O silêncio que se instalou entre eles parecia vivo, pulsante, carregado de tudo que tentaram conter por dias — talvez por vidas inteiras. A respiração de Zara ainda estava acelerada, seus lábios ainda tremiam do primeiro beijo, seu corpo inteiro em sobressalto.

Gil-galad mal ousava se mover. Ele ainda segurava o rosto dela como se temesse que, ao soltá-la, tudo não passasse de um sonho delicado demais para resistir ao ar.

Mas Zara…

Zara sempre fora fogo antes de ser cautela.

E mesmo com a sensação de medo rasgando o peito, mesmo com a mente implorando que ela recuasse, mesmo sabendo que ali estava o maior risco — e a maior tentação — de sua vida…

Ela não conseguiu resistir.

Com um pequeno suspiro que escapou sem permissão, Zara deslizou a mão pelo peito do Alto-Rei, sentindo o coração dele sob a palma — forte, rápido, quase selvagem.

E então puxou-o de volta para si, beijando-o com uma ousadia que quebrou todas as barreiras que restavam entre eles.

Gil-galad não estava preparado.

O beijo dela era quente, profundo, cheio de coragem e desejo, misturados se cada movimento dissesse: eu não posso, mas eu preciso. Ela o beijou como se buscasse ar, como se encontrasse nele uma força que nunca admitiria em voz alta.

E ele…

Ele simplesmente desabou.

Gil-galad sentiu a alma dele arder, como se tivesse provado algo feito de luz pura, algo proibido aos reis, algo que nenhum trono poderia conceder. Era como beber do poder dos próprios Valar — arrebatador, transformador, devastador.

O mundo se dissolveu em calor.

A água correu ao redor como um sussurro distante.

Seu autocontrole, tão sólido quanto muralhas de séculos, cedeu como areia ao vento.

As mãos puxaram para ainda mais perto, tanto que não havia espaço entre respiração e desejo. Ele correspondeu o beijo com uma intensidade que nunca oferecera a ninguém — com o fogo que mantivera trancado sob camadas de dever, honra e realeza.

A paixão que o dominava era furiosa, inevitável, bela demais para ser contida.

Zara era um precipício:

quente, imprevisível, perigoso…

mas irresistivelmente vivo.

E Gil-galad se lançou sem hesitar.

A cada segundo, algo dentro dele mudava — uma estrutura interna se quebrava, um juramento silencioso se desfazia, uma proteção tão antiga quanto sua própria coroa ruía sob o toque da mulher que estava em seus braços.

Quando finalmente se separaram, respirando como se tivessem corrido milhas, Gil-galad manteve o rosto dela próximo, ainda incapaz de falar.

Os olhos dele — antes calmos como um céu sem estrelas — agora eram tempestade pura.

— Zara… — ele murmurou, rouco, como se tivesse perdido a voz. — Eu… não consigo… não consigo mais ser imparcial com você.

Zara engoliu em seco, a respiração trêmula.

— Eu também não — ela admite, num sussurro que parecia uma confissão e uma derrota. — E isso me apavora.

Gil-galad afaga a bochecha dela, toque reverente, quase em devoção mas que quase a fez se derreter no chão.

— Você não imagina — diz ele, aproximando os lábios dos dela novamente — o quanto me apavora também.

Mas nenhum dos dois recua.

Nenhum dos dois consegue.

Eles permanecem ali: ligados, perdidos, arruinados — e livres pela primeira vez.


Zara fugiu tão rápido que Gil-galad nem conseguiu respirar antes que o toque dela desaparecesse.

Um segundo antes, o mundo inteiro parecia se dobrar ao redor dos dois.

No segundo seguinte, tudo o que restou foi o silêncio.

Um silêncio que pesava como aço.

Gil-galad ficou parado. Literalmente petrificado.

As mãos ainda suspensas no ar, como se o corpo se recusasse a aceitar que ela não estava mais ali.

O sobretudo úmido colado no corpo, o perfume dela ainda pairando na pele dele como uma tatuagem invisível.

Aquele momento…aquele beijo…

Aconteceu mesmo? Ou fora mais um delírio dos seus sonhos?

Não.

Os lábios dele ainda queimavam.

A alma dele ainda tremia.

O choque o atravessou como uma lâmina.

Ele, o Alto-Rei dos Noldor, equilibrado, centrado, senhor de si há séculos, agora não conseguia sequer ordenar a própria respiração.

O lugar onde o corpo dela tocara o seu parecia oco, vazio, como uma ferida aberta — uma ferida que ele não sabia como tratar porque o único remédio seria tê-la de volta.

Mas ela fugira.

E ele a deixara ir.

Por quê?

Porque a lucidez veio tarde, mas veio:

Ele cruzara uma fronteira que imaginara ser intransponível. E gostara disso.

Gostara demais.

O dever rugiu dentro dele, tentando recuperar espaço: ele era o Alto-Rei.

Tinha obrigações, juramentos, responsabilidades que jamais permitiriam esse tipo de… entrega.

Mas a alma não obedecia.

A mente dele só repetia, como uma tormenta incessante:

O gosto dela.

O calor dela.

O jeito como ela tremeu e mesmo assim me puxou de volta.

Cada lembrança o dilacerava e reerguia ao mesmo tempo.

Gil-galad levou a mão ao próprio peito.

Sentiu o coração — acelerado, desordenado, palpável demais para alguém que treinara por séculos a ser pedra.

— O que estou fazendo?… — sussurrou para si mesmo.

Mas não havia resposta.

Ele caminhou até a margem da água, o lugar onde ela estivera segundos antes.

A superfície calma contrastava com o caos dentro do coração do elfo.

Gil-galad ajoelhou-se ali, deixando que a dúvida, a culpa, o desejo e o medo escorressem como um só peso sobre seus ombros.

Por um instante seus dedos tocaram a água.

Pensou em ir atrás dela.

Pensou em implorar para que ela voltasse para aquele jardim, para os braços dele, para unir os lábios aos dele.

Para que ela fosse dele. Para sempre e sempre.

Mas o “Rei” dentro dele ainda era forte o suficiente para impedir aqueles pensamentos.

Por pouco… mas o suficiente.

Ele levantou-se, sentindo cada músculo pesar como se tivesse lutado uma guerra inteira.

O mundo ao redor permanecia belo — a luz branda do entardecer, o murmúrio das folhas, a água sussurrando segredos antigos.

Mas Gil-galad não conseguia ver nada.

O único brilho que sua mente reconhecia era o dela.

A noite caiu devagar.

Lindon acendeu suas lanternas douradas, faiscando como estrelas descidas do céu.

E para Gil-galad, elas não eram nada além de testemunhas silenciosas do seu desmoronamento.

Ele tentou meditar, respirar, ordenar pensamentos.

Mas tudo o que conseguia sentir era o espaço vazio onde Zara estivera.

Um espaço que doía.

Que queimava.

O beijo — aquele beijo impossível — retornava em ondas: doce, feroz, sincero demais, real demais.

Ele era Rei.

Mas naquela noite?

Naquela noite, era apenas um homem tremendo entre razão e paixão, temendo ter perdido algo que mal começara…e desejando com toda força quebrar todas as leis, tradições e deveres apenas para tê-la mais uma vez.

As estrelas de Lindon cintilaram acima, imponentes, antigas, sábias — e pareciam rir gentilmente, como quem diz:

“Nós vimos. Nós sabemos.”

E Gil-galad, sozinho entre sombras e luz dourada, não podia negar:

Ele estava arruinado.

Totalmente, irrevogavelmente arruinado por Zara.

Porque a amava. A amava como se suas almas fossem uma só. E ele queria isso: ser somente dela.


Zara correu.

Correu como se estivesse sendo perseguida por algo muito maior que criaturas das trevas — correu como se estivesse fugindo de si mesma.

A água ainda escorria de seus cabelos quando ela atravessou o jardim, respirando como se tivesse lutado uma batalha inteira.

Mas não era cansaço físico.

Era pânico.

O que ela tinha feito?

O que ele tinha feito?

O que era aquilo?

Ela encostou-se atrás de uma coluna de mármore, ofegante, o corpo inteiro tremendo.

Era uma guerreira.

Uma comandante.

Uma mente treinada para analisar, prever, atacar, recuar.

Mas nada — absolutamente nada — em toda sua vida a preparara para o toque dos lábios do Alto-Rei.

O beijo ainda queimava nela, cruel e doce.

O corpo ainda respondia como se quisesse correr de volta para ele, como se cada fibra gritasse por mais.

— Idiota! — sussurrou, apertando o próprio peito. — Isso é loucura… loucura! Por quê você fez aquilo?!

Seu coração batia forte demais, quase doloroso.

Ela jamais tivera medo de orcs, de sombras, de frio, de dores do campo de batalha.

Mas ali… naquele jardim…

frente àquele homem sagrado…

Ela sentiu medo.

Não dele.

Mas de si.

Da forma como ele a desmontava com um único olhar.

Do modo como seu corpo ardia quando ele se aproximava.

Do desejo que ela nunca — jamais — deveria ter permitido fluir.

— Eu não posso… — murmurou. — Ele é um rei! Eu sou… eu sou…

Nada.

Ninguém.

Ao menos era assim que ela se sentia naquele instante.

Uma estrangeira, uma comandante de um povo pequeno, uma mulher moldada pela guerra.

E ele…ele era praticamente uma estrela viva.

Zara respirou fundo, tentando ancorar a consciência.

As mãos ainda tremiam.

Os lábios, ainda quentes.

— Não vou… não… não posso! — determinou, quase como uma ordem militar a si mesma.

E trancou-se nos aposentos, embora soubesse que isso não calaria o tumulto dentro dela.

A última coisa que viu antes de fechar os olhos foi o rosto dele — e a forma como ele a olhara, como se ela fosse algo precioso demais.

Esse pensamento a destruiu.


Elrond encontrou Gil-galad ainda nos jardins, imóvel, olhando para o vazio como se visse através do tempo.

— Meu Rei… — chamou ele, com cautela. — Estais ferido?

Gil-galad demorou longos segundos para responder.

Quando finalmente o fez, sua voz pareceu arrancada de um lugar distante:

Sim.

Elrond deu um passo à frente, alarmado.

— Onde?

O Alto-Rei levou a mão ao peito, num gesto quase imperceptível.

Aqui.

Elrond fechou os olhos por um instante.

Ele não era tolo.

Nem cego.

— É sobre Zara — afirmou, baixo.

Gil-galad não confirmou, mas também não negou.

Os dedos dele ainda tremiam levemente.

— Não sei o que está acontecendo comigo, Elrond — confessou, a voz carregada, pesada, honesta demais. — Minha mente é uma tempestade. E meu coração… meu coração esqueceu como obedecer.

Elrond respirou fundo.

Nunca havia visto Gil-galad assim.

— Aconteceu algo entre vocês?

Gil-galad fechou os olhos — e viu o beijo.

Viu a forma como ela o puxara de volta.

Viu a fuga.

Viu o vazio deixado.

— Algo… aconteceu — respondeu, a voz falhando de leve. — Algo que eu deveria repudiar, controlar, esquecer. Mas não consigo.

Elrond apenas confortou seu irmão de alma, amigo e líder de séculos:

— Então não tente enfrentar isso sozinho.

Gil-galad não respondeu.

Mas naquele instante, entre as sombras e as lanternas douradas de Lindon, ele soube:

Ele estava perdido.

E mesmo assim, não queria ser encontrado.


Zara não apareceu no café da manhã.

Nem no salão de estudos.

Nem nos campos de treinamento.

E Gil-galad sentiu a ausência dela como uma espada cravada na costela.

A cada vez que a porta se abria, seus olhos se erguiam — esperançosos.

E voltavam a cair — vazios.

Elrond observava tudo em silêncio.

Zara tentava se esconder no estábulo, nas sombras das árvores, nas margens do rio.

Mas nada adiantava.

Seu corpo ainda lembrava o toque dele.

Seu coração ainda caía em desordem só de imaginar vê-lo.

Era como se algo dela tivesse ficado nos braços dele e ela não soubesse como recuperar.

— Isso é loucura… — repetia, balançando a cabeça. — Eu preciso… preciso… me afastar.

Mas distância era impossível.

Porque o que a atacava não era externo.

Era interno.

A ânsia por ele. A falta dele.

Era ele.


Era inevitável.

Ao cair da tarde, Elrond e o Conselho chamaram Zara para uma reunião sobre algumas medidas ainda estratégicas, resquícios do ataque aos patrulheiros que ela havia coibido.

Gil-galad estaria presente.

Zara quase não entrou na sala. Parou frente a porta. Deu meia volta. Respirou fundo. Fechou os olhos. Contou até dez. A mão tocou na maçaneta incontáveis vezes.

Quando finalmente o fez, o coração bateu tão forte que ela pensou que todos ouviriam.

Gil-galad ergueu os olhos.

O mundo inteiro parou.

O ar ficou mais denso.

O tempo, mais lento.

A luz, mais quente.

Zara tentou se forçar a manter a compostura.

Mas quando o olhar dele encontrou o dela…

ela quase voltou para o jardim, para os braços dele, para o beijo.

Ele se levantou — como se algo o puxasse.

Ela o encarava com tanta intensidade que seria difícil imaginar qual pensamento que cruzava sua cabeça seria mais apropriado descrever.

E então Elrond… coçou a garganta de propósito.

A tensão explodiu na sala.

Zara baixou o olhar e deu uma reverência simplória.

Gil-galad forçou-se a sentar.

Elrond desejou profundamente estar em qualquer outro lugar do mundo.

Durante a reunião, a voz de ambos fraquejava.

As mãos tremiam quando se aproximavam do mesmo mapa.

Os olhares fugiam um do outro como se o toque fosse proibido — e era.

Mas a atração queimava.

E todos sentiram.


Depois da reunião, enquanto todos saiam, Gil-galad chamou:

— Comandante Zara… podemos falar?

Ela já se preparava para atravessar a porta para fora quando congelou ouvindo o pedido dele, soltando apenas um suspiro baixinho.

Ela se virou, o encarando e olhou brevemente ao redor, um pouco preocupada, esperando que ninguém presenciasse aquele diálogo. Quando finalmente ficaram a sós, ela respondeu baixo, sem altivez ou ironia.

— Acho melhor não — respondeu, já visivelmente nervosa.

Ele deu um passo em direção a ela.

— Por favor.

A voz dele…

Valar, a voz dele.

Ela achou que desmaiaria ali mesmo.

Ela mordeu os próprios lábios tentando retomar um pouco da sanidade.

E ele também pensou que, por um instante, perdeu as forças com aquilo.

— Não posso, Alto-Rei.

Ele engoliu em seco.

— Então me diga o motivo.

Zara tinha os olhos turbulentos de sentimentos que, se talvez, fossem verbalizados jamais alcançariam a plena profundidade ao qual eram sentidos. E surpreendentemente, em um sindarin quase perfeito, ela falou:

— Porque… — ela travou, procurando palavras. — Cenin maeth i bain Valar naidathar nin…

(Sinto algo pelo qual os Valar talvez me condenem...)

Gil-galad ficou sem fala.

Zara continuou, a voz tremendo:

— Eu não posso me perder. Não aqui. Não assim.

Ele se aproximou — devagar, cuidadoso, reverente.

— E se não for perda? — murmurou. — E se for… encontro?

O coração dela quase parou.

— Não diga isso — pediu, quase um sussurro, a pele estremecendo.

— Eu preciso dizer — respondeu ele. — Porque se eu não disser agora… temo que jamais terei coragem de novo.

Ela fechou os olhos, respirando profundamente.

— Você é um Rei — afirmou. — E eu sou apenas…

— Não diga “apenas” — interrompeu ele, firme, ardente. — Você é Zara Dulórien. Comandante. Guerreira. A mulher que salvou meu povo. A mulher que… — ele respirou fundo, como se a confissão fosse arrancada. — …a mulher que tocou meu coração de formas que eu julguei serem impossíveis.

Ela abriu os olhos — e o brilho neles o devastou.

— Por favor… — sussurrou. — Não faça isso.

Mas era tarde.

O silêncio entre eles queimava.

O peito dele subia e descia rápido.

Zara mordia os lábios e os umedecia como se preparasse para fazer a mesma coisa do jardim outra vez.

A lembrança do beijo pairava como fogo vivo.

E por um instante perigoso — o mundo quase permitiu que se beijassem outra vez.

Mas Zara impôs um afastamento antes que tomasse uma atitude precipitada.

— Eu… preciso ir — disse, quase sem voz.

E fugiu pela segunda vez.

Gil-galad não a seguiu.

Mas seus olhos a acompanharam como se cada passo dela fosse um golpe no peito.


Naquela noite, Lindon dormiu sob luz dourada e estrelas ancestrais.

Mas Zara não dormiu.

Gil-galad tampouco.

Ela revivia o beijo.

E o desejo.

E o medo.

Ele revivia o toque.

E a fuga.

E o vazio.

Nenhum dos dois tinha controle.

Nenhum dos dois sabia o que fazer.

Mas ambos sabiam uma verdade simples e terrível:

Não havia mais volta.

A atração entre eles era grande demais.

O destino, profundo demais.

O sentimento… inevitável demais.

E pela primeira vez, tanto Zara quanto Gil-galad entenderam:

Aquilo não era um capricho.

Não era um impulso.

Era o começo de algo que poderia destruir ou salvar ambos.

Algo que nenhum dos dois poderia impedir.