntima demais. — Pelo menos uma vez, permita que alguém proteja você.

Ela desviou o olhar, o coração batendo forte demais.

Por que ele fala assim? Por que olha assim? Por que… sinto assim?

Ele tocou o rosto dela de leve, afastando um fio de cabelo molhado de suor e sangue.

Zara ficou completamente imóvel.

— Quando a trouxeram… — Gil-galad confessou em sussurro — por um instante achei que tivesse… a perdido. E isso… isso não consigo explicar.

Zara respirou fundo, sentindo algo ruir dentro de si.

Não era mais um rei olhando uma comandante.

Era um homem olhando uma mulher.

Um homem que temia perdê-la.

Um homem que… sentia.

E por Eru, aquilo a feria mais do que qualquer espada poderia. Porque a parte mais profunda de sua alma — a parte que ela tentava sufocar desesperadamente — sentia talvez a mesma coisa de volta.




Elrond, à porta, assistia tudo em silêncio.

Ele viu muito mais do que palavras diziam.

A batalha mais perigosa estava apenas começando.

E não era contra orcs.

Era contra seus próprios corações.




Zara dormiu na ala de cura. O ferimento apesar da profundidade, não deu sinais de infecção ou causou maiores problemas. O dia seguinte se deu com a visita de Elrond para vê-la. Ela permaneceu na expectativa de ver Gil-galad porém com a notícia do ataque, ele resolveu tomar providências pessoalmente para assegurar a segurança em seus domínios novamente, coisa que ocupou-o o dia inteiro.

Mas Zara, com um espírito tão livre e aventureiro tal como uma criança não se conteve mais em seu leito e no fim da tarde saiu para o jardim, de forma esquiva para não ser vista, principalmente pelas amas que faltavam-lhe pegar no colo de preocupação e cuidado.

O rio corria manso, como se aquele trecho secreto dos jardins tivesse sido moldado apenas para esconder segredos — e testemunhar rupturas.

Zara caminhava devagar, o corpo ainda dolorido pelo confronto mas a mente inquieta demais, quase que torturando sua alma. A luz dourada do fim da tarde riscava sua pele quando ela desabotoou o vestido, deixando-o cair sobre a relva úmida. Ficou apenas com a túnica leve, fina demais para proteger, perfeita para libertar.

Ela respirou fundo, sentindo o ar fresco — livre, indomável.

Então correu alguns passos para tomar impulso e mergulhou, quebrando a superfície do rio com um estilhaço de prata. A água ainda morna abraçou seu corpo com uma paz que nenhum salão élfico seria capaz de lhe oferecer.

Ali, pela primeira vez desde que chegara, Zara se sentiu confortável.

Mas o destino, sempre faminto, não a deixaria escondida por muito tempo.

O som suave de um galho sendo deslocado.

O silêncio que se dobra ao redor de uma presença poderosa.

Um arrepio que percorreu sua espinha.

Zara virou-se, como se sem palavras algo a chamasse.

E o encontrou.

Gil-galad estava ali, imóvel, na beira do pequeno rio, como se o mundo o tivesse conduzido àquele exato ponto — e como se o próprio mundo prendesse agora o fôlego. A expressão dele era uma mistura perfeita de surpresa, reverência e algo muito mais perigoso: admiração sem mais disfarces.

Ele não deveria estar ali.

Ou talvez… deveria.

Zara sentiu o coração tropeçar dentro do peito, como se tentasse fugir.

Depressa nadou até a margem, tentando controlar a respiração — não pela água, mas pela presença que conseguia tirar seu fôlego sem muito esforço.

— Alto-Rei… — ela murmurou, ofegante, subindo a margem às pressas, a túnica colada ao corpo como uma revelação. — Perdoe-me. Eu não sabia que —

— Zara — a voz dele a interrompe, baixa, grave, carregada de algo novo. — O que está fazendo?

Ela ergueu o rosto, tentando vestir a postura firme que sempre manteve.

— Hã… tentando apenas…não ficar louca de vez, eu acho. — disse sem conseguir sustentar o olhar por mais de um segundo.

Mas Gil-galad deu um passo. Ainda na beira do lago, ele estava praticamente na frente da passagem para os jardins, sendo impossível ela passar sem que ele permitisse.

O coração dela parecia que tinha tomado vida própria e lutava para sair de dentro do corpo.

Ele deu outro passo.

E mais um.

A distância entre eles se reduziu. A respiração de Zara acelerou, o corpo inteiro desperto.

Ela o encarava num misto de ansiedade e uma estranha familiaridade, como se a presença dele fosse… importante demais.

Ele ergueu a mão, como se fosse tocar sua face e ela recuou um meio passo — não por medo, mas por sentir que não existiria mais volta se permitisse o gesto.

— Não devia estar fora dos salões de cura — ele murmurou, a voz quase um toque. — Está ferida.

— Estou bem — ela sussurrou, embora seus dedos tremessem levemente. — Já disse isso.

Gil-galad a observava como se ela fosse uma estrela que ele passara a vida vendo de longe — e só agora se deu conta de que podia tocar.

— Você sempre diz que está bem — ele respondeu, suave, aproximando-se mais — mesmo quando não está. Mesmo quando sangra. Mesmo quando… foge de mim.

Zara prendeu o ar.

Ele notou.

Ele sempre notava.

E então, por um instante, os dois ficaram imóveis, cercados apenas pelo som da água e da respiração contida.

Zara tentou passar por ele, furtiva.

Mas Gil-galad estendeu o braço — apenas o suficiente para detê-la.

Seu toque na pele úmida dela foi um choque elétrico, uma promessa, um chamado.

Ela virou o rosto devagar, encontrando os olhos dele.

Os olhos que ela passou o dia evitando, porque neles havia verdade demais.

— Gil-galad… — sua voz falhou, quase um pedido e um aviso ao mesmo tempo.

Ele não esperou mais.

Em um movimento preciso, firme, quase desesperado, ele subiu a mão esquerda rumo a nuca dela, a trazendo facilmente para si mesmo — com uma certeza que rompeu todos os limites que ele tentou preservar até aquele momento.

Zara não resistiu.

Não conseguiu. Só aquele simples movimento havia arrepiado seu corpo por inteiro e amolecido suas pernas.

O mundo encolheu ao redor deles, como se respirasse junto.

E então, finalmente — finalmente — Gil-galad a beijou.

Um beijo que começou simples, respeitoso mas que com a correspondência dela, foi se tornando profundo, ardente, cheio de tudo que ambos tentaram negar: a tensão acumulada, o desejo contido, a devoção silenciosa, a queda inevitável.

Zara sentiu o corpo perder força, não pela fraqueza da ferida, mas porque o toque dele acendia nela algo que nenhum treinamento, nenhuma disciplina, nenhuma muralha interna poderia conter.

Gil-galad a puxou para ainda mais perto, colando seu corpo ao dela, uma das mãos envolta na cintura dela enquanto a outra ainda estava na nuca, e ali, havia o poder de um rei — e a vulnerabilidade de um homem que estava se rendendo ao mais poderoso dos sentimentos: o amor.

Quando finalmente se separaram, ofegantes, ainda tão próximos que seus lábios mal deixavam de se tocar, o silêncio se torna um campo de batalha.

Zara o encarava, tentando recuperar o fôlego e ao mesmo tempo.

— Não devia… — ela sussurrou, a voz trêmula. — Não devia ter acontecido.

Gil-galad encostou a testa na dela, suave, quente, irremediável.

— Zara… — ele diz, num sussurro que a desfaz inteira — isso estava acontecendo desde o momento em que te vi cruzar meus caminhos.