Segredos Ilícitos

3 Capítulo 3 — Tensões


Eu estava extremamente nervosa. Enquanto Alyssa penteava meus cabelos com esmero, cuidando para que cada fio castanho-claro de minhas madeixas se mantivesse nos devidos lugares, eu encarava meu reflexo no espelho e movia os lábios, dizendo para mim em palavras mudas que precisava me acalmar. Os olhos fixos nos refletidos em minha imagem de perfeita princesa faziam eu me sentir, de alguma forma, estranha.

Não que eu não fosse acostumada a bailes, pelo contrário. Grimlee, apesar de ser um reino pequeno em ascensão, era bem alegre e sempre que possível meus pais promoviam festas. Mamãe adorava bailes, seu passatempo favorito era cuidar da decoração, escolher cores para toalhas e mandar os empregados polirem a tapeçaria para uma recepção impecável aos convidados. E devo admitir que ela levava jeito para isso, as festas sempre eram luxuosas e motivos de muitos elogios ao reino. Acho que essa recepção ao nosso reino ajudava que os reinos maiores aceitassem se aliar a nós. Não entendo nada sobre política, mas meu pai diz que esses bailes são importantes e por isso ele deixa que mamãe se divirta com isso.

Mas eu estava em Savian. Eu nunca pusera meus pés em outro reino que não fosse o meu, então isso significava que eu nunca fora a outro baile que não fossem os preparados pela minha mãe, em minha casa e, embora houvesse todas as formalidades de recepção, sorrir e acenar, ainda era meu lar e eu me sentia mais à vontade. Em um reino diferente... Bom, era diferente. Eu veria pessoas diferentes e, embora muitos conhecidos estivessem, ainda haveria uma porção de pessoas que eu nunca vira na vida.

E ainda havia um detalhe que me deixava ainda mais ansiosa: eu era a atração. Era o baile que anunciaria meu noivado oficialmente e muito provavelmente marcaria a data do meu casamento com o príncipe Derek. Eu não sabia quanto tempo ainda demoraria para me tornar sua esposa, mas eu deduzia que no mínimo dois meses eram necessários para preparar as bodas do futuro rei e rainha de Savian. Minha mãe ficaria frustrada por não ser ela a organizar.

— Ai! — exclamou Alyssa, levando o dedo à boca.

— Alyssa? — perguntei, olhando para ela preocupada. — Está tudo bem?

— Sim, princesa. Apenas piquei meu dedo na agulha — ela contou, chupando o dedo. — Não foi nada.

Eu nem havia reparado que ela estava ajustando o meu vestido, costurado especialmente para aquela ocasião. Eu devia reconhecer, minha amiga era talentosa com corte e costura, e adorava vestir os modelos que ela criava. É claro que nem todos os meus vestidos eram de sua criação, minha mãe fazia questão que eu vestisse roupas dos melhores alfaiates do continente. Eu não sabia qual era a diferença de um para o outro, eu não era lá muito entendedora de moda, mas minha mãe garantia que eram de boa qualidade. Não negava que eram bonitos, mas sempre me senti mais a vontade vestindo o que Alyssa costurava.

— Você anda distraída essas últimas semanas — falei preocupada, virando-me para colocar as mãos sobre seus ombros. — Você está se sentindo bem?

Acho que ela tentou disfarçar quando jogou a cabeça para baixo e escondeu ligeiramente o rosto com o cabelo, mas eu consegui perceber que suas faces haviam adquirido um rubor característico que destacava suas bochechas.

— Estou bem, princesa — assegurou, mas não senti muita convicção em suas palavras. — Apenas... Cansada.

Eu não tive tempo para formular outra pergunta e insistir no assunto, porque no mesmo instante a porta se abriu e nós duas olhamos. Minha mãe entrou, exuberante como sempre, sorrindo de orelha a orelha. Como era o meu noivado ela e meu pai não podiam deixar de estar, e provavelmente haviam acabado de chegar em Savian. Ela caminhou em nossa direção e parou, lançando um olhar para Alyssa que fez uma mesura profunda em respeito à rainha.

— Saia — ela disse com certo asco em sua voz. Vi Alyssa apertar os lábios e sair silenciosamente, fechando a porta para me deixar a sós com minha mãe.

Eu não sabia por quê minha mãe era tão hostil com ela, na verdade não sabia porque ela era hostil com a maioria das pessoas de classes sociais mais baixas. Ela parecia sentir mais hostilidade por Alyssa e eu não sabia o por quê, acho que tem a ver com o passado da família dela. Mas mesmo assim aquele tratamento me incomodava.

— Você poderia ser menos hostil com ela — falei fechando a cara, cruzando os braços sobre o busto. — Ela tem me ajudado muito.

— Ela é paga pra ajudar você — minha mãe rebateu, dando de ombros. — Além disso, só a mandei sair. O que há de errado?

— Você não gosta dela. Eu já percebi — suspirei.

— Não vim aqui falar sobre a sua dama. — Mamãe agitou a mão no ar como se o assunto fosse banal. Para ela devia ser, mas para mim não. — Hoje é um dia feliz, meu amor, você ficará noiva do futuro rei de Savian! Estou tão orgulhosa.

Ela me abraçou e eu não entendi exatamente o motivo do orgulho dela. Eu estava ali porque meu pai arrumara aquele noivado, eu mesma não havia feito nada a não ser ir para Savian e conhecer meu futuro noivo. Derek era uma pessoa realmente agradável e era bonito, eu gostava de sua companhia e já estávamos em um nível em que já não éramos tão formais, inclusive conheci o lado engraçado do príncipe e ele realmente era um rapaz fascinante. Eu gostava dele, mas não acho que ainda havia atingido o nível de amor. Era mais amizade, e eu me perguntava quanto tempo ainda demoraria para me apaixonar por ele.

— Obrigada, eu acho — falei quase sussurando quando ela me abraçou, e não demorou para me soltar.

— Ele é um rapaz muito bonito — mamãe comentou, sorrindo de uma maneira maliciosa. — Você é sortuda, meu anjo. Casar com o futuro rei de Savian, que é um rapaz bonito e ao que me pareceu, muito agradável. Aposto que já está apaixonada por ele.

Eu não sabia como responder a essa pergunta.

— Eu gosto dele — comentei. Não era mentira, eu realmente gostava, mas não como minha mãe estava pensando. — Ele é uma ótima pessoa, é divertido e faz de tudo para eu me sentir à vontade.

Eu tenho certeza que se apaixonar por Derek não deve ser uma coisa difícil, além de bonito ele é agradável, gentil e muito espirituoso. Eu conseguia perceber todas essas qualidades do herdeiro do trono de Savian, mas sabe quando dizem que quando você encontra o amor, sua barriga se enche de borboletas e você parece pisar em plumas? Eu não conseguia sentir isso por ele. Gosto de conversar com ele, mas como uma boa dupla de amigos. Eu não conseguia me apaixonar por ele.

Certamente uma coisa estava errada comigo. Ou precisava mais de tempo para meu coração reagir ao amor. Não saberia dizer.

— Minha filha — minha mãe começou sonhadora, empinando o queixo e erguendo o olhar. — A futura rainha de Savian — proclamou. Esse título me deu um nó no estômago e desviei o olhar para o espelho, fingindo arrumar alguns fios soltos do meu cabelo. — Você vai elevar o nível do nosso reino, querida. Nem suas irmãs conseguiram casamentos tão bons!

O que eu poderia responder diante disso? Apenas a olhei rápido e esbocei um sorriso sem graça, voltando a focar no espelho. Leah e Aysha tinham bons maridos e sempre que eu as via, as duas pareciam cada vez mais encantadas e apaixonadas por seus respectivos maridos. Leah era casada com um duque, ao passo que Aysha se casara com um príncipe de um reino pequeno como Grimlee, e a aliança entre os dois reinos fez com que prosperassem. Mas minha responsabilidade era maior, eu seria a primeira a me casar com o herdeiro de um reino mais rico. Acho que era normal estar assustada.

— Essas coisas me apavoram um pouco, mãe — confessei, virando-me novamente para encará-la com uma expressão insegura. — Ser rainha de um reino muito rico. Me casar... É tudo muito estranho e tenho medo de algo não dar certo.

Mamãe me encarou como se eu fosse uma espécie de louca. Onde eu estava com a cabeça quando pensei que ela me entenderia? O que ela fez foi negar com a cabeça freneticamente e colocar as mãos sobre meus ombros, encarando-me com um ar reprovador, apertando ligeiramente os olhos, as sobrancelhas e formando um bico suave nos lábios carmim.

— Tianne — começou, com a voz firme — Não há motivos para ter medo. Você estará subindo vários degraus com esse casamento, e ajudando também o seu reino. Seu pai precisa desse acordo. — Ela apertou meus ombros e fiz uma careta, enquanto ela me olhava firme e seu tom tinha a mesma firmeza de seu olhar. — Você tem que fazer isso. Afaste-se dos seus medos!

Era fácil falar. Mas antes que eu pudesse responder alguma coisa, a porta se abriu e nos assustamos, revelando a imagem de Tracy entrando com seus característicos passos fortes e ar de segurança que era transmitia tão naturalmente em suas expressões. Ela não se esforçava para ser quem era, e eu a admirava muito por isso.

— Opa — ela disse, parando no meio do caminho. — Entrei sem bater, que mancada! Eu não sabia que sua mãe estava aqui.

Mamãe sorriu, mas percebi seu nariz franzir de desgosto. Tracy era tudo o que ela criticava: uma mulher despojada, livre de qualquer amarra de etiqueta que a obrigasse a agir como uma verdadeira dama. Era simples, sua linguagem casual e, embora estivesse bonita com seu vestido longo e púrpura e maquiagem, a maquiagem pesada lhe dava um ar rebelde e as poucas joias a faziam parecer mais uma dama — isso porque já vi damas mais enfeitadas — do que uma princesa de um reino importante. Tudo que usava era um par de brincos discretos de rubi, uma corrente fina de ouro e o anel da família no anelar direito. Seus cabelos estavam presos e jogados sobre o ombro esquerdo, a franja cobrindo-lhe a testa.

— Ah, Tracy — fale, sorrindo e negando com a cabeça. Apesar da simplicidade de seu visual, eu achava que ela estava simplesmente maravilhosa. — Não se preocupe. Esta é minha mãe, Dayana — apresentei, indicando minha mãe. — Mamãe, esta é a princesa Astracyane.

Certamente ela não esperava que ela fosse a princesa, percebi pela maneira discreta que seus olhos a mediram. Se Tracy percebeu, fingiu não notar.

— Pode me chamar de Tracy. Astracyane é um nome muito comprido e, particularmente, eu o odeio. — O riso de Tracy fluiu naturalmente de seus lábios, fazendo minha mãe sorrir a contragosto e assentir. — É um prazer conhecer a senhora.

— Igualmente, princesa — mamãe respondeu, mas só pela mais pura educação. A conheço, na cabeça dela já deve ter listado pelo menos cinco motivos para falar mal de Tracy. — É uma honra estar aqui em sua casa.

— É uma honra recebê-la — Tracy sorriu, voltando-se para mim. — Vim ver como você está. Este vestido não está muito apertado dessa vez, está?

Corei e mamãe olhou para mim sem entender.

— Não, dessa vez está ótimo — comentei sem graça.

— Ah, que bom — Tracy sorriu e, para meu alívio, não comentou na frente da minha mãe sobre a situação embaraçosa que passamos quando desmaiei por falta de ar por causa do meu espartilho apertado. — O baile deve começar em poucas horas, estão todos muito curiosos para conhecer a noiva do meu irmão.

Ah, esse assunto pareceu animar minha mãe.

— Tenho certeza que vão todos se encantar por Tianne — minha mãe disse, conseguindo mesclar arrogância e maternidade ao seu tom de voz. — Sei que minha filha é uma jovem encantadora, é difícil pessoas a conhecerem e não gostarem dela.

— Suponho que sim — Tracy alargou o sorriso. — Não costumo ser fácil de socializar com as pessoas, mas Ti e eu ficamos amigas no dia que nos conhecemos. — Ela olhou pra mim de uma maneira profunda, de um jeito que sempre fazia com que eu me sentisse desarmada e abaixei a cabeça discretamente, corada. Era estranho como Tracy conseguia fazer eu me sentir assim. — A senhora tem uma filha muito especial, estou certa de que meu irmão será um marido muito feliz tendo ela como esposa.

Isso pareceu inflamar tanto o ego de minha mãe que parecia que Tracy estava falando dela e não de mim. O sorriso era arrogante demais para ser disfarçado, mas pelo que percebi ela não estava disposta a escondê-lo.

— Eu estou certa que sim. O príncipe terá uma esposa maravilhosa, não digo isso por ser minha filha.

Aquele assunto já estava me deixando sem graça. Apesar de saber perfeitamente os motivos da minha presença em Savian, pensar em Derek como meu marido era estranho. Não conseguia enxergá-lo como namorado ou noivo, todas as nossas conversas sempre pendiam mais para a amizade, e eu acredito que ele devia sentir o mesmo. Esperava que nossos sentimentos pudessem mudar, eu queria mesmo que nos tornássemos um casal feliz e apaixonado.

— Eu preciso terminar de me arrumar — falei. — Mãe, pode chamar Alyssa de novo? Acho que ela precisa retocar um pouco minha maquiagem e checar meu cabelo.

— É claro, meu amor — minha mãe disse melosa, beijando meu rosto. — Irei eu mesma me arrumar, acabei por chegar em cima da hora e ainda preciso me aprontar. Acho que a princesa também precisa, não? — mamãe arriscou, olhando para Tracy.

— Não, eu já estou pronta — ela riu, negando com a cabeça. — Não gosto de muitas coisas me enfeitando, me sinto uma árvore de natal em movimento.

Eu quase ri. Aquela definição cabia perfeitamente em minha mãe.

— Oh — mamãe gaguejou. — Uma moça linda como você deveria se arrumar mais.

— Ah não, estou ótima assim — Tracy disse com descaso. — Bom, melhor a gente sair. A futura rainha precisa de espaço para se embelezar — Tracy piscou, saindo do quarto e sendo seguida pela minha mãe.

~x~

A festa já estava acontecendo no salão, mas eu ainda estava aguardando ser chamada. É uma regra idiota, Derek e eu precisamos ser apresentados somente quando todos os convidados — ou a grande maioria — estiver presente. Eu já havia dado tantas voltas no quarto que poderia ter aberto um buraco no chão. Alyssa dizia sempre para me acalmar, mas estava difícil.

Alguém deu duas batidas na porta e aguardou que eu permitisse sua entrada, revelando ser Derek.

— É a nossa vez — ele falou, estendendo a mão parado na entrada. — Pronta?

Senti um frio na barriga e um nó na garganta, dando passos em sua direção e dando-lhe a minha mão.

— Estou um pouco assustada — confessei baixinho. Eu e Derek já estávamos ficando amigos, não via necessidade de fingir quando estávamos sozinhos. Ele sorriu para mim e apertou minha mão carinhosamente para me tranquilizar.

— Fique tranquila. Vou estar do seu lado, o que pode dar errado? — ele perguntou piscando, e eu sorri. Ele era realmente um rapaz agradável e bom, minha mãe provavelmente estava certa em dizer que eu fora sortuda. E sentia raiva de mim mesma por não sentir mais do que amizade por ele, mas me esforçaria para amá-lo. Ele merecia ser amado.

Alyssa saiu do quarto e os olhares dela e Derek se encontraram, foi difícil não perceber que ela corou mesmo abaixando a cabeça para disfarçar uma mesura. Ela era muito tímida, acabava até sendo fofa.

— Alteza — ela cumprimentou.

— Oi, Alyssa — ele cumprimentou simpático. — Vai estar no baile? Espero vê-la se divertindo lá.

— E-eu vou estar... Preciso cuidar da princesa — gaguejou.

— Lyssa, eu estarei bem. Descanse — pedi. — Pelo menos hoje, aproveite a festa. Tente conhecer pessoas novas — falei. Ela sabia ao que eu estava me referindo.

— É melhor nós dois irmos — ele suspirou.

Puxou-me delicadamente e Alyssa foi na frente para avisar que estávamos prontos para sermos apresentados. Nós esperamos no topo na escada e eu estava suando frio, com o coração acelerado. Eu sei que sou uma princesa, mas mesmo assim não gosto de receber tanta atenção, principalmente ser o centro de uma celebração, ainda mais em um reino diferente!

— Sua alteza real, herdeiro do trono de Savian, Derek Millorana Semptus. Acompanhado de sua noiva, a princesa de Grimlee e futura rainha de Savian, princesa Tianne Flerniss Asturis! — a voz masculina e grave anunciou em alto e bom som, seguida de aplausos.

Respirei fundo. Senti Derek apertar minha mão e então sorrir, oferecendo-me o braço da maneira formal e eu aceitei, sorrindo de volta, e então descemos elegantemente as escadas. A medida que descíamos via o salão com mais clareza, lotado de convidados bem vestidos que nos encaravam e nos aplaudiam, E Derek sorria e acenava com facilidade para todos, com uma graciosidade tão natural que senti inveja. Suspirei discretamente e fiz o mesmo, acenando e sorrindo para os olhos curiosos que me conheciam pela primeira vez.

Agora eu seria um rosto conhecido em Savian, mas não fazia a menor ideia se isso seria algo positivo ou negativo.

~x~

Eu já tinha perdido as contas de quanto tempo precisei ficar com o sorriso no rosto e quantas pessoas precisei conversar e conhecer. Muitos nobres estavam curiosos ao meu respeito e tomaram muito do meu tempo me fazendo perguntas, minha mãe adorou toda aquela atenção e, claro, aproveitou para firmar amizades que talvez viessem a ser importantes. O ruim disso é que tive pouco tempo para ver o meu pai, já que ele também estava ocupado conversando com o rei Argenus e o duque Hasuran, um dos melhores amigos e conselheiros de meu pai. Ele e sua esposa, Myrella — mesmo que ela tivesse idade de ser filha dele —, também haviam sido convidados já que a amizade daqueles dois se estendia desde quando ambos ainda usavam fraldas, segundo meu pai. Foi bom vê-los, ter mais rostos conhecidos me tranquilizava no meio daquela vasta multidão de estranhos.

Vi Tracy algumas poucas vezes, mas ela sempre sumia. Não me surpreendi muito, já que com o pouco que eu a conhecia já sabia que ela detestava todos aqueles eventos pomposos da nobreza e sempre que podia escapava para tomar um ar. Era a cara dela não suportar tudo aquilo, ela me dissera uma vez que não aguentava respirar o mesmo ar de tanta gente fútil e hipócrita ao mesmo tempo. Quando ela percebera que me sentira ofendida, acabou por pedir desculpas e acariciar meu rosto, dizendo-me que eu era diferente. Aquele pequeno toque gerara pequenas ondas elétricas dentro de mim que eu não sabia dizer o que era, mas corei como sempre. Ela tinha essa facilidade me fazer corar, era impressionante.

Mas eu também estava ficando cansada, precisava de ar. Por ser a atração não tive muitas oportunidades de fugir, mas na primeira que surgiu eu escapei para o jardim que estava vazio, suspirando aliviada por conseguir me livrar de toda aquela tensão. Eu sentia que as pessoas tinham expectativas sobre mim, a rainha Selyne era uma mulher querida e provavelmente esperavam que eu fosse como ou superior a ela quando fosse minha vez e a de Derek a ascender ao trono. Aquela cobrança tácita estava me cansando, precisava relaxar e respirar.

O jardim do castelo era muito bem cuidado, as flores eram bem aparadas e tinham uma vasta quantidade de cores e tipos de plantas. A luz do luar, o cheiro parecia se tornar ainda mais perfumado. Respirei o ar da noite e caminhei despreocupada, percebendo que estava sozinha e podendo enfim ser um pouco eu mesma e não a princesa requintada e bem educada que precisava ser dentro do salão.

Durante a minha caminhada, ouvi sons molhados em um canto mais afastado do jardim. Corei porque aquilo parecia som de beijos — ou como eu imaginava que era o som de beijo. Mas tenho um defeito que pode ser ruim na maioria dos casos: sou curiosa. Beijos entre um casal é algo que eu nunca vi, apesar de eu e Alyssa falarmos muito sobre esse tipo de situação nenhuma de nós tem experiência além dos livros de romance que adoramos ler. E por isso, me escondi e me esgueirei para poder assistir ao casal desconhecido que se beijava.

E o que eu vi me deixou em estado de choque.

Arregalei os olhos e fiquei boquiaberta quando vi que se tratava se Tracy e, agarrada a ela, estava Myrella. Duas mulheres se beijavam avidamente, afundando os dedos nos cabelos uma da outra, descendo as mãos sobre o corpo uma da outra. Percebi que uma das mãos de Tracy apertavam com vontade o traseiro de Myrella, enfiada por dentro do vestido dela, e Myrella gemia de prazer dentre o beijo enquanto tateava as costas de Tracy em busca dos botões de seu vestido.

Assisti, completamente chocada e estática, Tracy descer o lábios pelo pescoço de Myrella e beijá-la naquele ponto, enquanto a mulher de Hasuran gemia e se apertava mais contra Tracy. Ela começou até a descer os lábios para o decote de Mirella, chupando carinhosamente aquela região descoberta dos seios.

— E se nos virem aqui...? — Myrella gemeu, mas mesmo parecendo preocupada não parecia disposta a se afastar dos carinhos de Tracy.

— Ninguém costuma vir para cá — Tracy sussurrou, voltando a atacar os lábios de Myrella com os seus. — Está preocupada? — perguntou de maneira sedutora ao largar os lábios dela, mordendo o inferior.

— Meu marido... Ele não pode saber que eu... — Ela não conseguiu falar o resto.

— Que você gosta de mulheres? — completou Tracy. — Não vai saber. Ele deve estar muito ocupado com o meu pai e o rei de Grimlee. Estamos seguras aqui, ninguém vai nos ver.

Eu não sabia o que fazer. Continuava a assistir ou ia embora? O pior era que ver a cena estava me deixando com calor... Estava me deixando excitada. Droga! Elas eram mulheres, aquilo era errado, como eu podia olhar para aquilo e gostar? Enquanto as duas voltavam as carícias e paravam de falar, achei que seria melhor sair dali em silêncio. Só que eu não contava com uma pedra atrás de mim quando caminhei de costas, me fazendo cair e gritar sem querer. No mesmo instante ouvi som de passos e quando abri os olhos, olhando para cima, vi Myrella e Tracy me encarando, completamente perdidas. Myrella parecia querer enfiar a cabeça dentro da terra.

— Ti? — Tracy perguntou arregalando os olhos. — O que está fazendo aqui?