Segredo Virtual
42 2º T: Capítulo 17 A Flor e o Espelho
Notas iniciais
O povo de Sanru seguiu horas pela floresta, ao lado dos nativos, que se intitulavam neoidrios. Era uma imensidão escura que parecia não acabar nunca, batendo em galhos e troncos vez ou outra.
Os nativos tentavam explicar o que acontecia, o que aconteceu e o que acontecerá na ilha.
No começo desconfiaram de tudo, achando uma história mirabolante demais, prontos para lutar à qualquer momento e prestando bastante atenção para não caírem numa armadilha. Marina vigiou a espada dos cinco, se atentando a cada movimento.
Aos poucos foram percebendo que a propriedade com que falavam era verossímil demais para serem simples atores contratados por Dylan.
Ninguém entendia direito o que era contado, principalmente a parte sobre uma profecia, mas ficaram aflitos. Daniel prestou muita atenção nessa parte, porque Lídia era a chave. Agora entendia o que Marcos e Eléxeu diziam sobre isso de "Deusa".
Os nativos contaram sobre a divisa da onde os Idrios não podiam passar, e tiveram certeza que era pra lá que deveriam ir.
Daniel perguntou como sabiam de tudo aquilo se eram um povo separado, eles revelaram ter um informante infiltrado na aldeia do Xamã.
Sara tentou juntar todas as peças, mas tudo estava embolado demais. Se sentia deslocada, mas queria ajudar a recuperar Lídia.
— Então... Também sou uma deusa?
— You é... Você é.- Respondeu um deles, se atrapalhando em separar as línguas, já que misturavam todas.- Como o Bahan disse, é a Deusa da Morte, representada pela flor da morte. Mesmo que o seu cabelo esteja...diferente? E a sua...- Se virou para Bahan.- How ergo tu dicis amicum?
— Amigo.- Respondeu, o líder Bahan. Qual tinha uma aparência de quarenta anos e os olhos asiáticos. Os outros quatro tinham etnias diferentes.- Perdoem ele. Tem extrema dificuldade no português.
— Sua amigo...amiga! Ela é a Deusa do Lírio, representada pela flor da pureza, mas no tiene sentido, ela não é pura segundo a profecia.
Godobllir pensava na furada que tinha se metido, aquela profecia era loucura demais. Odiava gente religiosa, sempre achara obssecadas demais. Pessoas religiosas que acreditavam em algo criado por Dylan, então, deviam ser piores ainda. Bem, claramente não era entediante fazer parte daquele jogo, mas sim perigoso. Noel já tinha se arrependido de ter embarcado com eles no tabuleiro de um genocida. Dylan não se preocupava com a vida de nenhum deles, era fato.
— Não vamos chegar nunca?- Murmurou Mark, seus pés doíam um pouco.
Todos os nativos ouviram, mas não as pessoas de Sanru que estavam bem mais perto dele. A audição daqueles índios era boa demais. Quem sabe até teriam outros dons.
— É ali, rapaz.- Apontou Bahan.
Todos olharam para a frente, atrás de alguma luz no meio do breu que fazia.
Daniel enxergou uma fogueira acessa ao longe, além de tochas colocadas estrategicamente em árvores, e quanto mais se aproximava, conseguia ver os vislumbres das bem espalhadas casas de barro. Delas saíam mais pessoas que viviam na ilha, indo comprimentá-los. Primeiro sentiram medo, relutantes em serem capturados. Não conheciam aquele povo, eram tolos de segui-los.
Quando a sensação de ameaça passou, conseguiram enxergar que aquelas pessoas na verdade pareciam encantadas com suas presenças.
Rose não conseguia dormir de jeito nenhum. Já vinha dormindo mal desde que chegou ao castelo, por motivos óbvios. Nessa noite, botava a cabeça no travesseiro, fechava os olhos e tudo o que conseguia era intensificar seus pesadelos lúcidos. Sem falar do zumbido chato que vinha de lugar de seu quarto.
Nem ficar mexendo durante madrugadas no celular a fizera tão mal, inclusive sentia saudades do aparelho, mas as emoções que tinham ali a ocupavam o suficiente.
Se lembrou de quando descobriu que seu pai já fez parte do Cold Blood. Ele não podia ser um monstro como aqueles assassinos, ou podia? Não sabia mais se conseguiria manter a memória protetora e verdadeira que tinha de sua mãe.
Queria sair do mundo real por pelo menos algumas horas, e seu cérebro não permitia, nem seu instinto, culpa de sua lucidez, ou a falta dela.
Encarou um frasco de remédios em cima da cômoda, tinha achado dentro de uma gaveta no dia em que chegara na Coruja Negra. No rótulo dizia ser para insônia, que deveria tomar apenas um, senão capotaria por vinte e quatro horas ou mais.
A primeira vez que viu, pensou em colocar na bebida de Dylan, quem sabe na de Alan e dos guardas. Ou na comida, poderia procurar a cozinha, entrar e jogar remédio na sopa. O castelo inteiro dormiria. Desistiu da ideia assim que Anya morreu. O que adiantaria conseguir sair dali? Iriam pra onde? Esperar sentado era o único jeito.
Miguel acreditava que o melhor seria jogar com forme as regras, Rose achava loucura. Se entrassem naquela história de cabeça, ficariam loucos igual Dylan. Mas em uma coisa seu irmão tinha razão: era uma opção. A última. Os planos tinham acabado, o que mais teriam para fazer?
Rose se levantou da cama e começou a andar pelo quarto. Não queria nem mais ir na sacada, ou perambular pela Coruja Negra, só queria dormir, mas nenhum fator a ajudava, tinha até um zumbido.
Sua mente a levava para outra indagação: Kauan estava contra eles?
— O garoto não jogou a partida inteira, chegou na última ele foi e falou.- Falava em voz alta. Algo que quase nunca acontecia, só quando precisava seriamente se concentrar.- A gente não sabe quem é ele. Tem cara de psicopata. E talvez seja. Justo na última, a que decidiria tudo. Na última ele acertou, de propósito. Com certeza errou de propósito, não há dúvidas, Rose! Merda! Merda! Merda!- Se balançou agitada o suficiente para dar um pulo.- É minha culpa por ter demorado. Para de ser idiota, garota!
Rose parou de frente para o espelho ao lado da porta. Se relacionou com uma maluca pelo cabelo desgrenhado, os olhos fundos e a expressão boboca ao se avaliar. Pensou em pegar um travesseiro e gritar nele, mas não o fez. O seu surto nessa noite estava sendo um ápice. Tudo o que conteve chorando, agora queria transbordar em raiva, desespero e ansiedade. Se sentia burra por todas as vezes que alguém morreu. Leonardo, Anya, Ramona. Poderia ter evitado de algum jeito. Deixou seu próprio namorado morrer. Deveria ter lutado mais, defendido mais. Ao menos tentado.
Balançou a cabeça e emitiu um grunhido para substituir o grito. Quase pegou aquele espelho e o tacou no chão, mas antes disso percebeu que só o que queria era conseguir dormir. Ir pra longe de tudo, de toda a culpa. Não dava mais para continuar acordada. Aquele maldito zumbido continuava, a induzindo a fazer qualquer coisa para descansar mentalmente.
— Foda-se.- Rose foi até a cômoda, pegou o frasco de remédios, o destampou grosseiramente e engoliu duas pílulas.
Ao se deitar na cama percebeu a burrice. Só que em vez de colocar os dedos na goela para vomitar, fechou os olhos e deixou o remédio agir. Liberdade.
No meio da noite, Lídia acordou ouvindo o som de algo caindo no chão do lado de fora. Nada alarmante, e parecia só tê-la acordado. Achou que Jason e o guarda se encontravam no mais profundo estágio de sono, por estarem claramente babando.
Se levantou e foi para a janela com grades, olhar o luar sem lua. Tentou achar a causa do som que a acordara, mas sem resultados, a tribo inteira parecia dormir depois de dançarem e louvarem por horas.
Por alguns instantes pensou até em escapar, senão fosse o enorme barulho que faria ao tentar.
Sua mente voltou para a conversa nas pedras, onde descobriu toda a lenda. Aquele povo a fascinava. Tudo o que o xamã contou era absurdo, afinal, quem seria o louco de acreditar em uma lenda daquelas? Ela mesma ficaria do lado da Deusa do Lírio, uma poderosa feminista que desejava o bem à todos, sendo contra ser usada para servir os desejos nojentos de um homem.
O povo daqui ter acordado sem memórias justificava a submissão deles, seguiam cegamente. É só ter um líder que se diz sábio para vários seguidores aparecerem e irem na onda do charlatão. Mesmo assim, ainda não conseguia acreditar em tanta...burrice?
E pelo amor de deus, Dylan mandava material de construção para os nativos fazerem tudo aquilo? Lídia olhou para as casas de pedra, tão bem feitas. Ele tinha apagado a memória de um arquiteto, só podia. Apenas faltava o saneamento básico, já que era levada para o meio do mato quando precisava usar o banheiro. No geral tinham uma vida boa, criavam animais e cultivavam.
Se sentia desrespeitando culturas por achar que índios só viviam em ocas. Mas teoricamente aqueles nativos em específico não eram índios.
Será que o povo rebelde vivia na mesma condição? E se eram rebeldes, é porque eram contra o deus poderoso da profecia?
As perguntas voavam de um lado para o outro em seu cérebro, não conseguia focar em uma só informação. Agora o tópico se centralizava em um certo nome. Jason.
Olhou diretamente para o rosto dele, dormindo. Era um pouco magro, estranho, muita barba(um pouco menos do que de manhã), cabelos bem escuros, seu corpo não estava desnutrido por algum motivo divino, quem sabe boa alimentação e exercícios na cela. Realmente tinha mudado muito.
Jason ter ficado todos esses anos ali a intrigava demais, com certeza aquilo mexeu com o psicológico dele. Parecia bem até agora, mas ainda assim, sentia que sua aura era diferente, mais pesada.
O cabelo dele estava mal cortado e bem mal cuidado, com certeza o lavava com sabão. Um sabão duvidoso. Dylan mandou para eles, também?
Afinal, como Dylan deixaria seu irmão ser tratado assim por mais de uma década. Ele amava sua família.
Só agora Lídia se lembrou sobre a troca de cérebro de seu primo. Bem, continuava o mesmo bosta. Só que um bosta de cérebro industrializado. A história que Sara contou era tão duvidosa, que nunca se deu o tempo de avaliar.
E agora refletia que a única pessoa com o psicológico mais ferrado que todos ali juntos, quem sabe era o homem dado como morto em seu casamento. Nunca conseguiria entender como é ficar presa por tantos anos, e esperava nunca saber.
Lídia deixou a janela e se ajoelhou perto do corpo desacordado de Jason.
Não merecia que essas coisas acontecessem com ele, ninguém mais merecia depois que o Cold Blood tinha sido exterminado. Por que tudo isso tinha que voltar?
Encarou o rosto sonolento. Sentia mais pena dele do que sua. Ela, ao menos, tivera uma família.
Lídia aproximou a mão para retirar uma mecha que caía sobre as pálpebras fechadas dele.
Em uma velocidade que a assustou, Jason segurou o punho dela com força, antes que chegasse a encostar em seu rosto. Ao olhá-lo de novo, seus olhos já estavam bem abertos e alarmados, além de avermelhados. Fixavam os dela como se estivesse louco, com raiva ao ponto de matá-la.
Ele a soltou e se arrastou para o canto escuro.
— Desculpa...Eu, eu, senti alguém me tocar e...
— Tá tudo bem.- Respondeu ainda assustada, respirando para se conter.
Lídia fechou a boca entreaberta e concordou com a cabeça, voltando para o seu canto da cela. Ele parecia atormentado.
Jason demorou para dormir novamente, mas Lídia se certificou de não dormir mais depois daquela cara penetrando seus olhos. Tinha se acovardado, e nenhum pesadelo fantasioso a daria tanto medo quanto aquele. Jason estava louco.
Quando acordou de manhã na cama feita de madeira e folhas de árvores, a primeira coisa que Daniel pensou foi na madrugada de algumas horas atrás.
Aquelas pessoas chegando para vê-los, como se fossem seres de outro planeta, porém totalmente humanos. Conheceram as casas, ouviram pequenos detalhes sobre o outro povo, firmaram confiança e só aceitaram dormir porque permaneceram juntos em um cômodo grande.
Se sentou, esfregou os olhos e viu as nove camas fornecidas pelos neoidrios, quase todas ocupadas e bem próximas para caber no quarto.
Para Daniel aquilo era um pesadelo, onde as coisas aconteciam rápido e sem tempo para raciocinar.
Se levantou e passou por todos no cômodo. Percebeu que apenas Rebeca, Sara e Godobllir não estavam ali. Rafael se mexia, virando de um lado para o outro, mas continuando em seu sono.
Ao sair, Daniel enxergou tudo com mais clareza. O céu além de iluminar o ambiente, trazia sossego, mesmo que sua mente ainda fosse ocupada por Lídia e seus filhos.
Alguns nativos o miraram, porém pareciam ocupados demais para gastar seu tempo trocando olhares. Continuaram andando e apenas o cumprimentaram com a cabeça.
Sentia um pouco de medo deles. Se as coisas que foram ditas eram verdade, a alienação de Dylan ainda estava ali, não importava o quão sensatos fossem.
Pisou em uma flor no caminho, elas também haviam caído por ali.
Caminhando mais um pouco, viu por uma porta aberta, improvisada com pedaços de madeira, duas das mulheres faltosas, escutando atenciosamente Bahan, o líder dos neoidrios.
Pensou na rapidez com que amigaram, e sua mente martelava a dúvida de se aquela aliança criada tão recentemente era o certo.
Rebeca, em volta de uma mesa lá dentro, também o viu, parando de prestar atenção no nativo e dando um sorriso para Daniel.
— Vem!- Chamou, gesticulando com a mão.
Ao entrar, Daniel deu um pequeno sorriso para eles e viu a mão de Sara em cima do mapa que Rafael encontrara na Vila Sanru. Não sabia que eles já tinham pegado.
— Bom dia.- Emitiu Bahan.
— O que eu perdi?
— Ele tava falando de novo o porquê de serem diferentes dos idrios. Aquilo de não acreditar que o Deus da profecia seja bom, aí a alguns anos saíram da tribo.- Rebeca continuou.- É isso, não é?- O líder acentiu.- Mas eu tenho uma notícia ruim pra te dar, Daniel.
Nada poderia ser pior do que a situação que já estavam. Daniel fez um barulho com a garganta, respirou fundo e pediu para falarem. Sara continuou quieta, já pensando em como fazer aquelas instruções que recebera antes funcionarem. Rebeca deu a deixa para o líder dos nativos:
— Well, Daniel. Não temos tempo. A profecia vai acontecer hoje à noite.- Deu uma pausa, colocando o dedo sobre uma região do mapa.- Aqui. É onde eles vivem, os Idrios. Vão sacrificar a Deusa do Lírio numa fogueira. E eu pensei em segurar a deusa da morte por pelo menos um dia, mas então eles saberiam que estamos com ela. La...Sara tem que partir hoje ao entardecer. Ela vai ter que se entregar.
— Por quê?
— Porque é a única chance que temos de passarmos despercebidos. É claro que vamos precisar da ajuda do artesão, que inclusive já era para estar aqui. Mas se as duas deusas estiverem juntas durante o sacrifício...Vamos conseguir atacar.
— Atacar?
— É.- Rebeca falou.- Vamos ter que batalhar.
O rosto do ouvinte não tinha uma reação definida. Mas Sara diria que era uma colisão interna.
— Já estamos lutando desde que chegamos aqui. Que continuemos.- Deu de ombros.
— Vamos ter que usar as espadas do baú.- Rebeca colocou alguns fios de seu cabelo já preso, atrás da orelha.- Dylan nos deu por isso.
— O que importa é salvarmos a Lídia. Não importa como.- Nunca esteve tão determinado.- Se passarmos pelos Idrios conseguiremos chegar até o Dylan, não é?- Perguntou ao líder.
Bahan fez uma careta em resposta. Já tinha ouvido seus convidados falar sobre ele inúmeras vezes na madrugada, porém "Who is fucking Dylan?".
— Ele não sabe quem é Dylan.- Rebeca interveio, se dirigindo a ele e tomando a frente.- O lugar que não conseguem passar, se ganharmos a batalha conseguiremos atravessar?
Ele assentiu, porém receoso.
— Então ótimo. Lutaremos.- O homem de esposa sequestrada parecia focado.
Ficaram em silêncio, pensando se entrar em combate com nativos da ilha era uma boa ideia, mesmo que tivessem o apoio dos neoidrios. No total, somando os jogadores e os nativos seriam 30 com o informante, já tirando Sara e Lídia que estariam na situação de vulnerabilidade por certo tempo. 30 contra 34.
— Eu tenho uma arma. A Sara encontrou naquela banheira cheia de sangue.- Apontou-a com o queixo.
— De fogo?
— É, Rebeca. Um revólver, pistola, sei lá.
Bahan franziu a testa. Em sua cabeça, aquelas pessoas ao redor e que dormiam refugiadas em sua tribo, eram uma espécie de anjos, que às vezes falavam palavras estranhas, porém ajudá-los era o caminho certo a seguir.
— Tá aqui.- Sara tirou a arma da cintura e a colocou na mesa. Os olhos do líder nativo cresceram, tentando entender o que era aquilo. Já os de Daniel se estreitaram.
— Tá carregando as dinamites também?
Era a segunda coisa que tinham pegado sem que soubesse. Se sentiu traído.
Sara fez uma cara séria e entortou a cabeça.
— O que é isso?- O nativo pegou, olhando atentamente.
— É uma arma que atira coisas de chumbo à longa distância, chamadas de balas, e quando acertam alguém fazem um estrago. Mas não temos as balas, que são a munição.- Rebeca mostrou o lugar onde se encaixa as balas.
— Hum, posso falar com meu artesão. Ele acha coisas pela floresta e sabe de muita coisa. O chamei, mas só vem no tempo dele.
— Acho difícil achar balas numa floresta.
— Ele faz coisas que...Ah, já ia esquecendo. Nós precisamos do speculo que trouxeram.- Assim que disse isso, os três ficaram com a mesma cara que ele ficara ao ver a arma.
— Não temos uma boa fornalha para fazer, então...
O artesão entrou no cômodo, arregalando os olhos ao ver a arma em cima da mesa.
— Where did you find this?!- Pronunciou, quase gritando.
Daniel e Sara se assustaram.
— Ele só fala em inglês. Um pouco de espanhol, mas quase tudo em inglês.
— Do you know what this is?- Rebeca perguntou, vendo o artesão arrancar o objeto das mãos do líder.
— Fire gun.
— Yeah. How do you know?
— I Remember.
Ele não disse mais nada. Daniel não tinha certeza se entendeu tudo muito direito. Seu inglês era básico, mas deixou pra lá. O importante era usarem a arma.
— Mas e o speculo?- Insistiu Bahan.
Sara olhou para Daniel, que olhou para Rebeca, que fez a mesma cara de "não faço a menor ideia de que raios é speculo". O artesão percebeu a exitação dos visitantes. Resolveu ajudar:
— Glass.
Rebeca demorou uns segundos para entender, mas enfim conseguiu traduzir o "speculo".
— Ele quer o vidro que pegamos dos espelhos.
— É para o nosso artesão produzir uma coisa essencial ao plano.
— Tá em um saco dentro do baú no lugar onde a gente dormiu.- Daniel respondeu.
O artesão estava indo para lá pegar os cacos de vidro, mas antes se lembrou de que não tinha dito algo.
— I have the ammo. I found it months ago. It was in the water.
Ele partiu, mas abriu um sorriso no rosto da única fluente do trio.
— Ele tem balas.
Os dois se arrependeram de não terem se esforçado mais em aprender novos idiomas.
— Ah, verdade. Vou levá-los à nascente para se banhar, drink water...
— Faça isso depois, por favor, agora é hora de planejar e contar pro nosso grupo o que vai acontecer.- Rebeca pediu.- Daniel, vai com ele, alguém pode se assustar ao vê-lo mexendo nas coisas.
Ele concordou com a cabeça, já pensando na confusão que teria com o artesão caso alguém se sentisse ameaçado.
— Vou aproveitar pra chamar os outros pra ouvirem os detalhes do plano. Aí conta pra mim e todo mundo de uma vez.- Daniel falou.
Ainda ficou ali por um tempo, esperando alguma outra informação ou pergunta, mas ao que parecia, Rebeca já tinha assumido o controle. Ela era boa em fazer isso sem que percebessem.
Enquanto caminhava de volta para o lugar onde todos dormiam, pronto para acorda-los de um sonho e leva-los para um pesadelo, percebeu a aproximação de Godobllir, quem tentou evitar todo esse tempo. Aquela mulher era insistente, queria falar com ele de qualquer jeito, achando que o manipulava.
— Daniel.- Emitiu de um jeito dengoso que o irritou.
— Agora não.- Tentou passar. Não queria ter aquela conversa.
— Agora sim.- Ela entrou em sua frente, ficando cara a cara com ele.
Daniel estava de saco cheio, tão estressado que nem direito tinha dormido do tanto que sua família recorrentemente aparecia em sua cabeça. E agora tinha que lidar com uma infiltrada sonsa.
— Eu sei que foi errado, eu não deveria ter te beijado. Esse lugar tá mexendo com tudo... Você sabe como é.
Ele colocou os dedos de uma mão sobre os olhos, apertando-os. A outra mão foi para a cintura.
— Daniel, é tão difícil ficar nessa...merda de ilha. As coisas acontecem rápido, e o beijo foi uma dessas coisas...Eu não sei o que tem comigo... Eu preciso que você me desculpe por aquilo. Não foi certo com você...com Lídia!
— Olha só, garota.- Daniel aproximou seu rosto do dela, tirando os dedos dos olhos, e respingando saliva em Godobllir.- Você acha que engana alguém bancando a sonsa, e pode até ter enganado, mas eu não sou idiota.- Ele colocou o dedo na cara dela.- Se Dylan te mandou aqui, fique sabendo que ele tá cagando pra sua vida e dos seus amiguinhos. Ele não vai trazer ajuda, não vai salvar vocês. Então se quiser sobreviver, você vai ser uma filha da puta com quem realmente é pra ser, entendeu?
Depois de ter esbravejado tudo, se afastou, tentando respirar calmamente, olhando a cara pasmada que sua antiga amiga Isabella estampava. Daniel se retirou, dessa vez sem que fosse parado por alguém. O artesão saiu logo, levando a sacola com speculo.
— Filho da puta.- Godobllir sussurrou, limpando seu rosto e se virando para o ver na porta do cômodo, quase entrando.
Ele olhou para todos ainda dormindo, vendo que Marcos e Noel, companheiros de Godobllir, já acordavam. Bateu na porta vezes repetidas para fazer barulho, enquanto dava um bocejo.
— Bora acordando!- Continuou a bater.
Marina se ergueu com os braços na cama, ainda de olhos fechados e cabelo totalmente bagunçado. Aquela cama foi o melhor lugar em que dormiu faziam dias.
— Acordem!- Daniel repetiu.- Temos que nos preparar pra irmos juntos.
— Juntos pra onde?- Perguntou a recém acordada, com olhos mal abertos.
— Para o local dos outros nativos. Vamos ter que lutar.
— Vá sozinho.- Marina voltou a dormir.
Miguel procurava em todos os cantos do castelo algum lugar que tivesse um computador. Abria portas e espiava, entrava em cômodos de diversos corredores, atrás de qualquer aparelho que desse para enfiar um pen drive.
Sua irmã pediu para que não montasse mais planos, mas ele não estava nem aí, achava saber o tinha que fazer: encontrar um computador, pegar o pen drive no cetro e colocar lá. Tinha que jogar conforme as regras, algo essencial foi colocado no pen drive. A questão era: em que lugar Dylan esconderia um computador?
Enquanto caminhava para uma parte da Coruja Negra que quase nunca ía, se lembrou de minutos atrás, quando passou em frente à sala do trono e viu uma empregada se retirando dela. Não tinham guardas por lá, Dylan não estava no castelo e o liberou para que caminhassem o quanto quisessem. A ficha só caiu quando relacionou o rosto da empregada com aquele que perseguiu ele e sua irmã no dia da fuga. A babá.
Fora até o quarto em que encontraram a criança, mas não tinha mais nenhum sinal dela lá. Miguel teve uma ideia para achar o computador.
Corria de volta para o corredor que levava para o lugar onde viu a babá sair. Se a criança estivesse em alguma sala secreta dentro da onde Dylan repousava sua bunda, daria um jeito de achar. Assim, poderia chantagear Alan, igual Rose fez com Dylan. Obrigaria-o a contar em que lugar devia colocar o pen drive e o pegaria.
Faltavam minutos para o horário do almoço, teria que ser bem rápido, antes que Rose, que milagrosamente ainda não tinha acordado, o encontra-se e impedisse seu plano.
Felizmente, antes de sair pelo castelo, a viu em dormir profundamente. O destino estava ao seu favor.
Se ele tivesse a mínima noção do quanto a garota ruiva iria dormir, com certeza faria tudo com mais calma.
Chegando nas portas da sala do trono, olhou para os dois lados do corredor, verificando se realmente não tinha nenhum guarda o espiando. Era tão estranho aquele lugar ter sido protegido nos últimos dias, mas naquele não. Por que Dylan estava dando tanta liberdade?
Abriu uma fresta, colocando a cabeça dentro do local e observando para se certificar de que não haveria ninguém lá também. Miguel entrou de vez na sala do trono. Ficou alguns segundos observando o trono em cima de um palanque. Um pouco de luz escapava dos cantos da grande janela quase toda coberta pela enorme cortina vermelha. Deu um tropeço no tapete rubro, olhando para o chão após isso. Mas assim que ergueu a cabeça novamente, viu uma porta no canto da sala. Era lá. Tinha certeza. O lugar em que a menininha era escondida.
Miguel foi até a porta "secreta", dando uma olhadela para a entrada da sala do trono, para ter certeza de que não seria impedido. Colocou a mão na maçaneta de madeira e puxou a porta. Não enxergou nada, apenas fiapos de luz piscando em algum canto. Entrou no lugar com as mãos nas paredes, procurando um interruptor. Ficou com medo de ter alguma armadilha lá e não ver, já que a luz de fora não entrava o suficiente, porém sua ficha tinha caído de novo. Assim que encontrou algo que parecia o interruptor, acendeu a luz. E confirmou que aquelas luzes piscando, eram de um computador. Viu também a bebê em um berço, vestida em roupinhas rosas, perto de uma cômodo com fraudas, chupetas, talco.
Tinha matado dois coelhos com uma cajadada só. Só faltava o cajado com o pen drive.
Miguel se sentou na cadeira e ligou a tela desligada do computador. Como sentia falta da tecnologia. Entretanto, diferente de seu computador e do notebook de sua irmã, a tela inicial não apresentava nada, nenhum aplicativo ou navegador, apenas um símbolo estranho no centro, de uma cobra enroscada na letra V com uma fonte que remetia uma luz de computador. Um plano de fundo sem nexo. Agarrou o mouse e tentou clicar em todos os cantos, apertou todas as teclas do teclado. Mas nada acontecia.
Encontrou em cima da mesa do computador uma caixinha de lentes, mas não deu muita bola. O que interessava mesmo, quem tinha a posse era Alan.
Miguel desistiu de tentar fazer aquilo funcionar, precisava do pen drive. Se levantou e foi até o berço, onde pegou a bebê e deu seguimento ao seu plano. Só faltava o cetro para descobrir o segredo no pen drive e assim elevar o jogo para um patamar em que não fosse apenas uma vítima sem armas para lutar. Miguel arriscaria tudo para conseguir isso.
Reunidos em volta da mesa, todo o povo de Sanru escutava as falas de Bahan há quase uma hora. Alguns ainda sonolentos, outros mais alertas e atentos a cada palavra que saia daquela boca.
Marina enrolava uma mecha de cabelo no dedo, trabalhando seu cérebro para dar na hora certa um comentário importuno, já que o plano de entrar em guerra era uma loucura que ela não concordava.
Sara entendeu o que tinha que fazer. Se entregar, fazê-los acreditar que era a deusa da profecia. De certa forma era sim. Ainda que receosa, topava a ideia. Queria tirar Lídia daquele destino que Dylan escreveu há 10 anos atrás em pedras.
— Bem, tochas certamente levarão. Não sabemos se eles estarão armados. O xamã tinha uma ideia de levar espadas para cortar os membros da deusa da morte, a Sara de vocês. Não sei se ele ainda a mantém. Ele é bastante impulsive.
Daniel olhou para Sara, querendo ver a reação dela. Mas Sara não fez nada, sua cara continuou a mesma. Séria e ouvindo as informações.
Ele se sentiu motivado. A garota cobra não tinha medo de morrer.
— No início da profecia, quando a primeira flecha acertar o alvo, é aí que o banho de sangue começa.- Gesticulou com o dedo, representando uma flecha acertando a palma de sua outra mão.- Estaremos na vantagem por ter planejado tudo, e o nosso informante vai mentir sobre ter nos espionado e dizer que estamos passivos o suficiente para dar a certeza de que não sabemos de nada.
O estômago de Mark, mesmo vazio, continuava a embrulhar. Nunca em toda a sua vida precisou passar por uma situação como essa. O pior que já lhe aconteceu foi uma batida de carro que só quebrou um retrovisor.
— Quando perceberem o ataque, vai ser uma loucura para todos os lados, mas alguns deles correrão de volta para a aldeia para se armar. Um grupo nosso vai estar lá para detê-los. Porém as coisas são incertas. Podem usar as tochas como arma, ou levar as espadas, atirar pedras. Exatamente por isso, vocês precisam prestar atenção no que vou falar nunc, agora.- Bahan deu uma cotovelada em Eléxeu, que de braços cruzados dormia em pé.- Ao lado das pedras do sacrifício, há um rio. Esse rio dá na queda de uma cachoeira, que às vezes apareciam objetos por lá. No meio dessa cachoeira, tem um caminho rochoso, que dá pra acessar tranquilamente. Esse caminho dá numa caverna sem saída. Sim, tem uma caverna no meio da cachoeira.
"Sem saída uma ova", pensou Daniel, "Deve ser assim que os objetos surgem lá".
— Se as coisas derem errado, vocês vão entrar na caverna, juntos! Vão lutar lá, aguentando o máximo que puderem. Nós deixaremos comida e water lá. Os que sobrarem de nós vamos evitar o máximo possível para isso não acontecer, mas é uma possibilidade.
— A gente só se fode.- Murmurou Marina.
Godobllir deu um sorrisinho.
Daniel ignorou, coçando a sua barba já grande. Todos os homens da Vila Sanru estavam com a cara cheia de pelos, o que quase fez Rafael perguntar para um nativo como eles faziam a barba.
— Vocês também precisam saber que Idrios aprendiam a lutar por diversão. Mas depois que nos separamos, aquele crudelis xamã, intensificou os treinos, provavelmente caso queiremos atacar.
Todo mundo parecia bem aflito, desviando o olhar para algum canto, coçando algo em seu corpo. As caras não eram das melhores, pareciam desesperados por um milagre. O líder dos indígenas sentiu aquele pessimismo no ar.
— Nós vamos conseguir. Sabemos que vocês são as vítimas. Salvaremos sua Lídia, e vocês voltarão para...seja lá de onde vieram. Vai dar certo.
— Não dá pra gente deixar ela lá e seguir direto pro Dylan?- Sugeriu Marina.
Daniel focou nela e abriu a boca incrédulo, pronto para responder, mas resolveu fechar de volta antes que a xingasse de puta do caralho.
— Se quiserem que ninguém morra durante a batalha, que já vai ser bem espalhada no meio daquela adrenalina toda, é melhor não existirem desavenças. Desunião é péssimo em uma batalha.
Rebeca suspirou, se dependesse de Marina, ela se aliaria ao Xamã e seu bando para sobreviver.
— Ah, acho que vão gostar de pra onde iremos levá-los agora. Tem uma nascente aqui perto. Vão poder se limpar lá.
O Xamã os convidou a se retirar, assim fazendo todos saírem do cômodo.
Em alguns minutos, enquanto esperava o líder os levar, Marina havia perguntado à uma nativa sobre o que as mulheres neoidrias usavam como absorvente, mas não obteve uma resposta para o seu próprio problema. Elas não menstruavam.
Rafael e Rebeca foram na frente do grupo junto a Bahan e dois nativos para a nascente. Não imaginavam a hora de poder entrar na água e limpar seus corpos imundos após cinco dias habitando a ilha.
De madrugada, beberam bastante água ao chegar na aldeia, mais pareciam camelos, porém tomar um bom banho seria bem mais revigorante.
Daniel olhava por trás de Sara enquanto caminhavam. Ela não apresentava emoção e nem um resquício de chateação com a situação de ser brutalmente assassinada por crentes. Parecia realmente querer salvar Lídia. Afinal ainda eram amigas. Ou um borrão perto disso.
Ele colocou a mão em seu ombro, emitindo um sorriso gentil após ela o olhar.
Fez aquilo mesmo sem saber se a indiferença por lutar era por força ou conhecimento do que ia acontecer.
E bem, acreditar em Sara era burrice. Sara passou semanas junto a Dylan. O que terá acontecido entre aqueles dias que ela não contou?
— Você é maluco! E fecha essa porta direito!- Clara reclamou da pequena abertura.
— Nós temos que fazer isso!- Empurrou a porta, mas ainda continuou uma brecha nela.- É o único jeito, não tem mais o que fazer do que jogar!
Miguel discutia com Clara sobre o plano do segundo sequestro da bebê. A garota evidenciava medo e bastante raiva pela furada em que ele a estava metendo.
— Eles vão descontar na gente. Já fizeram isso com o Leonardo, com a Anya, a Ramona. Chega de morte, Miguel.- Seus olhos encheram de lágrimas, segurando a bebê que tinha pego por reflexo assim que ele entrou no quarto a oferecendo.
— É claro que chega de morte. Esse é o jeito de acabar com as mortes.- Falava convicto.- Se eu conseguir pegar o pen drive, vou ter alguma coisa que ele quer que a gente tenha.
— Isso não vai dar certo!
— É claro que vai. Só precisamos fazer o que ele quer. Jogar conforme as regras, e aí podemos ter algo que enfim possa nos tirar daqui.
— Nós somos cinco contra um exército inteiro, como você quer competir com isso, idiota?!
Ela o calou. Clara chorava, escorrendo água em cima da bebê, que estranhamente não chorou com sons de gritos ou correria.
Os dois eram colegas de turma há bastante tempo, mas serem sequestrados por um genocida os aproximou mais.
E é claro que a garota não queria se arriscar após ver Anya em espetinhos e a perna de Ramona em carne viva, dando para ver o osso de alguns ângulos. Ela não era louca de topar sem espernear. Porém no fim, Clara era muito manipulável.
Ela se sentou na cama, olhando nos olhos da bebê, não fazendo a menor ideia do como prosseguir aquilo. Miguel sentou ao seu lado, tentando trazer a atenção para ele de novo.
— Eu também tô com medo. Todo mundo aqui tá. Mas a gente precisa fazer isso pela Rose, pelo Luke, pelos nossos pais... pela gente!- Ele colocou a mão dele sobre a dela, qual segurava a bebê.- Confia em mim, Clara. Eu vou conseguir, nós vamos conseguir!
Ele procurou os olhos dela, que por mais perdidos e cheios de água que estivessem, corresponderam aos dele.
Clara expirou, depois respirou fundo, e respondeu:
— Eu...vou fazer isso.
— Isso!- Ele a abraçou.- Você tá fazendo o certo, pode confiar. Agora só temos que esperar até que sintam a falta dela.
— Por quê?
— "Por quê" o que?
— Por que não podemos fazer igual a Rose fez e levá-la até a sala do...dele?
— Dylan não tá no castelo, eu acho. Sendo assim, o cara do cetro, Alan, fica responsável pela gente, e pela bebê. Porque assim que ela sumir, vão informar primeiro ao Alan, e ele vai ficar desesperado atrás da criança e vir pessoalmente nos caçar. Ao menos é o que eu espero. A mente dele vai estar perturbada o suficiente pra não pensar em dar ordem a nenhum guarda sobre como agir. Aí a gente pode trancar ele aqui no quarto com você, enquanto eu pego o cetro e vou até o computador. Assim se ele ordenar algo os guardas, saberemos.- Miguel tirou um caco de vidro do bolso.- Toma, peguei do meu espelho. Se ele chegar muito perto, ameaça furar ela com isso.
— Miguel, eu não...
— Faz o que eu tô falando. Vai dar certo. Não vai nem precisar machucar ela.
Eles continuaram a conversa, na qual Clara continuava tentando negar participar daquilo, mas já estava envolvida.
No corredor, Kauan ouvia tudo pela porta mal fechada, planejando dar uma mãozinha para que o plano de Miguel acontecesse.
Sara voltava da nascente. A água do cabelo molhado escorria de seu pescoço até sua roupa também ensopada, pingando, a fazendo parecer ter mergulhado completamente nas águas da ilha antes de ir embora, o que fez. Não se importava mais com as roupas, de qualquer forma, o plano seria ficar sem elas, então não fazia a mínima diferença agora.
Entrando na aldeia, recebeu olhares de nativos apressados, segurando flechas e se reunindo em uma casa, para qual não fora convidada a entrar, mas pela porta entreaberta, vira o armamento de espadas, arcos e flechas. Eles estavam se preparando.
"Estamos nos arriscando demais confiando em pessoas que não conhecemos", pensou, mas sua confiança na capacidade de Rebeca de ler pessoas(um super poder?), era mais forte que qualquer dúvida. Ela era impressionante.
Mas não tinha a sensação de que em algumas horas ia se ver no meio de uma guerra com pessoas querendo sua cabeça. Bem, talvez já conhecesse esse esquema. Nunca saiu dele. Mas a sensação não era aquela, na verdade era boa. Tão tranquila.
Mais afrente, viu Rafael, que tinha ido embora da nascente antes dela(assim como algumas outras pessoas), encostado na parede de fora de uma casinha.
Antes de a perceber, ele tinha uma feição tensa, mas então seus olhos focaram nela, o que melhorou seu humor.
Os braços cruzados e o sorriso quase contido a fizeram querer rir. Ele tinha um jeito nada natural.
Quando olhou o chão, viu um dos lírios caídos da aeronave, exatamente o qual Daniel pisou mais cedo. Ao chegar perto do garoto, Sara se agachou, pegou a flor um pouco gasta e a colocou na orelha de Rafael, que abriu o sorriso contido.
— O que tá fazendo?
— Combina com você.- O encarou, vendo a elegância que tinha criado.- Não acha?
Ele fez uma careta.
— Não sei? Com menos barba, talvez.- Disse passando a mão em seus pelos faciais.
Deram algumas risadinhas, mas no geral ficaram calados, apenas pensando sobre os últimos dias e como tudo iria terminar. Sara e Rafael eram bons amigos, mesmo que de curto prazo e de uma validade que só iria durar até Sara cometer um erro. Ela sentia como se a amizade fosse terminar ainda naquele dia, mas ao mesmo tempo durar para sempre.
A bipolaridade de sentimentos explicava Sara mais do que ninguém.
Ainda assim, o sentimento de adeus sobressaia, nos dois.
Ouviram um assobio. Rebeca chamava da casa em que tinham se reunido antes, provavelmente para trabalhar Sara e dar segmento em sua parte do plano. Uma deusa com tantas falhas físicas de como a conhecem tinha que dar um jeito de convencer seu povo.
Sara ficou sem graça de falar qualquer coisa, pois provavelmente seria a última vez que se veriam até a batalha, entretanto, se despediu de Rafael com um aceno de cabeça, estava na hora de agir, e deu passos em direção à casa em qual Rebeca já tinha voltado para dentro. Impulsivamente, ele a segurou pelo braço.
— Eu não quero que você morra.- Disse, a vendo virar para si.- Você é minha amiga.
Aquilo a pegou de surpresa. Seus olhos ficaram mais um tempo cruzados, até que enfim se abraçaram. A pureza dele não tinha explicação, apenas essência definia, e Sara sabia bem disso, sabia que Rafael não merecia as tramóias de Dylan.
Rafael beijou sua testa e a deixou ir, ainda que com um aperto de perde-la. Porém, ela quem tinha mais medo de perde-lo.
Assim que entrou na casa, a porta foi fechada. Rápida demais. As mãos de Rebeca saltaram em Sara, a fazendo ficar de costas para os três homens ali presentes. Então, levantou a blusa dela na região das costas.
— Isso é perfeito, Daniel tinha razão.- Rebeca mostrou para eles e abaixou a blusa de volta.- Nossa, você tá ensopada.
Estavam vendo o que na fisionomia de Sara, poderia ser usada para ser identificada como a Deusa.
Ao se virar, Sara olhou para Daniel, que evitou contato visual por ter contado sobre a cicatriz que Dylan a tinha feito recentemente em formato de S. Não sabia dizer se ela estava incomodada, mas deduziu que sim.
Alguns minutos antes estavam informando a Bahan sobre dinamites na batalha. Agora o foco era a Deusa.
— Eles vão acreditar que são marcas da flor da morte. De seus espinhos....espinas.- Bahan disse, sem saber qual das palavras era em português.
Já que aceitou ficar pelada para dar-lhes uma cena digna, Sara topava usar qualquer coisa que ajudasse, até uma marca feita pelo demônio.
— O único problema é o cabelo curto, vai confundi-los.- Comentou o líder, levantando uma mecha.- Ele está diferente da figura das rochas, você precisa se render com algo que te prove ser a Deusa da Morte.
"Pra quê eu fui cortar o cabelo?", pensou.
O artesão olhava para algo em cima da mesa, mas ela não conseguia ver o que era.
— O espelho e a flor são para isso.- Bahan lhe entregou uma flor estranha e foi até a mesa pegar o outro objeto.- Você vai se entregar com o espelho e a flor. Eles irão acreditar que são os da profecia. Eles também até poderiam saber que esse tipo de flor nasce por aqui, mas nunca vieram aqui ver.
Sara abaixou a cabeça e encarou a flor, parecia com algumas que vira na nascente. Não tinha nada de especial além da estranheza.
Bahan estendeu o espelho, tomando a vista dela com seu próprio reflexo. Vira o rosto acabado, os cabelos mal cortados e seus olhos aumentarem consideravelmente, mas por ver todo o trabalho contido no espelho.
Há uma moldura redonda, muito bonita, envolta do vidro, que por sua vez é rachado em diversos pedaços, de um jeito belo. Tinham usado os cacos que trouxeram, para monta-lo.
— Como fizeram a moldura?- Sara perguntou, passando a mão na peça.
— Well, não entendo nada dessas coisas.- Apontou ao artesão.- É ele que faz, mas não compartilha com quase ninguém, é um verdadeiro douchebag.
O artesão resmungou e ofereceu a munição da arma à Daniel, que rapidamente estendeu a mão.
Cinco balas no total.
Rebeca entregou a arma e ficou olhando para ver o encaixe e saber se as balas eram compatíveis. Descobriram que sim. Ele as tinha encontrado nas águas da nascente meses antes.
— Está tudo perfeito.- Bahan finalizou.- Provas físicas, a flor, o espelho quase idêntico ao desenho das rochas. Vamos conseguir. E Sara,- Ela o encarou.- A cena precisa ser perfeita, como uma deusa. Totalmente divina. Você consegue?- O líder posicionou a mão em seu ombro.
— Não se preocupa, ela sabe fazer cena.- Brincou Rebeca.
Sara não respondeu, mas lembrou de dias atrás, quando entrou em uma banheira com uma coloração super duvidosa.
Um nativo entrou no cômodo, já esperando orientações do líder.
— Ah, aí está você. Coloque os outros para descansar. A noite vai ser complicada. Mas vocês, me encontrem daqui alguns minutos. Vamos ir até perto deles e depois voltamos.
— Já avisei à eles que vamos na frente resolver isso.- Rebeca disse sem ser perguntada.
— Ótimo, então só repita para reforçar, Gabriel.
O nativo assentiu, se retirando no cômodo para voltar à nascente.
Quando enfim ficaram a sós, Sara e Daniel tiveram uma conversa franca sobre o que sentiram ao ter as informações entre eles compartilhada com os outros. Os dois se disseram incomodados com um tendo feito aquilo com o outro, mas justificaram seus próprios atos com "Eles precisavam saber disso".
Naquela situação, não dava para se resguardar muito.
Quando entenderam a necessidade de cada informação, se perguntaram se deviam confiar tanto naqueles Indígenas que se diziam do bem, querendo os ajudar a lutar contra o mal.
Aquele debate passou por várias etapas, todas se relacionando a Dylan, mas a questão da crença pesava mais forte. Afinal, o avião e a queda de lírios estava na profecia, então para eles seria real de certo modo. Surreal.
— Você acha que eles sabem que a profecia e tudo mais é falso?- Sara perguntou, querendo saber a opinião de Daniel.
— No fundo devem saber.- "Ou não", pensou.- Mas não é fácil deixar de crer totalmente em algo que te impuseram enquanto estava vulnerável. Mesmo sendo mirabolante demais.
— É, de qualquer modo a gente não tem tempo.
Se tinha algo que Dylan sabia criar, eram coisas mirabolantes.
Marcos se enxugava com um pano fornecido pelos neoidrios que restaram ali. Dentro da nascente, Godobllir e Noel continuavam o banho, esfregando uma espécie de sabão redondo em seus corpos, usando apenas roupa íntima. Eléxeu já tinha tomado seu banho, mas colocou as pernas dentro da água, enquanto segurava uma flor que tinha pego ali perto. A flor da deusa da morte.
— Olha como é estranha. Será que também é artificial?
— É só uma flor, idiota.- Marcos respondeu.
O restante das pessoas estava um pouco afastado, devido a nascente ser uma expansão e trilha de água de alguns metros.
A água saia de pedras, formando uma espécie de lago que não transbordava. Godobllir imaginava que em algum canto, haveriam canos que sugavam o que passava de um certo limite perto da margem, reaproveitando a água para voltar de onde saía. Alguma maquinaria criada por Dylan.
Aquela ilha não era normal, óbvio.
— Ouvi que querem nos botar pra descansar a tarde toda, porque a luta vai ser pesada.- Noel comentou.
— Não me importo de ficar mais um tempo deitada. Mas o que acharam do plano?- Perguntou a líder aos seus três capangas, se referindo ao que foi dito por Bahan na reunião.
— Quer saber o lado que a gente deveria escolher?- Noel sabia que ela não tinha ideia para um próximo passo, só foram colocados ali sem orientação, então escolher algo a seguir lhe traziam riscos.
Marcos fumava um de seus últimos cigarros, encostado numa rocha, já vestido.
— Qual sua opinião, Marcos?- Noel perguntou.
Soltando fumaça, ele respondeu:
— É melhor lutar com eles. Se os outros forem fanáticos religiosos vão nos matar, não importe o que dissermos.
Eléxeu concordou.
— E quem disse que esses não são?- Contestou Godobllir.- Vieram da mesma bolha.
— Me parecem menos piores.- Tirou o cigarro da boca.- Você tem ideia melhor?
Ela apenas olhou para a água em que estava imersa, mas nada lhe veio a mente.
O trabalho era mais fácil quando só precisavam levar e trazer corpos.
— Ele te pegou nessa.- Noel cutucou.
— É...Talvez tenha razão.- Godobllir saiu da água.- E se estamos num jogo, esse é o primeiro grande desafio, com certeza tem outros. Moleza não é o sinônimo desse jogo e nem da gente do Cold Blood.- A Girl Blood pegou o pano e começou a secar as pernas.- E se a gente for pela lógica dos desafios, o Dylan não ia deixar matar todo mundo de uma vez tão facilmente.
— Estamos pensando no mesmo Dylan?- Marina se intrometeu, surpreendendo o grupo que não a percebeu e nem sabia o quanto ela tinha ouvido.
Eléxeu, quem fitava a flor, a deixou de lado.
— O que foi?- Ela se sentou na margem, encarando Godobllir.- Vocês acham mesmo que tão enganado alguém aqui?
Noel soltou o ar, pedindo com os olhos o cigarro de Marcos, que milagrosamente o deu.
— Ninguém confia em vocês. Sabem que são infiltrados, mas também sabem que o barco é o mesmo.
O único totalmente na água, deixou a fumaça do cigarro sair de sua boca e tentou distrair seus olhos para alguma outra coisa, deixando que Godobllir resolvesse a situação.
Eléxeu se via pelo reflexo d'água, enquanto fazia uma careta de quem sabia que tinha dado merda.
— Deveriam parar de fingir a sororidade de vítimas. Pelo menos não criariam ranço.
— E por que tá contando isso pra gente?- A líder perguntou. Daquele mesmo ângulo conseguia ver seu jeans molhado esticado numa rocha.
Se uma luta começasse naquele momento, teria que se esforçar para não sair toda ralada.
— Porque eu quero me juntar à vocês. Não sou idiota, sei que são as melhores pessoas pra saírem vivas daqui. E eu também sei que a Rebeca tá no grupinho por causa do tal do Alan e que é um comparça disso tudo. Sei o suficiente pra fazer parte do grupo ou pra botar a Rebeca na fogueira. Vocês decidem.
A ouvinte fez uma careta, tentando juntar as peças Rebeca e Alan.
— O que o Alan tem haver com a Rebeca?
Marina fez uma cara incrédula. Achou que ela se fazia de sonsa, como fizera desde que chegara na ilha, mas depois percebeu que a pergunta era genuinamente séria.
— É sério? Ele não é o comparça do Dylan?!
Godobllir fez um som com a garganta, pensando no que deveria dizer, mas já estava exposta mesmo, então não fazia diferença:
— Sim, ele é.- Noel jogou o cigarro para longe, condenando a ação dela de contar.- Mas o que a Rebeca tem haver com isso?
— Mentira que vocês não sabem?!
Todos do grupo se voltaram à ela.
— A Rebeca falou que tinha um marido fora daqui. O nome dele é Alan, o mesmo que supostamente é um "Dylan" pra vocês.
O quarteto ficou chocado, daquela informação ninguém sabia.
— E não é coincidência, porque nada que acontece aqui é coincidência. Inclusive, quando vocês citaram o nome dele, a reação dela foi das piores, ela sabe que ele tem dedo nisso.
Ninguém sabia o que dizer. A líder procurou a esposa de Alan nos arredores da nascente, mas ela já tinha partido.
Juntando o que queria dizer, conseguiu formular frases, mesmo que com o baque de seu inimigo ser casado com uma das vítimas de Dylan:
— A Rebeca não tá com a gente, e não estamos mentindo sobre o Alan. Ele também brinca com a gente...brincava.- Eléxeu engoliu a seco, ao ouvir Godobllir, lembrando de como foram judiados antes do Cold Blood. Jogos semelhantes aos de Dylan.- Odiamos ele.
Noel e Marcos trocaram olhares rápidos, sabendo que Godobllir iria aceitar a mulher na equipe. Porém a informação que ela trouxe, ocupava suas cabeças mais do que qualquer outra coisa. Sentiam tanta raiva de Alan, assim como qualquer um que odiava o genocida loiro.
Marina viu naquele ódio uma chance de plantar sementes para continuar viva.
— Bem...Eu posso ajudar.
Ela induzira todos a montar um plano para pegar Rebeca no meio da batalha, a torturar para contar o que sabe, e assim os tirar do meio da carnificina.
Ela fazia parte do grupo agora.
Kauan caminhava estampando um sorriso maldoso, procurando Alan pelos diversos corredores da Coruja Negra. Queria fazer valer sua estadia no castelo, precisava de emoção, já que seus companheiros de equipe foram os escolhidos para explorar a ilha. Encarar a mata lhe parecia mais interessante do que ficar trancado em uma mansão com nome de um animal e a cor dele.
E já não tinha tanta leveza em seus atos. Começara escondendo o jogo, para ver no que ia dar, mas não aguentava mais. A graça de estar ali era ver as mortes, dar uma ajudinha para que acontecessem. Se iam acabar, como ouvira os dois mandantes conversando no dia anterior, do que valia continuar ali.
Uma desconfiança sobre o lado em que estava foi levantada por Rose. Só uma questão de tempo até matarem a charada. Então, faria valer apena.
Ao se aproximar de um guarda, o perguntou sobre aonde Alan se encontrava.
Recebendo a resposta, deu alguns passos e abriu a porta que foi indicada.
Era a sala na qual Leonardo foi morto na seringa russa. Alan passava as mãos pelos livros da mini biblioteca no canto do local, olhando alguns títulos que lhe interessavam.
Kauan se perguntou se aquelas estantes estiveram ali antes.
O homem deu uma olhadela para o garoto, voltando a mexer com os livros.
— O que você quer?- Disse, pegando uma coletânea de contos de terror, a abrindo como se realmente fosse ler.
Kauan deu um sorrisinho, cruzou os braços e caminhou lentamente na direção do conselheiro do genocida.
— Vai fingir que não me conhece?- Provocou o descaso.
Alan continuou a folhear o livro, sem demonstrar preocupações.
— Eu não sei quem você é.- Virou mais uma folha, chegando no título do conto "Gatilhos Internos".
Era sobre um mundo gerações pós guerra, no qual uma comandante rebelde precisava atravessar o país com uma princesa, enfrentando os maiores monstros que a terra já viu: os humanos. Pelo que sabia, existia uma versão em livro solo.
— Então também não conhece minha habilidade em ouvir pelos cantos?- Kauan tirou o livro da mão dele.
— Fala o que você veio fazer aqui.- Finalmente o encarou, enfim demonstrando algum interesse, mesmo que com o rosto um pouco bravo.
— Não vai me oferecer chá antes? Uns biscoitos?
Alan deu meia volta, indo na direção da porta.
— Ei, ei, ei!- Kauan deu um pulo, indo segurar seu ombro.
— Tenho mais o que fazer do que brincar com você.
— Ouve. Sequestraram a criança de novo.
Segundos de silêncio persistiram na sala. A reação demorou um tempinho, mas os olhos alarmados de Alan saltaram em Kauan, enquanto sua boca intercalava entre um pouco aberta e fechada.
— Quem pegou ela?!- Indagou com seu tom grave.
— Quem mais poderia ser tão burro? O loirinho, irmão da Rose. Tá no quarto da amiga dele. É um plano pra pegar seu cetro.- Kauan olhou no canto da sala, viu o cetro e o entregou a Alan.- Vai precisar disso. E se eu fosse você entregava, ele é burro o suficiente pra matar a bebê, e a menina é traumatizada. Entra no jogo que é melhor.
Alan se retirou quase correndo, sabendo que se algo acontecesse com aquela criança, Dylan o mataria na hora.
Kauan ficou parado alguns instantes, até que decidiu sair para ver a confusão que ia gerar.
O livro ficou largado em cima da mesa, com uma ilustração amostra: Uma cabeça decapitada.
Espreitando em uma moita, Rebeca e Daniel acompanhavam Bahan para ver a resolução do que seria a cena triunfante que Sara teria de encenar.
Demoraram duas horas de caminhada para chegar naquele lugar, utilizando de um atalho que apenas os rebeldes sabiam localizar. Justamente pelos Idrios não se atreverem a ir mais do que proximidades, conheciam apenas limitações da própria ilha em que moravam. Leis divinas segundo o Xamã.
Atrás das folhas, eles conseguiam ver a cachoeira, uma queda de 40 metros, com águas e pedras que mais pareciam ter sido esculpidas para copiar um quadro.
Não estavam mais com Sara.
Na água, alguns dos Idrios que iriam encarar, se banhavam nus, conversando em uma mistura de idiomas.
As expressões em seus rostos não eram típicas de um simples banho cotidiano, dava para perceber alegria em seus semblantes, que por sinal eram de etnias diferentes assim como os Neoidrios.
Ansioso, Bahan fez o que decidira não fazer para não o comprometer: olhar para quem se banhava.
Reconheceu as cinco pessoas agitadas, com quem já convivera um dia. As memórias voltaram junto com uma sensação estranha. Seu coração imitou um tambor, batendo forte e pensando que em poucas horas estaria atrás deles para os matar. Quem sabe tropeçaria em um corpo ou veria alguém que um dia amou tanto, pedir por socorro e não poder fazer nada. Bahan sentiu medo de aquilo arruinar tudo, os outros também passariam pelo mesmo, caçando pessoas com quem tiveram laços afetivos. O arrisco era alto, mas conversara com todos. Não podiam ter dó.
Era o preço de saber o que era o certo. Infelizmente, mentes corrompidas são difíceis de limpar, e algumas mentes foram tão corrompidas que nem existem mais.
Se pudesse, se conseguisse, se houvesse algum jeito de enfiar a verdade naquelas cabeças ocas, teria feito.
Resolveu mudar sua mente de volta para o que importava, antes que ficasse perdido em conflitos internos.
Daniel se lembrou do plano de escape, para caso os inimigos conseguissem se erguer, então seus olhos trabalharam para achar o buraco entre as rochas, mas a queda d'água ocultava a tal caverna.
— Ali a trilha de pedras.- Bahan apontou, falando em cochicho.- É daquele lado.
Pelo menos o caminho foi encontrado.
Logo, o líder nativo voltou os olhos para a água, assim como os dois que vieram junto faziam, esperando algo sair dali.
Mesmo bem escondidos, Bahan não desgrudava de sua espada, sabia que todo cuidado era pouco quando lidava com seu ex-povo. Precisava ficar atento no caso de um ataque surpresa, que provavelmente não aconteceria.
— Já faz um minuto.- Rebeca alertou, temendo algo ruim.
Suas pupilas refletiam a visão de uma área específica da cachoeira, um pouco afastada de onde os nativos estavam. Um lugar em que dava para entrar escondido e mergulhar bem fundo se assim quisesse. E foi exatamente isso que Sara fez.
Passado mais de um minuto, o barulho da cachoeira não foi capaz de ocultar o som de algo emergindo das águas, perto dos Idrios, que agilmente se viraram para ver.
Lá estava ela. Sem roupas, segurando um espelho e uma flor ao se desfazer. Em pé o suficiente em um lado raso para fazer uma pose digna de uma divindade.
Um brilho amarelado se formou saindo do céu, como um holofote, refletindo no vidro do espelho levantado em sua barriga. Parecia-se com a luz do sol, mas seu impacto era restrito à Deusa e a cachoeira.
A água escorria de seu corpo nu, sua pele branca se identificava ao mármore, e seu cabelo ao ébano.
Os Idrios ali ficaram enfeitiçados ao vê-la. Era ela à sair das águas. Ela. A última chave do paraíso.
O queixo de Bahan caiu, não sabia de onde vinha aquela luz, apenas era algo divino.
— De onde vem isso?!- Impressionado, não tirava os olhos da Deusa emergida.
Rebeca e Daniel se entreolharam, também surpresos, mas sabiam a resposta: Dylan.
Os idrios se aproximaram dela, encantados e incrédulos com a cena. Todos a reconheceram imediatamente, sem excessão. Seu cabelo curto não fora um problema, e sua cicatriz mais do que evidenciava marcas de espinhos.
— Al igual que everything que dios nos dio provienen del aqua, enviou la Death Godness per eam.- Disse um Idrio, tocando no corpo dela.
O que o povo de Sanru teria entendido se fosse poliglota: "Assim como todas as coisas que Deus nos deu vindas da água, enviou a Deusa do Morte por ela também".
Sara foi levada para fora da água, e enquanto era a fascinação dos olhares indígenas, novos Idrios começaram a chegar, atordoados com a ilustre surpresa, todos focados não só em sua aparência, mas também no espelho rachado e a flor molhada que trazia.
Quando terminaram de examiná-la, os primeiros passos em direção a aldeia foram dados. Fizeram uma série de perguntas à ela, mas apenas uma foi respondida, e com um singelo aceno de cabeça em confirmação. Sim, ela era a Deusa da Morte.
Alan andava furioso pelo castelo, indo em direção ao corredor das crianças pegas por Dylan. Quais se tocasse um dedo nelas, ele o mataria.
Eram apenas cinco crianças agora, como que depois de tudo ainda poderiam dar tanto problema. Na hora não pensou em falar nada com os guardas, apenas os pediu para acompanhá-lo.
Era sua obrigação proteger as crianças delas mesmas, e a bebê das crianças. Porém não contava que depois do vexame que passaram ao sair e voltar por medo, tentariam mais uma vez usar ela para escapar. Ou seja lá o que estavam tramando.
E se Kauan estivesse envolvido, daria uma surra nele. Um infiltrado não deve armas planos contra, deve avisar que eles existem.
Bem, sortudo seria Luke, que na hora de toda a agitação que estaria por vir, almoçava um pratão de comida no salão. Estranhando o fato de lá estar vazio.
Seus pés chegavam cada vez mais perto do quarto em que os dois estúpidos mantinham a bebê, e só conseguia pensar em tirá-la dos braços deles e os trancar no quarto até Dylan chegar.
Miguel e Clara ouviram passos agitados vindos do início do corredor, já se levantando e montando pose para quando vissem a fúria entrar no quarto. A menina suava, tinha vontade de larga tudo em cima do amigo, fingir que não tinha nada haver com aquilo e sair do quarto para tomar um ar. Mas já era tarde demais, a porta foi aberta com uma brutalidade que a fez bater na cômoda ao lado, derrubando frascos de perfume e um abajur.
Miguel lançou os olhos no cetro, almejando a peça fundamental para que seu plano tivesse resultados.
Alan encarou-os com raiva, dando passos na direção deles, porém Miguel tomou a frente, afastando Clara para trás com seu braço e erguendo o corpo como quem tem a determinação suficiente para ir até o fim com isso. Os cinco guardas na porta, assistiam como se não estivessem presentes naquele lugar.
— Entrega logo ela.- Alan mandou, vendo Clara segurar a bebê com o caco de vidro bem perto dela, assim como Rose fez com a faca.
— A gente devolve ela se você der o seu cetro e deixar eu ir, você sabe onde, sem ninguém vir atrás.
Alan fez uma careta incrédula, tentando entender o que se passava na cabeça de crianças para achar que tinham algum poder.
— É pegar ou largar.
— Seu pivete, passa logo ela pra cá e eu esqueço isso antes que alguém se machuque.- Gesticulou para que chegassem perto, mas tudo o que recebeu foi o nada.
Clara balançava a bebê de um jeito agitado, como uma forma fracassada de suportar sua ansiedade. As lágrimas já apareciam em seus olhos.
— Já te falei sua opção.- Miguel insistiu.
Alan não tinha paciência alguma com crianças.
— "Opção" o caralho!- Ele avançou em passos decididos, indo pegar a bebê com suas próprias mãos, mas o garoto entrou um metro antes em sua frente, enquanto atrás, Clara chorava pressionando sem querer o caco de vidro no braço da bebê.
Consequentemente, a pequena começou a chorar, seu sangue manchava a manta, e Alan desistiu de ir até ela.
O que Kauan disse voltou à sua mente:
"Se eu fosse você entregava, ele é burro o suficiente pra matar a bebê, e a menina é traumatizada."
Não esperava tanta dor de cabeça em um dia pacato, mas estivera errado em acreditar que algum dia seria pacato naquele lugar.
— Por que você quer o cetro?
— Você sabe o porque.- O loiro retrucou, pois era claro que ele sabia.
"Se Dylan estivesse aqui, entregaria o cetro? Não é a hora de ninguém saber o conteúdo ainda", se perguntou, "Bem, se Dylan estivesse aqui, nada disso teria acontecido, mas se tivesse...".
Tentado a resolver a situação sem que ninguém se machucasse pra valer, o homem esguio viu como sua única saída entregar o cetro.
Miguel o encarava com uma expressão de raiva, mas ao vê-lo estender o cetro o suficiente para pega-lo, sua cara passou a ser de um bobo, sem acreditar que tinha dado certo. Olhou rápido para Clara, agarrou o cetro e saiu depressa do quarto com ele.
Acabou? Então seria isso?
Alan deu um sorriso, assustando a menina que já tinha chegado tão para trás, que encostava na parede.
Virando a cabeça em direção aos guardas, o braço direito do genocida, deu a ordem:
— Peguem ele.
Já vista pelo Xamã, por todos os idrios, e vestida com uma túnica que fora apenas formalidade do ancião para não ficar todo o tempo ali pelada, Sara estava sendo levada à cela, escoltada por dois Idrios que nem se atreveram a encostar nela enquanto caminhavam.
Se tivesse que encenar uma peça, não teria se saído tão bem em se comunicar pouco e demonstrar superioridade. Esperava de verdade que todos tivessem acreditado, e acreditaram.
Chegando na prisão, se deparou com um guarda, qual abriu um longo sorriso e se ajoelhou brevemente diante dela.
— Deusa...- Foi a única palavra que saiu de sua boca, para então voltar ao posto.
Lídia se levantou e logo a reconheceu, o que a fez se sentir preocupada com os outros. Se Sara tinha sido capturada, logo todo o resto do povo de Sanru foi descoberto e provavelmente seriam mortos pelos nativos por tentar impedir, se é que já não foram.
A porta da cela foi aberta e em questão de dois segundos, Lídia pulou para abraça-la.
— O que aconteceu?!- Falou em um volume no qual os nativos fora das grades puderam ouvir.
A porta foi novamente fechada.
— Tá tudo bem.- Sara a acalmou, em um volume que não as fosse comprometer.- Me entreguei porque encontramos o povo rival, eles tem um plano e vão nos ajudar.
— E o Daniel?
— Ele tá bem.
— E os outros? O Marcos, o Eléxeu...
— Estão todos bem.- O abraço foi desfeito e assim o coração de Lídia pôde se acalmar um pouco.
— Fizeram algo com você?
— Não, só fui interrogada pelo líder deles, e você?
— Também falei com o Xamã.
Passaram alguns segundos pensando em todas as coisas mais que tinham para falar, mas então, Sara percebeu a presença de mais alguém no fundo da cela, sentado perto da parede. Um homem cheio de pelos, com roupas rasgadas, e uma aparência nada agradável. Ele não tirava seus olhos dela, até que ela retribuiu.
— Sara...- Lídia tentou dizer, com a mão no peito, mas as palavras certas não vinham.
Ela foi se aproximando, estranhando demais, tendo dúvidas se aqueles olhos eram de quem pensava ser. Um instinto a mandava chegar perto.
Foi vez do seu coração acelerar, de uma sensação boa tomar conta de seu corpo. As memórias começaram a preencher o vazio que aqueles 10 anos perdidos abriu.
— Jason?!- Sim. Eram seus olhos. Suas pequenas feições faciais.
Quando ele enfim ergueu o rosto mais alto, as lágrimas de Sara começaram a escorrer pelas bochechas branquelas. O sorriso dela queria dizer "saudade".
Faziam 120 meses que não se viam, e apenas ele poderia saber o que é sentir tanta saudade preso em uma cela por mais de 3650 dias.
Jason abriu a boca para falar, mas nada saia, apenas conseguia pensar em palavras soltas e o quanto queria senti-la.
De repente, recebeu o abraço da antiga namorada, e então conseguiu grunhir e chorar no ombro dela, soltando tudo o que tinha guardado, molhando toda a túnica aos prantos.
O abraço mais caloroso que recebia há anos.
Lídia chorou um pouco, estava emocionado ao ter os três juntos novamente, mesmo que em uma situação nada próspera.
— É você...- Sara se afastou do corpo dele, para ver seu rosto de novo.- Você tá vivo!- O agarrou novamente, o apertando bem forte contra si.
Ela sentiu seu ombro molhado, mas não se importou nem um pouco. Que deixasse ele chorar e babar, eles precisavam daquilo. Enfim podiam se tocar outra vez.
— Sara...- Respirou fundo, fungou, o rosto molhado em todas as partes possíveis.- Eu senti tanto a sua falta!
Os Idrios do lado de fora da cela não entendiam o porquê de eles estarem tão emocionados ao ponto de sair catarro de tanto choro.
— Você tá tão diferente. Sua voz, seu corpo, sua cara. Mas ao mesmo tempo é tão...você! Jason, é você!- Sara falou. Ela enxugou as lágrimas dele, admirando seu rosto.- Até sua pele tá diferente depois de tanto tempo.- Respirou pela boca, porque pelo nariz não dava mais.- O que fizeram com você?! O que aconteceu?!
Jason pegou as mãos dela, acariciando a palma de cada uma.
— Sara...- Voltou a chorar igual uma criança, mas pela primeira vez em dez anos, acolhido. E pela pessoa que mais o amava.
Miguel saiu disparado pelo corredor, segurando o cetro e louco para saber o que tinha naquele pen drive. Enfim poderiam ter uma vantagem, e assim escapar de vez dos jogos de Dylan. A linha da vitória seria cruzada. Sua irmã estivera errada ao pensar que deveriam deixar as coisas simplesmente acontecerem, afinal, se todo mundo pensasse assim, o mundo não evoluiria, não é? Era o jeito que ele pensava, tentando justificar suas coisas. Só que Miguel não era lá muito esperto quanto achava.
Corria feito um louco pela majestosa mansão-castelo, até que foi segurado pelo braço por um guarda no encontro de corredores. Ele só sabia que tinha que segura-lo.
Com adrenalina à mil, deu grunhidos, com medo de perder a única chance que tivera. Se contorceu todo para tirar a mão dele de seu braço, conseguiu se livrar e voltou a ir rapidamente para a sala do trono, enquanto três guardas iam em sua direção.
Ter sido pego, deu tempo para que esses três dos guardas da porta estivessem perto de o alcançar.
— Vamos lá, garota, entrega ela. Você sabe que seu amigo não vai conseguir nada.- Ainda no quarto, Alan persoadia Clara para que entregasse a bebê.
Ver o rosto chorão dela em negação com a cabeça o irritava. Sentia tanta raiva daquelas crianças burras, que só não espancava elas por causa de Dylan, senão partia pra cima sem dó.
— Vai, menina, acaba logo com isso. Já mandei os guardas, ele não vai descobrir nada. Só tão perdendo tempo. E ainda por cima machucaram a pobrezinha.
Recebeu apenas uma careta de choro. Alan arfou de desgosto. Zero condições de lidar com ela. Depois ainda teria que lidar com o dono do castelo dando chilique por um corte no braço da princesa dele.
— Você realmente confia nele?- Clara não respondeu, só abaixou seus olhos para a bebê chorando no colo.- Responde!
— Confio...- Ela o encarou, se tremendo toda. Suas pernas estavam bambas e o suor escorria em várias áreas de seu corpo.- Confio...e ele vai conseguir, sim!
O homem abriu a boca para tentar de novo desconvencê-la daquilo, mas a paciência já curta esgotou.
— Ah, vai tomar no cu.- Alan foi em sua direção, erguendo um braço para agarra-la.
Agilmente e sem raciocínio algum, Clara passou por debaixo do braço que ele levantou para pega-la, correndo para fora do quarto, assim como Miguel fez, com a criança no colo.
Ao ver outro braço em sua direção na porta, o cortou com o caco de vidro, e continuou o percurso, deixando para trás um sentinela sangrando. Seus pés e seu coração batiam tão forte, que pareciam que iam explodir. Seu corpo inteiro estava prestes a explodir.
Miguel já conseguia ver a porta dupla da sala do trono, pronta para recebê-lo. Seu objetivo enfim daria certo.
Porém não conseguia olhar para trás, sabia que isso iria desacelerar seu passo, mas conseguia sentir que estavam perto, bem perto, assim como a porta estava.
E finalmente ia descobriria o segredo do pen drive e a razão para ele existir. Por que Dylan queria que eles descobrissem? Ia saber!
Quando chegou de encontro à porta, suas mãos correram para as maçanetas, desesperado para entrar. Entretanto, um guarda agarrou seu abraço assim que abriu uma frecha.
Miguel se contorceu assim como da outra vez, mas dessa vez não conseguia se soltar, e os outros três já vinham atrás, poucos metros de onde estava. Seus olhos olharam de um lado para o outro, pensando em alguma forma de sair dali, até que fez a única coisa que dava para fazer.
Miguel acertou a redoma do cetro na cabeça do guarda que o prendia, estilhaçando a redoma, em cacos que voaram para todos os lados, juntamente do pen drive, que bateu na parede e caiu no chão.
Deu certo. O guarda o largou ao sentir o impacto e sua cabeça sangrando. O garoto olhou para o chão, procurando o bendito do pen drive entre os cacos, enquanto um companheiro do sentinela chegava para agarra-lo.
Miguel pegou o pen drive com uma mão, um caco de vidro na outra, e rasgou o rosto do outro guarda, que urrou de dor, se afastando.
O garoto colocou o cabo do cetro debaixo do braço e entrou correndo na sala do trono, fechando rapidamente as portas e as trancando com o resto do cetro entre as maçanetas de puxar. Sua próxima parada seria a sala secreta.
Não sabia pra onde ir, não tinha a mínima ideia do que fazer com aquela criança no colo.
Olhou para trás e viu Alan com dois guardas indo em sua direção. Clara estava tão angustiada, que entrou no lugar em que vira mais perto: a sacada.
Empurrou as portas para que fossem fechadas, mas sabia que não tinha força nenhuma para segura-las, então pisou nas diversas flores, derrubou vasos, arranhou suas pernas nos espinhos, até conseguir subir no parapeito da sacada, onde ninguém ousaria encostar um dedo nela.
"O que eu tô fazendo?", se perguntou, morrendo de medo de cair com aquela bebê dali.
O vento que deixou seu cabelo esvoaçante, apenas a assustou mais. Clara não tinha para onde olhar sem ser a queda, a não ser a porta sendo aberta abruptamente.
— Puta que pariu, garota, desce daí!- Alan tomou a frente e se aproximou, estendendo as mãos desesperado.
— Não!- Ela gritou, em meio ao choro da bebê.
— Garota, entende de uma vez: vocês não vão conseguir nada!
— Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca!
A única coisa que ele podia fazer era esperar, se tentasse convence-la de novo, ela poderia simplesmente surtar e se tacar com a criança no colo.
Clara tinha a respiração ofegante, ao mesmo tempo que sentia suas pernas sangrando arderem demais. Desejava com todas as forças que Miguel tivesse conseguido alguma coisa, QUALQUER COISA.
Os guardas esperavam orientações, e Alan pensava no que poderia fazer para evitar uma tragédia.
— Garotinha...Desce, sério, por favor.
Ela estava exausta, engolindo saliva para refrescar sua boca seca pelo vento.
— Não vou descer até o Miguel voltar.
— Tudo bem. Vai ter que ser assim, então. Mas espera de um lugar seguro, por favor.
Clara reparou os guardas se afastando, se sentindo mais segura para descer. Esperava que aquele homem esguio também se afastasse, e assim pudesse ficar na sacada sozinha, até seu amigo retornar.
Alan percebeu que ela estava cedendo, e assim que a garota ameaçou dar um passo para fora do parapeito, avançou suas mãos para pegá-la. Clara se assustou, tentou voltar o pé para o amurado, mas já era tarde demais, tinha se desequilibrado, e tudo o que fez foi se jogar para trás, gritando, em uma queda.
— Não!- Ele urrou, derrubando vasos de flores com o braço, para vê-la cair.
Alan já conseguia sentir cinco estacas de madeira sendo enfiadas em seu corpo por ter matado quem Dylan mandou continuar vivo.
Em alguns segundos, Kauan, lá em baixo, foi verificar o corpo. Ela tinha morrido. A cabeça de Clara acertou uma lápide. Ele se aproximou do manto em que a bebê estava embrulhada, e ainda chorando.
Que sorte ela teve de sair viva, abraçada com a cadáver que morreu numa queda de costas.
— A bebê tá viva!- Avisou Kauan, segurando-a no colo.
— Puta que pariu!- Se sentia mais aliviado, porém não deixava de ser tão menos ruim.- O Dylan vai matar...
Alan sentiu tanto ódio das criança, que deixou o ódio tomar conta. Rapidamente voltou a caminhar, agora indo atrás da culpa de tudo aquilo: Miguel.
Usando seu corpo inteiro, Miguel arrastou a cômoda com coisas para cuidar da bebê até a porta, deixando algumas dessas coisas caírem no chão enquanto isso.
Quando conseguiu impedir a passagem dos guardas, pisou em uma chupeta e se tacou na cadeira do computador, com as mãos trêmulas que erraram o buraco do pen drive, até acertarem, e esperou algo aparecer.
Pôde ouvir Alan dando a ordem aos guardas de derrubarrem a porta, o que fez sua adrenalina, para saber o que tinha ali, crescer mais ainda.
Que coisas aquele pen drive guardava?
Enfim uma pasta se abriu na tela vazia de plano de fundo aleatório, chamava-se "VS". Miguel clicou nela e começou a abrir vários arquivos de uma vez.
A porta foi arrombada, mas já era tarde demais. Miguel sabia de tudo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Envolto de seus braços, horas após o reencontro, Sara ria dos comentários que Jason fazia sobre o corte ridículo que tinha feito.
— É muito anos 2000, bem emo.
— Seu besta!- Insultou rindo, no chão abraçada de costas para ele.
Lídia sorria de orelha a orelha, tão feliz. Por um momento, sentia paz.
Já tinham conversado toda a parte dolorida ao longo do dia, e agora, ao entardecer, podiam tentar relaxar, esquecer que logo seriam levadas ao abatedouro.
— Ah, sabe como eles gostam de dizer "Eu te amo", aqui?
— Hum, como?- Sara estava tão vívidada e animada, que mais parecia ter sido trocada por outra pessoa.
— Aianmotu.
Lídia observou que um novo guarda entrou na prisão, informando aos cochichos algo para o antigo.
— Mentira que é o que eu tô pensando...
— É, sim. "Ai" de eu em inglês, "anmo" de amo em português, né, e "tu" de você em espanhol
— Caralho.- Ela voltou a rir.- Criatividade à mil.
Jason continuava a acariciar a palma da mão dela, sentindo as três linhas e a textura áspera de sua pele sem muitos cuidados. Não tinham nenhum protocolo muito especial com suas mãos no hospital, o máximo que ocorria era Bianca ir lá cortar e limpar suas unhas vez ou outra.
Bem, em comparação com as de Jason, talvez ela não chegasse nem perto.
De repente, Lídia, que já estava dessubmersa da sensação divertida, viu a sombra que tanto temia começar a entrar na prisão, até não ser mais apenas uma sombra.
O Xamã fez todos pararem o que estavam fazendo para prestar atenção em sua presença, que para os três não era bom sinal.
Os guardas o cumprimentaram, Jason inconscientemente fez o mesmo com a cabeça.
O ancião ergueu sua mão, fazendo um gesto, com que dizia para os dois saíssem, e então se foram, deixando para trás os 3 prisioneiros e um velho os encarando.
Lídia engoliu à seco, pensando se já era hora de ir ser queimada viva.
Mesmo com Sara tentando há horas acalmá-la lhe contando o tal plano, aquilo apenas piorou tudo, pois se imaginou no meio de uma batalha, junto a Daniel ferido. Assim, mil e uma versões ruins do que poderia acontecer passaram ao mesmo tempo em sua cabeça. E pelo menos uma delas iria se realizar, se no mínimo conseguissem escapar.
— Eu mal acredito...- O xamã começou a dizer.- Depois de tanto tempo separadas, as duas deusas finalmente estão juntas.
Sara e Lídia se entreolharam, querendo pular na goela daquele velho necrosado e acabar com a palhaçada de deusas.
— E vejo que você, Deusa da Morte, já juntou laços com o prisioneiro.- Olhou diretamente para o casal.- Quer levá-lo junto ao céu também?
Sara apertou a mão de Jason, estreitando os olhos para o Xamã.
— Você sabe que não somos Deusas.- Lídia estravasou.- O Dylan quem inventou isso e ele tá te pagando. Não precisa fingir, você já tem seus bonequinhos.
— "Dylan" what?- O ancião entortou a cabeça, mas logo abriu um sorrisinho.
Vendo a cara dos prisioneiros, sentiu vontade de rir, estavam todos visivelmente incomodados.
— Vou contar à vocês. Quando cheguei aqui eu tinha um paletó branco, mas muitas coisas aconteceram, que eu o perdi.
— Foda-se.- Lançou Jason.
O ancião o encarou, sério. Lídia ficou com medo dele fazer algo contra seu amigo.
— Retomando...Então há alguns dias, Deus me mandou pelas águas sagradas...- Referia-se à cachoeira.-...um novo paletó, como primeiro presságio da realização de sua profecia. Depois, enquanto me banhava, o meu povo chegou agitado dizendo que tinham encontrado a Deusa do Lírio, bem perto de onde os mandei procurar. Agora, a última Deusa chegou. E vocês não tem noção do quanto esperamos por isso.
— É, deve ter sido muito difícil manipular todo mundo.
— Ah, Deusa da Morte, mais difícil foi deixá-los viver um pouco, depois apagar as memórias de todo mundo e colocar aqui.- Ele agarrou a barra de ferro com uma mão, apoiando a testa na mesma.- Felizmente um grande amigo meu fez tudo isso parecer um projeto de estudo antropológico. Que agora é entretenimento não só pra mim.
Sara e Lídia não sabiam porquê, mas se arrepiaram por inteiras.
— Bons tempos. Era divertido armar com o Corvo. Ele foi um bom amigo.
A garota cobra então relacionou: O paletó branco, projetos antropológicos, corvo. Pareciam detalhes de uma mesma história que já ouvira. A lenda da Rebeca!
Sobre a cidade queimada e as crianças clonadas. A lenda era realmente verdadeira. E o Xamã era o homem do paletó branco!
Então...os nativos eram as crianças clonadas no final dos anos 80?
— Bem, a profecia é daqui algumas horas. Espero que se divirtam tanto quanto eu.- O ancião começou a se distanciar.- Boa noite, Deusas. Será uma bela noite.
Lídia não tirou os olhos dele até vê-lo sair pela porta. Voltou a cabeça em direção à Sara, que parecia atordoada. Uma série de coisas começou a fazer sentido naquele momento.
— Sara? O que foi?
— Nada... Só que existem mais jogos do que eu pensava...
Que dia mais singelo. Já era noite. Luke sentiu que o dia no castelo tinha sido muito vazio, só vira Kauan, e nem sinal de Rose, Miguel ou Clara.
Também não quis ir em seus quartos procurá-los, tinha medo de estar incomodando, já que ninguém estava se sentindo bem, de qualquer modo. Talvez fosse apenas isso, seus amigos não tiveram forças o suficiente para sair do quarto depois de todas aquelas coisas. Não os culpava. Só que se sentia sozinho. Pensava ser egoísta por querer que depois de mais uma morte, eles saíssem de seus quartos e fossem almoçar normalmente.
Luke levantou da cama e tirou a camisa, indo em direção ao banheiro de sua suite. O que seria chique senão fosse um cativeiro.
Abriu a torneira de água quente da banheira, e enquanto ela enchia, terminou de tirar suas roupas, as colocando no cesto vazio. As criadas retiravam as roupas diariamente durante o almoço, além de deixarem tudo arrumado para quando voltassem. Uma vez deixaram uma caixa de bombons.
Mas nada disso importava à ele, mesmo que fosse legal. Não anulava o fato de ter sido sequestrado por um genocida, presenciado execuções e separado de seu namorido.
Hoje tivera tempo suficiente para pensar muito em Mark, e sinceramente, fora o dia com que menos se abalou por estar ali. Mais uma vez sentia ser egoísta.
Luke fechou a torneira quando a banheira já estava mais do que pela metade cheia, e entrou na água. A imagem de seu noivo tomava forma, trazendo uma saudade instantânea. Não sabia aonde ele poderia estar e se estava vivo. Aquilo doía. Se pelo menos tivesse a confirmação de que a cidade não tinha sido explodida com ele dentro.
Ao mesmo tempo que desejava que Mark estivesse à salvo, desejava que ele estivesse desesperadamente tentando encontrá-lo, porque aí teriam a chance de se reencontrar o mais rápido possível. "Egoísta", pensou, "Ele não merece passar tanto estresse por minha causa".
Luke soltou o ar e tentou relaxar o corpo, se afundando um pouco mais na água.
Tudo ia dar certo no fim. Mais ninguém iria morrer, seriam resgatados pela polícia, teria seu casamento com Mark, três filhos, uma casa bem grande e dois cachorros.
Quem sabe tudo o que aconteceu na Coruja Negra não virasse apenas uma lembrancinha ruim, mas que não atingisse sua vida.
Bem, quem estava enganando? Aquilo ficaria com ele pelo resto da vida, ao menos que fosse inventado uma máquina que apagasse memórias seletivas.
Luke sentiu um peso enorme em seus ombros, não figurativamente, mas sim duas mãos o empurrando para debaixo d'água.
Seu coração acelerou demais. Luke se debatia, tentando se salvar do afogamento, mas as mãos eram firmes demais.
Um filme passou em sua cabeça durante aqueles segundos. Todos os momentos felizes em que viveu com Mark, como quando o conheceu, o primeiro encontro, o primeiro beijo, a primeira vez, a apresentação à família, o pedido de casamento, tudo pareceu ser revivido ao mesmo tempo. Todas as vezes em que ele o fizera rir, e era bom nisso. Seus amigos e principalmente seu irmão que fizeram com que cada momento fosse especial, tudo isso passando à mil por hora em um corpo magricelo, que lutava para não morrer asfixiado.
Mas depois de tanto esforço para continuar vivo, não conseguia mais aguentar. Acreditava que Dylan o queria fazer de próxima vítima, e assim seria de um jeito ou de outro. Morreria tendo vivido o máximo que pôde.
As mãos o soltaram, e a pessoal qual tentou afoga-lo saiu ligeiro do banheiro. Luke levantou com um impulso tão forte, que tombou a banheira consigo junto ao se jogar na borda dela.
Enquanto a água escorria por todo o chão, fazia um alto barulho inspirando pela boca para o ar voltar a entrar por seus pulmões.
Kauan tinha se divertido com o ruivinho.
A hora do ataque estava perto, e todos os neoidrios já chegavam para se esconder ao redor da área de onde aconteceria a execução das deusas.
Daniel, atrás de arbustos, mesmo que na escuridão, via os arqueiros escalarem árvores do seu lado, se camuflando entre as folhas, e levando as aljavas com centenas de flechas nas costas.
Rebeca pegou dicas com eles de como fazer arcos, o Cold Blood não ensinara tão bem quanto eles, na época em que foi forçada a participar.
Daniel observava com bastante atenção os desenhos nas rochas, que mesmo tendo ouvido falar que eram lindos, só quando os contemplou pessoalmente, entendeu o porquê de ser tão elogiado. Realmente davam a impressão de terem sido imprimidos ou qualquer coisa do tipo. Dylan contratou um desenhista muito bom.
Bahan era quem estava dando instruções de onde cada grupo deveria ficar, sinalizando passagens para que o grupo do outro lado do rio pudesse passar. Como a cerimônia ainda não havia começado, as chances de alguém os ver na mata era imensa, e por isso escolhera os lugares mais escuros possíveis.
Na região das rochas, várias tochas foram acessas, e colocadas em suportes, deixando tudo lá muito claro. Haviam também montinhos de flores com os lírios caídos, além de pétalas espalhados para embelezar o "palco" da atrocidade.
— Está vendo a bed pedra?- Bahan assustou Daniel, colocando a mão em seu ombro.- É onde vão amarrar a Deusa da Morte e matar ela. Colocaram hoje.
Ele se referia a um leito de pedra no meio das três paredes rochosas, que ficava mais próxima de onde ficariam o povo, do que a fogueira, ainda não acessa, alguns metros distante.
— Lembra o que é pra fazer?
Daniel concordou com a cabeça, com medo de que tudo desse errado.
— Pelo menos estamos na vantagem.- Bahan olhou para o alto, observando seus companheiros com arco e flecha.
"Por favor, não recuem", o líder desejava. Se os Neoidrios exitassem de matar o povo rival, estariam fudidos.
Alguns metros longe, Rafael abanava Mark com uma folha de bananeira, outra crise de ansiedade vinha impedi-lo de respirar.
— Parece que... tô sendo afogado.- Disse em puxadas de ar.
Rebeca não deu muita importância, ele iria sobreviver à mais uma crise, desde que não fizesse barulho estrondoso.
Na verdade outra coisa perturbava sua mente. Marina saber sobre Alan. Descobriram juntas que ele estava com Dylan, mas se o povo de Sanru descobrisse, seria apontada como traidora e cúmplice do genocida, mesmo que afirmasse com toda veracidade que não sabia.
As olhadelas que a médica lançava à ela naquela noite, não significavam coisa boa.
Amarradas uma perto da outra. A Deusa da Morte e a Deusa do Lírio eram levadas por quatro de seus crentes(o resto não muito afrente) ao lugar em que seriam abatidas, para dar-lhes felicidade eterna.
O frio ar noturno com um céu azul escuro quase assimilando o preto e sem estrelas, ajudava na combinação de fatores que as amedrontava.
Já era perto da meia noite, os guardas Idrios iluminavam o caminho com tochas, seguravam espadas na outra mão, e iam andando felizes cantarolando uma melodia que para eles era linda, mas para suas vítimas era sinal de mau agouro.
Em Lídia, colocaram um vestido preto, igual o que fora desenhado nas grandes rochas, que serviu perfeitamente em seu corpo. Deve ter sido mandado pelas tais "águas sagradas", não duvidava que Dylan poderia ter tirado até suas medidas exatas antes de colocá-la na ilha.
Já Sara, andava nua, pronta para ser abatida como um porco. Pela primeira vez, Lídia viu as cicatrizes em suas costas, assim como Jason vindo atrás, mas preferiu não perguntar nada. Já sabia a resposta.
O caminho começou a ficar mais claro, deixando as árvores altas e em grande quantidade para trás, até que puderam ver as recém chegadas trinta pessoas de frente para as três paredes, gritando palavras de ovação, totalmente absorvidas naquela espectativa de profecia cumprida.
Sara reparou que, absolutamente todos, tinham uma espada em suas mãos. Vira então pela primeira vez, o rio, as escrituras e os desenhos marcados nas rochas. Era lindo.
Lídia viu o leito de pedra, se perguntando quando colocaram aquilo.
Conforme iam sendo levadas ao palco, os Idrios passavam a mão por seus corpos, como se quisessem ser abençoados antes de irem ao paraíso, lançando olhares de devoção à elas. Lídia pensou em como Sara deveria estar tão mais incomodada, porém ela não apresentava feição alguma.
Jason vinha logo atrás, como prisioneiro, sendo colocado um pouco longe da multidão, dois guardas tomavam conta dele.
Daniel estava horrorizado, vendo tudo aquilo de trás das folhas, em choque com sua esposa sendo amarrada em um tronco de madeira, com lenha logo abaixo de seus pés. O xamã, vestindo um paletó branco, dava mais nós bem apertados nas mãos que já tinham vindo amarradas. A fogueira era para isso, queima-la viva banhada no sangue de Sara. Eles eram monstros!
Quando Jason entrou em seu campo de visão, Daniel tentou reconhecê-lo, pois lhe parecia alguém familiar debaixo daqueles pelos, só que ao mesmo tempo, nada vinha à mente. Até que seu queixo desceu, sem entender nada, cogitando que aquele fosse o amigo morto há 10 anos numa queda no penhasco.
Os Idrios começaram a cantar, provavelmente em latim, já que ninguém de Sanru entendia nada.
"Hodie spiritus et sanguis, et salvum facere quod potestatem haberet pax nostra promissa faciemus", saia em berros da boca dos lunáticos. Lídia estava visivelmente abalada, deixando seu rosto aparentar todo o medo e desconforto que tinha guardado.
A Deusa da Morte teve seus pés e mãos esticados, amarrados separadamente no leito de pedra, qual fora decorado com pétalas da flor encharcada que trouxe.
— Estão cantando uma canção antiga, criamos assim que chegamos aqui.- Bahan informou.
A cerimônia então começou. O Xamã levantou suas mãos ao céu, calando todos os seguidores, e assim advertiu:
— Falarei em português para que a Deusa do Lírio nos entenda.- Os Idrios concordaram sem nenhuma objeção.- Essa noite é noite de glória! Seremos dignos da alegria eterna de Deus!- O povo começou a gritar mais uma vez, levantando as espadas, empolgados com cada palavra saída daquela boca.- Ele nos mandou tudo o que precisávamos por anos, nos deixou conhecer sua história através da escrita nessas paredes, até que chegamos aqui: Na realização do que ele pediu à nós, meros mortais, insignificantes...A Deusa do Lírio, que o traiu, se escondeu por toda a existência humana da verdade, mas agora, com o sangue enviado por Deus, a iremos purificar, queimando a carne para salvar a alma, através do sacrifício da Deusa da Morte.- O Xamã caminhou para perto de Sara, que teve sua visão do céu interrompida pelo rosto do ancião psicopata.- Deus enviou ela para nos salvar! Digam o quanto são gratos!
Os Idrios urravam durante o choro, proclamando palavras de satisfação e agradecimento em Deus.
Rebeca, atrás de arbustos um pouco distante de Daniel, sentia calafrios ao ouvir aquela adoração sem escrúpulos, que ainda estava sendo continuada. Os outros então, estavam tão chocados que não conseguiam desgrudar os olhos da cena, focados em procurar um pouco de sanidade naquela obsessão.
Rafael se segurou para não botar tudo a perder, mas a vontade de ir até lá e salvar Sara era imensa.
— Enquanto a Deusa do Lírio, da pureza, estivesse corrompida na terra, os humanos seriam infelizes, sem dignidade para o divino. Mas mesmo que rebeldes tentassem nos fazer acreditar em mentiras, em articulações forjadas para nos levar ao precipício, Deus como sempre cuidou de nós! Nos mostrou a verdade! E agora vamos ser dignos de sua honra!
Daniel olhou para o lado, percebendo que Bahan não tirava os olhos da profecia acontecendo, absorvido assim como todos os outros.
O xamã foi para o fundo do palco, pegando em uma mesinha o espelho emoldurado trazido por Sara na cachoeira.
— Esse espelho foi trago hoje de manhã, pela Deusa da Morte. E isso me fez lembrar de uma coisa.- Voltou para a frente, levantando o espelho de uma altura que todos pudessem vê-lo. Uma luz saiu do céu, refletindo no espelho, e assim como quando Sara foi encontrada, todos ficaram boquiabertos- Há um pedaço que não está escrito aqui, mas Deus me revelou em um sonho.- Todos os crentes nativos focaram naquilo, mesmo os Neoidrios.- As rachaduras no espelho verdadeiro foram feitas por nosso mestre, que após a queda da Deusa do Lírio, rachou o vidro que refletia o mal com apenas um socar. Essa é a maior prova de sua força. Pois, a Deusa do Lírio não virou humana apenas por um raio ter atravessado um espelho falso, mas sim porque ele refletiu a maldade dela, querendo ser maior que Deus. E nenhum ser é maior que ele! Nenhum
Todos os pelos de Lídia se arrepiaram. A convicção com que falava, conseguiria convencer qualquer pessoa vulnerável à cometer das maiores crueldades.
Daniel se perguntou se Dylan poderia estar ali, no meio daquele povo, espreitando tudo, como uma presença VIP de um banho de sangue. Ele com certeza não perderia essa cena por nada.
— Mandei com que todos trouxessem espadas para participar disso, assim como eu. Cortaremos juntos a Deusa da Morte, e usaremos seu sangue com honra para purificar a Deusa corrompida no fogo, banhada do poder divino de um corpo enviado pelo próprio Deus.
O ancião foi novamente até a mesa, dessa vez pegando um balde, em que seria colocado o sangue.
— Mas o que temos aqui...- O Xamã retirou um martelo de dentro do balde.- Acho que você esqueceu de tirar isso daqui, Giovani.- Deu um risinho, ouvindo o povo rir de volta. Colocou o martelo na mesa.- Mas tudo bem, estamos aqui para celebrar! Mostrem a Deus que estamos felizes por sermos os escolhidos!- Todos começaram a urrar novamente, extasiados.
Rebeca apertou a mão de Rafael, pedindo para que não fizesse nada. Ela sabia que o corpo dele queria reagir.
O Xamã colocou o balde no chão perto do leito. Voltou para a mesa, e usando o martelo, conseguiu soltar do espelho um caco grande e afiado o suficiente para perfurar alguém.
Ele caminhou em direção à sua deusa, deitada no leite de pedra, olhando para a escuridão do céu sem brilho algum.
— E agora, vamos fazer o que Deus nos preparou todos esses anos!- Os Idrios ficaram mais agitados do que nunca, emocionados demais com tudo o que estava havendo.- Usaremos seu sangue com sabedoria, Deusa da Morte, você será honrada, assim como Deus quis.
O Xamã levantou o vidro bem alto com as duas mãos, o posicionando para ser acertado na barriga dela.
Sara fechou os olhos com força. Já tinha passado tempo demais. Sabia que as coisas deram errado, que não conseguiriam salvá-la. Seria sim morta por eles.
Depois de tantos anos evitando a morte, Dylan lhe enganara outra vez, e sempre, tudo tinha haver com ele.
Presa na escuridão, ouvindo os alegres e ameaçadores gritos de adoração dos Idrios, ela não viu quando a primeira flecha foi cravada no pescoço do Xamã.
Continua...
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