Segredos Ilícitos
11 Capítulo 11 — Impressões
Eu não conseguia dormir. A conversa que ouvira entre o rei e a rainha me deixara tão perdida e curiosa, ao mesmo tempo que o sono não tinha forças para dominar minha mente. As palavras de Argenus, pedindo para Selyne não tentar lhe comparar como o irmão, e da própria rainha, dando ênfase em suas convicções sobre como o outro teria sido com Tracy, não paravam de me assombrar. As atitudes da rainha com o marido também martelavam fortemente dentro de mim, pois agora era claro seu vínculo com o rei.
Algumas pessoas acabavam se acostumando com o casamento, outras conseguiam se apaixonar. No entanto, aqueles dois deixaram claro durante sua conversa que o casamento havia sido a pior coisa que acontecera com cada um. Os filhos deveria ser a única alegria no meio de tudo aquilo. Ou talvez nem isso.
Então eu tinha mil questões para pensar. Primeiro o irmão do rei que estaria em seu lugar, mas por que ninguém falava dele? Por que nunca ouvimos sequer uma história?
A morte dele deveria ter sido tão terrível que todos resolveram esquecê-lo. Para piorar, o que eu sentia por Tracy parecia estar crescendo a cada instante, pois ouvir a rainha dizer que ela já estaria casada se tio estivesse vivo, me deu um certo alívio e rancor por Selyne de ter dito.
— Ti? — A voz de Alyssa me fez erguer ligeiramente a cabeça para vê-la entrar com uma jarra de água no quarto iluminado à meia luz. — Não consegue dormir também depois daquilo?
Sentei-me na cama, negando com a cabeça, enquanto ela se dirigia à lamparina ao lado da cama para acendê-la. Alyssa estava tão agitada quanto eu, sua expressão parecia até mais pesada. Os olhos cansados demonstraram com clareza seu desconforto, parecia que a revelação a havia abalado como se fosse uma notícia de alguém próximo a ela. Faziam dias que agia daquela mesma forma e sempre fugia de um assunto que nos levasse a fundo. Ela escondia algo que estava lhe abalando física e psicologicamente, mesmo que tentasse esconder a todo instante.
Na noite do baile, reparei em sua distração também, sempre com seus olhos percorrendo todo salão. Como se estivesse incomodada, mas havíamos combinado de não falarmos naquilo. Na verdade, ela desviou do assunto de uma forma que me fez achar intromissão se perguntasse demais. Também não poderia cobrar muito dela, levando em consideração as coisas que eu também estava escondendo, e eu não sabia exatamente o porquê daquilo se ela era a única pessoa com quem eu poderia desabafar.
Cogitei em lhe contar o que estava se passando em mim, talvez assim ela conseguiria se sentir mais à vontade para me contar seu segredo também. No entanto, eu não sabia como poderia dizer para minha melhor amiga que estava me apaixonando por uma mulher. Eu não conseguia dizer aquilo nem para mim mesma.
Depois de tudo o que me foi ensinado sobre desejos e amores, eu estava acreditando que havia enlouquecido. E ter mais um segredo, um segredo imenso sobre a realeza de Savian, só deixava minha cabeça ainda mais agitada.
Será que os filhos sabiam desses ocorridos?
— Alyssa, você acha que Derek e Tracy conhecem essa história? — questionei, e ela assumiu um semblante de curiosidade. Era uma pergunta e tanto para ser feita.
— Se eles nunca contaram e vivem brigando naquela altura, talvez os dois saibam, sim — concluiu ela. Mas se tivessem descoberto da mesma forma que nós, não teriam perguntado aos pais? — O que me intriga é que aconteceu algo a esse antigo rei que aqueles dois escondem e ficam realmente nervosos quando o outro começa a mencionar.
— O que acha que pode ter acontecido?
— Algo terrível. Mas o quê exatamente é difícil de adivinhar.
O estranho naquela história toda era que eu mesma nunca havia ouvido falar de um irmão do rei. Ainda que nossos reinos fossem ligeiramente distantes, sempre sabia os acontecimentos de Savian. Era como se esse antigo rei fosse alguém que não merecia ser lembrado, mas por que teve esse destino?
Alyssa estava tão inquieta quanto eu naquele instante, a informação havia nos arrancado o sono e logo o dia se iniciaria. Teríamos que aturar a agitação de tudo com essa informação martelando em nossas mentes e quase nos consumindo de curiosidade.
— Ti? — ela me chamou sentando-se na poltrona distante da cama. Alyssa tinha o olhar perdido na janela próxima de si e a expressão ligeiramente preocupada. Ela balançou a cabeça para espantar algo que se passara em sua mente. — Não, nada.
— Tem certeza? — perguntei, mesmo já sabendo que ela insistiria em não dizer o que realmente lhe incomodava. Ela afirmou e permaneceu olhando para a paisagem, perdida em pensamentos.
Resolvi não insistir, pois se Alyssa não queria me dizer o que estava ocorrendo, claramente seria seus pensamentos sobre sua família. Afinal minha amiga era vista como uma saída para todos os problemas deles, e estava na idade de tirá-los do buraco. Então ela deveria estar em um estresse terrível em relação a esse assunto, e eu não queria ser a pessoa que iria pressioná-la ainda mais.
Havíamos descoberto tanta coisa naquele dia, visto tantas pessoas, que era melhor tentar distrair nossa cabeça por aquele dia.
— O que você acha de tirarmos o dia para passear e conhecer o castelo? — sugeri. Alyssa me olhou de maneira interessada e um pouco mais empolgada do que antes. A ideia a havia agradado, então.
Fazia dias que estávamos ali passando pela fase de conhecimento e apresentações à corte de Savian, mas em nenhum momento conseguimos passar um tempo de amigas para explorar o ambiente, ou apenas conversar de verdade. Em todo momento estávamos ocupadas com vestidos, etiqueta e qualquer coisa que pudesse nos distanciar uma da outra. Suas fugas de certos assuntos também poderiam ser por se sentir preocupada em me dar algum trabalho, mesmo que ela soubesse que isso jamais aconteceria.
Alyssa era importante de verdade para mim, e tudo que lhe deixava naquele estado me afetava também, então precisávamos um pouco de tempo juntas para voltar ao nosso vínculo costumeiro. Quem sabe assim conseguiríamos nos abrir uma para a outra?
Após pensar com carinho em meu convite, ela balançou a cabeça aceitando-o e me animei com o amanhecer, pois finalmente poderia relaxar depois de tanta tensão.
~x~
Era a segunda volta que dávamos pelo primeiro andar do castelo. Jogamos conversa fora sobre tudo o que víamos ali pelo palácio e tentamos arquitetar um mapa do lugar em nossas mentes. Nenhum assunto que pudesse nos incomodar de fato foi mencionado até então, pois estávamos empolgadas em nossa tarefa de conhecer aquele lugar para não acabarmos perdidas.
No entanto, aquele passeio era para poder conversarmos e tirar um pouco de peso de nossas costas, então decidi arriscar. Quando estávamos subindo os primeiros degraus das escadas, eu soltei um longo suspiro antes de dizer:
— Alyssa, você está se sentindo realmente bem esses dias? — A ruiva franziu suas sobrancelhas e me olhou, confusa. — É que está inerte e perdida na maior parte do tempo. Não me entenda mal ,eu sei que já tivemos essa conversa, mas me preocupa que esteja ficando doente.
Ela avançou alguns degraus, parecia pensar em palavras para conseguir iniciar aquele assunto, e pelo olhar sério que ela assumiu, entendi que estávamos entrando em algo estritamente delicado.
— Acho que estou apenas cansada de certas coisas. — iniciou ela, se apoiando no corrimão das escadas para continuar subindo em passos leves. — Essa semana recebi uma carta de minha mãe me perguntando quando eu iria dar o prazer de ter um bom casamento a ela, e eu sei que foi meu pai quem a pressionou para escrever daquela forma.
— Por isso tem passado tanto tempo fechada? — questionei, vendo-a assentir.
— Também. — Alcançamos o primeiro lance, então apontei para a esquerda onde deveríamos seguir nossa caminhada. Seguimos em nossa exploração ao segundo andar. — Mas eu estive pensando se eu seria feliz me casando assim. Me sinto usada, de certa forma.
Seu desabafo me fez recordar dos questionamentos de Tracy sobre a vida das mulheres em nosso meio. Alyssa estava seguindo a mesma linha de raciocínio por ter visto sua família crescendo seus olhos nos lordes que estavam disponíveis no reino de Savian.
Tracy havia chegado àquela conclusão por sempre questionar tudo ao seu redor, mas eu e Alyssa havíamos sido criadas exatamente daquela forma, sem questionar.
— E você chegou a esse pensamento por conhecer a princesa Tracy? — perguntei. Alyssa franziu novamente as sobrancelhas. — Quero dizer, ela tem pensamentos semelhantes.
Alyssa parou em meio ao corredor observando-me com cautela. Tentava entender porque eu havia mencionado aquele nome se o assunto não era direcionado a alguém, e me repreendi internamente por deixar que os sentimentos que supria pela princesa se tornasse seu nome saindo de meus lábios ou dominando boa parte de meus pensamentos.
A ruiva balançou a cabeça para espantar algum pensamento e voltou a caminhar de maneira mais paciente.
— Eu apenas tive um lampejo — tornou a dizer. — De repente tudo o que aprendi se tornou uma enorme desperdício de vida, e eu só consigo pensar que merecia mais do que isso, e que não é justo me prender à minha família para que eles tenham suas felicidades e sonhos, enquanto eu estarei presa a alguém que talvez nem ame de verdade. — Ela suspirou profundamente. — Você nunca pensou em algo assim?
— Parece que todos resolveram analisar suas vidas — falei, pois Alyssa havia acabado de me fazer a exata pergunta que Tracy fizera durante o baile. A ruiva franziu as sobrancelhas para minhas palavras e eu agitei as mãos no ar. — Eu pensei em algo assim também.
— Ao menos você teve sorte, pois Derek é agradável — ela disse, mas pareceu que dizia aquilo de maneira angustiada. O que me fez estranhar seu comportamento por completo, então conclui o que já deveria ter percebido antes.
Alyssa havia ficado tensa durante todo o baile, e isso acontecera por pressão minha. Talvez Phillipe tenha sido um completo estúpido com minha amiga e isso a levou ao seu isolamento interno. Eu havia feito a ela exatamente o que seus familiares estavam fazendo, e minha amiga estava farta de ser jogada para todos que pudessem lhe dar algo. Ela tinha razão no final das contas. Nós sempre estávamos prontas para fazer tudo pela família e deixávamos as coisas que queríamos de lado.
Eu estava apaixonada por minha futura cunhada e não poderia tê-la por estar noiva do futuro rei, por ser um relacionamento proibido e por não ser correspondida. Por mais que eu e Alyssa fossemos próximas e contássemos nossos maiores segredos uma à outra, ela ainda não sabia de meu primeiro amor e eu não me recordava de tê-la visto se apaixonar antes.
Será que Alyssa tinha alguém de nosso reino que gostasse e por isso estava tão estranha? Um rapaz sem dotes que seus pais jamais aceitariam? Um romance proibido como o meu?
Era tanto a se pensar...
— Alyssa, você se sentiu incomodada com alguma atitude de Philippe? — questionei então. Não deixaria que ela fosse cortejada por qualquer um.
— Quem? — Ela pensou por um momento e logo balançou a cabeça. — Ah! O cavalheiro do baile... Não, ele foi muito atencioso e cordial, mas a questão não seria isso...
— Então? — Demos mais alguns passos pelo longo corredor, enquanto víamos alguns guardas pelo caminho que nos cumprimentavam brevemente.
— Ti, você gosta de Derek? — ela deixou escapar, ainda com angústia. — Quero dizer, a ponto de se entregar por completo a ele? Já consegue sentir uma pequena pontada de amor? Uma faísca que seja?
Eu não poderia dizer a ela que sentia tantas coisas por um outro alguém. Que não era uma faísca, mas a chama queimando cada parte do meu interior, eu não poderia dizer que o beijo que busquei de Derek havia sido uma experiência horrível e que tudo o que via nele era um bom rapaz. Nem mesmo como amigo eu o via, apenas como o irmão da pessoa por que eu passava horas pensando. Alyssa já estava cheia de pensamentos conturbados para se embaralhar ainda mais com os meus.
Havia acabado de descobrir um segredo primordial e não conseguiria digerir tantos acontecimentos, eu mesma não conseguia. Então menti.
— Acredito que já avançamos um pouco nesse passo. Me sinto confortável próxima a ele. Segura. Entende? — Não menti por completo, mas menti.
Ela pareceu se afundar ainda mais em seus devaneios. Realmente estava pensando em seu propósito no meio de tudo aquilo e infelizmente aquele era nosso objetivo. Sermos o porto seguro de nossos pais. Ela assentiu após engolir em seco e seguiu seus passos em silêncio.
Voltamos a explorar os caminhos do castelo e as estátuas espalhadas por todos os lados. Durante aquela quietude ouvimos o contato forte de aço se chocando contra aço. Havia um pouco de falatório em meio aos sons constantes e olhei na direção de Alyssa com certo pavor em face.
Seria impossível que estivessem invadindo o castelo, mas era claro que aquele barulho eram espadas riscando uma na outra. De repente, alguém explodiu em risos para acalmar nossos corações acelerados e nos aproximamos das portas de onde vinha aquela agitação para entendermos o que ocorria.
Nos deparamos com os irmãos reais equipados em roupas simples em uma sala extensa completamente vazia. Nenhum móvel ou quadro decoravam aquele ambiente, apenas uma mesa ao fundo cheia de fitas e remédios para primeiros socorros, algumas armas penduradas pelas paredes e o carpete que vinha do corredor e invadia todo aquele local. Fora esses detalhes, estava Tracy e Derek, ela com um vestido fino enrolado e amarrado na cintura deixando as calças brancas da lingerie à mostra e descalça. De mangas arregaçadas tão enroladas e amassadas que não conseguiam escorregar por seus braços. Seus cabelos presos em um rabo de cavalo bem apertados no alto da cabeça e a face completamente avermelhada.
Um arrepio percorreu todo meu corpo quando ela Derek atacou sua irmã com a lâmina afiada, mas Tracy aparou o golpe com sua espada e empurrou o príncipe, que cambaleou para trás. Ela recuperou o fôlego apertando firme o objeto entre seus dedos.
— Menos emoção! — gritou a princesa ao irmão, já avançando em sua direção para lhe atacar sem aviso. O riscar das espadas provavelmente machucou a mão de Tracy, forçando-lhe a deixá-la escapar.
Derek sorriu com sua própria vitória enquanto impedia a irmã de seguir com a ponta de sua arma mirada em seu pescoço.
O príncipe estava tão apresentável quanto a irmã. Com o peito à mostra, calças soltas e também descalço. Respirava descompassado, mas com certo alívio por ter conseguido parar Tracy antes de algo. De imediato entendi que estavam praticando algo ali naquele local e que ele deveria existir exatamente para isso.
— Menos emoção. — Derek brincou com as palavras de sua adversária, que sorriu cinicamente.
Ela revirou seus olhos e os moveu em nossa direção, na porta. Foi uma questão de segundos, mas pareceu uma eternidade. Senti meu peito palpitar enquanto a observava suando. Seus olhos claros cravados em mim, os cabelos tão molhados quanto a face, a respiração fora de controle, bochechas coradas e os lábios entreabertos buscando ar.
De repente ela se voltou a Derek, um de seus braços protegeu seu próprio peito e a outra mão se endureceu para bater com força no objeto que estava a impedindo de lutar. O príncipe deixou a espada escapar e o objeto girou no ar de uma maneira incrível, e Tracy segurou-a em seguida para apontar sua lâmina para o pescoço de seu adversário, invertendo os papéis.
Por um instante achei que aquilo não havia sido necessário, parecia que ao me notar ali ela decidiu mostrar tudo o que sabia, mas só poderia ter sido coisa da minha cabeça. Ainda assim, eu poderia jurar que o treinamento acabara quando seu irmão a desarmou.
Eu estava ficando tão maravilhada com a princesa de Savian que já começava a imaginar coisas.
— Parece que você está mesmo gostando dele — cochichou Alyssa para mim, e só então me recordei que não estava só, e que deixei muito claro minha forma de analisar Tracy. Por sorte, minha amiga acreditou que o olhar era ao meu futuro marido, que nem parei para analisar como havia feito com minha cunhada.
— Acho que sim — menti novamente para ela, mas eu havia pego aquela frase e usado de forma diferente.
“Parece que está mesmo gostando dela”. E sim, eu estava. Estava cada dia mais encantada e apaixonado por Astracyane Millorana Semptus, tão apaixonada que poderia jurar ter sido cobiçada por ela com aquele olhar. Mesmo sabendo que aquilo não era possível.
Antes que os dois nos percebessem ali de verdade, tratamos de sair às pressas e finalmente consegui respirar com mais tranquilidade. Estar perto de Tracy começou a ser incômodo, pois um calafrio percorrendo meu interior passou a dominar-me em todos os momentos. E depois que seus olhos se cravaram em mim daquela forma, esse calafrio ganhou intensidade.
Senti meu peito se agitar tão rápido que enfraqueceu minhas pernas como se eu fosse desmaiar a qualquer instante. Para piorar, havia deixado evidente aquela reação ao ponto de minha amiga perceber. Tracy mexia comigo de uma forma incrível, deliciosa e perigosa.
Cheguei à conclusão que ela nem havia me notado ali, e esse sentimento que trabalhou minha mente para pensar que ela tinha reparado de mim, pois Tracy gostava de Myrella e eu era prometida ao seu irmão. Não poderia ser diferente.
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