Segredos Ilícitos

10 Capítulo 10 — Descobertas


Eu não sabia exatamente onde Tracy poderia estar escondida, mas tinha a vaga sensação de que seria no mesmo lugar no jardim que eu a vira com Myrella algumas semanas atrás. Lembrei que ela havia dito que aquele canto costumava ser pouco visitado, o que me fez deduzir que era para lá que ela costumava ir quando precisava ficar sozinha. Ela poderia ter ido até a clareira da floresta nos arredores do palácio — não seria surpresa se ela tivesse rasgado a saia do vestido, corrido até o estábulo e cavalgado até lá. Mas estava escuro, então não parecia possível, embora eu não fosse me surpreender se ela tivesse tomado tal atitude.

Felizmente, eu estava certa em minha dedução. Virando uma parede de plantas que dava acesso à porta do jardim privado, encontrei Tracy deitada no chão, usando as mãos como apoio para a cabeça enquanto observava a lua cheia sob nossas cabeças, tão grande e brilhante que, apesar da pouca iluminação nas arandelas acesas pelos criados, a luz da lua fazia um trabalho fantástico em nos dar o necessário para enxergar.

Tentei não fazer barulho, mas pisei em um galho e o parti sob meu peso, o que deixou a princesa em alerta. Ela se sentou e olhou para trás, e percebi que seus olhos estavam vermelhos, brilhantes e úmidos, o que ela se apressou em secar para disfarçar como se esperasse que eu não tivesse percebido suas lágrimas.

Tracy era orgulhosa demais para deixar que alguém a visse chorar. Ela queria apresentar para o mundo uma mulher indestrutível, sem fraquezas e endurecida. Mas ela era feita de carne, sangue e osso como qualquer outra pessoa, e senti meu coração se partir diante de sua fragilidade sempre tão mascarada.

— O que está fazendo aqui? — ela perguntou, a voz embargada, embora ela tentasse injetar um tom de voz neutro que falhou miseravelmente em seu trabalho. — Deveria estar no baile.

Comprimi os lábios e juntei as mãos diante da cintura, entrelaçando meus dedos, enquanto voltava a caminhar em sua direção com insegurança.

— Fiquei preocupada. Não conseguiria aproveitar a festa sabendo que…

— Estou bem — ela interrompeu, fungando e passando as costas da mão no nariz. Ela evitava olhar diretamente para mim.

Parei de andar e considerei por um segundo pedir desculpas e dar meia volta, dando-lhe a privacidade que tanto desejava, mas considerei que ela não precisava ficar sozinha naquele momento, embora agisse de maneira contrária. Respirei fundo e então voltei a caminhar, dessa vez decidida, sentando-me ao seu lado no chão. Não me importei com o mato, terra ou lama que grudasse em meu vestido.

— Não, você não está — eu lhe respondi de modo altivo. Tracy virou o rosto e eu coloquei a mão em seu queixo, suavemente puxando-a para olhar diretamente para mim. Meu coração se partiu mais uma vez ao ver a fragilidade em seu olhar e o esforço que fazia para não chorar, e olhei-a de maneira terna e amorosa, preocupada com seu estado de espírito. — E acho que não deveria ficar sozinha. Não agora — respondi em um sussurro, e inconscientemente minha mão deslizou pelo seu rosto em um carinho gentil.

Ela se endureceu com meu toque, o que me fez perceber minha atitude e logo afastei a mão, eu mesma desviando o olhar e sentindo a face enrubescer. Estava cada vez mais difícil me desenrolar nos fios que prendiam meu coração a ela. Quanto mais esforço fazia, parecia que mais presa eu estava.

Ficamos caladas por alguns minutos antes que ela finalmente quebrasse nosso silêncio constrangedor.

— Como você consegue?

Eu a encarei, confusa.

— Como consigo o quê?

Ela respirou fundo antes de responder, os olhos se fechando e os ombros se tensionando.

— Lidar com isso — respondeu, e inclinei a cabeça ainda sem entender. — Saber que seus pais te venderam a um reino estrangeiro por status e dinheiro. Como conseguiu aceitar esse acordo e não se sentir usada e manipulada?

Eu nunca havia visto por aquela perspectiva, mas falando daquela maneira parecia ser algo tão horrível que acabei me encolhendo, me sentindo envergonhada por algo que nem mesmo sabia o motivo.

— Desculpe — Tracy disse, parecendo desesperada para consertar o que já havia dito. — Eu não quis…

— Tudo bem — interrompi, e então respirei fundo. — Eu só… Nunca me questionei. Não faço perguntas, nem penso sobre essas coisas. Eu cresci ouvindo que um dia isso ia acontecer, que meu dever com meu país seria casar pelo bem dele. Vi minhas irmãs casando com o mesmo propósito. Quando meu irmão nasceu, eu já sabia que o dever dele seria governar quando meu pai se fosse, assim como o meu seria me casar. Sempre pareceu a coisa certa a se fazer.

Pensando bem, eu percebi que eu nunca desejei me casar de verdade. Era apenas um fato que eu aceitava que um dia iria acontecer, mas… Não era um desejo meu. Assim como toda adolescente romântica que se afunda em livros sobre histórias de amor, eu esperava encontrar o amor verdadeiro quando enfim chegasse o dia que meu prometido seria definido. Mas eram apenas fantasias de delírios de uma menina, eu sempre soube que o principal seria me casar por Grimlee. E nunca pensei que teria outra vida para mim além dessa.

Então eu conheci Tracy, e percebi o fato de eu nunca ter me sentido atraída por nenhum garoto antes. Eu sonhava com amor e romance, mas nunca senti nenhuma conexão com eles. Nunca pensei muito sobre isso, até perceber o que era sentir atração por alguém, como era sentir o coração bater mais forte por alguém, apenas depois de conhecê-la. No fundo, acho que desde o momento que coloquei os olhos nela, eu senti que havia algo diferente em mim a seu respeito.

Mas só soube de verdade o que era quando ela me beijou. E quando não senti o mesmo ao beijar Derek, eu constatei a verdade que há anos estava diante de mim e eu nunca havia percebido ou cogitado, porque parecia uma possibilidade tão impossível que sequer passara pela minha cabeça.

Eu não conseguia me interessar por homens. Assim como ela.

— Eu sempre me questionei — ela confessou em sussurrou, puxando as pernas para perto do peito e as abraçando, apoiando o queixo. — Sempre perguntei por que Derek era sempre o privilegiado, enquanto eu duramente criticada por minhas amas todas as vezes que pulava a janela, subia em árvores e treinava com espadas de madeira e arco e flecha.

Soltei um riso, e ela olhou para mim sorrindo de canto, o que fez meu coração se aquecer.

— Derek não era criticado por fazer as mesmas coisas. Pelo contrário, era elogiado e incentivado. Já eu… — A princesa deu de ombros. — Meu pai não via problema, mas minha mãe e as amas que cuidavam de mim e minha educação me criticavam e puniam.

— Sinto muito por isso — sussurrei.

Ela negou com a cabeça suavemente.

— Não é sua culpa.

Não era, mas mesmo assim me machucava muito saber que ela não era feliz com as regras impostas sobre nós. Enquanto eu não me importava e seguia conformada para meu destino, Tracy desde muito nova percebeu que essa diferença não era justa. Ela não queria ser uma princesa comportada; queria ter os mesmos direitos que o irmão, e lutava todos os dias por isso porque sabia que era justo.

Eu nunca pensei sobre aquilo, para mim o mundo parecia certo do jeito que era. Mas, ao conhecer Tracy, algo em mim mudou. E me apaixonar por ela me fez perceber que eu gostaria que tudo aquilo que eu havia aceitado a minha vida inteira pudesse ser diferente.

Antes que eu pudesse perceber, eu estava chorando. As lágrimas pingaram de meus olhos, e eu puxei o ar com um soluço sufocado, o que a fez olhar para mim assustada. Eu não sabia exatamente por que estava chorando, se por perceber como minha vida era manipulada, ou por odiar vê-la sofrer por desejar uma vida diferente.

Provavelmente as duas coisas.

— Ti? — ela perguntou de olhos arregalados. — Meu Deus, Ti. Me desculpe, eu não…

— Não! — eu a interrompi, segurando suas mãos sem pensar. Tracy encarou nossas mãos juntas e senti que seu corpo se endureceu, mas logo ela relaxou e entrelaçou nossos dedos, firmando o contato entre nós. — Você não disse nada de errado, Tracy. Você não percebe?

Ela piscou, confusa. Então eu olhei para ela, os olhos brilhantes e úmidos pelas lágrimas.

— Durante toda a minha vida, você foi a única que me disse as coisas certas.

Eu percebi a compaixão em seus olhos, e o brilho deles quase me fez sentir vontade de me aproximar e tocar seus lábios com os meus. Porém, eu sabia que Tracy não queria isso, assim como eu sabia que não era certo com Derek, então contive esse desejo. Apenas apertei suas mãos com carinho, olhando a união delas com admiração.

Tracy sorriu, e uma de suas mãos soltou a minha colocar uma mecha de cabelo atrás de minha orelha.

— Você é uma das pessoas mais doces que eu já tive o prazer de conhecer — ela sussurrou. — Tão sensível e emotiva.

Pisquei, sem saber se aquilo era um elogio ou uma ofensa. Ela riu, percebendo minha confusão, e delicadamente secou as lágrimas em meus olhos. Ela também estava chorando, e era ela que havia acabado de brigar com a mãe, mas parecia que era eu quem precisava de consolo.

— Você é incrível, Tianne Asturis — ela sussurrou. — Obrigada.

— Pelo quê? — Eu funguei. — Não fiz nada. Era eu quem deveria te consolar, e no entanto…

Ela me interrompeu com uma gargalhada, mas não era deboche. Ela parecia genuinamente feliz e mais leve ao emitir aquele som, aquele riso maravilhoso que fez meu coração se agitar. Tracy era tão maravilhosa que às vezes me perguntava como era possível que ela fosse real.

— Não é verdade — ela sussurrou, e apertou carinhosamente a mão que ainda segurava a minha. — Você é pura, Ti. Seu coração é valioso. Nunca deixe alguém dizer que é uma fraqueza ter tantas emoções. Você sente pelas pessoas, e poucos têm a capacidade de ter tanta empatia. — Ela comprimiu os lábios, e secou mais uma lágrima minha. — Nesse mundo que vivemos, esse mar sujo da nobreza e realeza, você é a única que conheci que tem tanta bondade e pureza. E isso — ela fez um sinal com o indicador na direção do meu coração — tem poder.

Eu nunca havia me enxergado dessa forma, mas ouvi-la dizer aquelas coisas me fez corar.

— O que isso significa?

Ela arregalou os olhos rapidamente, como se ela se desse conta de alguma coisa, e soltou minha mão. Inclinei a cabeça para o lado, e olhei para minha mão; ela parecia fria e solitária sem a de Tracy a envolvendo.

— Nada — ela pigarreou. — Quer dizer, significa que você ajuda muito apenas sendo quem é. Já me sinto melhor.

Eu sentia que, apesar da verdade daquelas palavras, ela não estava dizendo o que queria realmente dizer. Mas apenas concordei com a cabeça, sorrindo timidamente enquanto secava meus olhos. Não queria forçá-la, sabia que Tracy não gostava de se sentir pressionada. Bastava que ela estivesse melhor.

— Você realmente se sente melhor? — perguntei, preocupada. — Aquilo que sua mãe fez… E lorde James… — O último citei com indignação. Como poderia um cavalheiro ser tão desprezível?

— Não se preocupe, Ti — ela disse, suspirando. — Obrigada por se preocupar… Quanto a isso, terei que continuar suportando. Ele não foi o primeiro e nem será o último. E minha mãe… — Ela deu de ombros. — Aprendi a lidar.

— Você não merece passar por isso — insisti. — Se ela pudesse ver o que eu vejo. Se pudesse ver que a filha dela é extraordinária, e inteligente, e corajosa… — Agitei a cabeça para os lados, numa negativa frustrada. — Eu queria que ela pudesse ver que…

Eu parei de falar no momento que percebi os olhos dela presos nos meus. Percebi que estava corando, mas não desviei o olhar.

— Você é fantástica. Ninguém tem o direito de suprimir tanta força e coragem — sussurrei. — O mundo precisa de mais mulheres como você, Tracy.

Ela sorriu, colocando novamente a mecha rebelde atrás da minha orelha numa atitude carinhosa. Havia algo nos olhos dela, e eu não sabia exatamente o que era, mas me senti aquecida por dentro, e não conseguia deixar de admirar a beleza daquele brilho em seu olhar. Tracy ardia como uma chama, ela era o fogo que queimava dentro de mim, e o fogo que colocaria o mundo abaixo um dia.

Tracy jamais deixaria de lutar por ela e sua liberdade. E isso me confortava.

— O mundo precisa de mais pessoas como você — sussurrou.

~x~

Tracy não voltou para o salão, mas eu decidi que era melhor retornar antes que as más línguas começassem a fofocar a meu respeito e criar boatos. Todos conheciam Tracy e sua impulsividade, e além disso ela já era o assunto mais comentado durante todo o resto do baile. Não quis dar mais motivos às pessoas para falarem quando percebessem a ausência da noiva do príncipe herdeiro.

Forcei sorrisos, aceitei pedidos de dança e fingi estar interessada em assuntos que as pessoas que se reuniam ao meu redor comentavam. Como normalmente eu estava ao lado de Derek, não se atreveram a soltar qualquer comentário referente à princesa e seu momentâneo escândalo. Mas nenhum de nós éramos idiotas, estávamos escutando alguns cochichos sobre o assunto, que se abafavam assim que sentiam nossa presença e eram camuflados por sorrisos falsos.

— Acho que vou me retirar — sussurrei para Derek, cansada. Já estava com os pés doendo, desesperada para tirar os sapatos, o vestido e me jogar na cama. Meu noivo me lançou um olhar compreensivo, o que me fez abrir um sorriso mínimo. — Acho que deveria também. Seus pais já se foram e eu sei que você não está mais aguentando essas pessoas falando da sua irmã.

— Não se preocupe comigo — ele sussurrou de volta, segurando minha mão delicadamente, depositando um beijo casto sobre ela. — Ficarei um pouco mais. Se nenhum membro da família estiver presente até o final da festa. Se Lady Alyssa me permitir, posso fazer companhia a ela…

— Irei subir com a minha senhora — ela respondeu imediatamente, interrompendo-o. Percebi a surpresa nos olhos de Derek por ser interrompido de modo tão brusco, e eu mesma arregalei os olhos. Não era de seu feitio interromper uma pessoa de maneira tão agressiva. — Desculpe, alteza… — Minha amiga baixou o olhar, envergonhada. — Me sinto cansada… E a princesa precisará de mim para ajudá-la.

Não deixei de notar que algo brilhou nos olhos de Derek, mas foi tão rápido que não consegui entender o que era, mas sabia que havia algo estranho entre eles. Havia pedido para ela permanecer ao seu lado enquanto eu encontrava Tracy, será que havia acontecido alguma coisa entre eles? Derek nunca havia sido grosseiro com ninguém, pelo menos que eu soubesse, então por que Alyssa parecia tão aflita em ficar?

Decidi não dizer nada. Poderia perguntar mais tarde a ela.

— Bom, então acho que isso. — Fiz uma mesura respeitosa diante de meu noivo, que respondeu com a mesma cortesia. Ele lançou um rápido olhar para Alyssa, fazendo um gesto de reconhecimento com a cabeça, mas não parecia sentir-se muito à vontade para encará-la por muito tempo. — Bom, boa noite, Derek. Até amanhã.

Seguimos na direção da escadaria, cumprimentando algumas pessoas no caminho. O salão já estava esvaziando, a própria família Blanckshire não estar mais presente. Quis perguntar para Aly todos os detalhes sobre a noite com Philippe, mas decidi deixar tais perguntas para a privacidade de meu quarto. Ela não me falaria nada enquanto qualquer um pudesse ouvir nos corredores.

Para chegar a meus aposentos, precisava atravessar o corredor principal do castelo para ter acesso a outra escada que me levaria até a ala sul, o corredor onde os convidados de maior honra estavam hospedados, inclusive eu. Como ainda não era casada, não era considerada oficialmente parte da família real, e meus aposentos seriam mudados para a ala da rainha — onde atualmente vivia a rainha Selyne — logo após o casamento.

Percebi que a porta do escritório do rei estava entreaberta assim que escutei a voz da rainha, cética e incontrolada.

— Então é isso?! Você não vai fazer nada?

Parei de andar. Alyssa olhou para mim, confusa, e eu fiz sinal para que ela fizesse silêncio, depositando o indicador sobre os lábios. Minha dama ergueu as sobrancelhas, desacreditada, quando percebeu o que estava fazendo.

— E o que eu deveria fazer? — suspirou o rei, cansado. Quase podia vê-lo esfregando o rosto com as mãos.

Ouvi os passos decididos da rainha, os saltos batendo com força no chão, como se estivesse andando de um lado para o outro.

— Você é o rei! — ela disse, alto e claro. O estampido de mãos batendo sobre madeira ecoou para fora do escritório, e deduzi que ela encarava o marido, que estava sentado. — E o pai dela. Poderia simplesmente acabar com essas brincadeiras de Astracyane e obrigá-la a se casar.

— Eu não vou forçar Tracy a fazer nada que ela não queira — rosnou o rei, e imaginei seus olhos geralmente calmos tomados por irritação. Isso me fez tremer.

Mas aparentemente não foi assustador o suficiente para a rainha. Ouvi sua voz soltar um riso debochado, voltando a caminhar com força no cômodo. Caminhei na direção da porta, perto da parede, colocando meu ouvido na madeira maçiça. Alyssa me puxou, dizendo apenas com os lábios “O que está fazendo?”, com clara desaprovação no olhar. Agitei as mãos em sinal para que ela ficasse quieta e me deixasse ouvir com atenção, o que a fez suspirar, resignada.

— É claro que não vai — ela respondeu, a voz carregada de crueldade. — Você nunca deu limites para essa garota. É por isso que Tracy é como é, a culpa é inteiramente sua! Se tivesse me deixado criar minha filha da maneira que eu queria…

— Ela também é minha filha, Selyne! — trovejou o rei, e mais uma vez o baque na madeira. Provavelmente era ele dessa vez. — E como minha filha, e rei de Savian, eu não vou obrigar minha filha a fazer o que ela não quer.

A rainha soltou um suspiro.

— Astracyane não se comporta de maneira devida, Argenus — disse mais calma, embora fosse possível ouvir o ódio borbulhar em seu tom contido. — Quando ela era mais nova, você achava bonitinho que ela treinasse com espadas de madeira, arcos, estudasse política financeira e militar, e que subisse em árvores e fizesse outras coisas inapropriadas para meninas. Agora ela é uma moça, e se comporta como um homem. E quem você acha que é o culpado?

— Não a forcei a fazer nenhuma dessas coisas — respondeu o rei, irritado. — Tracy sempre tomou suas iniciativas por conta própria.

— Sim, com o seu apoio! — acusou a rainha. Imaginei-a apontando o dedo comprido na direção dele. — Se tivesse me ajudado a suprimir esses ideais malucos de nossa filha, Argenus, talvez hoje ela fosse uma moça ajuizada e talvez até estivesse casada!

— Deixe Tracy viver da maneira que ela quer — resmungou o rei, parecendo cansado daquele assunto. — O juízo dela está perfeitamente no lugar. Reconheço que ela é impulsiva e desagradável algumas vezes, mas ela tem uma personalidade forte desde criança. Acredite, Selyne, você não conseguiria sufocar a personalidade dela e repor pela princesa dócil que você idealiza. Ela não é assim, mas você sequer se dá ao trabalho de entendê-la.

Meu trabalho como mãe era educar essa menina para ser uma boa esposa e mãe! E você, dando respaldo a tudo que ela faz, atrapalhou. Veja só o que ela se tornou!

Silêncio. Meu coração quase saía pela boca com a ideia de ser descoberta ali, mas ainda assim não tirei meus pés de onde estava. Aguardei, sabendo que aquilo não era o final da conversa. Os dois pareciam respirar com dificuldade, consumidos pela raiva, discordando um do outro quanto a natureza rebelde da filha.

— Escute bem — a rainha recomeçou. — Amanhã, você irá forçar Tracy a se desculpar com lorde James por ter sido grosseira e tê-lo feito passar vergonha.

— Não antes que ele se desculpe por insinuar que minha filha é uma égua que precisa ser domada — respondeu o rei.

— Ele nunca disse isso! — vociferou a rainha. — Todas essas coisas foram ditas por ela!

— É mesmo? — ele respondeu, desacreditado. — Tracy não teria lhe dado um tapa se ele não tivesse lhe dito algo ofensivo. Mas como ele falava baixo, não ouvi. O que ele disse, Selyne?

A rainha não respondeu.

— E então? — pressionou.

Ela hesitou, mas respondeu.

— Disse que ela precisa de um homem para controlá-la. Mas ele está errado? — a rainha questionou, exasperada.

O rei Argenus suspirou.

— Tracy não pedirá desculpas a esse homem — decidiu.

— Argenus!

— Não tolerarei qualquer ofensa à minha família dentro de minha própria casa! — ele esbravejou, e eu me encolhi diante do seu tom de voz. — E não se fala mais neste assunto. Tracy se casará quando se sentir inclinada a fazê-lo, e continuaremos a apresentar pretendentes, e ela decidirá. Não a forçarei a nada!

— Não irá nem mesmo censurá-la por este comportamento hoje a noite? — perguntou a rainha, parecendo ser ar.

— Você já o fez, não é mesmo? — ele perguntou, impaciente. — E tornará a fazer, como sempre faz.

O silêncio pesado pairou sobre os dois por alguns segundos, mas pareceram horas.

— Muito bem — respondeu a rainha, contrariada. — Devo continuar sozinha minha impossível tarefa de consertar essa garota. Já que o próprio pai dela, o rei de Savian, não se sente minimamente inclinado a fazer isso.

O rei não respondeu.

— Você é fraco, Argenus, sempre foi e sempre será. Quem dera seu irmão não tivesse morrido, e fosse ele a se casar comigo e não você. Deveria ter sido você a morrer tossindo sangue. Ele, sim, era o verdadeiro herdeiro. — Ela soltou um riso maldoso. — E você? Um substituto patético. Nada além disso.

Prendi a respiração. Eu não conhecia aquela história, e percebi que Alyssa estava tão chocada quanto eu quando olhei em sua direção e a vi boquiaberta e olhos arregalados. Quer dizer que o rei Argenus não era o primeiro na linha de sucessão? Não era de se admirar, afinal herdeiros morriam o tempo todo, mas nem Derek e nem Tracy haviam comentado nada do tipo. E pela fala da rainha Selyne, ela seria a esposa dele se não tivesse morrido.

Embora parecessem um casal civilizado publicamente, a conversa no escritório deixava claro que não concordavam em muita coisa. A rainha Selyne deixou claro seu desprezo, e um arrepio me percorreu com a constatação de que os dois, na verdade, se detestavam.

— Nunca mais… — começou o rei baixinho, com a voz perigosa. — Nunca mais cite meu irmão.

— Ou o quê? — ela perguntou, divertidamente cruel. — Você nunca será ele, Argenus. No seu lugar, ele já teria feito Astracyane a se casar. Ela nunca teria chegado onde chegou. Porque ele tinha controle! E você sempre foi bondoso demais.

— E ele era melhor do que eu, é isso? — perguntou o rei, irritado. — Depois de todas as coisas que ele fez, você realmente acha que ele seria um rei melhor?

Ela soltou um risinho de desprezo. Mas senti um tremor em sua voz, embora não soube deduzir o motivo.

— Pelo menos, ele era respeitado e seria obedecido.

— Através do medo!

— Melhor que seja respeito através do medo, do que nenhum respeito — ela replicou. — Fenrir teria ajustado Astracyane.

Não tive tempo de absorver tudo isso. Os passos ficavam cada vez mais próximos, e precisei me afastar da porta antes que a rainha percebesse que eu estava espiando. Por sorte, quando ela saiu, parecia apenas que eu e Alyssa havíamos acabado de chegar. Sorri para ela, tentando esconder minha expressão confusa e apavorada.

— Boa noite, majestade.

A rainha sorriu. Mas ela tentava, tanto quanto eu e Alyssa, disfarçar a expressão. Eu percebi que seus olhos estavam marejados e seus lábios trêmulos, embora ela tentasse bravamente mostrar o contrário.

— Boa noite, minha querida. Sinto muito por ter presenciado aquilo — lamentou a rainha, parecendo envergonhada.

Meneei a cabeça, como se dispensasse aquele comentário.

— Não se preocupe com isso.

— Durma bem, Tianne.

A rainha se afastou, dirigindo-se para a escadaria que a levaria até seus aposentos. Desfiz meu sorriso assim que ela deu as costas, olhando na direção de Alyssa, que parecia tão confusa quanto eu.

— Ele tinha um irmão mais velho? — sussurrou Alyssa, desacreditada.

— E pelo visto, um irmão bem cruel — respondi assustada.