Segredos em Um Jardim Élfico

14 A Ferida Que Mais Pode Doer em Uma Alma


A lua havia atravessado seu ponto mais alto, e Lindon dormia.

Todas as luzes estavam apagadas, exceto algumas lanternas baixas que tremeluziam como pequenos sóis cansados.

Gil-galad não dormia.

Sentado diante da janela aberta, a brisa fria passando por seus cabelos escuros, ele tentava — em vão — colocar ordem no coração.

Tentava controlar o desejo, a frustração, a falta que Zara fazia como se fossem ondas quebrando contra a muralha de sua disciplina.

Mas disciplina alguma era forte o bastante.

Ele apertou os olhos, exausto.

A imagem dela fugindo — duas vezes — queimava como ferro em brasa.

A frase dela. Tão sincera que ele não sabia até que ponto resistiria ao que sentia por ela, ainda mais sabendo que era recíproco.

Quando então…

toc-toc.

Um som suave, quase tímido, mas urgente.

Gil-galad virou-se imediatamente.

Por um segundo, imaginou ter sonhado.

Seu coração bateu forte. A mente sussurrava o nome daquela que povoava seus pensamentos enquanto a razão catalogava mentalmente as possibilidades.

Elrond, talvez?!

Não, seu arauto apesar da educação, se o fosse, e ainda mais em casos urgentes, de longe já anunciaria sua entrada.

Algum mensageiro?

Todos eram apressados demais e sem poucas moderações ao falarem com o rei.

Mas o som veio outra vez.

– Entre.

A porta abriu.

E o que ele viu o fez perder o ar.

Zara.

Nervosa, quase ofegante.

Os olhos com aquele mesmo brilho felino do encontro mais cedo.

Os cabelos soltos, a túnica leve.

E uma inquietação tão profunda pairando no ar que o fez se aproximar involuntariamente.

Ela entrou, fechando a porta atrás de si sem desviar do olhar dele.

— Zara? — a voz dele saiu baixa, grave, quase um sussurro. — O que houve?

Ela respirou fundo. Parecia prestes a ruir.

— Ingaran… boe nin anno maeth…


(Alto-Rei, preciso que… me conceda algo…)

Gil-galad não se moveu. Como se qualquer movimento brusco pudesse fazê-la desaparecer.

— Qualquer coisa.

Só isso.

A promessa saiu dele porque não havia outra resposta possível.

O peito dela arfou. Zara suspirou e olhou de soslaio para o lado, como se aquilo fosse exatamente o que temia ouvir.

A tensão era tão densa, tão palpável, que parecia uma terceira presença no quarto.

Zara voltou a encará-lo. Deu um passo.

Outro.

E outro.

Até que ficou diante dele.

Ela podia sentir a respiração dele tão próxima que era tentador demais. O olhar dele que a fazia perder o eixo, a boca que, mesmo ali em silêncio, a incendiava com pensamentos impróprios, e aquele perfume contido que a seguia desde quando o encontrou pela primeira vez. Gil-galad não precisava fazer nada para dominá-la; bastava estar ali.

E então, em um gesto lento, quase trêmulo, ela ergueu a mão direita e tocou o rosto dele.

Gil-galad fechou os olhos no mesmo instante, como se o simples toque fosse uma benção.

Logo a outra mão acompanhou o toque.

As mãos dela eram quentes, ansiosas, quase suplicantes.

E ele apreciava aquilo tal como gostava do sol aquecendo a pele de manhã cedo.

Logo ela estava percorrendo sua face, o maxilar, subindo até os cabelos escuros dele, como se fosse tecer um feitiço.

— Eu… sei que não deveria e é loucura isso… — sussurrou ela. —

Ele abriu os olhos — e encontrou os dela, ávidos, assustados, apaixonados.

— Então estamos loucos juntos.

Ela mordeu o lábio inferior, e aquilo quase o destruiu.

Zara deslizou as mãos pelos ombros, puxando ele para seu próprio corpo. Num gesto quase instintivo, roçou o rosto contra o peito dele.

Gil-galad sentiu cada toque como fogo vivo.

As mãos deslizaram pelo abdômen e seguiram para as costas dele, e ela o puxou ainda mais para si, quase num abraço.

— Eu tentei fugir — confessou, a voz irregular. — Tentei esquecer. Tentei me convencer de que você é… impossível.

Ela engoliu em seco, e as mãos tremeram.

Mas eu só consigo pensar em você.

Gil-galad respirou fundo, a mão hesitando antes de tocar os ombros dela.

Mas o fez — delicadamente.

Como se Zara fosse algo sagrado.

— Zara…

Ela apenas meneou a cabeça, como se negasse algo — só para então deslizar sobre ele e cair de joelhos.

Como se o corpo cedesse.

Como se a alma tivesse desistido de fugir.

Ela envolveu as pernas dele com os braços, apertando como se temesse que ele desaparecesse, como se ele fosse um sonho prestes a se dissipar ao amanhecer.

Gil-galad ficou imóvel, petrificado pela intensidade.

Nunca — em séculos de vida — alguém se entregara a ele daquela forma.

Uma mistura de devoção, desespero, amor.

Crua e real.

Zara colou o rosto ao quadril dele, respirando fundo, como se precisasse sentir o cheiro dele, o calor dele, a existência dele.

— Eu não quero deixá-lo — sussurrou, a voz quebrada. — Não quero… não consigo… não posso…

Gil-galad sentiu o coração se partir — e se recompor — ao mesmo tempo.

— Eu estou aqui — disse, tocando os cabelos dela, sem ousar pressionar. — Não vou a lugar algum.

Ela apertou mais forte.

O corpo inteiro tremia.

E então veio a confissão — suave, devastadora, impossível de conter:

Eu amo você.

Gil-galad parou de respirar.

Aquelas palavras o atravessaram como uma flecha — e depois como cura.

A mão dele deslizou para a nuca dela, sem força, sem imposição, apenas um toque de alguém que não sabe como merecer aquilo.

— Zara… — seu nome saiu como uma oração. — Não diga isso a não ser que…

Eu amo você — repetiu ela, agora mais forte. — Não importa o quanto eu lute, o quanto eu fuja, o quanto eu tente negar…Eu tampouco sei explicar… Parece que estes dias… Foram com um toque a uma memória já conhecida demais… Vivida demais…Eu amo você. Como nunca pensei amar em minha vida.

A voz era um lamento.

Um pedido.

Uma rendição.

Gil-galad sentiu o mundo inteiro girar.

Ajoelhou-se lentamente à frente dela, as mãos envolvendo o rosto com tanta delicadeza como se segurasse algo precioso demais.

— Se você soubesse… tudo que está modificando dentro de mim — ele murmurou, encostando a testa na dela. — Tudo que está despertando…

Zara tremia.

Ele também.

— Eu não devia sentir isso — admitiu ele, sinceridade crua. — Não posso. Não me é permitido…Ou pelo menos nunca foi…Mas agora eu sinto. Sinto tanto que chega a doer…

Os olhos de Zara se encheram de lágrimas silenciosas.

— Eu não quero ser sua ruína…

Ele sorria — um sorriso ferido, apaixonado, arrebatado.

— Então será minha salvação.

As mãos dele trouxeram o rosto dela para ainda mais perto e ele colou suas testas, e como se confessasse algo, falou baixo:

— E se eu pudesse… — sua voz falhou, a confissão arrancada como sangue. — Se eu pudesse decidir apenas com o coração…Eu a tornaria minha rainha esta noite. Não só por título. Por corpo. Por alma. Por espírito. Um só. Por toda eternidade.

O ar desapareceu.

O tempo parou.

Zara fechou os olhos.

As lágrimas finalmente escorreram.

— Gil-galad…

Ele a puxou para si — mas não beijou.

Não ainda.

Porque o respeito por ela era tão grande quanto o desejo.

Ele apenas reencostou a testa na dela, respirando juntos, como se fossem dois feär tentando se unir sem precisar de palavras.

O quarto inteiro parecia vibrar.

— Talvez as almas não escolham. Talvez apenas se lembrem — e a minha sempre se lembrou da sua.

E ali, naquela madrugada impossível, proibida, arrebatadora, o amor deles se tornou real demais para ser negado.

Real demais para ser contido.

Real demais para que qualquer um dos dois saísse daquele quarto intacto.


Eles não precisaram se beijar.

O beijo aconteceu sem lábios.

Foi a alma que beijou.

Foi o feä que tocou o feä.

Foi o queimar silencioso que poderia incendiar Lindon inteira se uma mera centelha escapasse.

E por isso… Zara fugiu. Abriu a porta como alguém que foge de um incêndio e deslizou para fora do quarto com o coração em chamas.

Suas mãos tremiam como se tivessem segurado algo sagrado demais, intenso demais, perigoso demais.

Assim que o corredor a engoliu, a mente começou a gritar.

“O que eu fiz?”

“Que feitiço aquele elfo dourado lançou sobre mim?”

“Eu enlouqueci!”

Ela levou a mão à própria boca para conter um soluço.

Estava completamente acordada — e, ainda assim, parecia sonâmbula.

Cada passo a puxava de volta para a realidade que tentava retomar controle.

Mas a realidade não ajudava.

Porque a pele dela ardia.

Os dedos ainda lembravam de como o tocaram.

E o coração… o coração parecia ter sido arrancado do peito e devolvido batendo mais forte, mais vivo, mais vulnerável.

Ela caminhou até seu quarto, fechou a porta e deslizou até o chão, sem forças.

E ali permaneceu, brigando consigo mesma, sufocada entre desejo e medo.

Só dormiu quando a madrugada estava prestes a morrer — e mesmo o sono foi turbulento.


Gil-galad não dormiu.

Quando Zara deixou o quarto, o silêncio se abateu como uma lâmina.

Ele ficou ali, parado, ainda preso na tentativa de ir atrás dela mas paralisado pela potência daquele momento entre os dois.

Não sabia se permaneceria de pé por minutos ou horas.

Apenas ficou.

Sentindo um vazio que era como um buraco aberto na alma.

O toque dela parecia correr por sua pele como um eco vivo — um eco que questionava tudo:

Ele estava no controle?

Ou ela é quem o controlava sem saber?

Algum elfo, algum rei, algum guerreiro antes dele havia sentido algo assim?

Ele não sabia.

E o mais inquietante era: não queria saber.

Queria apenas que ela voltasse.

Queria que aquele momento proibido fosse estendido, revisitado, confessado, consumado.

Queria… Zara.

E essa simples verdade era assustadora demais principalmente para um elfo, ainda mais ele e quem ele era.

Ereinion Gil-galad, da Casa de Fingolfin, Alto-Rei dos Noldor, Senhor de Lindon, a Estrela do Oeste e Guardião das Terras Ocidentais.

Quando o sol tocou as montanhas, ele ainda estava no mesmo lugar, com o penteado intacto, o mesmo manto, o mesmo olhar perdido.

A noite o marcara.

O dia o encontraria ferido.


Zara acordou antes do sol — ou talvez nem tivesse dormido de verdade.

Levantou-se num salto, como uma fugitiva perseguida por suas próprias emoções.

Vestiu-se às pressas, não chamando as amas, não pedindo ajuda.

E antes de qualquer um despertar, ela já estava descendo para os estábulos.

— Lady Zara! — chamaram duas amas da fortaleza, correndo atrás. — Espere! Está cedo demais!

Mas ela não esperou.

Montou em Melfa como se precisasse respirar longe, correr até que o vento arrancasse de si a confissão feita no quarto do rei.

Apenas aquelas palavras ecoavam em sua mente como martelo sobre metal quente:

“Eu amo você.”

Ela puxou as rédeas e partiu numa velocidade descomunal.

Era amor.

Mas também dor.

Dor crua. Dor contida.

Dor por ter tocado alguém que parecia esculpido pelos próprios Valar.

Ela se sentia quase profana por desejá-lo.

Gil-galad… aquele homem era belo de um modo que insultava o próprio conceito de beleza.

Nobre, imponente, sagrado.

E ela, uma mulher comum, marcada por batalhas, cicatrizes e medos.

Naquele quarto, ao tocá-lo, sentiu algo que não deveria existir.

E fugiu mais uma vez dele.

Porque não sabia se aquilo realmente deveria existir.

Sua égua disparou pelos campos de Lindon, e Zara deixou o vento decidir por ela — já que a mente não podia.


Na fortaleza, Elrond entrou nos aposentos do Rei para discutir assuntos da manhã.

Mas parou.

Gil-galad estava sentado da mesma forma que horas antes: tenso, imóvel, com o manto ainda sobre os ombros e o cabelo trançado exatamente como no dia anterior.

Não havia dormido.

Não havia descansado.

Parecia ter atravessado uma batalha — e perdido.

— Alto-Rei…? — Elrond chamou, a voz suave.

Gil-galad ergueu os olhos, mas demorou a realmente enxergá-lo.

Havia algo quebrado e brilhante ali.

Algo que Elrond jamais vira em séculos de convivência.

Mas que por suas suspeitas, era o que afligia o coração do elfo que tantas batalhas enfrentou ao seu lado.

Era amor.

Amor recente.

Amor que ainda dói para respirar.

Ele não perguntou.

Nunca ousaria.

Mas sabia.

Sabia quem era a causa, a forma, o nome daquele novo tormento.

E, por respeito — e por carinho — manteve silêncio.

Tudo o que disse, com leveza e sinceridade, foi:

— Aconteça o que acontecer, estou ao seu lado, meu Rei.

Gil-galad fechou os olhos, como se aquelas palavras fossem a tábua de salvação para um náufrago.

Mas nada, absolutamente nada, apagaria o que havia acontecido naquela madrugada.

Nem o amor nascente.

Nem a dor contida.

Nem o vazio que agora doía tanto nos dois.


Zara andou por Lindon junto a Melfa até que o dia perdesse o nome.

O sol cruzou o céu inteiro enquanto ela se embrenhava por bosques antigos, trilhas ocultas, campos onde a grama dançava como mares suaves.

Ela deixava Melfa seguir por onde quisesse, porque a mente… a mente era impossível de guiar.

As mãos ainda ardiam.

Não importa quantas vezes ela as esfregasse no tecido das vestes, a sensação persistia — como se os dedos ainda tocassem a pele do Alto-Rei, como se ainda deslizassem pelo peito firme, pelas costas fortes, por aquela presença quase divina.

Era como carregar fogo dentro da pele.

E isso a deixava fascinada… e apavorada.

— Pelos Valar… o que aquele homem é? — murmurou, sozinha.

Ela nunca temeu batalha alguma, nunca recuou diante de uma besta das sombras ou de um exército inteiro de orcs.

Mas um único toque daquele elfo… e suas próprias defesas ruíam.

Era ridículo.

Era absurdo.

Era… perigoso.

Porque se ela voltasse para aquele palácio, sabia exatamente o que aconteceria.

Bastaria um segundo.

Um olhar.

Uma respiração compartilhada.

E tudo se incendiaria.

O beijo não dado já havia queimado mais do que deveria.

Então o beijo verdadeiro…

Zara estremecia só de imaginar.

Passou por rios estreitos, por clareiras onde flores azuis brilhavam como pequenas luas, por arbustos onde pássaros élficos cantavam melodias ancestrais — mas nada era capaz de arrancá-la daquela memória.

Ela queria se punir por ter perdido o controle.

Mas ao mesmo tempo… queria senti-lo de novo.

Queria mais.

E isso a enfurecia consigo mesma.

— Loucura, Zara. Loucura total — disse, puxando o cavalo até parar à sombra de um freixo. — Ele é rei. O Alto-Rei. Você é… você.

Só isso já devia bastar.

Mas não bastava.

Nem de longe.


Enquanto isso, Gil-galad passava o dia no Conselho.

A cada voz que ecoava pelos salões dourados, ele tentava se concentrar em assuntos urgentes — defesa das fronteiras, treinamento de novos recrutas, abastecimento de armas, negociações com Lothlórien e Valfenda.

Mas tudo era distante.

Nublado.

Desfocado.

Suas respostas eram mecânicas, precisas, mas vazias.

Elrond percebia — claro que percebia — mas ajudava discretamente, guiando o Conselho sempre que o Rei se perdia em um lapso silencioso.

E o Rei se perdia muitas vezes.

Porque o corpo dele ainda sentia.

Sentia como se as mãos pequenas e quentes de Zara ainda deslizassem por sua pele.

Sentia como se o perfume dela estivesse preso em sua túnica.

Sentia como se a respiração dela ainda queimasse perto demais.

E o pior: sentia como se ela tivesse tocado não apenas seu corpo… mas sua alma.

Isso era inaceitável.

Isso era impossível.

Isso era perigoso.

E ainda assim, a verdade era clara como a luz sobre o mar:

Ele ansiava por ela.

Em um momento de silêncio no Conselho, Gil-galad apertou a própria mão, como se tentasse dissipar a memória do toque dela.

Em vão.

O calor permanecia.

A lembrança permanecia.

E um pensamento o assombrava desde que abrira os olhos naquela manhã:

Quando a encontrar novamente… será o fim.

O fim de toda fortaleza que construíra ao redor do coração.

O fim da distância segura entre Rei e mulher.

O fim da ilusão de controle.

Porque ele sabia — sabia com a convicção de quem vê o destino se movendo —

que um único olhar dela bastaria para destruí-lo.

E que ele seria destruído sorrindo.