Segredos Submersos

49 O início do fim


Notas iniciais
Feliz natal um pouquinho atrasado, gente! Desejo tudo de melhor para vocês e que 2015 seja repleto das maiores alegrias. Queria mandar um abraço em especial à Filha de Afrodite e Zeus por estar presente em todos os capítulos, haha. Giovana Reis e Helena Steiner, agradeço muito o apoio de vocês também!

– Olá – respondeu Luna calmamente. Ela não parecia ter percebido o olhar de choque em nossos rostos, e se percebeu, não teceu observações.

– Luna, o que você está fazendo aqui? – perguntei, ainda sem saber o que fazer.

Ela deu de ombros e olhou ao redor, com seus grandes olhos claros percorrendo cada centímetro do lobby do hotel daquela forma calma que eu já havia até me desacostumado a presenciar.

– Kingsley nos enviou até aqui para ajudá-los.

– Nos? – quem perguntou foi Harry, levantando as sobrancelhas.

– A antiga Armada de Dumbledore, quero dizer – disse Luna. – A Ordem da Fênix também...

Harry interrompeu a fala de Luna, agora ficando eufórico e inquieto:

– Onde estão todos?

Annabeth e Nico se aproximaram por trás de Luna, de modo que ela ficasse entre os dois. A filha de Atena pôs a mão em um de seus ombros.

– No quinto andar. Olha, Harry, Ron; não sei como vocês dois simplesmente brotaram aqui de repente do Mundo Inferior, mas acho que vocês deveriam descan... – começou Annabeth, mas não conseguiu concluir a fala. Harry e Ron já foram correndo em direção às escadas. – Pelo menos vão de elevador!

– Acho que vou atrás deles – comentou Luna. – Meu detector de zonzóbulos ficou lá em cima. Vem comigo, Hermione? Neville e Gina queriam vê-la.

– Eu... já vou – murmurei, assim que reparei na forma em que tanto Annabeth como Nico me observavam. Com olhos inquisidores e cheios de perguntas a fazer. Suspirei mentalmente.

Luna assentiu e seguiu o mesmo caminho de Ron e Harry. Annabeth seguiu-a com o olhar e esperou-a sair de cena antes de puxar meu braço para que eu sentasse em um dos sofás.

– Hermione, o que você fez? – quem perguntou foi Nico.

– Não me diga que você foi sozinha buscar os dois lá no Campo de Asfódelos; o que foi que Nico havia dito a você lá no Acampamento? – disse Annabeth. Parecia simultaneamente braba, preocupada e aliviada. Não me esperou responder. – Ele disse que seria praticamente impossível de resgatá-los! Que descer até lá seria negar o Oráculo!

– Annie... – comecei, mas ela não me deixou continuar.

– Hermione, que imprudência! – exclamou ela. Por um instante, tive vontade de rir. Seu modo de agir lembrou-me estranhamente de mim mesma. – Você estava louca? Antes de tudo, como é que você chegou ao Mundo Inferior em primeiro lugar?

– Annabeth...

– E como é que você saiu viva de lá? Em menos de uma noite?

O rosto da filha de Atena havia adquirido uma coloração avermelhada; seus olhos cinzentos estavam arregalados com a euforia em me repreender. Nico, por outro lado, parecia mais calmo. Em suas feições havia apenas uma divertida surpresa.

Annabeth se aquietou, ainda parecendo um tanto lívida, mas sem as palavras certas para continuar.

– Talvez se você deixá-la respirar, Annie, Hermione possa responder – disse Nico com um pequeno sorriso atravessando seu rosto. Agradeci-o com um olhar. Annabeth inspirou profundamente e fez um sinal qualquer para que eu falasse.

– Você perguntou o que Nico havia dito lá no Acampamento – comecei a dizer. Minha voz estava baixa e calma, talvez em uma tentativa de acalmar a própria Annie. Apesar de tudo que eu havia passado naquela noite, neste instante eu sentia apenas calmaria. Se eu morresse agora, pensei, minha alma estaria em paz. – E, de fato, Nico disse que ir até o Mundo Inferior para resgatar Ron e Harry seria algo muito difícil de se realizar, mas ele disse também que deveríamos por enquanto apenas torcer para que Tânatos resolvesse soltá-los, não é?

O filho de Hades assentiu.

– E, bem... – dei de ombros. – Foi mais ou menos o que fiz. Tânatos simplesmente me surgiu em um sonho.

Aquele sorriso um tanto travesso desapareceu do rosto de Nico e agora ele estava igual a Annabeth – incrédulo.

– O quê!? – exclamou ele. Lancei-lhe um olhar de “pois é”.

Antes que eu pudesse começar a explicação, porém, as portas de um dos elevadores se abriram e Percy e Thalia saíram, afobados e com uma expressão de choque em seus rostos. Apressados, vieram em nossa direção, Percy já se manifestando:

– Eu não sei se vocês viram, mas Harry e Ron estão lá em cima! – seus olhos claros estavam arregalados de uma forma que, não pude deixar de observar, deixavam-nos bem bonitos. Eu, Nico e Annabeth apenas nos entreolhamos. Thalia ergueu as sobrancelhas ao ver que não demonstramos qualquer surpresa.

Lancei-lhes um outro olhar de “pois é”.

– Hã, mas que bosta está acontecendo? – Thalia resumiu perfeitamente aquela noite. – Hermione?

Encolhi os ombros novamente.

– Eu já ia começar a explicar... – comentei. Os dois se apressaram em sentar conosco no sofá.

E então eu expliquei tudo o que ocorrera, desde o momento em que Tânatos me chamou para jantar em um sonho até ele me levar ao Campo de Asfódelos e a luta contra o monstro vermiforme dentre os túneis de acesso ao Mundo Inferior. Meus amigos ouviram atentamente e só se manifestaram após eu me aquietar.

– Eu estou muito feliz que Harry e Ron tenham conseguido voltar – disse Percy –, de verdade, mas por que Tânatos fez isso?

– Sei lá – falei. – Aquele cara é louco. E acho que eu posso tê-lo ofendido um pouco naquele sonho, chamando-o de covarde e tudo o mais.

– Você fez aquilo propositalmente? – perguntou Thalia. Sacudi os ombros outra vez. Ela soltou uma risada alta. – Nossa, Hermione, é isso aí! É assim mesmo que se esculacha um deus!

– Você teve sorte, isso sim – repreendeu Annabeth. Ainda assim, pude ver um pequeno sorriso brotando no canto de sua boca. – Ele poderia muito bem tê-la matado ou mantido-a presa com Harry e Ron.

– Pois é – murmurei. – Por mais que eu tenha o insultado e dito que ele estava em cima do muro, acho que Tânatos no fim acabou se mostrando do nosso lado. – Um breve silêncio se instalou no ar, conforme meus amigos concordavam.

Não voltei a me manifestar, entretanto olhei cada pessoa do grupo, sabendo que todos pensávamos a mesma coisa em relação a Tânatos. O peso da sombra da personificação da morte não tardou a nos encobrir. Ele nada tinha a perder, apesar de no instante parecer o contrário. Aquele miserável não se daria ao luxo de vir atrás de nós, pois, no fim de tudo, éramos nós que iríamos atrás dele. Era sempre assim, não? Mesmo que saíssemos vivos desta batalha, Tânatos era aquele que no final estaria de braços abertos aguardando nossa redenção. Antes ele do que as Queres, pensei, conforme um arrepio subia por minha espinha.

Balancei a cabeça, tentando expulsar de meus imediatos pensamentos a noção de morte e vida. Mudei de assunto e todos pareceram gratos:

– Quando foi que a Armada de Dumbledore e a Ordem da Fênix chegaram?

– Faz pouco tempo – disse Thalia. – Já estávamos explicando a eles as posições em batalha e todo o restante. O bom é que Pallas aparentemente não sabe que estamos ganhando reforços, e aquele seu amigo Auguste Dupin nos contatou falando da localização dos titãs.

Levantamos-nos dos sofás e fomos ao elevador, Thalia ainda explicando como o planejamento de ataque estava sendo. Haveria uma retaliação mais próxima ao esconderijo do exército de Pallas, de forma a impedir que se aproximassem do Empire State.

– Eles estão vindo pela Broadway, a partir da Ponte do Brooklyn, então é para lá que vamos. Ao invés de nos defender da aproximação deles até o Empire State, nós iremos afastá-los de lá.

– E em relação à posição dos combatentes? – questionou Percy. Thalia ergueu as sobrancelhas e franziu os lábios para o primo, de uma forma até cômica.

– Cabeça de Algas fazendo perguntas decentes? Uau, essa é nova!

– Nossa, como você é engraçada – disse ele, irônico. Thalia fez uma careta e não pude evitar rir.

– Enfim, mas é uma boa pergunta – falou a filha de Zeus. – Os campistas e as Caçadoras à frente, Apolo conosco. Servimos como distração, enquanto os bruxos vêm um pouco mais atrás, como uma surpresinha.

Thalia abriu a porta de um dos quartos, e meu coração pareceu subir à boca assim que vi meus antigos amigos parados lá dentro. Senti-me tão próxima novamente de Hogwarts ao ver a Armada de Dumbledore reunida que não havia nada no mundo que conseguisse tirar o sorriso que se formou em meu rosto.

Gina me enlaçou calorosamente em meus braços assim que deixou de dar seus dignos amassos em Harry (não pude deixar de notar a careta que Ron ligeiramente fizera); cumprimentei Luna com a cabeça novamente e abracei também Neville, sentado ao lado da loira com uma pequena caixa em mãos.

– O que tem aí, Neville? – perguntei.

– Ah, aqui? – disse ele, parecendo entusiasmado. Colocou a mão dentro da pequena caixa, mas seu braço desapareceu lá dentro até o nível do cotovelo. Retirou um pequeno vaso com uma planta que reconheci ser um bulbo saltador. – Consegui trazer uma parte do acervo de herbologia. São algumas das plantas mais perigosas que existem, sabe, para ajudar. O resultado pode não ocorrer em uma escala tão grande como em exércitos e tudo o mais, mas já ajuda.

Tive de abraçar Neville outra vez.

– Obrigada. De verdade.

Neville pareceu um tanto embasbacado ao ver o quão grata eu estava por ele estar ali; talvez achasse aquilo algo pequeno e insignificante, mas ainda assim sorriu. Ao seu lado, foi Luna quem desta vez pôs o braço na caixa, retirando um grande e grosso chifre e colocando-o cuidadosamente em minhas mãos.

– Chifre de erumpente – disse eu, reconhecendo-o imediatamente. Extremamente perigoso e explosivo ao perfurar qualquer coisa. Luna assentiu solenemente.

– Guarde-o com cuidado – avisou ela. – É o único que temos. Sua cabeça está cheia de zonzóbulos, Hermione. Há algo que eu possa fazer por você?

Ainda sorrindo – era apenas isso que eu conseguia fazer – balancei a cabeça em negação. Meu peito pareceu ficar pesado com o arrependimento, de algum dia eu ter pensado em Luna Lovegood como uma garota boba e ingênua. Não consegui fitar seus grandes olhos, que ainda observavam-me naquela suavidade habitual.

Coloquei o chifre suavemente no bolso – encantado com um feitiço de extensão, naturalmente – ao lado da faca celestial.

– Não, Luna – finalmente falei. – Mas obrigada por tudo.

Assim que clareou plenamente, o caos foi instaurado.

Durante o trajeto inteiro que percorremos até encontrar as primeiras bases do exército de Pallas, meu coração parecia palpitar na garganta e havia em mim a sensação de que, depois deste dia, tudo mudaria. Ninguém dissera quanto tempo acreditava que a batalha duraria, contudo a forte impressão de que nada passaria do anoitecer não conseguia se livrar de mim.

Neste mesmo horário do dia seguinte, um dos lados seria triunfante. Tal perspectiva fez eu ter de engolir a bile que subiu a minha garganta.

Os letreiros da Broadway coloriam o mundo ao meu redor conforme o exército de Pallas avançava para cima de nós. Os dois lados então se encontraram e tudo virou uma bagunça; uma massa qualquer de pessoas e criaturas e gritos e feitiços e espadas, todas virando um e voltando a se separar outra vez.

A faca celestial não funcionaria muito bem como uma arma de ataque, portanto mantive-a no bolso – junto do chifre de erumpente, cuja presença eu sentia contra a coxa ao ponto de parecer algo vivo – enquanto atacava apenas com a varinha.

Alguns dos campistas se distribuíram para atacar as bases do exército, os subordinados mais rasos, enquanto outros e os bruxos avançavam pela Broadway, sempre em frente. Sabíamos que Pallas e seus militantes mais próximos estariam mais para dentro daquela massa de pessoas. E era Pallas, em especial, quem eu teria de encontrar.

Não tardou para aquela coisa laranja berrante com listras pretas, a serpente de três cabeças denominada Farosutil, aparecer em campo de batalha. Pallas não deveria, então, estar muito longe.

Olhei para Thalia, ao meu lado. Ela respondeu ao olhar e fez um sinal com a cabeça – de “vamos nessa”. Seu sorriso transpassou um pouco da confiança que eu precisava. Olhei para meu outro lado, desta vez para Percy. A intensidade em seus olhos lembrou-me da noite de meu aniversário e do calor de seus lábios; por mais nervosa que isso me deixasse nos dias anteriores, neste momento foi como uma porta que permitiu a mesma confiança entrar.

Se eu morrer hoje, pensei, não haveria como eu resolver o que se referia a mim e Percy. Por mais que esta fosse a alternativa mais fácil, eu não poderia me dar ao luxo de vê-la escorrer por meus dedos de modo a perdê-la.

Percy não sorriu, mas seus olhos pareceram me reconfortar.

– A chave está em cortar a cabeça da esquerda – falei. – É a cabeça que planeja. Mas temos que tomar cuidado, porque o Farosutil é muito ágil. Eu a distraio; Thalia, pode me dar cobertura para eu não ser atacada por qualquer outra coisa? Percy, não tenha dó em usar sua espada como guilhotina.

Eles apenas concordaram. Thalia pegou uma das flechas elétricas, enquanto Percy balançou Anaklusmos na mão.

E então corremos. Percy logo se separou de nós para poder atacar o Farosutil a partir de outro ângulo e Thalia vinha atrás de mim, conforme eu ia de frente à criatura.

– Impedimenta! – apontei a varinha para a serpente. Ela tinha no máximo dois metros de comprimento, mas ainda assim era extremamente ágil. Com um silvo, se desviou e suas três cabeças se tornaram em minha direção, lembrando-me estranhamente de um cruzamento entre Fofo, o cão-guarda da Pedra Filosofal, e Nagini.

Eu sabia que ela se desviaria de um feitiço assim simples, mas pelo menos toda a sua atenção se voltou a mim. Começou a se arrastar em minha direção, levantando as cabeças e mostrando dentes afiados e cheios de veneno.

– Venha aqui, sua cobra maldita! – exclamei, não me segurando. – Estupefaça!

Com o canto de olho, percebi que Percy subira no capô de um táxi. Thalia desviou uma lança que voou em sua direção com uma de suas flechas, aproveitando para cravar outra no peito do homem que jogara a lança. O homem caiu no chão, o sangue brotando do peito.

Por pouco não tropecei em um dos trouxas que dormia no asfalto. Morfeu bem que podia ter feito um trabalho melhor na hora de poupar os trouxas, pensei.

Eu não podia correr para muito longe; o Farosutil ainda tinha de estar a alcance da espada de Percy, portanto comecei a provocá-la ainda em meu local, movendo-me apenas para os lados feito uma pateta.

– Cobra idiota! – gritei. Eu podia não ser ofidioglota ou algo do tipo, mas tinha a impressão que o Farosutil sabia que eu o insultava. – Estupefaça!

A serpente desviou outra vez, agora se jogando em cima de mim para me morder. Joguei-me para o lado, ao chão. Thalia, que estivera com as costas basicamente encostadas nas minhas, virou-se e ágil e graciosamente lançou outra flecha, que se cravou perfeitamente nas escamas do Farosutil.

Antes que ele pudesse reagir – ou ao menos soltar um silvo de dor – Percy pulou do táxi, bradando a espada e passando a lâmina da Anaklusmos precisamente abaixo da cabeça esquerda daquela criatura.

A cabeça decepada voou para longe do corpo, atingindo o capô de um outro táxi.

O Farosutil não tardou a morrer.

Eu, Percy e Thalia não tínhamos tempo o suficiente afim de pararmos para comemorar a morte do animal, portanto apenas trocamos um sorriso e um suspiro de cansaço cúmplices. Voltamos a correr, em frente, para sairmos da Broadway e chegarmos à Ponte do Brooklyn – o esconderijo de Pallas, o local em que eu sabia que ele deveria morrer se não quiséssemos que ele chegasse ao Empire State.

Agora éramos uns dos únicos a correr dentre toda a quietude em que estava Manhattan. Grande parte dos exércitos – tanto do lado de Pallas quanto do nosso – haviam ficado para trás. Conforme atravessávamos as quadras lotadas de trouxas inconscientes, o número de combatentes passava a rarear. Talvez Pallas estivesse esperando que nosso exército ficasse cansado das lutas contra seus subordinados mais baixos, para apenas então poder avançar em direção ao Olimpo. Orgulhoso do jeito que era, eu tinha certeza que Pallas teria de fazer sua entrada no trono de Zeus uma espécie de desfile.

Não demorou para que Annabeth, Nico, Harry, Ron e o restante das Caçadoras de Ártemis nos alcançassem e começassem a avançar no mesmo ritmo que nós. Diminuímos o passo; não poderíamos ficar cansados antes que chegássemos ao local destinado.

Assim que alcançamos o início da Ponte do Brooklyn, o ar pareceu mudar. Debaixo das luzes dos cartazes da Broadway, o ambiente estava quente e seco. O céu que antes estava azul e limpo passou e ficar cinzento e carregado. O ambiente esfriou e a fina camada de neblina que cobria a ponte dava-lhe a impressão de se estender infinitamente ao vazio.

– Ele está aqui – murmurei.

Senti uma mão afagar meu ombro, que assumi ser de Annabeth.

Devíamos ter andado no máximo quinhentos metros quando a onda de força que reverberou pelo ar nos empurrou para trás, quase jogando-nos ao asfalto.

– Mas que merda...? – disse Ron.

Apertei o olhar em direção ao horizonte encoberto pela neblina, que parecia preencher o mundo com sua vastidão.

Ao longe, dois vultos, que cada vez mais se aproximavam.

Um deles era fácil de perceber quem era – pois era o vulto de um grande animal de quatro patas. Ele não precisava se aproximar para eu saber que seria um lobo de pelagem branca, que em forma humana se chamava William Wilson. O outro, porém – o fato de ser homem era a única coisa reconhecível – teve de sair das cobertas da neblina à frente para que eu o reconhecesse.

Era um homem alto e imponente. Negro e careca, com sorriso e olhar enigmáticos, que sabia mudar de forma – deste homem para um caucasiano de olhos azuis que assoprava areia nos olhos das pessoas para atormentá-las em seus sonhos.

Lembrei-me da caixa de areia que caíra sobre meus tornozelos em um museu, bem como uma flor de papoula ao seu lado, deixadas para mim por ele, dentro de um jogo no qual eu deveria descobrir sua identidade. Entretanto, eu havia descoberto. Morfeu, o deus dos sonhos, o principal Oneiro.

O ar frio ao meu redor pareceu repuxar os pelos de minha nuca.