Segredos Submersos

50 Entre a neblina que cobre o horizonte


Notas iniciais
Feliz ano novo! E já peço desculpas antes de tudo. Com o capítulo vocês vão saber o porquê.

Nos lábios de Morfeu surgiu um sorriso enigmático.

– Olá, Morfeu – falei, lutando para que a voz não saísse de minha garganta de modo tão trêmulo. – É bom finalmente conhecê-lo.

A neblina que cobria o mundo ao nosso redor parecia aumentar de espessura.

– Digo o mesmo em relação a você, senhorita Granger – disse Morfeu. Sua voz, enquanto na forma do negro careca, era tão profunda quanto a do homem de olhos azuis.

Ao seu lado, o lobo de pelagem branca soltou um rosnado baixo e movimentou a cabeça em direção a Morfeu. Este revirou os olhos momentaneamente e fez um sinal de “pare” a William Wilson.

– Acalme-se, Wilson. Sei que já faz bastante tempo que você quer cumprimentar a senhorita Granger, mas não poderia esperar pelo menos cinco minutos? – em seu tom de voz havia uma leve pontada de impaciência e desprezo.

– Posso chamá-la de Hermione? – continuou o deus dos sonhos. Não o respondi, e de qualquer forma ele não teria esperado por qualquer resposta. – Sabe, Hermione, já faz tempo também que eu queria conhecê-la propriamente. Sem todo aquele negócio de nos encontrarmos apenas em sonhos ou apenas observá-la.

Ele começou a se aproximar, em passos silenciosos e calmos contra o asfalto frio da Ponte do Brooklyn. Involuntariamente segurei a varinha com mais força. Não olhei para trás, mas pude ouvir meus amigos levantando as próprias armas. Morfeu ergueu as sobrancelhas e deu uma breve olhada para trás, para dentro da neblina onde nada eu conseguia enxergar.

Ao voltar o olhar para mim, apontou naquela mesma direção. Para onde eu sabia que Pallas estaria.

– Pallas a está esperando – disse Morfeu. Não me dei o luxo de respondê-lo. Wilson rugiu e uma Caçadora de Ártemis se atreveu a lançar uma flecha em sua direção, da qual Morfeu facilmente se desviou. Soltou uma fraca risada de deboche. – Seus amigos são muito impacientes, Hermione. Mal aguentam esperar uma simples conversa.

– Discordo – a palavra saltou de minha boca. – Acho que já esperamos demais por seus joguinhos, Morfeu.

Outro riso de escárnio.

– Quem sabe você tenha razão – disse ele e suspirou. – Mas posso dizer que sinto-me indisposto em demasiado para uma luta... – apontou primeiramente para Wilson com a cabeça, para logo depois assobiar em direção à neblina. – Pode cuidar deles em diante, Wilson.

Não tivemos tempo para realizar qualquer ataque contra Morfeu conforme ele virava de costas para nós e retornava seu caminho adentro da ponte; William Wilson subitamente avançou contra nós, junto de mais uma enorme quantidade de criaturas do Tártaro que surgiram por entre a neblina.

Mais especificamente, William Wilson avançou para cima de mim, enquanto dezenas de criaturas atacavam meus amigos, portanto basicamente fiquei sozinha. Sua forma lupina pulou em minha direção e tive de me jogar para o lado afim de me desviar de seu ataque. Rapidamente ergui a varinha.

– Estupefaça! – Wilson, porém, facilmente se desviou, pulando para o lado e rosnando novamente. Com um gesto ágil, saltou novamente e me empurrou com as patas dianteiras, fazendo com que pequenos cortes abrissem na região em que suas garras encontraram minha pele e que eu caísse para trás, batendo as costas contra o asfalto.

Levantei-me o mais rápido que pude, tentando ignorar a ardência nas costas e no tórax, e gritei assim que Wilson realizava outro salto:

– Incarcerous!

Desta vez o feitiço o atingiu, de modo que diversas cordas se enlaçaram ao redor de sua anatomia e o fizeram cair. Entretanto, após pouco tempo se debatendo, o principal servo de Pallas se desvencilhou das cordas e voltou a se levantar.

Avançou sobre mim outra vez, agora lançando-me contra as estruturas de aço das laterais da ponte. Uma forte dor percorreu minhas costas e todo o meu corpo pareceu protestar. Caí sentada e por um instante pareceu que eu não conseguiria levantar. Senti meu maxilar contrair com a raiva ao ver o sorriso que parecia se formar em sua boca, mesmo em forma lupina. Nas lutas anteriores que eu tivera com William Wilson, ele nunca de fato havia utilizado sua verdadeira força, finalmente percebi. Ele estivera guardando-a para o momento final, momento exatamente no qual estávamos. E eu não teria chance contra ele, pelo menos não enquanto em sua forma animal.

Ao invés de voltar a me atacar, surpreeendentemente o lobo retomou sua forma humana, ainda quando eu estava no chão incapaz de me erguer. Talvez Wilson quisesse presenciar em sua verdadeira forma o momento em que me derrotaria, dado o sorriso imenso que dava à sua face um aspecto grotesco.

Ajeitou os óculos de aro dourado na ponte do nariz e andou em minha direção, com o mesmo semblante tranquilo que mostrara ter em nosso primeiro encontro, ainda lá no cemitério da Filadélfia onde Benjamin Franklin fora sepultado. Parou a menos de um passo de mim. Suas mãos agarraram a gola de minha camiseta e me puxaram para cima com violência, forçando-me a levantar. Minhas pernas tremiam com a dor e era óbvio que isso o satisfazia.

Contudo, eu não permitiria a mim mesma dar-lhe tal satisfação, portanto – assim como após o nosso primeiro encontro no cemitério – com toda a força que consegui reunir, cuspi em seu rosto. A saliva misturada com algumas gotas de sangue escorreu por sua pele e pingou em seu sapato. Sua reação foi imediata; apenas senti meu rosto ser violentamente empurrado para o lado conforme seu punho se enterrava em minha bochecha. A dor foi extrema, mas valeu a pena.

Wilson me empurrou contra os cabos de aço que sustentavam aquele lado da ponte, prensando-me contra eles, da mesma forma em que Tânatos fizera quando irritei-o em demasiado na entrada do túnel subterrâneo, porém com muito mais força. Ao contrário da vez com Tânatos, no entanto, não senti medo. Apenas a mais profunda raiva.

Peguei a faca celestial do bolso – o chifre de erumpente que Luna me dera pareceu roçar contra minha perna – e cravei-a na coxa de Wilson. Ele ganiu de dor e isso fez com que me soltasse momentaneamente. Chutei-o na barriga e empurrei-o para trás.

Ele se desequilibrou, mas não caiu. Sua agilidade ainda era extrema, portanto quase nem percebi quando empunhou a sua própria varinha.

Quase.

– Cruc... – começou a dizer, mas bloqueei-o com um Protego, a raiva ainda borbulhando em minha cabeça. A ideia de que William Wilson era híbrido como eu dava-me náuseas. Ainda assim, ele foi rápido demais e não fui capaz de me proteger de outro feitiço. – Impedimenta!

Caí para trás; tudo ao meu redor pareceu girar com o impacto da cabeça no asfalto. A dor irradiou de meu crânio à ponta dos pés.

Com outro sorriso colado à face – mas com os olhos transbordando de ódio – Wilson se aproximou de mim. Vê-lo de baixo trazia-me ainda mais náuseas e raiva do que vê-lo de um ângulo normal. Ajeitou as hastes dos óculos e pisou em meu tórax, comprimindo-o e fazendo-me perder o fôlego.

– Eu já disse a você que matá-la seria o maior prazer de minha vida, Hermione – disse ele, aumentando a pressão sobre meu corpo. Seu pé parecia começar a comprimir meus pulmões; a sola de seu sapato contra meu seio e o corte que suas garras abriram fez-me arreganhar os dentes de dor. – Mas infelizmente não vou ser capaz de realizá-lo. Meu senhor é e será o único que terá o triunfo em ver a vida ir embora dessa tragédia que é a sua existência, sua desgraçada!

– Você é patético – cuspi as palavras. Wilson soltou uma risada debochada.

– Ainda assim – ele ignorou o que eu falei – o fato de eu não poder ser aquele que a matará não me impede de ser aquele que matará cada um de seus amigos.

Retirou o pé de cima de meu corpo e, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, chutou minha barriga com força. Meu corpo se contraiu para o lado, completamente sem fôlego. Meu diafragma protestou de dor e tossi fortemente, cuspindo sangue no chão e sentindo a garganta arder, ressecada.

Meu organismo pareceu querer desistir com a fraqueza. O cansaço fez com que minha cabeça finalmente se apoiasse no asfalto, relaxada e com tosses ainda percorrendo meu ser. A neblina que antes era um simples tapete sobre a superfície da ponte estava agora mais espessa, cobrindo o horizonte.

Meu olhar parecia perder o foco. Deitada, o cenário da Ponte do Brooklyn estava torto e caótico; ao meu redor e de William Wilson, pequenas batalhas eram travadas e o mundo estava em plena confusão, com monstros e espadas e semideuses e híbridos se machucando e caindo e sangrando e morrendo. Com o canto de olho, pude perceber que Wilson levantava o pé, possivelmente para me dar outro chute. Foquei-me novamente na realidade fora de mim, apenas esperando o impacto que meu torso receberia e que roubaria parte de minha respiração.

O chute, porém, não veio.

O que veio foi apenas um som involuntário de surpresa saindo da boca de Wilson, ao passo que um punho se enterrava em seu rosto e uma joelhada em sua barriga. Foi ele, desta vez, quem tossiu e cambaleou para trás.

Pela visão periférica pude apenas ver um sorriso pequeno no rosto de Thalia Grace.

No intervalo de tempo – milésimos de segundo, possivelmente – em que Thalia deu um soco em William Wilson e ele cambaleou, a líder das Caçadoras de Ártemis puxou-me pelo braço e forçou-me tanto a levantar como a voltar para a realidade.

Ao se recuperar propriamente do que havia acontecido, Wilson pegou uma espada da bainha de uma das criaturas que jazia morta e girou-a nas mãos. Em um gesto ágil, jogou-se para cima de mim e de Thalia. Ela empurrou-me para o lado, de modo a me proteger e ser o foco da atenção de Wilson. Não pegou suas tradicionais flechas elétricas, mas sim uma lança de mesma natureza, a qual empunhou junto de Aegis, o escudo com a cabeça de Medusa empalhada em seu topo.

Por um único instante pude admirar a fluidez de movimentos que ambos os lados possuíam – o duelo entre lança e espada era muito bem equilibrado, tanto pelo uso das armas como pelas acrobacias físicas; mas logo minha atenção foi desviada por uma criatura com dentes que mais pareciam chifres. Azarei-a e rapidamente pude voltar ao meu foco principal, William Wilson.

Thalia correu em direção a uma das bordas da ponte; em um salto, agarrou um dos cabos de aço e com ele tomou impulso para atingir Wilson no pescoço com os pés. O seguidor de Pallas, porém, previu tal movimento e suas mãos agarraram os pés de Thalia, mantendo-a pendurada. Ela tentou se desvencilhar de seu toque, sem sucesso.

O ruído que os ossos dos calcanhares da filha de Zeus fizeram, ao serem abruptamente torcidos pelas mãos de Wilson, foi possivelmente o segundo pior barulho que ouvi em minha vida.

Thalia gritou de dor e com um baque caiu no asfalto.

Wilson tinha em sua face uma expressão grotesca de ódio. Pisou no calcanhar de Thalia da mesma forma em que outrora pisara em meu tórax, fazendo-a gritar.

O sangue pareceu subir à minha cabeça e impregnou minha mente da mesma forma em que a neblina impregnava o ambiente.

– Estupefaça! – gritei, porém a adrenalina que corria no sangue de Wilson devia estar tão intensa quanto a que corria pelo meu; bloqueou meu feitiço rapidamente com a mão que empunhava a varinha. – Estupef...!

Wilson fez um movimento com a varinha que além de bloquear meu feitiço, empurrou-me novamente para trás. Desta vez, não caí.

Mas foi o suficiente para me atrasar por centésimos de segundo, e são centésimos de segundo que mudam o curso da história.

– Não ouviu o que eu disse antes? – exclamou Wilson com a voz rouca, gritando para que eu o ouvisse. Aquela calmaria que seu semblante antes apresentava havia se esvaído completamente; os olhos claros por trás dos óculos de aro dourado eram enlouquecidos. Deu outro pisão nas pernas de Thalia. Ela gritava, mas eu não sabia mais dizer se os gritos se dirigiam a mim ou a ele. – Eu não ser aquele que irá tirar sua vida não me impede de ser aquele que irá tirar a vida daqueles que você ama!

Lancei outra azaração para novamente falhar. Wilson agarrou a camiseta de Thalia com força, puxando-a para cima e prensando-a contra os suportes de aço da mesma forma que fizera comigo.

Eu corria em sua direção mas meus pés nunca pareciam chegar lá.

Thalia se debatia e tentava se soltar, mas já estava muito fraca e, assim como eu, falhava.

A neblina parecia cobrir o mundo e meus pulmões doíam.

As feições de Wilson demonstravam extrema insanidade e o mundo, coberto pelo tapete de névoa, pareceu se aquietar e zumbir em meu ouvido no exato momento em que sua espada atravessou o tórax de Thalia Grace, filha de Zeus, líder das Caçadoras de Ártemis.

Aquele momento pareceu congelar o tempo em si.

A realidade pareceu se distorcer e se dissociar de mim.

Wilson riu e soltou a base da espada. A arma ficou presa no corpo de Thalia, entrando por seu estômago e saindo pelas costas, conforme ela perdia as forças e seu corpo escorregava em direção ao asfalto.

Antes de atigir o chão, Thalia tossiu. O ruído úmido que escapou de sua boca, do sangue manchando seus lábios, foi o pior barulho que ouvi em minha vida.

O ruído que saiu de minha boca, em contrapartida, eu mesma não consegui ouvir devido ao desespero que tomou conta de mim.

Quando a realidade voltou a se desdobrar ao meu redor da forma de sempre, minha varinha já estava lançando feitiços contra aquele homem e o sangue latejava em minha cabeça e o sangue de Thalia Grace escorria pela superfície áspera do chão.

Não havia reparado que Percy também estava por perto e que ele já havia corrido desesperadamente em direção à prima para socorrê-la, seu nome sendo pronunciado entre gritos com tanta frequência que seu digno sentido foi perdido.

Meu corpo se movimentava involuntariamente e eu não conseguia mais pensar. Memórias e neblina e a imagem de William Wilson rindo e Thalia Grace morrendo da mesma forma que Annabel Lee antes de ser consumida pelas chamas se misturavam e se separavam e voltavam a se tornar algo único em minha cabeça, pressionando-a e martelando-a com baques incessantes conforme eu corria e gritava e tudo voltava a parecer irreal.

Não é verdade não é verdade não é verdade

William Wilson riu e ergueu os braços em diversão. Talvez a alegria o entorpecesse da mesma forma que o choque e a raiva faziam comigo, dado o modo em como ele pareceu ficar desatento naqueles centésimos de segundo.

– Desgraçado! – peguei a mim mesma gritando, minha voz já começando a falhar pela rouquidão de tanto berrar com ele nesses últimos momentos. – Filho duma mãe, maldito! Estupefaça! Incarcerous! Petrificus totalus!

William Wilson não mais desviava as azarações com algum feitiço escudo ou algo do tipo, mas apenas ria. Era eu que não conseguia acertá-lo.

– Avada Kedavra! – tais palavras saíram de minha boca como um rugido e em um único instante as feições de William Wilson passaram de sorridentes para alarmados, no exato momento em que o feixe de luz verde o atingia no peito.

Ele caiu morto e eu de joelhos.

Não é verdade não é verdade não é verdade

Ao longe, pareci ouvir Annabeth gritando o nome de Thalia.

Enterrei o rosto nas mãos e não impedi as lágrimas de finalmente descerem, entre todo o caos que o mundo havia se tornado naquele cenário de neblina.

E então, junto da neblina veio o vento.

Quando voltei a abrir os olhos – poucos segundos após tê-los coberto primeiramente – o forte vento que passou a soprar pela ponte pareceu agitar tudo ao meu redor, deixando um rastro gelado em meu rosto das lágrimas que agora estavam secas.

Por mais que a neblina ainda cobrisse grande parte do horizonte, pude perceber que as águas do Rio East por baixo da Ponte do Brooklyn começaram a se agitar. Como se uma força interior as impelissem a desdobrar seus braços e finalmente se libertarem.

O rio tornou-se agitado ao ponto de formar ondas, se assemelhando a um mar.

O Mar da Fé, acabei por pensar. Antigamente era enorme, e nas margens de toda a terra estendia-se como as dobras ondulantes de um lenço brilhante.

As ondas formadas pelo rio eram suaves, de qualquer forma.

Conforme o vento ganhava uniformidade ao assoviar por meus ouvidos e meu rosto, tive a impressão de sentir nele o cheiro salgado de mar, que imediatamente me trouxe memórias de sonhos distantes em uma província italiana de ruelas desertas.

Aquele era o mesmo cheiro que eu senti em Siracusa, que senti em meu pai.

O vento, combinado com o ruído que as águas do Rio East passavam a fazer ao bater contra os pilares da ponte, pareceu sussurrar. Não uma mensagem explícita ou falada, mas ainda assim eu soube qual era e soube de que vinha de Poseidon, especificamente para mim. Pude sentir na forma em que o vento pareceu contornar meus ouvidos, apesar de todo o caos ainda se desenrolando a minha volta.

Ele havia conseguido voltar, bem como os outros deuses, e por isso me agradecia.

Um trovão ecoou ao longe, vindo em direção do Empire State Building, e soube que aquele era Zeus.

Não consegui evitar pensar que, apesar de tudo, talvez aquela fé ainda existisse.

Notas finais
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