Segredos em Um Jardim Élfico
15 O Jardim Testemunha
Zara retornou a Lindon ao cair da tarde — exausta, coberta de pó, o coração em guerra aberta contra si mesma.
Esgueirou-se pelos corredores a fim de não ser vista por absolutamente ninguém.
As amas correram ao encontro dela quando ela finalmente chegou ao quarto falando sobre banhos, refeições, descanso.
Ela apenas as dispensou com alguma desculpa mal formulada.
Entrou e trancou a porta.
Encostou as costas nela e deslizou até o chão cansada de tudo.
O quarto estava silencioso… mas a mente gritava.
A cada respiração, ela revivia a cena da madrugada.
As mãos tocando o peito dele.
O calor do corpo dele.
O olhar que parecia rasgar o véu da própria alma.
E a confissão.
Por Eru… a confissão.
— Que tipo de idiota sou eu? — murmurou, passando as mãos no rosto. — Não existe feitiço mais poderoso que o próprio coração… e o meu está conspirando contra mim.
Mas ela não podia ceder. Não podia.
Então se forçou a ficar ali.
Trancada.
Distante.
Recusou o jantar.
Disse às amas que queria repouso.
Mas repouso era impossível.
A cada minuto, a tensão aumentava.
O desejo de fugir junto ao desejo de voltar correndo…
Como se seu corpo inteiro estivesse preso entre fogo e gelo.
Ao mais alto do luar, quando ela tomará uma banho frio e trocará as vestes sujas por um vestido simples mas muito bonito, um dos muitos aos quais seu anfitrião havia a presenteado, Zara pensou em sair.
— Ele deve estar dormindo — repetiu a si mesma, tentando acreditar. — Os elfos dormem cedo, meditam… fazem essas coisas pacíficas. Com certeza está em seu décimo sono celestial.
O problema é que repetir isso não acalmava nada.
Piorava.
Porque ela sabia que queria encontrá-lo.
Nem que fosse só para… entender.
Ou negar.
Ou cair de joelhos outra vez.
Ou beijá-lo.
E isso, por si só, era perigoso.
Quando a noite aprofundou o céu, ela finalmente cedeu.
Não aguentou mais ficar presa dentro daquele quarto em que a noite passada se repetia como um eco mais e mais vezes.
Jogou um manto sobre os ombros, respirou fundo e saiu, andando pelos corredores vazios até os jardins, torcendo — implorando — para que ele estivesse dormindo.
Mas é claro que não estava.
Gil-galad vagava pelos jardins como um fantasma dourado.
As vestes leves brilhavam à luz das estrelas.
Os cabelos soltos caíam por sobre os ombros.
As mãos cruzadas nas costas denunciavam a tensão contida.
Ele percorria os mesmos caminhos pela terceira vez.
Buscava… algo.
Paz, talvez.
Razão.
Ar.
Ou talvez… apenas ela.
E o destino não tardou a conceder.
Ele ouviu passos.
Baixos, hesitantes.
Conhecidos.
Virou-se.
Zara surgiu entre as sombras, com o cabelo ainda úmido do banho, o manto escuro envolvendo a forma forte e delicada ao mesmo tempo.
O olhar dela encontrou o dele.
E pronto.
Foi como duas forças opostas colidindo no centro do mundo.
Nenhum dos dois respirou.
Nenhum dos dois se moveu.
O ar se distorceu entre eles, carregado, vivo e elétrico.
— A-alto-Rei — gaguejou ela, a face queimando de vergonha — não devia estar aqui. Quer dizer… não o… esperava… aqui.
Ele quase riu ao vê-la constrangida, mas ele sabia que aquilo era uma reação consequente do que havia acontecido entre os dois na noite passada.
— Eu poderia dizer o mesmo — respondeu ele, suave, mas com um calor perigosamente claro.
Ela desviou o olhar, tentando manter distância, mas o corpo denunciava cada negação que a mente queria sustentar. O peito subia e descia rápido. As mãos tremiam.
— Eu… só vim… acalmar a mente. — disse, como se aquela fosse a real intenção daquele passeio.
Gil-galad avançou meio passo.
— E encontrou a paz? — perguntou.
Ela soltou um riso breve, discrente e estreitou os olhos, como se ele tivesse dito algo sarcástico demais.
— Você sabe que não.
Outra aproximação.
Ela meneou a cabeça, semicerrando os olhos, como se estar tão perto dele fosse uma prova de resistência ao qual ela sequer tinha forças de repelir. O som da respiração dele, a pele sensível ao roçar invisível do ar que ele deslocava ao mover-se. O perfume que permanecia aquecendo-lhe a memória mesmo antes que pudesse controlá-la. E um calor delicado se espalhava pelo ventre, lento e inevitável, como se o corpo dela o reconhecesse antes que a mente ousasse admitir
A respiração dos dois já se misturava.
Zara tentou dizer algo.
Negar.
Fugir.
Qualquer coisa.
Mas quando olhou para ele outra vez, viu o reflexo da própria alma ardendo nos olhos dele.
E foi o suficiente.
A distância entre eles desapareceu num único movimento.
Gil-galad a puxou pela cintura e Zara subiu a mão instintivamente para a nuca dele e o beijo que se seguiu não era deste mundo.
Foi feroz.
Foi suave.
Foi sagrado.
Foi profano.
Foi tudo ao mesmo tempo.
A alma parecia recuperar ar.
O coração bateu tão forte que doeu.
O corpo inteiro tremia.
Parecia que os dois estavam destinados a isso desde antes de se conhecerem.
Que todas as guerras, batalhas, profecias, trevas e luzes tinham caminhado até aquele instante.
Porque nenhuma razão no mundo — nenhuma — podia negar o que aquele beijo dizia:
Eles pertenciam um ao outro.
Gil-galad perdeu o fôlego.
Zara perdeu a razão.
E quando se afastaram apenas o suficiente para respirar, ela sussurrou, ofegante:
— Por que… por que devemos negar isso?
Ele encostou a testa na dela, a voz tão baixa que era quase um suspiro:
— Porque negar é impossível.
Por alguns segundos — ou séculos — eles ficaram ali, imóveis, respirando o mesmo ar quente e trêmulo, as mãos ainda segurando o outro como se um vento pudesse arrancá-los para longe.
O beijo tinha sido devastador.
Mas o depois era ainda pior.
Zara abriu os olhos devagar, o peito arfando, sentindo o coração bater tão violento que parecia quebrar costelas.
Gil-galad a observava com aquele olhar intenso, profundo, quase reverente, como se ela fosse uma visão que temia desaparecer.
E isso — isso — a destruiu por dentro.
Porque nunca ninguém a olhara assim.
— Gil-galad… — ela sussurrou, sem saber o que vinha depois.
Ele ainda a mantinha presa pela cintura quando a mão subiu lentamente até o rosto dela, como se precisasse confirmar que não fora apenas um impulso impensado. O toque foi leve — quase reverente — mas bastou para que ela fechasse os olhos, rendida, e o corpo se moldasse ao dele com uma confiança involuntária.
Ele sentiu a mudança: a respiração dela suavizando, os ombros cedendo, a tensão dissolvendo-se sob seus dedos. E naquele instante compreendeu, com uma clareza quase inquietante, que exercia sobre ela um poder silencioso — capaz de desarmá-la, de conduzi-la, de fazê-la reagir antes mesmo que ela decidisse. Era uma constatação que o envaidecia… e o alarmava na mesma medida.
— Zara… — a voz dele saiu baixa, rouca, carregada de emoção. — Isto… que está entre nós… é maior do que eu compreendo.
Ela abriu os olhos, novamente meneando a cabeça para o lado, como se pudesse negar ao invisível seus sentimentos.
— Não diga isso — pediu, apertando os punhos. — Por favor… não diga nada que torne isso real demais.
Gil-galad deu um meio sorriso, triste, carregado de rendição.
— Já é real demais.
O silêncio entre eles vibrou.
Zara encostou a testa no peito dele, como se tentasse sorver alguma força para enfrentar a realidade.
— Você é o Alto-Rei dos Noldor — lembrou, como se quisesse cortar o laço recém formado. — E eu… eu sou uma comandante estrangeira, sem um lugar definido no mundo. Isto nunca deveria ter acontecido.
— Não deveria — ele concordou, aproximando o rosto dela ao dele. — E ainda assim… aconteceu.
E havia um brilho nos olhos dele que, por um momento, a fez perder o chão.
Um brilho que dizia claramente:
“Eu te quero.”
“Eu te escolho.”
“Eu te reconheço.”
Zara fechou os olhos, lutando consigo mesma.
— Se continuar… — ela murmurou, a voz frágil como vidro prestes a quebrar — eu não saberei parar.
Gil-galad tocou seu queixo e inclinou o rosto dela para cima.
— Eu tampouco.
E isso a apavorou.
Com a força de um relâmpago, Zara recuou um passo inteiro, depois outro.
O olhar dela oscilava entre desejo e medo, desejo e dor, desejo e negação.
— Eu… eu preciso ir —virou-se abruptamente, a respiração ainda tremendo.
— Zara — ele deu um passo à frente, mas parou. Ele mesmo não confiava no que poderia fazer se chegasse perto demais.
Ela saiu tão rápido quanto uma flecha.
Sem olhar para trás.
Sem respirar.
Sem pensar.
Só fugiu.
Gil-galad ficou ali, sozinho, com o coração disparado e a alma latejando como se tivesse sido arrancada de seu peito.
Quando levou a mão aos lábios, como se ainda sentisse o gosto dela ali, a expressão que tomou seu rosto não era de rei.
Era de homem.
De um homem que acabara de tocar algo que nunca deveria ter tocado — mas que agora não sabia viver sem.
Ela correu pelos jardins como se estivesse sendo perseguida por orcs.
Ou pior: por sua própria verdade.
O corpo ainda tremia.
Os lábios ainda ardiam.
As mãos ainda lembravam a textura da pele dele.
— O que eu fiz? — ela sussurrou para si mesma, encostando-se numa coluna de mármore para recuperar o ar. — O que fiz…?
Ela sentiu o estômago virar.
O chão girar.
Aquele homem era o que ela mais temia e mais desejava.
O que era Gil-galad?
Um enigma?
Um rei?
Uma estrela caída em forma de elfo?
Ou era simplesmente… o que seu coração procurou sem saber?
Ela apertou as mãos na cabeça, desesperada.
— Isso é loucura. — As palavras saíam rápidas, trêmulas. — Isso não pode… não pode…
Mas o coração não obedecia.
Pela primeira vez na vida, Zara percebeu que poderia perder completamente o controle — não do corpo, não da mente, mas da própria alma.
E isso a apavorou mais do que qualquer batalha.
Enquanto isso, no jardim silencioso, Gil-galad continuava parado, como se o tempo tivesse ficado preso ao redor dele.
A brisa movia seus cabelos longos.
As estrelas brilhavam como testemunhas silenciosas.
Mas ele não sentia nada além do vazio quente deixado por Zara.
Um vazio que ardia.
Ele respirou fundo e levou as duas mãos ao rosto, tentando recuperar a compostura que sempre o definirá.
Mas era inútil.
Tudo nele ardia.
Tudo nele chamava por ela.
— O que está acontecendo comigo? — sussurrou, quase sem voz.
O Alto-Rei dos Noldor — treinado em disciplina, em controle, em equilíbrio — tremia.
Porque aquela mulher o desarmava.
E agora que a sentira tão perto, agora que sabia o gosto dos lábios dela… não havia muralha interna que resistisse.
Ele fechou os olhos e, pela primeira vez em séculos, sentiu medo.
Medo de perder.
Medo de querer demais.
Medo de desejá-la ao ponto de destruir a si mesmo.
Mas também —
— Zara… — ele murmurou, como um lamento.
E soube, naquele instante, que não era mais livre.
Nem ele.
Nem ela.
Nem o destino que os cercava.

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