– Ora, minha querida, o que aconteceu com você?

Eu não respondi. Meus olhos focalizaram novamente no homem a minha frente, esperando por qualquer movimento seu. Foi John quem quebrou o silencio:

– Ela caiu do cavalo.

– OH! Deve ter sido uma queda horrível! Como você se sente, querida?

Eu continuava a encarar o homem na minha frente, até que John me cutucou, chamando a minha atenção para a velhinha.

– Hmmmm, eu me sinto bem, só com alguns pontos de dor. — respondi.

– Então venha comigo, querida, deixe-me ajuda com isso. — disse a velhinha pegando minha mão e me puxando em direção aos fundos da hospedagem.

– Não! Eu me sinto bem! Agradeço a sua oferta, mas não posso ficar aqui por muito tempo.. — Eu lancei um olhar furioso em direção a John, ele havia tramado tudo isso, não havia dúvidas.

– Não seja boba, Katherine. Vá com a senhora, eu vou lhe esperar aqui. — disse John.

– Escute seu marido, querida! Ele tem razão. Além do que, você não vai negar o pedido de uma pobre velhinha, certo?

Eu corei. Marido????

– Cuide bem dela. — disse John me dando leves empurrões na direção que a velhinha estava me guiando.

Eu não tive escolha, a velhinha continuava me puxando em direção a uma porta que se encontrava canto da parede. Soltei um suspiro pesado e lancei um olhar significativo na direção de John enquanto seguia com a velhinha em direção a porta.

O quarto era bem iluminado. Havia uma cama e muitas prateleiras, repletas de plantas em pequenos potinhos. Havia alguns livros no canto da parede e uns vestido sobre um baú.

– Você é uma garota de sorte, você poderia estar com ferimentos bem piores do que esses. Alias, me chamo Lily e você, querida?

– Eu me chamo Katherine, é um prazer conhece-lá. — eu disse, sorrindo.

– Igualmente. — disse ela, retribuindo o meu sorriso. — Agora, Kat, preciso que se deite naquela cama para que eu possa tratar de seus ferimentos.

Eu acenei e a obedeci, indo me deitar na cama. Eu a observei enquanto ela ia em direção as ervas, abrindo alguns potinhos. Era estranho, não era utilizando ervas como aquelas que me pai havia me ensinado a tratar machucados com os meus...

– Acredito que eu possa confiar meus segredos a você, certo querida?

– Hmmmm, sim...

– Eu sei que seus ferimentos não foram causados por uma queda de cavalo, mas sim por um guarda. Eu sei que aquele homem não é o seu marido, mas sim a moeda de troca pela liberdade de seu pai. Consequentemente, eu também sei o que aconteceu com o seu pai, por isso eu posso confiar em você, porque eu sei que você jamais me deixaria a mercê de um destino tão cruel.

Eu encarei surpresa seus olhos azuis.

– Como você pode saber de tudo isso? — perguntei sobressaltada.

– Eu sou uma bruxa.

Eu precisei de alguns minutos para me recuperar.

– Eu não sei o que dizer. — disse com uma voz oca.

– Não se preocupe, Katherine, as pessoas costumam reagir dessa forma, você nao é a única. Agora vamos cuidar desses ferimentos.

Ela pegou mais algumas ervas, um recipiente e os colocou sobre a cama. Depois, acendeu algumas velas e as colocou ao meu redor. No recipiente, Lily acrescentou as ervas e começou a falar palavras em uma outra língua. As chamas das velas ao meu redor cresceram e surgiu uma chama no recipiente. Quando a chama desapareceu, Lily me mandou aspirar a fumaça que estava saindo. Eu fiz o que ela pediu e o alivio foi imediato. Eu observei assustada enquanto os pontos escuros por conta dos inchaços desapareciam sobre a minha pele.

– Isso é incrível! — eu disse maravilhada.

– Eu sei, na maior parte do tempo é um dom muito útil. Mas você, melhor do que ninguém, sabe o quanto é perigoso o utilizar.

Lhe dei um sorriso triste. Vasculhei minha mente em busca de algum assunto que pudesse acabar com a tensão.

– Posso te fazer algumas perguntas?

– Eu sei que perguntas você fará, mas nem todas eu posso responder. Não posso lhe dar respostas que mudem o rumo de seu futuro, mexer com o destino seria perigoso.

– Entendo. Então você não pode me dizer se eu vou conseguir ou não tirar meu pai da cadeia?

– Não, desculpe.

– Qual a verdadeira identidade de John?

– Eu não posso lhe dizer, querida, mas você a descobrirá em breve.

– Eu posso confiar nele?

– Sim.

Suspirei.

– Está pronta para voltar a sala?

– Sim. Obrigada por me curar, Lily, foi muito gentil de sua parte. E não se preocupe, seu segredo está a salvo.

– Eu que fico feliz em lhe ajudar, querida. Agora vamos, eu preciso ter uma conversa com o seu amigo.

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Estava decidido, a invasão ao castelo seria em poucos dias. Já estávamos quase na fronteira dos reinos agora, não demoraria até chegarmos ao nosso destino final. Mesmo se os ferimentos de Katherine fizerem com que tenhamos de fazer varias pausas durante o caminho, o máximo que acrescentaria seria mais um dia de viagem. Katherine... Eu não faço ideia de como ela reagirá quando descobrir toda a verdade, só posso esperar que ela entenda e seja capaz de meu perdoar. Eu realmente gosto daquela garota. Ela tenta sem forte, mesmo sendo tão frágil...

Eu estava dando o resumo completo sobre a nossa viagem a Miguel quando a vi atravessar a porta. Quando eu a vi, meus olhos se arregalaram e eu a fiquei olhando em choque. Eu não consegui acreditar, todos os seus hematomas haviam desaparecido com magica! Como isso era possível?

Ela sorriu quando percebeu a expressão em meu rosto e se dirigiu até onde eu estava, a velhinha ao seu lado.

– Senhores, essa é a Katherine. — eu disse.

– Boa tarde, senhores. — ela respondeu, cumprimentando o grupo de homens ao meu redor. Ela sorriu para eles e seus olhos pararam, encarando os de Miguel.

– Está pronta para seguir viagem? — eu lhe perguntei.

– Na verdade, senhor — foi a velhinha ao seu lado que respondeu, — eu agradeceria se pudesse ter alguns minutos de sua atenção, a sós.

Eu voltei meus olhos para a velhinha. Seus olhos estavam intensos quando os meus encontraram os dela.

– Claro. — eu lhe respondi e a segui até o lado de fora da hospedagem. Não me agradava deixar Katherine sozinha com Miguel e outros outros, então faria dessa conversa a mais breve possível.

Ela parou e virou-se para me encarar.

– Desculpe, mas essa conversa não será tão breve quanto você, John, deseja.

Eu a encarei de olhos arregalados.

– Você lê pensamentos?

– Não exatamente.

– Como isso é possível?

– Eu sou uma bruxa. — respondeu a velhinha com um grande sorriso no rosto.

– O que?! A senhora está louca? — eu a encarei incrédulo.

– Ora, John! Você certamente percebeu a forma que eu tratei a Katherine, você viu que seus hematomas sumiram, nenhum remédio no mundo poderia fazer aquilo.

– E por que a senhora está me falando sobre isso?

– Por que eu sei que posso confiar em você e por que você irá precisar de mim.

– Eu não estou entendendo.

– Nós, bruxas, estamos dispostas a nos unir a sua causa. Nós vamos lutar ao seu lado contra a opressão do rei.

– Mas por que?

– Por que desde que o Rei Felipe subiu ao trono nós estamos sendo duramente perseguidas. Muitas de nós foram mortas, assim como varias pessoas inocentes. E assim como você e seus amigos, muitas de nós foram obrigadas a abandonar nosso reino e vir morar nesse por medo de ser pega. Eu posso ver o futuro, toda a vida, das outras pessoas, mas não o meu. Eu não sabia se eles já estavam atras de mim ou quanto tempo levaria até descobrirem a verdade, então fugi. Mas, assim como você, nós queremos voltar, queremos ter a nossa antiga vida de volta e a única forma de consegui-lá é derrotando o rei Felipe.

– Mas eu não sou o líder de nosso grupo.

– Eu sei, mas Miguel não toma nenhuma decisão sem o seu consentimento.

– Se é dele que você precisa, então você tem o meu consentimento, nós vamos precisar de toda a ajuda que podermos conseguir. Mas ainda assim, você deve falar com Miguel.

– Eu sei. E se serve de conselho, você deve contar a Katherine quem você realmente é, antes que ela descubra por outra pessoa.