O aviso de Zara — “Tem mais orcs vindo” — mal havia deixado seus lábios quando o vale tremeu.

Um segundo tremor.

Mais pesado.

Mais profundo.

Elrond ergueu o rosto, olhos estreitando-se.

— Há algo mais na mata — avisou ele, limpando o sangue da espada.

Gil-galad sentiu também. Um peso no ar, como se a escuridão respirasse.

Mas Zara já avançava.


O vento puxava seus cabelos enquanto ela montava novamente Melfa — nem lembrava de ter soltado as rédeas. Era instinto. Era guerra. O animal conhecia a dona, sabia o ritmo, sentia a vibração do combate como se fosse parte dela.

— Vamos, Melfa — sussurrou, e a égua disparou.

Atrás dela, Elrond lançou um olhar rápido a Gil-galad.

— Ela é quem imagino ser?

Gil-galad, embora tivesse a certeza de Zara ser quem supostamente seria, apertou Aeglos em silêncio.

— A resposta virá — murmurou, e correu atrás.


A mata se abriu, revelando uma segunda horda.

Não orcs comuns — mas Uruk-lur, mutações que não deveriam existir tão ao oeste. Criaturas enormes, com placas de armadura cravadas na pele e olhos que queimavam como carvões.

Zara sentiu o estômago invadir sua garganta.

— A sombra está se movendo de novo… — sussurrou, com um arrepio.

Cinco dos monstros quebraram as árvores como gravetos e avançaram em direção aos elfos restantes.

A Guarda Real recuou alguns passos, reposicionando a formação.

Gil-galad adiantou-se.

— Elrond, cobre o flanco. Zara —

Ele parou.

O nome saiu com naturalidade demais.

Como se já tivesse dito antes.

Como se já a conhecesse.

Zara franziu o cenho, irritada — mais com a sensação estranha do que com o rei.

— Me diga onde lutar, não meu nome, estrela. — Ela girou Gaden nas mãos, pronta para investir. — Isso, sim, importa.

Gil-galad quase sorriu.

A audácia dela…

Mas não houve tempo.

Os Uruk investiram.

O primeiro deles chegou como um rolo de pedra viva, e Zara o encontrou de frente. Ela cravou Gaden no chão, usou o cabo como ponto de apoio e girou o corpo como uma roda viva. O golpe acertou a têmpora do monstro, quebrando a placa de metal e fazendo-o cair de joelhos.

O segundo veio pelas costas dela.

Zara arqueou o corpo para trás — quase encostando no dorso da égua — e sentiu a lâmina passar rente ao nariz. Melfa relinchou, empinou, mas ela puxou as rédeas com firmeza, voltando a erguer-se num salto.

O terceiro atacou Gil-galad.

Aeglos se iluminou.

O rei lançou a lança em um movimento perfeito, atingindo o peito da criatura. A arma atravessou o corpo, prendendo-o contra a árvore atrás. Sem hesitar, Gil-galad puxou-a de volta — um movimento que faria qualquer outro elfo perder o equilíbrio. Ele não.

Zara se distraiu um segundo vendo isso.

Um erro.

O quarto Uruk veio por cima, trazendo uma marreta que poderia esmagar uma pedra. Elrond correu na direção dela, rápido — mas não rápido o suficiente.

Zara levantou o braço para segurar o golpe — mas o impacto a jogou contra Melfa. Ela caiu, rolando pelo chão, e Gaden escorregou para longe.

Elrond gritou:

— Gil-galad!

Enquanto Zara estava caída, tossindo do choque brutal e sentindo-se tonta, a criatura se aproximava para atacá-lá novamente.

Gil-galad correu.

Aquela corrida — rápida, silenciosa, mortal — fez o coração dela gelar e aquecer ao mesmo tempo. O rei ergueu Aeglos e atacou o braço do Uruk, cortando-o como se não fosse nada. Zara recuperou o ar, puxando o próprio corpo para longe do golpe seguinte.

— Afaste-se! — Gil-galad ordenou.

— Não dou conta de obedecer ordens nem do meu pai, quem dirá de você! — rosnou ela, recuperando o equilíbrio.

Ele ergueu uma sobrancelha — mas antes que respondesse, o quinto Uruk avançou direto para o Alto-Rei pelas costas.

Zara não pensou.

Saltou por cima de Gil-galad, usando o ombro dele como apoio, e pegou impulso para alcançar sua lança caída. Rolou no chão, agarrou Gaden e, com um movimento fluido, ergueu-se em meio a poeira, sangue e caos.

E então…

BOOM

Cravou a lança nas costas do monstro que atacava Gil-galad, atravessando armadura, ossos e escuridão. A criatura berrou, caindo sobre os joelhos, e Gil-galad finalizou com Aeglos, cortando-lhe a garganta com um brilho de luz branca.

Silêncio.

Um silêncio pesado, cortado apenas pela respiração dos guerreiros.

Elrond cansado, respirava buscando fôlego, impressionado com o combate que acaba de acontecer.

Alguna membros da Guarda Real olhavam para Zara como se estivesse vendo uma tempestade tomando forma humana, outros baixaram o olhar em respeito.

Gil-galad virou-se para ela.

E, pela primeira vez, pôde observá-la sem o véu do caos:

O cabelo escuro desgrenhado, grudado na pele.

Os olhos castanhos em brasa viva, selvagens, porém profundos.

A postura firme, respiração pesada, como se estivesse pronta para continuar lutando por horas.

Ele olhou para ela como se o sonho tivesse tomado carne e sangue.

Zara apenas ergueu a cabeça e disse, ainda arfando:

— Se essa é a recepção dos elfos, talvez eu devesse ter ficado no norte.

Gil-galad… sorriu.

Pouco.

Mas sorriu.

— Bem-vinda a Lindon, Zara Dulórien.

E naquele instante — mesmo sem admitir — ele sabia:

Nada seria igual depois daquele encontro.