Segredos em Um Jardim Élfico
4 Campo de Batalha
O aviso de Zara — “Tem mais orcs vindo” — mal havia deixado seus lábios quando o vale tremeu.
Um segundo tremor.
Mais pesado.
Mais profundo.
Elrond ergueu o rosto, olhos estreitando-se.
— Há algo mais na mata — avisou ele, limpando o sangue da espada.
Gil-galad sentiu também. Um peso no ar, como se a escuridão respirasse.
Mas Zara já avançava.
O vento puxava seus cabelos enquanto ela montava novamente Melfa — nem lembrava de ter soltado as rédeas. Era instinto. Era guerra. O animal conhecia a dona, sabia o ritmo, sentia a vibração do combate como se fosse parte dela.
— Vamos, Melfa — sussurrou, e a égua disparou.
Atrás dela, Elrond lançou um olhar rápido a Gil-galad.
— Ela é quem imagino ser?
Gil-galad, embora tivesse a certeza de Zara ser quem supostamente seria, apertou Aeglos em silêncio.
— A resposta virá — murmurou, e correu atrás.
A mata se abriu, revelando uma segunda horda.
Não orcs comuns — mas Uruk-lur, mutações que não deveriam existir tão ao oeste. Criaturas enormes, com placas de armadura cravadas na pele e olhos que queimavam como carvões.
Zara sentiu o estômago invadir sua garganta.
— A sombra está se movendo de novo… — sussurrou, com um arrepio.
Cinco dos monstros quebraram as árvores como gravetos e avançaram em direção aos elfos restantes.
A Guarda Real recuou alguns passos, reposicionando a formação.
Gil-galad adiantou-se.
— Elrond, cobre o flanco. Zara —
Ele parou.
O nome saiu com naturalidade demais.
Como se já tivesse dito antes.
Como se já a conhecesse.
Zara franziu o cenho, irritada — mais com a sensação estranha do que com o rei.
— Me diga onde lutar, não meu nome, estrela. — Ela girou Gaden nas mãos, pronta para investir. — Isso, sim, importa.
Gil-galad quase sorriu.
A audácia dela…
Mas não houve tempo.
Os Uruk investiram.
O primeiro deles chegou como um rolo de pedra viva, e Zara o encontrou de frente. Ela cravou Gaden no chão, usou o cabo como ponto de apoio e girou o corpo como uma roda viva. O golpe acertou a têmpora do monstro, quebrando a placa de metal e fazendo-o cair de joelhos.
O segundo veio pelas costas dela.
Zara arqueou o corpo para trás — quase encostando no dorso da égua — e sentiu a lâmina passar rente ao nariz. Melfa relinchou, empinou, mas ela puxou as rédeas com firmeza, voltando a erguer-se num salto.
O terceiro atacou Gil-galad.
Aeglos se iluminou.
O rei lançou a lança em um movimento perfeito, atingindo o peito da criatura. A arma atravessou o corpo, prendendo-o contra a árvore atrás. Sem hesitar, Gil-galad puxou-a de volta — um movimento que faria qualquer outro elfo perder o equilíbrio. Ele não.
Zara se distraiu um segundo vendo isso.
Um erro.
O quarto Uruk veio por cima, trazendo uma marreta que poderia esmagar uma pedra. Elrond correu na direção dela, rápido — mas não rápido o suficiente.
Zara levantou o braço para segurar o golpe — mas o impacto a jogou contra Melfa. Ela caiu, rolando pelo chão, e Gaden escorregou para longe.
Elrond gritou:
— Gil-galad!
Enquanto Zara estava caída, tossindo do choque brutal e sentindo-se tonta, a criatura se aproximava para atacá-lá novamente.
Gil-galad correu.
Aquela corrida — rápida, silenciosa, mortal — fez o coração dela gelar e aquecer ao mesmo tempo. O rei ergueu Aeglos e atacou o braço do Uruk, cortando-o como se não fosse nada. Zara recuperou o ar, puxando o próprio corpo para longe do golpe seguinte.
— Afaste-se! — Gil-galad ordenou.
— Não dou conta de obedecer ordens nem do meu pai, quem dirá de você! — rosnou ela, recuperando o equilíbrio.
Ele ergueu uma sobrancelha — mas antes que respondesse, o quinto Uruk avançou direto para o Alto-Rei pelas costas.
Zara não pensou.
Saltou por cima de Gil-galad, usando o ombro dele como apoio, e pegou impulso para alcançar sua lança caída. Rolou no chão, agarrou Gaden e, com um movimento fluido, ergueu-se em meio a poeira, sangue e caos.
E então…
BOOM
Cravou a lança nas costas do monstro que atacava Gil-galad, atravessando armadura, ossos e escuridão. A criatura berrou, caindo sobre os joelhos, e Gil-galad finalizou com Aeglos, cortando-lhe a garganta com um brilho de luz branca.
Silêncio.
Um silêncio pesado, cortado apenas pela respiração dos guerreiros.
Elrond cansado, respirava buscando fôlego, impressionado com o combate que acaba de acontecer.
Alguna membros da Guarda Real olhavam para Zara como se estivesse vendo uma tempestade tomando forma humana, outros baixaram o olhar em respeito.
Gil-galad virou-se para ela.
E, pela primeira vez, pôde observá-la sem o véu do caos:
O cabelo escuro desgrenhado, grudado na pele.
Os olhos castanhos em brasa viva, selvagens, porém profundos.
A postura firme, respiração pesada, como se estivesse pronta para continuar lutando por horas.
Ele olhou para ela como se o sonho tivesse tomado carne e sangue.
Zara apenas ergueu a cabeça e disse, ainda arfando:
— Se essa é a recepção dos elfos, talvez eu devesse ter ficado no norte.
Gil-galad… sorriu.
Pouco.
Mas sorriu.
— Bem-vinda a Lindon, Zara Dulórien.
E naquele instante — mesmo sem admitir — ele sabia:
Nada seria igual depois daquele encontro.
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