Segredos Ilícitos

4 Capítulo 4 — Revelações


— Eu... bem... — as palavras fugiram de mim. Explicar o que faziam ali justamente em seu momento de intimidade seria difícil. Pois elas já haviam entendido.

Me levantei para limpar as vestes e manter a postura, mesmo que o olhar de Tracy acabasse com qualquer tentativa. Pior que a situação, era minha respiração falhando pelo constrangimento.

— Ti? — Tracy me chamou e seu olhar fazia a mesma pergunta. O que eu estava fazendo ali.

— Vim pegar um pouco ar, mas já estou voltando — eu falei. Myrella pressionou o braço da princesa demonstrando medo. No mesmo instante, Tracy me observou perplexa.

— Você estava aqui há muito tempo? — Ela perguntou, parecia nervosa e agitada. Estar se pegando no meio do jardim com outra mulher deixaria qualquer um naquele estado.

— Na verdade eu saí para respirar e levei um tombo — menti, em partes, mas o nervosismo em minha fala iria me entregar se eu não o controlasse. — Agora estou toda suja, além de entediada.

— Ah! Eu preciso ver o duque. — Myrella tomou a fala e reverenciou a princesa. — Continuamos.. conversando depois, alteza.

Ambas se entreolharam de maneira sutil, mas eu já sabia de seu segredo e para mim aquela conversa era óbvio. Myrella queria que Tracy descobrisse se eu sabia de alguma coisa e se eu iria abrir a boca para alguém.

Antes de se retirar, a mulher me olhou por um longo instante. Havia um pouco de desespero em seus olhos, se misturando com o ar de maturidade.

— Claro — disse Tracy por fim e a mulher se foi, nos deixando a sós.

Voltei a observar meu vestido sujo de barro e arregalei os olhos ao pensar que minha mãe iria ter outra criança ao me ver naquela situação. Ela me mataria se eu retornasse imunda para a festa.

— Oh, não! — Sentei-me ao pé da estátua para bater a mão onde havia terra, tentando expulsar a sujeira. Ainda sentia os olhos de Tracy em mim, mas tentava me centrar apenas em minha futura morte.

— Ti? — Me chamou a princesa, eu ergui a cabeça em sua direção mantendo as mãos ocupadas no vestido. — Você ouviu minha conversa com Myrella?

Ela pigarreou antes de dizer "conversa", eu tentei ser natural ao negar e torci para que ela acreditasse. Respirei todo o ar necessário para conseguir dizer:

— Eu nem havia visto vocês até cair — a fala saiu trêmula e a princesa estreitou os olhos. — Tudo bem, não é verdade.

Soltei de uma vez. Eu não conseguiria mentir por mais tempo mesmo e elas já sabiam que eu estava espiando, então eu só tinha que me acalmar e nós três poderíamos fingir que nada aconteceu.

Tracy respirou pesadamente, sua face perdeu a cor e sua expressão se tornou preocupada. A garota confiante que eu havia conhecido tinha se deixado ser tomada pelo medo da verdade. Ela sentou-se ao meu lado com a cabeça enterrada nas mãos.

— Eu não queria que descobrissem isso — disse com a voz angustiada. — Myrella é alguém importante e não posso acabar com a vida dela.

Percebi que Tracy estava demonstrando os sentimentos para mim e aquilo atingiu meu coração. Me preocupei com o que a corte poderia fazer se alguém descobrisse o segredo delas e vi que o único medo da princesa, era que fizessem mal a outra mulher.

Será que isso era amor de verdade?

Eu apoiei a mão em seu ombro para chamar sua atenção e confortá-la ao mesmo tempo. A princesa me olhou profundamente com o contato e eu dei um sorriso sutil.

— Não se preocupe. Eu sei guardar segredos.

— Também não posso pedir que minta se te perguntarem — ela segurou minha mão e acariciou as linhas de minha palma. — É um crime grave. Só não seja minha acusadora, nem a dela.

— Gosta mesmo dela. — Eu sorri para Tracy, mas ela torceu o nariz e olhou na direção que Myrella havia ido. — Não?

— Não posso dizer que é amor — ela começou. Tomou uma parte da barra de meu vestido em suas mãos para me ajudar a limpar a imundice que havia feito. — Eu gosto quando ela vem para cá. Poucas mulheres se interessam por outras e, quando acontece, preferem não demonstrar para não sofrerem as consequências. Então, quando aparece uma oportunidade não podemos jogar fora.

Olhei para a princesa, realmente surpresa com suas palavras. Eu realmente, havia entendido que ela gostava de mulheres e que aquilo não era apenas uma aventura. Pensei em como era difícil para ela esconder um segredo daquela proporção e com ela era pior ainda, por ser da realeza.

— E faz tempo que vocês fazem… isso? — A curiosidade falou mais alto que minha vontade de ficar quieta. Eu não sabia se Tracy iria se abrir para mim, me contando tudo. Mas esperava poder tirar um pouco do peso de suas costas.

Eu estava comovida com a situação ao qual ela se submeteu.

— Não muito. — Tracy molhou um pouco a barra de meu vestido nos pés da estátua e esfregou uma ponta na outra. Ao abrir o local, percebi que havia melhorado a situação e comecei a fazer o mesmo. — Na verdade, ela se atirou para metade do castelo até chegar em mim. Provavelmente o marido não sabe o que fazer nos momentos que realmente importam.

Corei ao ouvir sua brincadeira e ela pareceu perceber minha reação. Mas se levantou quando percebeu que a situação do vestido estava melhor.

— Acho melhor entrarmos antes que alguém venha atrás de você — ela disse. Estendeu sua mão para que eu apoiasse ao me levantar. — Sabe, foi bom falar com alguém sobre isso..

— Algumas coisas pesam sem que a gente perceba.

— E você tem algo que queira dividir comigo? Só para ficarmos quites.

Pensei na sua pergunta. Não sabia se havia algo tão grande assim para dividir com ela, mas parecia que ela precisava ter algo também.

Ainda assim, ao meu redor era perfeito. Eu tinha uma amiga incrível, era uma princesa, tinha uma família importante, havia me tornado querida por meus futuros sogros e cunhada. Além de me casar com um futuro rei. Não havia do que reclamar.

— Não sei dizer — falei por fim e novamente ela estreitou os olhos.

— Ora, vamos. Tem que haver algo.

Suspirei outra vez, para puxar algo melhor e me recordei da conversa que tive com minha mãe. Ela estava muito mais interessada no que meu casamento representava do que no que eu queria. Para falar a verdade, eu não sabia o que queria.

Passei tanto tempo obedecendo e aceitando as decisões que tomavam por mim que já não sabia mais o que era querer algo. Eu adorava o príncipe, adorava sua cordialidade e a forma de sempre querer que eu sentisse confortável no castelo. Mas dizer que queria aquilo era demais para mim.

Tornei a olhar Tracy, que aguardava paciente uma resposta. Acho que o segredo que poderia contar a ela era aquele. Era o único que eu tinha.

— Bom.. eu adorei seus pais, seu irmão é incrível e você é divertida. Mas estou com medo da proporção de tudo isso. De ser rainha.

— Mas isso é natural. Até Derek tem medo. — Ela caminhou lentamente na direção do castelo, mas eu continuei ali. Imóvel.

— Não falo disso. — Tracy interrompeu o passou e se voltou para mim, com um olhar confuso. — Eu achei que quando viesse pra cá, iria me apaixonar pelo príncipe. — Juntei as mãos na frente do corpo, caminhei um pouco pelo jardim para domar a distância entre nós e respirei profundamente. — Mas uns dias antes de entrar na carruagem, comecei a pensar o tamanho de tudo isso. Ainda acreditava que quando chegasse ia me apaixonar, mas só de imaginar a pressão de ser rainha... creio que interrompeu um pouco em meu encanto.

— Seu medo é só a pressão? — Eu pensei novamente e neguei. — Então...

— Eu não consigo — comecei. Eu sentia que poderia ser sincera com Tracy e, mesmo que fosse relacionado a seu irmão, ela me entenderia. — Derek é maravilhoso. Ele sempre tenta me deixar confortável e me divertir, mas eu não consigo sentir nada que não seja amizade.

— Você tem medo de continuar assim pra sempre. — Ela começou a caminhar novamente. Dessa vez lentamente para sustentar nossa conversa. Eu afirmei para ela, pois seus olhos ainda estavam em mim. — E você já pensou no que realmente quer?

— Para ser franca, eu nunca pensei nisso — revelei e a princesa pareceu não ficar surpresa. — Minha mãe me criou assim. Gentil, educada e para ser esposa de um rei. Eu estava tão acostumada com isso que só obedeci.

— Já eu estou tão acostumada a desobedecer que acredito que tenham desistido de insistir em mim.

— É disso que falo — eu me entusiasmei com a conversa, mas já estávamos quase nos portões do salão. — Você é diferente e ninguém não se importa. Se fosse minha mãe, teria me matado na primeira vez.

— Deveria conversar com ela. Não me pareceu uma má pessoa. — Tracy parou em frente a porta depois de subir os degraus e eu ri de sua impressão sobre minha mãe.

— Ela só parece calma. Se eu disser que não vejo o príncipe da forma que todos querem, ela só me dirá que tenho que fazer o certo para nossa família. Ou me mataria.

Tracy sorriu abertamente, suas mãos pousaram em meus ombros e seus olhos se fixaram aos meus.

— Sabe, Ti... Você precisa parar de pensar nas pessoas e pensar em você. Se acredita que nunca sentirá nada pelo meu irmão, então não se case. — Ela revirou os olhos quando abri a boca e falou antes de mim. — Esqueça o reino e as pessoas, pense no melhor para você. Você prefere viver uma vida sem sentimentos e morrer de desgosto para sua mãe não te matar, ou prefere morrer hoje e ter vivido um grande amor e uma incrível aventura?

— Não havia pensado dessa forma.

— Eu sei — Tracy soltou meus ombros e abriu um lado da porta para que entrássemos. — Pense nisso e depois me dê a resposta. Estou curiosa.

Ela disse e entrou. A música invadiu minha cabeça, as pessoas no grande salão ainda dançavam alegremente. Tracy se aproximou de Myella e sussurrou algo no ouvido da mulher. Os olhos de ambas vieram até mim e eu sorri. Entrei na festa novamente para cumprimentar o restante dos convidados.

~x~

A festa foi até mais tarde do que o esperado e, quando finalmente eu estava sentada em frente a penteadeira esperando Alyssa desfazer os nós de meu espartilhos, eu voltava as palavras de Tracy e em seus questionamentos. Ela estava certa em muita coisa, mas eu não tinha tanta coragem de enfrentar meus pais como ela fazia.

Senti um alívio enorme, quando o vestido caiu em meu colo. Depois que Alyssa tirou o espartilho, percebi o quanto ele me apertava. Não tanto quanto no dia que quase morri asfixiada.

— Alyssa, você acha que engordei? — Perguntei a garota, mas ela parecia estar perdida em pensamentos. Pois não me entendeu e nem olhava para mim. — Alyssa?

— O que? — Ela piscou algumas vezes, colocando seus olhos em mim. — Desculpa, o que disse?

— Perguntei se acha que engordei. As roupas estão mais apertadas do que costumam ser.

Ela estreitou os olhos e pigarreou. Depois correu o olhar pelo quarto até o manequim onde fazia meus vestidos. A garota se aproximou do local e puxou a fita métrica para ver a marcação.

— Oh, não — resmungou. — Desculpa, Ti. Eu acabei trocando nossas medidas e não reparei.

— Você realmente está bem? — lhe Perguntei ao me aproximar. Coloquei a mão em sua testa para checar a temperatura da garota, mas estava normal. — Não é a primeira vez que erra na minha roupa e anda se espetando com as agulhas. Nunca lhe vi tão distraída.

— Creio que seja só um pouco de cansaço. Fizemos uma longa viagem e depois trabalhei em alguns vestidos para a festa, então não dormi bem.

Ela deu um leve pigarrear antes de dizer suas desculpas, o que me deixou desconfiada da situação de minha amiga. Parecia que algo a estava incomodando.

— Se precisar conversar, estou aqui.

Falei, ela apenas assentiu para mim e voltou suas mãos para meus cabelos. Retirou as presilhas que prendiam minhas madeixas e antes que ela viesse me auxiliar a vestir a camisola, eu segurei em suas mãos para olhar em seus olhos.

— Alyssa, vai descansar. Posso fazer isso sozinha e, se ainda não estiver bem pela manhã, tire o dia de folga.

— Não posso, sua mãe não quer que a deixe só — ela começou, mas foi interrompida pelo bater na porta.

Alyssa caminhou até objetos de madeira abrindo-o, nos deparamos com Tracy sorrindo abertamente. A garota tinha as roupas amarradas e um brilho diferente nos olhos fundos. Parecia um pouco alta.

— Vim dar boa noite para as meninas! — Ela quase gritou e Alyssa chiou para a mulher puxando a para dentro do quarto e fechando a porta. — Eu acho que bebi demais.

Comentou ela por fim e tanto eu quanto minha dama rimos da situação. Tracy se sentou no pé de minha cama indicando estar tonta com os olhos.

— Ti, eu queria saber se você não gostaria de andar a cavalo amanhã. Já que arco e flecha não são a melhor ideia. — Soltei outra risada e ela também, me recordei do pobre jardineiro assustado e concordei.

— É uma ótima ideia. Alyssa precisa mesmo descansar amanhã e eu preciso conhecer o território. — Falei, mas minha dama pareceu se incomodar com a decisão. Ainda assim sorri para ela, que revirou os olhos.

— Tudo bem, então. Eu vou deixá-las conversarem, mas façam silêncio. — Alyssa olhou em direção a Tracy que deu de ombros. — Boa noite, senhoras.

Alyssa saiu do quarto em direção ao seu descanso, Tracy apontou o indicador para mim e piscou diversas vezes como se tentasse manter o controle de sua mente alcoolizada.

— Você pensou na minha pergunta? — ela perguntou, me levando de volta à nossa conversa no jardim.

— Eu acho que ainda é cedo para te dar uma resposta, faz umas três horas que você me perguntou.

— É verdade. — Tracy falou depois de pensar um pouco. Creio que ela nem conseguia mais distinguir a hora certa do dia. Ela levou a mão para a barriga, fazendo uma careta. — Você tem um pouco de água? Acho que o vinho está fazendo efeito estranho em meu estômago.

Levei a mão a boca para acalmar o riso e fui até a escrivaninha para pegar um copo de água da jarra e entregar a Tracy. A morena tomou a água em uma única golada e respirou fundo para não vomitar.

— Enfim — ela começou, quando se sentiu melhor. — Eu disse à Myrella que você iria guardar segredo, mas ela acha que estamos correndo perigo então desistiu de mim.

— Eu sinto muito...

— Tudo bem, eu já estou acostumada. O problema é que a desgraçada estava me fazendo gostar dela.

— Por isso bebeu tanto? — Ela assentiu, suspirou outra vez e deu de ombros. Parecia que aquela tinha sido uma pergunta quase dolorosa. — Ela vai embora pela manhã, então.

— Sim, mas eles retornarão para o seu casamento e eu vou ter que encarar ela puxando o saco do marido.

Tracy se levantou para caminhar um pouco pelo quarto em uma forma de queimar toda bebida do seu organismo. Mesmo que o efeito não fosse passar, era sua terapia naquele instante.

Eu me sentei na penteadeira e a observei. Me lembrei do que senti enquanto vi as duas se agarrando no jardim e a curiosidade que tive naquele momento. Havia sido algo diferente do que eu já conhecia. O desejo que ambas tinham uma pela outra havia me consumido. Eu realmente fiquei excitada com a situação, mesmo que é excitação fosse algo que eu mal conhecia.

A mulher em meu quarto parecia estar mesmo se apegando àquela que havia a deixado. A desolação e a ira em seus olhos, a tensão em seus ombros, me fizeram desejar o sentimento semelhante àquele que ela sentia antes. Pois só estava daquele jeito por gostar de verdade de Myrella.

— Tracy... como é...

A pergunta me veio, mas a coragem não. Seria muita intromissão de minha parte perguntar sobre a intimidade de alguém. Mesmo que eu quisesse entender a delas.

Tracy esperou que eu continuasse, mas percebeu que eu não iria conseguir.

— O que?

— Beijar... — a palavra saiu. Não da forma como que eu queria e isso confundiu a mulher.

— Você nunca beijou ninguém? — Neguei e ela sorriu. — Nem roubado?

— Eu não tive muitos amigos e nem estudava com outras crianças além de minhas irmãs. Mas queria saber mesmo se tem diferença.

Tracy me olhou em forma de questionamento. Eu não sabia me expressar melhor do que aquilo e estava fazendo uma bola de neve em sua cabeça.

— O que exatamente quer saber, Ti? — Ela me perguntou.

Eu não sabia como colocar em palavras melhores, mas tentei formular qualquer coisa que pudesse me ajudar naquele momento.

— É que vocês estavam tão conectadas.. eu não tinha visto um beijo daquela forma antes. Só via homens beijando mulheres sem muitas reações. Também creio que você já tenha beijado homens e saiba diferenciar.

— E…?

Suspirei ao achar, finalmente, as palavras que procurava.

— Queria saber se é diferente… se é bom... — Suspirei tomando coragem. Eu estava muito curiosa para entender tudo aquilo e principalmente a sensação que tive quando as vi. Olhei nos olhos da morena e soltei. — Como é beijar uma mulher?