O campo finalmente repousava.

Os últimos orcs foram eliminados, as chamas controladas, e os elfos recolhiam feridos e limpavam armas. O vento trazia o cheiro de ferro, madeira quebrada… e vitória.

Zara passou a mão pelo rosto, tirando o sangue seco da bochecha. Sentia o corpo pesado, a garganta seca, e a paciência menor do que uma unha de um pé peludo.

Quando se virou, deu de cara com Elrond se aproximando com aquele postura amistosa ao mesmo tempo que precavida, que poderia ser ao mesmo tempo que um conforto, um alerta..

— Agradeço sua intervenção, Comandante Zara — disse ele com genuíno respeito. — Sua precisão salvou mais vidas do que posso contar.

Zara piscou, surpresa por ele falar tão diretamente.

— Só fiz o que tinha que fazer — respondeu, secando Gaden na própria túnica. — E também porque vocês pareciam precisar de ajuda urgente.

Elrond apenas sorriu. Ela não parecia querer ofender com a frase, mas para elfos acostumados a resolverem seus problemas sem ajuda, aquela sentença poderia ofender qualquer um mais orgulhoso.

Gil-galad aproximou-se logo atrás.

A luz suave da manhã tocava seu rosto, e por um instante… Zara ficou estranhamente imóvel.

O rei parou diante dela, Aeglos ainda apoiada no chão, como um reflexo dele — firme, brilhante, imponente.

— Zara Dulórien — começou ele, com aquela voz profunda que parecia atravessar a pele e tocar algo mais. — Em nome de Lindon, eu lhe dou as boas-vindas. E lhe ofereço minha gratidão.

Ela o encarou.

Longamente.

E ofereceu uma mínima reverência.

— Obrigada — respondeu, com um tom parecia meio zombeteiro, meio sincero. — Mas se essa é a recepção das terras élficas, eu prefiro o frio do norte. Lá pelo menos não tentam me esmagar com uma marreta.

Elrond tossiu, desconfortável.

Gil-galad conteve um sorriso que ameaçava surgir.

— Devo admitir que sua chegada foi… inesperada — disse o Alto-Rei.

— Inesperada digo eu… Nada aqui foi do meu agrado até agora — retrucou ela, tentando secar o suor do rosto com o dorso da mão — Viajei por dias. Mal dormi. Não comi nada que preste. E a primeira coisa que encontro é um ataque orc com criaturas tenebrosas. Vocês é que deviam estar me pedindo desculpas.

Elrond piscou, atônito.

A irmã dela, Paddy, havia sido um encanto — gentil, educada, cheia de cortesia.

Mas Zara…

Zara era uma tempestade.

— Certo — Elrond disse, tentando ser diplomático. — Talvez… devêssemos levá-la até Lindon para descanso e refeição adequada.

— Refeição adequada — Zara repetiu com um brilho sarcástico. — Eu aceito. Desde que não seja folha triturada com aroma de vento.

Elrond engasgou.

Gil-galad soltou um suspiro — de riso contido.

Ela percebeu.

E arqueou uma sobrancelha.

— Algum problema?

Gil-galad deu um passo à frente, aproximando-se o suficiente para que ela notasse a intensidade do olhar dele. Era um olhar que a estudava, mas não como um homem estuda uma mulher — e sim como quem reconhece um enigma, algo valioso e perigoso ao mesmo tempo.

— Nenhum problema — respondeu ele calmamente. — Apenas observo que você não se parece com nenhum guerreiro que já conheci.

Zara sorriu de canto.

Um sorriso afiado.

Desafiador.

— Óbvio que não. — Ela semicerrou as pálpebras, a expressão combinando com olhar profundo e provocante, como se pudesse atravessar o rei com palavras. — Eu não sou como ninguém que você já conheceu… ou conhecerá.

Elrond desviou o olhar, desconfortável com a tensão entre eles.

Os soldados ao fundo fingiam estar ocupados com qualquer outra coisa.

Gil-galad manteve-se firme.

Mas por dentro…

A frase dela o atingiu como a ponta de Aeglos.

Porque ele sabia.

Sabia antes mesmo de vê-la naquela manhã.

Sabia desde o sonho.

Desde o sorriso sob a lua.

Desde o toque suave no jardim impossível.

Desde a voz que chamava por ele em uma canção que não fazia parte deste mundo.

Mas não podia revelar.

Não ainda.

Zara girou a lança e a apoiou no ombro.

— Então? Vão me levar para essa tal comida ou vamos ficar aqui trocando elogios enquanto cheiro de orc queima no ar?

Gil-galad desviou o olhar para esconder o segundo sorriso que ameaçava escapar.

— Zara Dulórien — declarou ele, enfim. — Lindon estará honrada em recebê-la.

Ela bufou.

— Honra não enche estômago, Alto-Rei.

E passou por ele, sem qualquer cerimônia, indo em direção aos cavalos que os guardas aprontavam afim de encontrar Melfa.

Gil-galad ficou olhando enquanto ela se afastava, o passo firme, a postura altiva, a luz batendo no cabelo escuro ainda sujo de batalha.

Elrond chegou ao lado do rei e murmurou:

— Ela é… diferente.

Gil-galad respondeu num tom baixo, quase reverente:

— Diferente de tudo que já vi.

Mas o que ele não disse — e talvez ainda não entendesse completamente — era:

Diferente de tudo que já sonhei.