Segredo Virtual

43 2º T: Capítulo 18 Ponte de Monstros


Notas iniciais
O banho de sangue começa.

Tudo aconteceu tão rápido que os olhos de Lídia só captaram vultos correndo para todos os lados.
Seus pés, pisando em madeira, sapateavam no que seria ateado fogo, à procura de correr para longe daquela agitação. Ela tentou mais uma vez se soltar da fogueira em que estava com os pulsos amarrados, colocando toda a sua força para tombar o tronco, mas não foi o suficiente.
Os Idrios gritavam eufóricos, mais do que gritaram em meio à profecia. Flechas eram atiradas de cima de árvores, atingindo os corpos amontoados perto do palco, enquanto uma correria era instaurada em direção à todos os cantos possíveis.
Rapidamente, dois nativos estancaram o sangue jorrando do pescoço do Xamã com as duas mãos, numa tentativa frustrante de salvá-lo. Ao se aproximar de Sara, um deles acaba levando uma flechada no peito, sendo levado dali o mais rápido que pôde pelo outro Idrio sujo de sangue. O corpo do pastor daquelas ovelhas só sairia dali morto.
Atrás da moita, Daniel olhou para o lado, vendo as mãos de Bahan ocupadas com uma dinamite e um graveto com chamas na ponta. Quando percebeu o que ele iria fazer, agarrou os pulsos do neoidrio, e gritou bem alto para não fazer isso.
— Pode atingir elas! Não joga agora!- Instruiu.
Bahan olhou para Daniel, largou as duas coisas no chão, e correu para longe, indo atrás de outros companheiros para ajudar na luta.
A partir daquele momento, Daniel estava por conta própria no meio de uma batalha sangrenta. Sua única vantagem era sua outra arma.
Rapidamente pegou a dinamite, olhou para a zona da profecia e viu uma primeira luta de espadas se iniciar entre um Idrio e seu rival, que tentava chegar nas Deusas presas. Não podia esperar mais para fazer algo.

Rebeca avançava desesperada pela floresta. Foi a única atenta o suficiente para notar que a flecha qual atingiu o pescoço do Xamã, não fora disparada por nenhum dos arqueiros nas árvores. Mas também não teve oportunidade de pensar em quem teria sido, pois segundos depois um nativo afobado invadiu seu esconderijo, indo para cima dela com tudo. Sem reação e preparo para combate, acertou-o impulsivamente com a espada na barriga e foi obrigada à correr, segurando a lâmina ensanguentada.
Cercada de árvores, enfim parou em uma, recuperando o fôlego após a emoção, que até para ela que pensava rápido, foi demais.
O ar tinha ficado mais frio e denso, enxergava malmente os troncos. O céu não ajudava com quase iluminação alguma, o breu que fazia praticamente a deixava cega.
Porém, há alguns metros de distância, conseguiu enxergar(ironicamente) uma sombra alta se mexendo, talvez fosse apenas o escuro a pregando uma peça, acompanhado de um feixe de luz dançante, descendo pelo chão como se descesse degraus, até desaparecer.
Ela apertou forte o cabo da espada, enquanto pensava na artimanha que deveria ser aquilo ali. Uma passagem secreta para o esconderijo de Dylan? Ou de seu atirador? Ou talvez ele fosse os dois?
Caminhou, se apoiando em troncos, para ver se tinha algo escondido no solo, talvez um botão ou uma alavanca, ou talvez a passagem nem tivesse sido fechada ainda.
Ao chegar perto do chão que engoliu a forma oculta e sua chama agitada, Rebeca foi agarrada por trás e jogada no chão, por cima de um corpo que a apertava com força na região do estômago, para então na sua frente Godobllir chegar e retirar a espada de suas mãos, amarrando seus braços jogados para a frente com um pedaço de corda. Marcos aproximou a tocha que segurava para ajudar no trabalho da líder.
Terminado, Marina saiu debaixo da nova sequestrada da trupe, colocando o cabelo atrás da orelha e se certificando de que seus braços arranhados durante o processo não sangravam. Marcos continuava segurando a tocha, iluminando Rebeca para que todos do Cold Blood pudessem vê-la.
— Pronto, pegamos ela. Vamos sair daqui.- Godobllir mandou.
Eléxeu e Noel a ergueram e começaram a levá-la.
Atordoada por ter sido pega por aliados, gritou por explicações até ter sua boca amordaçada com um pedaço de pano.
Rebeca se viu extremamente fudida, e o pior: não sabia o porquê.

Seus pés dispararam em direção ao sacrifício, sem tomar cuidado algum com complicações no chão. Daniel focou-se inteiramente em chegar em Lídia e Sara antes que algum dos Idrios chegasse primeiro.
Os arqueiros já não tinham como ajudar na guarda de sua corrida, os nativos rivais tentavam desesperadamente subir nas árvores. Alguns eram chutados e derrubados do tronco antes de os alcançar, mas outros conseguiam subir e ferir os adversários. O sangue começara a se espalhar nas folhas, deslizando para a madeira escura cor de ébano, até escorrer ao solo. Porém ainda não sabia disso.
A todo instante a dinamite no bolso de Daniel ameaçava saltar para fora, enquanto suas mãos, ocupadas pela espada, balançavam agitadas no ar.
Seu peito doía de tão acelerado, pronto para arrebentar os tendões e o matar por dentro.
O vento frio. O som de passos. Uma estranha sensação em suas costas. Eram sinais de que alguém estava chegando perto para o atacar, mas não tinha coragem de olhar para trás em meio à corrida. Lídia gritou aos prantos, mas suas palavras distorciam nos ouvidos dele, virando zumbidos entre tantos outros.
De repente, sentiu um toque nas costas o arrepiar por completo. Seria pego. Um segundo se fez e nada o aconteceu. Dois segundos e continuava como no primeiro. Três segundos. Soube então que pela movimentação da corrente de ar em sua dianteira, e os barulhos de impactos totalmente misturados, que com certeza alguém havia sido derrubado. Ainda assim não se virara, continuou em frente, com seu peitoral o acertando como uma marreta de dentro para fora. Quase lá.
Seus pés tropeçaram ao chegar no palco, caindo de bruços no chão ao lado do leito de Sara. Rapidamente se ajoelhou, cortando a corda que prendia o pulso esquerdo dela. Sara levantou parcialmente seu corpo, tentando se livrar das amarras com a mão livre. Daniel se ergueu e correu para o outro lado para soltá-la com a lâmina, mas seu corte foi interrompido por um nativo se arremessando contra ele. Sua cabeça foi de encontro ao chão, e segurando malmente a espada, Daniel tentava o acertar com fortes batidas desesperadas nas costas, que mais eram de seu punho do que do afiado do metal o cortando. Com o outro braço protegia seu rosto e peito, aflito e sem saber o que fazer além de se defender. O nativo, que perdera a espada, dava socos em seu antebraço, tentando com que baixasse a guarda, até que conseguiu o acertar no rosto, o deixando desnorteado.
Jason chegou por trás, ainda de punhos amarrados, sentando nas costas do Idrio, e com suas mãos cheias de lírios começou a perfurar os olhos dele contra os espinhos que vinham rodeando as flores. Daniel afastou a espada de perto da perna de Jason, e então conseguiu, com ajuda do homem que pensava estar morto, derrubar o inimigo para o lado. Cravou a espada em sua barriga e a tirou agilmente, parando por três segundos para respirar e olhar no fundo dos olhos de Jason, deixando com que milhares de pensamentos criassem forma. Quando voltou a si, soltou seu antigo amigo das amarras e correu para o tronco de Lídia, que tinha visto tudo com uma expressão apavorada.
Cortava a corda dela com dificuldade, era tão ou mais grossa e bem amarrada que a outra, mas conseguiu.
Ao se ver livre, Lídia o abraçou por um instante, sentindo um pouco de segurança e alívio voltando, mas que logo foram dissipados por uma flecha passando ao lado deles. Os dois foram ao chão, indo para trás do leito de pedra no qual Sara estava com a ajuda de Jason cortando a penúltima corda em seu calcanhar, usando o caco de vidro tirado das mãos do Xamã.
Ao olhar para uma certa distância, Daniel pôde ver o que aconteceu em suas costas durante a travesssia.
O corpo do Artesão, quem fizera o espelho e conseguira as balas para eles, perdia a vida em uma série de golpes fundos sendo feitos por um Idrio ainda não satisfeito. Ele havia se sacrificado para que Daniel pudesse salvar as deusas, mas infelizmente, não tinha como retribuir o favor.
Daniel sabia que logo aquele Idrio viria atrás deles. Rapidamente colocou a mão nos bolsos, sentiu a dinamite, mas não encontrou a principal peça. Tinha perdido a arma. Olhou pelo chão ao redor e não estava lá, cochichou consigo mesmo, e Lídia ouviu as palavras chaves, procurando pela arma que nem sabia que agora tinham.
O nativo enfim deixou o cadáver do Artesão, correndo para o sacrifício, ansiando matar os ignorantes da fé, e assim recuperar a sua ida para o paraíso.
Sem saída, Daniel se levantou, correndo com a espada em direção ao Idrio que se aproximava.
— Não!- Lídia não teve tempo de pensar, apenas gritou, e um segundo depois avistou a arma, jogada onde Daniel tropeçou.
Se agachando, correu para pegá-la, sentindo seu corpo inteiro entrar em êxtase.
Jason começou a cortar a última corda o mais depressa que suas mãos suadas conseguiam, mas o nativo que pensavam ter matado, o agarrou com o braço em um movimento surpresa, pressionando seu pescoço com tudo. Sara puxou a corda com força, porém ela não arrebentou. Seus braços não alcançavam nada, a deixando inútil.
Lídia colocou as mãos na arma, olhando a luta de espadas começar no primeiro bater de lâminas.
Ela se levantou e usou o gatilho. E BAM! Nada foi disparado. Apertou de novo e de novo, colocando força nos dedos, sem nada acontecer. Era inútil, não sabia como destravar aquilo, e mesmo se soubesse, iria errar todos os tiros.
Quando olhou de novo para a luta, Daniel já conseguira ferir o adversário, atravessando sua panturrilha com a espada, enquanto se jogava arriscadamente para o lado, mas com a mão esticada o suficiente para o acertar, e ainda desviar do golpe que iria ser acertado de novo em sua espada.
O inimigo caiu ajoelhado de uma perna só, para então se estagnar por completo no chão.
Lídia ouviu os gritos de Sara pedindo socorro. Percebendo a situação, pensou rápido para salvar Jason, que com o caco perfurava o braço do Idrio, mas o nativo aguentava a dor e não o soltaria até o ver morto. Não demoraria muito se continuasse pressionando com a mesma intensidade.
Em abrupto, Lídia largou a arma, pegou o martelo de dentro do balde e o bateu usando as duas mãos na cabeça do nativo, deixando o lado direito da cabeça dele esfacelado. O outro lado do crânio acertou o leito de pedra, levando o corpo de Jason junto. Jason conseguiu se desprender do corpo morto, ainda tirando um tempo para recuperar o ar.
Ele enfim cortou a última corda e conseguiu com que Sara se soltasse.
Olharam ao redor, só vendo Daniel se aproximando numa pressa imensa.
Lídia largou o martelo e o abraçou mais uma vez. Não tinha tempo para pensar no que acabou de fazer, mas seu corpo não parava de tremer.
Sara se levantou do leito e pisou em algo molhado, o sangue do xamã, morto ao lado dos seus pés. Jason tirou a camisa de trapos e colocou na mulher nua, entretanto, mal chegava a cobrir suas partes íntimas.
Os gritos de confusão ainda não tinham parado, foram para a floresta, para a vila dos nativos, para a cachoeira. Mas senão saíssem logo dali, seriam pegos, porque os inimigos logo voltariam.
— A gente tem que ir! Vamos!- Daniel liderou a corrida para entre às árvores, se certificando de que todos estavam armados de alguma forma, incluindo a arma de fogo jogada no meio do palco.

Em volta do corpo inconsciente de Rose, os garotos Luke e Kauan viam a enfermeira retirar tubos enfiados nas veias da garota ruiva.
Quando chegara há quinze minutos no quarto para contar à Rose que Dylan tentara afogá-lo, Luke se deparou com uma pessoa no mais profundo dos sonhos. Bateu na porta do vizinho de quarto e correu para pedir ajuda. Não encontrara Miguel ou Clara em seus quartos(e se encontrasse, tomaria um susto). Agora estavam lá, ouvindo explicações do porquê Rose não tinha sido vista durante o dia todo.
— Ela vai morrer de fome!- Luke pegou no braço da enfermeira, que lançou um olhar fuzilador. Isso o fez soltar.
Kauan abriu um sorrisinho pela preocupação agitada de Luke.
— Já cuidei dela hoje, fica calmo.- Disse, guardando os equipamentos numa maleta médica.- Durante a madrugada ela acorda.
Ela não tinha aparecido para o almoço, nem para o jantar, muito menos vagabundeado à tarde. Como não tinham estranhado isso antes? Se tivesse sido morta por Dylan durante a manhã, demorariam mais de um dia completo para perceber. A enfermeira saiu do quarto, fechando a porta e indo para seus aposentos.
— Vou ficar aqui, e você?- O ruivo indagou, passando a mão no cabelo da bela dorminhoca, deitado ao lado dela.
Kauan fez um som com a garganta, mas então confirmou que sim, pelo menos por enquanto.
Luke perambulou os olhos pelo quarto, até achar o frasco de comprimidos que Rose usou para dormir. Se esgueirou por cima do corpo dela para pegá-lo na cômoda e analisar de perto. Em alguns segundos seus olhos leram os efeitos colaterais.
— Ela é maluca. Quantos será que ela tomou?- Disse, lendo o rótulo.- Nem bula direito esse treco tem.
— A enfermeira disse que foram dois.
— Disse?
— Aham.- Kauan tinha certeza de ter ouvido aquilo.
Luke suspirou, vendo o frasco cheio, e pensando de que poderia ter bem menos ali dentro se Rose não tivesse uma muralha emocional.
No quarto de mais ninguém tinham posto aqueles remédios. Queriam a afetar isoladamente por algum motivo que desconhecia.
— Ah, eu preciso achar o Miguel. E a Clara também. Devem estar preocupados, ou ainda nem sabem o que aconteceu.- Luke se levantou da cama, indo em direção à porta.- Você viu eles?
Se perguntou esse tempo todo em onde eles poderiam estar.
Kauan refletiu se deveria contar ou não a ele a verdade sobre os dois. Luke já estava destruído naquela noite. Pensamentos ruins, um afogamento, uma amiga que nem percebeu estar em coma durante um dia inteiro.
Agora, ainda por cima descobrir que uma criança caíra da sacada e morreu batendo a cabeça numa lápide, e que outra deveria estar certamente morta também, era crueldade demais para suportar.
E foi por isso que Kauan o contou.
— Luke, eles estão mortos.- instantaneamente, viu o olhar amedrontado da vítima de suas palavras ao se virar.- Foi de tarde. A Clara caiu da sacada com a bebê, num plano do Miguel. Ela bateu a cabeça e morreu. O Miguel com certeza foi pego pelos guardas, e eu duvido que ele esteja vivo agora.
Os olhos de Luke se encheram de indagação, incredulice, e então... lágrimas. Queria falar, queria perguntar, mas nada saía.
Para o garoto de cabelo azul, aquilo era de certa forma bom. De certa forma...

Não conseguia respirar. Seus olhos ardiam de encontro às águas, suas narinas eram afogadas, e suas pernas doloridas seguradas com firmeza para que não escapasse. Rebeca sentia como se fosse morrer.
— Responde, caralho!- Marina insistia, enquanto Marcos e Eléxeu seguravam, na beira do rio, as pernas da captura.
Noel olhou para Godobllir, o rosto dela se encontrava imbatível. Esperaria o tempo que fosse para descobrir qualquer informação que os levassem à Alan. Seu ódio e o de seus companheiros por aquele filho da puta era semelhante ao que todos sentiam de Dylan.
A única diferença? Dylan era mais carismático.
Mas se dependesse de Godobllir, até o fogo da tocha chegar em suas mãos, não arregaria um passo dali.
Rebeca voltou com impulso para a superfície, saindo da correnteza agora forte, gélida. Sugou forte o ar pela boca, porque a sua vida dependia disso.
Cinco pares de olhos pairavam sobre seu corpo trêmulo, na espera de que desse respostas quais nem ideia fazia. Descobrir que seu marido, talvez agora ex-marido, trabalhava com/para Dylan, foi o maior baque que já recebera. Querer tirar algo dela, era como tirar segredos de um cadáver.
Marina se mostrava demoníaca diante da noite, sua face imponente misturava um sorriso de ódio com satisfação, enquanto o céu começava a ilumina-la como se uma lua estivesse emergindo nele, mudando o tom geral para algo vermelho. Aquilo deixava a cena mais aterrorizante. Suas mãos firmes agrediam os ombros de Rebeca, a causando um pânico que nunca sentira antes.
— Fala!
— Eu já falei! Eu não sei de nada! Por favor!- Gritou chorando em meio a respiradas que interrompiam suas frases.
Marina já estava pronta para afoga-la de novo, seguraria a cabeça dela debaixo d'água por horas se fosse preciso, mas antes que o fizesse, Godobllir instruiu:
— Faz mais um corte, agora no calcanhar dela.
Rebeca emitiu grunhidos, chorando encharcada numa mistura de líquidos que continha até seu sangue. Toda sua perna direita agonizava, repleta de cortes rasgando sua calça e pele, da coxa até os pés. Durante quase dez minutos, eles tinham se divertido com seus gritos de dor, a tornando a mais nova atração de suas torturas.
— Rebeca, essa é a sua chance de acabar com isso, só precisa abrir a boca.
— Eu juro! Eu não menti!- Rebeca pedia piedade não só em palavras. Seus olhos, sua cara de choro, exclamavam bem mais.- Eu não sei mais nada!
— Por que será que eu não acredito em você?- Marina pegou a espada novamente, iria abrir um caminho descosturado, não apenas na roupa, como também em sua carne.
Segurando os punhos amarrados da torturada, Marcos enxergava de longe uma luta corporal na região da profecia, do outro lado do rio. Haviam pelo menos uma dúzia de corpos caídos ali.
Olhou também para cima, o céu tinha mesmo ganhado um tom avermelhado, bem mais claro que o antes breu quase cegante. Seus olhos voltaram para Marina e sua vítima, prestes a entrar com o metal no calcanhar dela.
Godobllir ouviu um barulho se aproximar atrás de si. Ela se virou para ver dois homens suados saindo da floresta, segurando suas espadas, e com a expressão de que correram por um bom tempo.
— O que estão fazendo?!- Rafael viu a cena horrorizado, na frente de Mark que vinha logo atrás. A tonalidade vermelha deixava tudo mais sinistro. Pensou rápido e já sabia o que estava rolando. Seus aliados estavam contra si próprios.
O Cold Blood todo se entreolhou, já não tinham como enganar o resto do povo de Sanru.
— Socorro!- Rebeca gritou, sendo empurrada de volta para a água.
A líder levantou a espada na região do peito dele, pensando cautelosamente no que dizer.
— Vão embora. Ela é uma aliada do Dylan, sabe de coisas. Deixa isso com a gente.
Mark virou o rosto ao ver a perna ferida, e engoliu o vômito preso em sua garganta. Sentia um mal estar constante desde que chegara na ilha, e durante essa noite inteira, passaria com uma dor na barriga descomunal vinda de ansiedade.
— Como assim aliada?- Rafael tinha a palma da mão segurando bem forte o cabo da espada, sem intenção alguma de baixar a guarda. Lhe ensinaram anteontem a usar aquilo, e felizmente, aprendia rápido.
Não conhecia aquelas pessoas à muito tempo, mas segundo Sara, não devia confiar nelas de jeito nenhum.
— O suposto marido dela trabalha pro Dylan. E vamos ficar até arrancar algo dela sobre o que fazer pra fugir daqui.
Rafael também não conhecia Rebeca tão bem. Antes mesmo da ilha, já tinham se encontrado e conversado. Mas mesmo que não tivessem um laço forte, ela nunca lhe pareceu uma ameaça.
— O que ela já falou?
— Mentiras. Que não sabia e só descobriu aqui quando mencionamos o nome dele. Ela é cínica.
— Tirem ela da água, ela vai morrer!- Rafael mandou, fazendo com que Marina relaxasse as mãos para Rebeca voltar à superfície.- Vocês já fizeram isso tudo com ela, senão admitiu agora, não admite nunca.
— Os cortes não foram fundos ainda.- Godobllir continuava em guarda, quase encostando a ponta de sua lâmina no peito do homem.- Ela se recupera em uma semana se revelar agora.- Mentira. Iria mata-la de qualquer jeito.
— Eu acredito nela.
— Nós não. Vai embora, garoto. É melhor pra todo mundo.
Rafael apertou o cabo da espada, aquela crueldade o enfurecia. Ao perceber, Godobllir aproximou mais de si a sua. Os dois se encararam, prontos para começar um embate. Os Guy Bloods se prepararam, já atentos para qualquer sinal de luta. Eram cinco contra dois, não havia como perder. Ouviram alguém bem longe urrar de dor, e durante quase um minuto, aquela foi a trilha sonora de seus olhares.
Mark pôs a mão no braço de Rafael, lançando então um olhar para que desistissem. Ele entendeu o recado. Suavizou como segurava a espada, e deu passos para trás até Godobllir abaixar a sua por completo. Não tinha como salvar Rebeca.
— Vamos!- Cochichou Mark, o puxando pelo ombro, como quem segura alguém prestes a partir pra briga.
Godobllir e Rafael, um de frente ao outro, inquietos, aquilo durou por mais um tempo. Então, ele se virou, caminhando novamente para dentro da floresta, ainda que receoso, olhando para trás. Seus pensamentos estavam na perna repleta de cortes e o rosto assustado de Rebeca. Seus instintos diziam que ela falava a verdade.
Mark o acompanhava, com medo de que o companheiro voltasse para fazer alguma bobagem. Sorte de os terem deixado ir. Já tinham inimigos demais, não precisavam de mais uns. Lembrou-se novamente do caminho que deveriam seguir: a caverna. E era pra lá que o estava guiando. Faria isso sem mais interrupções.
Ao esperar que qualquer vulto deles desaparecesse, Godobllir enfim voltou-se para sua trupe, dando um suspiro de alívio. Finalmente podiam continuar o interrogatório. Todos tinham um certo conforto na face, menos Rebeca, ela sim estava perturbada.
— Vem pra cá, Marina. Mudei de ideia. Em vez de um corte no calcanhar faz um enorme e fundo na outra perna dela, cansei de esperar ela falar.
— Não!- Gritou dolorosamente, enquanto Marina se levantava para poder rasgar toda a sua perna.
Godobllir assumiu o lugar de Marina, apertando mais ainda os ombros de Rebeca, já cheios de hematomas.
Eléxeu teve mais dificuldade para segura-la dessa vez, Rebeca nunca se encontrara tão desesperada.
— Segura direito, imbecil.- Noel falou, sem ajudar em nada.
Marina ficou em pé, de frente ao corpo estirado para ser dilacerado. Segurou a espada com uma única mão, tinha força e habilidade o suficiente para aquilo. Fingiu não saber nada sobre manusear uma espada para ter vantagens caso decidissem traí-la. Era cheia de mentiras para se dar bem.
Vendo o olhar suplicante de Rebeca, encharcada do rio e lágrimas, ela sentiu sua energia revigorar. Tinha sede pela dor do outro, algo que vinha de dentro dela, e mal sabia explicar. Claramente não era a única com aquele prazer. Dylan tinha achado verdadeiros malucos para seu teatro de fantoches.
Marina começou a perfurar a espada no topo da perna de Rebeca, prestes a começar o mais excitante dos cortes até então. O grito a deixou extasiada, com sede para ouvir as próximas súplicas gritantes, até que sentiu seu corpo ser jogado para a frente, tropeçando no corpo de Rebeca e caindo direto no rio de água corrente. Em menos de 3 segundos, já estava longe como uma bosta no ralo.
Rafael, após o empurrão, caiu sobre o corpo dolorido da vítima, enfiando afobadamente a espada no pescoço de Godobllir, sem que ela tivesse tempo de reagir. Deu chutes para os dois lados, conseguindo acertar o rosto de Eléxeu, que caiu para trás. Virou seu corpo para cima, rolando para o lado inverso de Marcos e Noel, enquanto passava por cima de Godobllir morrendo. Noel vinha sem exitação de encontro à ele também com sua espada.
Rebeca se eleveu da cintura para cima, sentada o suficiente para alcançar a lâmina de Godobllir, e enfia-la na barriga de Marcos. Ele se afastou, pondo a mão no local do ferimento que não parava de sangrar.
Eléxeu tentou ir pra cima dela, sendo atingido pela espada assim como Marcos, só que bem mais fundo e definitivamente cravada.
O fumante, após ver seus companheiros quase todos mortos, começou a correr para longe dali.
Noel fez um movimento para atingir Rafael, no chão, mas a lâmina dele foi de encontro à sua, evitando o corte.
Rafael chutou a perna dele, que continuou de pé, com ainda mais raiva.
Os movimentos de Noel eram rápidos, bem mais experientes que os de quem tinha aprendido aquilo anteontem. Rafael voltou a rolar, sendo seguido pelo adversário. Conseguira se levantar, ficando de frente à ele, separados por duas espadas erguidas, com o espaçamento de uma terceira entre eles. Respiravam ofegantes, suados, se encarando assim como Godobllir tinha feito antes. Nenhum deles estava disposto a fugir. Alguém tinha que morrer.
Foi então que Noel sentiu um objeto perfurar suas costas, fundo o suficiente para chegar ao outro lado.
Rafael viu Mark atrás dele, totalmente assustado e sem ideia do que tinha feito. O rosto em choque, o tronco rígido. Se parecia com uma estátua.
Rafael finalizou o trabalho com um corte na garganta, acalmou Mark que conseguiu se recompor após jogar água do rio no rosto, e juntos levantaram Rebeca e a levaram dali, que conseguia andar o suficiente para apenas se apoiar no ombro de um.
Na escuridão da floresta, se uniram para chegar na cachoeira sem mais nada os tentar parar.
Pelo menos, tinham dizimado todo o Cold Blood. Ou pelo menos quase todo.


Marina nadou aos montes contra a correnteza, conseguindo enfim se arrastar para a margem enlameada do rio. Um Idrio a viu sair da água, completamente molhada e tossindo muito. Ele caminhou até ela, ali deitada voltando a respirar, a pegou pelo cabelo encharcado e cortou sua cabeça quase a desgrudando do corpo, empurrou-a de volta à correnteza, para cair do alto da cachoeira como uma jaca podre. E morrer de vez, para a felicidade de todos. Como algo podre insolente, que merece um fim tão porco quanto. Foi tarde.

De longe, o garoto de cabelo azul bagunçado, olhava as ondas do mar se empurrando para chegar à areia. A água de noite era mais agitada, como se algo acordasse ao anoitecer para tumultoá-la.
Ele pousava seus pés descalços na areia, sentindo uma brisa fresca o reconfortar. As poucas vezes em que estivera naquele lugar atrás do castelo, sentiu uma paz única. Algo que apenas sozinho, longe de tudo que o fez ser quem é, e só em contato com o universo, conseguiu sentir. De encontro à um universo bem mais vasto que o qual conhecia, já que sua mente podia ser bem menos desalinhada do que imaginavam.
Kauan se conectava de verdade com aquele lugar. Traziam à tona memórias de dias chuvosos em que passou na praia com seus pais, antes deles morrerem num "acidente". Pelo menos era o que sua tia dizia, porém o que escutava pelos cantos fizera sua mente descobrir por conta própria a versão verdadeira.
Não demorou muito para ser introduzido em um caótico tabuleiro hereditário.
Eram todos criminosos do seu modo, envolvidos com sujeira muito superior às quais saiam nos jornais. Grandes como segredos de bilionários. O que realmente eram.
Aqui e ali ouvia falar sobre um homem chamado corvo. Sua tia Isabella lhe disse que ele morreu, mas os havia marcado para sempre. E então chegou Alan. Ele sim o fez notar a loucura que precisava fazer nascer para sobreviver.
Perto da areia úmida, seus olhos encontraram um barco à remo virado para baixo, bem próximo ao cais.
Já tinha reparado nisso antes. E pensado algumas vezes em pegar o barco e remar para longe dali.
Não que ficar ali fosse um problema para ele. Adorava a serventia. Mas de alguma forma, aquele universo doentio não era seu. Apenas se adaptara e aceitara que era tudo o que merecia. E talvez fosse.
— Aonde tá o viadinho?- Indagou uma voz vindo atrás de Kauan. E logo, Alan se juntou a ele para observar o céu vermelho refletindo nas ondas.
Kauan apenas ignorou.
— Não tô falando de você. Tô falando do Luke.
Kauan assentiu, abrindo um sorriso e virando o rosto para ele.
— "Viadinho"?! Deveria tratar melhor os filhos do chefe.
— Não são filhos dele.- Respondeu Alan, segurando seu cetro sem uma redoma no topo, já que Miguel fez questão de quebrar.
— Mas ele é seu chefe. E você já deve ter problemas demais pra resolver com ele. Não vai arrumar mais um, vai?
Kauan mordeu o lábio e levantou suas sobrancelhas. Pareceu uma criança travessa, só que com dezessete anos.
— Fala logo aonde ele tá.
O ouvinte cedeu.
— Chorou até dormir.
— É...- Disse.- Foi o que eu pensei.
Após alguns segundos parados, Alan começou a caminhar, indo para mais perto da areia banhada pelo mar, diferente do azulado que continuou ali parado, sem desejo algum de contemplar mais de perto as águas.
Alan arremessou seu cetro para dentro do mar, esperando que não retornasse à praia. Depois, ficou ali quieto, olhando para o horizonte dividido entre céu e mar.
Kauan se pegou pensando no que estaria acontecendo agora do outro lado da floresta. Esperava que seus companheiros do Cold Blood estivessem bem. Deviam estar se divertindo demais.
— O que você fez com ele?- Indagou o garoto.
Sabia de quem estava falando. Alan se virou, o vendo com uma cara curiosa à alguns metros. Ele perguntava sobre Miguel.
— Não é da sua conta.
— O Dylan vai querer saber. Você perdeu um deles e sumiu com outro.- Provocou, abrindo seu sorriso largo, bem largo mesmo.
— E por que se importa tanto com isso?
— Gosto do sofrimento alheio.
Uma parte sua definitivamente gostava.
Kauan olhou para trás, vendo quase todas as luzes do castelo acessas, e lembrando do que viu antes de sair. Funcionários andando de um lado para o outro, agitados, levando coisas pela Coruja Negra toda, uma completa confusão. Tinham vindo até à praia antes, fazer sabe se lá o que no cais. Arriscou fazer mais uma pergunta:
— Por que o castelo tá tão agitado?
— Amanhã você vai saber.- Foi tudo o que disse.
Kauan olhou para as botas que Alan calçava. Sabia que ele tinha ido para fora do castelo. A lama não negava.
O garoto de cabelo azul podia fazer piadinhas para tentar tirar algo dele, mas naquele momento não sentiu grande interesse por isso. Contemplar o mar estava sendo mais satisfatório. E também melancólico.
Precisava mesmo de um pouco de paz.

Vinham todos armados. A Deusa do Lírio com um martelo, a da Morte com uma espada, o Prisioneiro com vidro e o Protetor com arma no bolso e lâmina na mão.
Os quatro corriam no escuro vermelho desesperador, sem senso de direção para saber para onde ir. A única luz evidente era a tocha erguida por Daniel, que a tinha roubado do sacrifício antes de partir.
Suavam como se toda a água de seus corpos quisesse sair, sem paradas para desacelerar o coração ou retomar o fôlego.
Sara tinha seus pés enlameados, completamente sujos e cortados por pequenos espinhos de lírios que encontrava no caminho. Jason tinha percebido que os lírios do palco do sacrifício tinham mais espinhos ao seu redor, enquanto os afastados da floresta tinham espinhos bem escassos, porém ainda assim os tinham. Dádiva ou simples coincidência, aquilo serviu de algo.
Os pés de Lídia também se encontravam imundos, com vestígios de sangue no calcanhar com um espinho preso nele.
Daniel estava de sapatos, fazendo com que assim conseguisse avançar com mais segurança que os outros. Seus problemas eram com os galhos que acertavam sua cabeça. Ele servia de guia para que o resto não fizesse o mesmo.
Em um instante, no meio da correria, Lídia deu um grito, espatifou no chão e sentiu seu corpo inteiro ser esmagado. Daniel e Sara se viraram rápidos, totalmente aflitos, enquanto Jason mais atrás tinha visto tudo: Um cadáver arremessado de cima da árvore acertou Lídia em cheio.
No rápido movimento de virada da tocha de Daniel, Sara percebeu no clarear feito pelas chamas, que a árvore estava à beira de um barranco, e que em cima dela um Idrio colocava uma flecha no arco do rival, que tinha acabado de matar e empurrar ao chão.
— Abaixa!- Sara gritou, se jogando em cima de Jason para que a flecha recém atirada não o acertasse.
Daniel largou a espada no chão e pegou a arma. A destravou, mirou no Idrio e atirou. O nativo se escondeu do outro lado do tronco antes que a bala o acertasse, deixando que o estrondo zunisse nos ouvidos ao redor. Sara e Jason iam de encontro à Lídia, empurrando o corpo do neoidrio de cima dela. Afirmaram que ela estava viva.
Daniel atirou de novo, e se encheu de ira ao errar novamente um tiro. Começando uma escalada raivosa na árvore, a tocha caíra de sua mão.
Vindo depressa, outros dois Idrios corriam urrando em direção à eles. Jason se levantou rápido para pegar a espada largada no chão. Um caco de vidro não seria o suficiente para se defender.
Daniel empalideceu quando virou o rosto para olhar os adversários se aproximando. Suas mãos escorregadinhas continuavam agarradas no tronco, mas quando voltou a atenção para cima, recebeu um forte chute do Idrio na cabeça, fazendo com que soltasse-se da árvore e despencasse totalmente no precipício.
Um dos idrios, armado, agarrou Sara por trás, a puxando com toda a força contra si, enquanto Jason se defendia do outro Idrio com a lâmina de Daniel.
— Stay nobiscum, godness!- Emitiu o nativo, vendo a espada da Deusa da Morte se perder no solo.
Lídia, deitada em terra, pegou seu martelo e o bateu nos pés do inimigo, que caiu para trás com Sara nos braços.
Sara, ofegante, esticou-se agilmente para alcançar a tocha em chamas no chão. Sem muito jeito com as mãos, ela pegou e queimou o rosto do nativo da bochecha até o canto dos lábios com o fogo da tocha, aproveitando para pisar na mão apertada dele que segurava uma espada.
Depois de toda a dor exclamada em berros, o Idrio não conseguia mais interferir que a Deusa da Morte se arrastasse para longe com a lâmina que era pertence dele.
Jason recém derrubado no chão, sem os trapos para o cobrir, viu quando o adversário na árvore atirou a última flecha da aljava para o acertar, porém um movimento abrupto fez com que a flecha fosse acertada na terra.
Lídia tentou se levantar numa esticada firme, mas fora desacordada com um chute do pé ainda bom do nativo machucado.
Sara, engatinhando, estava prestes a se erguer para ajudar Jason na luta, quando sentiu seu corpo ser virado para cima, ficando de olho a olho com o Idrio arqueiro que havia descido da árvore, puxando sua perna para que se aproximasse dele, a desesperando violentamente.
Suas unhas sujas o cravaram como um tapa. Em meio à gritos desesperados de ser arrastada na terra que esfolava sua pele desnuda.
O Idrio fez uma cara de dor ao receber os furos no rosto, a retribuindo com um tapa que marcou todo um lado do rosto de Sara.
Ele então pegou a Deusa com força, com tanta força que ela já estava vermelha de sufocada em poucos segundos.
— Go...frente.- Dizia o nativo com o rosto queimado e o pé machucado.- Nos vestrum adprehendet tu.
O Idrio arqueiro ouviu atentamente a fala para que fosse na frente. Logo, escutou novos passos apressados chegando perto, mas não tinha como saber se era de sua tribo ou não. Por via das dúvidas, levou a mulher praticamente nua para longe dali, recebendo debatidas bruscas em seus braços, almejando a liberdade, mas que não adiantavam de nada.
Sara teve que deixar para trás todos os seus aliados. Lídia desacordada, Jason em luta e Daniel caído sabe-se lá onde.

Não tinham ido longe o suficiente ainda. Rebeca recomendou que voltassem para perto do rio em alguma área, pois precisava se lavar dos machucados desferidos pelo grupo de assassinos duas caras.
Deveria ter feito isso antes, mas só pensavam em sair o mais depressa de lá.
Rafael fazia a guarda dela, dando olhares praticamente em 360 graus. Mark a ajudava a cuidar dos ferimentos, jogando a cabeça para o lado quando precisava olhar para eles.
— Cuidado.- Orientou o cabeça virada, ajudando ela a colocar toda a perna dentro d'água.
— Você quem tem que tomar cuidado, senão vai cair no rio.- Disse Rafael, vendo a cena tortuosa.
Rebeca soltava baixos gemidos, sentindo ardência e alívio ao mesmo tempo que a carne aberta encontrava o líquido.
Daquele lugar, Rafael conseguia ver o palco, mesmo escondidos em uma área quase completa de verde.
O sacrifício parecia inabitável, exceto pelos corpos jogados e estraçalhados por todo o campo. A selvageria que ainda acontecia pelas redondezas era de assustar qualquer um, podendo cruzar com cabeças avulsas no chão à qualquer momento.
Rebeca analisava seus ferimentos através da calça jeans rasgada pelas mãos de Mark, pensando se aquilo estaria pior do que imaginava. Sentia dor o suficiente para dizer que estava sendo forte ao não gritar, mas não o máximo para deixar de andar, mesmo que se arrastando. O Cold Blood tinha feito um bom trabalho em alguns aspectos.
De repente, no momento em que olhava as feridas, um clarão se fez no céu. Tudo ficou branco feito papel. Um estrondo adentrou seus ouvidos. Tremendo levemente o chão.
Durou apenas um segundo.
Os olhares dos três se juntaram em um só alvo, atordoados com o intenso brilho branco, acompanhado de som e tremores. Então aconteceu de novo.
Um raio cruzou todo o céu, clareando cada partícula de escuridão.
Machucava a visão. Eles sentiram um arrepio ao vê-lo por toda parte. Era majestoso e poderoso. Podendo acabar com suas vidas num instante.
Dessa vez demorou três segundos para o vermelho retornar.
— É a chuva.- Rebeca emitiu, afastando-se da água e rangendo.- Na profecia, o nativo disse que chovia sangue.
Mark encarou Rafael, mostrando medo na sua faceta ora séria ora desengonçada.
— Tá, temos que ir.- Rafael constatou, indo recolher as espadas dos dois deixadas à beira do rio, para que Rebeca não encostasse em nenhuma enquanto levantasse com a ajuda do mais novo.
Rafael se afastou, voltando para onde fazia a guarda, e mirando de novo o sacrifício. Pensava consigo mesmo que agora iriam de vez para a caverna na cachoeira. Não podiam parar mais.
Um terceiro clarão rumbou. Dessa vez não foi surpresa para ninguém do trio, já esperando que pudesse acontecer mais uma vez. Fecharam os olhos para que dessa vez não doesse.
Era outro tremor igual, o barulho na mesma altura. Tudo idêntico,
Exceto pela visão que Rafael teve ao cessar do branco pela ilha. Se assustando quase como se as figuras ao longe estivessem na sua frente.
Lá, entre as três grandes paredes que contavam e ilustravam a profecia, quinze coisas nuas semelhante a pessoas, mas que definitivamente não eram pessoas, emergiam do chão como se ele tivesse aberto para que saíssem.
Elas eram completamente alvas, de pele com uma textura que parecia ser áspera, um risco no lugar da boca, sem ouvidos, mamilos, pelos, nariz ou genitália. Bípedes, pareciam humanos, mas sua aparência era horrível, lisa. E se arrastavam para fora do buraco, começando uma corrida pelo campo repleto de mortos.
Rafael não falou nada, ficando feito estátua que não ouve nenhum chamado. Pela sua cara incrédula, os dois companheiros foram ver o que ele viu para ficar tão abismado. Rebeca teria caído pra trás senão estivesse apoiada em Mark, e ele nela. O que viam eram monstros. A última coisa que esperavam ver naquela ilha. Mas Dylan, ah, sempre Dylan. Ele gosta de surpresas que narram grande. E se aberrações no meio de um banho de sangue não fosse narrar grande, o que seria?
— Meu deus.- Rebeca sussurrou, não conseguindo tirar os olhos até que o último monstro não pudesse mais ser visto.- E se forem pessoas?
— Se forem pessoas é eles ou a gente. Porque com certeza não vieram pra fazer amizade.- Rafael saiu do transe, entregando as designadas espadas aos dois, e respirando bem fundo antes de prosseguir.- Vamos. Não podemos cruzar com aquelas coisas.

Sem forças. Seu corpo exalava dor e exaustão. Tinha despencado da árvore e rolado todo o barranco. Após alguns minutos, acordou.
Agora, Daniel pairava deitado de barriga para cima no chão de barro, com as pupilas cobertas pelas pálpebras cheias de areia.
A dor na cabeça, provinda pelo nativo que a chutara, ajudava como mais uma entre tantas outras dores infernais que aguentava.
Seus braços estavam todos ralados e sangrando. Ardiam assim como seu joelho direito. Uma parte do jeans tinha rasgado bem naquela região. Seus lábios e queixo encontravam-se lotados de areia, virando mais uma situação adicional para se incomodar.
Esfregou com dificuldade o rosto.
Todos os seus membros pareciam que iam desmontar à qualquer momento. O deixando apenas ossos esfarelados. E ainda tinha dúvidas sobre ter quebrado alguma coisa durante a queda.
Ele não tinha forças para abrir os olhos e continuar a jornada de líder, como costumava fazer quando não era jogado de precipícios.
A total escuridão em que se metera era bem mais confortável que qualquer ação possível.
Um instinto o mandava continuar ali, deitado no breu, pois se abrisse os olhos teria certeza que não era um sonho, e aquela sensação de desespero viria novamente, correndo. Ficar perdido na floresta sem ter a certeza de ser real ou não, era tão reconfortante que o possuía, e enquanto fizesse silêncio e não visse nada, continuaria. Sem mágoa alguma.
Infelizmente, a calma durou pouco. Lídia, Rose e Miguel voltaram à mente. E o desejo de salva-los o consumiria a alma até começar a ser protetor de novo. Era sua família e morrerria por eles.
Por isso, mesmo que com pesar, Daniel abriu os olhos, se deparando no ambiente avermelhado com uma criatura horrenda em cima de seu corpo.
Entrou em estado de choque, sem o que emitir, sem o que pensar. Simplesmente gélido com a figura quase sem face. Semelhante à um manequim.
Dois pontos pretos destacavam em meio a palidez assustadora. Olhos tão reais quanto os dele. Olhos que suplicavam por ajuda. E um risco alongado que mais parecia um corte na altura de onde estaria a boca.
A textura de sua pele aparentava ser como tocar em um tecido que dá gastura ao arranhar. Não tinha buracos, pelos ou dobras além de articulações. Unicamente branco.
A coisa levantou a mão sutilmente.
Ele sentiu seus músculos entrarem em alerta, com medo de ser atacado.
"Que porra é essa?!", enfim pensou.
Com cautela, Daniel ia aproximando seus dedos da arma no bolso. Estava cheio de medo daquele ser estranho e com certeza inimigo.
Por um instante, mirou nos gestos que o manequim fazia com a mão esquerda. Contou quatro posições feitas pelos dedos. Símbolos que pareciam ser libras, mas Daniel não entendia língua de sinais.
O que o bicho queria dizer? Da onde aquele troço saiu?
Seu coração batia tão rápido, desesperado como enquanto corria até a profecia. Porém dessa vez, não teria alguém que se sacrificasse por ele.
Um ataque cardíaco quase aconteceu quando sentiu uma gota d'água do céu pousar em sua bochecha. O frio do líquido o pegou de surpresa, presumindo ser um golpe da criatura, que não parava instante algum de fazer os gestos indecifráveis.
O que até então pensou ser água, escorreu o suficiente para mais perto de seus olhos, vendo a coloração vermelha, cor de sangue. Imaginava ser por causa da iluminação, até que novas gotas definitivamente rubras começaram a cair em si e ao seu redor. Daniel se via em meio à uma chuva de sangue, com um monstro sentado sobre seu tronco derrotado.
O manequim parou a movimentação ao fortalecer da chuva, apenas penetrando seu olhar no dele, querendo transmitir algo.
Mesmo com respiradas fundas que tentavam o acalmar, seu estado ainda era de nervosismo. Mas Daniel, com dificuldade, enfim tinha conseguido firmeza na mão, apertando a arma e a aproximando para fora da roupa.
A criatura inclinava sua cabeça para mais perto dele, voltando a acelerar o coração que mal tinha diminuído.
Sabia que ela iria fazer alguma coisa. Precisava evitar.
Então, viu o risco da face alva começar a se abrir lentamente, revelando um enorme buraco, como uma boca de bochechas cortadas, preenchida por cacos de vidro tortos espalhados ao redor da abertura, como se fossem dentes.
Um som fraco, estridente e assustador saia bem no fundo de sua garganta, fazendo esforço para soar o mais alto possível.
HELP.
Tudo o que ouviu depois disso foi um estrondo. O sangue acertando o chão. E respiradas brutas.
Daniel tinha atirado. Paralisado.
O manequim desabou para o lado, com um furo bem no meio de seu corpo.
Daniel respirava. Aspirava. Expirava. Aspirava. Expirava. E assim foi seguindo, com um gosto metálico invadindo sua boca.
Mantinha a calma ao sangue frio que não parava de cair e o encharcar.
Completamente atordoado.
De algum lugar tirou forças para se levantar. Sentindo dor por toda parte, mas mesmo assim se ergueu e caminhou para longe daquele cadáver horrendo.
Aquela coisa com olhos humanos, entretanto não tendo mais nada de humano.
Antes de se distanciar completamente do manequim, Jason, Lídia e Bahan o encontraram. Também estavam cobertos, sujos de um vermelho ralo.
Daniel desabou novamente no chão, deixando que os três cuidassem dele debaixo de uma árvore.
— Você tá bem?- Jason pegou a arma de sua mão, enquanto Lídia limpava o rosto dele.
— Dylan fez...um monstro.- Daniel apontou para a brancura morta, agora com aspecto avermelhada.- Eu acho que matei ela e...Cadê a Sara?
Nenhum dos três respondeu. Se aproximaram consideravelmente da coisa, fixando cada detalhe dela.
— Tem cacos de vidro na boca...disso!- Ele começou a chorar, mas ninguém percebeu, as lágrimas se misturaram com a chuva. Daniel olhou para a parte de trás da coxa de Lídia, percebendo um corte nela.- O que foi isso?- Eles continuaram alguns passos longe, olhando para a nova descoberta.- Gente!
Lídia saiu de seus pensamentos, voltou para ele, deixando o choque pelo monstro de lado.
— Levaram a Sara.
— E essa ferida?- Ela só percebeu do que se tratava quando ele apontou para mostrar.
— Não se preocupa, ok? Não tá doendo. O Bahan ajudou a gente.
— É claro que eu me preocupo!- Os outros dois voltaram até ele.- Tem como não se preocupar?!
Agora as lágrimas eram perceptíveis. Sendo chuva ou não, aquilo simbolizava o machucado que queria jorrar pra fora.

Completamente ensopados do líquido vermelho, avançavam pela floresta em direção à aldeia.
Sara não parou de se debater nos braços do nativo, insistindo o máximo que podia para sair dali, antes que fosse tarde demais.
A pressão que ele colocava contra seu corpo quase nu, era forte ao tanto que para ela se soltar precisaria de muitas mais debatidas inesperadas e bruscas. Não apenas sofria com essa luta, travava outra contra a exaustão física e mental.
Dos tantos ataques, diretos ou indiretos, que sofreu desde que chegara na ilha, o confronto final entre eles parecia vir à qualquer instante. Quando finalmente iria desistir de qualquer combinado, e simplesmente jogar-se de um lugar alto mais uma vez. Como há dez anos.
Sua força de vontade para continuar viva era uma linha tão tênue que poderia ser fortalecida ou cortada a qualquer momento, e o rosto raivoso do Idrio a cortava como uma tesoura.
Porém naquela hora, com os olhos cheios de água, a pele fria molhada, e o corpo explodindo de dor, qualquer pensamento sobre jogar tudo à perder dissipousse, porque sentiu quando foi arrastada ao chão pelos braços do Idrio, até bater de encontro num tronco e se soltar.
Um neoidrio saltou para cima do sequestrador derrubado por ele mesmo, o distribuindo uma série de socos ao lado da árvore em que Sara parou, engatinhando para longe em terra molhada.
— CORRE!- Ele gritou, sendo enforcado e continuando a agressiva luta.
Sara se levantou. Suas pernas não se mexeram, ficou ali, raciocinando quem a tinha salvo e porquê.
— VAI!- O grito dele foi interrompido por um soco.
A Deusa da Morte então começou a correr, com as pernas antes paradas agora bambas, na direção oposta à qual estava sendo levada. Precisava encontrar o caminho de volta.
O fôlego escasso tinha notável esforço em busca de continuar, mas depois de toda a energia que já havia gasto, não tinha como saber o quanto iria aguentar.
A tempestade não parou de cair, estava chegando em seu auge, a assustando demais em meio ao clima tenebroso de feixes vermelhos adentrando nas copas das árvores.
Sua única chance de sobreviver àquela chacina seria o refúgio no meio da cachoeira. A caverna. Com as informações da fuga orquestrada pela aliança, tinha boa noção de como prosseguir, entretanto, perdida na floresta não sabia mais o caminho, era impossível se localizar por ali, e já estava fraca.
Alguns assuntos nasceram em sua cabeça perturbada no meio da jornada. A volta de Jason dos mortos. A profecia. A luz branca. A chuva. As coisas que Dylan a mostrou. Tudo o que Dylan a contou.
Dylan. Simplesmente Dylan. E onde ele estaria agora.
Sara estava perdida em sangue. Sangue que aos poucos cessava, diminuindo a tempestade que tenebrava ao seu redor. Aquele não seria o auge, ainda.
Os passos lentos, agora não tinha mais tanta ansiedade, esvaia-se com a chuva.
Limpou as gotas que entraram em seus olhos, respirando fundo. Duvidando do tempo que o líquido pararia. Se tivesse sorte, ficariam em chuviscos até descobrir o caminho.
Mais avante, Sara quase caiu para trás quando viu um homem de longe. Escorado num tronco, ele apertava sua barriga com a mão, grunhindo de dor.
Reconheceu Marcos assim que ele virou o rosto na região em que o céu vermelho o pôde iluminar, dando um alívio que logo se mostrou preocupação.
— O que houve?!- Chegou nele, levantando o tecido ensopado e vendo a perfuração.
Marcos não a contou, apenas se conteve, sem nem olhar em seus olhos. Mas a dor que sentia não o deixava parecer forte.
Sara deu passos para trás, tirou a camisa de trapos dada por Jason e a torceu antes de entregar para o aliado ferido.
— Pressiona a barriga o máximo que puder com isso. A gente tem que achar a Marina e ir pra cachoeira.- Pôs em palavras o plano que seguiria.
Ele aceitou o pano, apertando com um gemido contra o ferimento. Não esperava encontrar Marina viva, mas também não disse nada para ela.
Enquanto se encaravam, os dois ouviram um estrondo vindo da direção perto da profecia. Seus corpos deram um sobressalto, com os corações disparados.
Depois, ouviram o mesmo som de quando os lírios começaram a cair do céu. Seus rostos assustados cruzaram um com o outro. Já sacando a mais nova artimanha para acabar com eles.
— A gente tem que ir logo, vem!- Sara ordenou, puxando o braço dele como se também fizesse parte de seu corpo.
— São bombas, não são?- O som veio de novo ainda mais alto.
— Flor aterrissando que não é.
Marcos a acompanhou, indo o mais depressa que conseguia, e ainda assim não sabiam se o caminho daria no local certo.
Sentiram que a chuva de sangue voltava a dar sinais de que seria mais do que passageira. E a expectativa por um Gran Finale os enchiam de temor.

Os três andavam em meio a chuva escassa, devagar porém atentos caso qualquer coisa acontecesse. Almejavam, sem saber onde era, chegar até a caverna.
Mark ainda ajudava Rebeca a se locomover pela ilha, mesmo que ela quisesse fazer esforço para ir sozinha, ele não a deixaria só. Muito menos Rafael, ele sim estava disposto a tudo para salvar os seus.
Suas faces, ainda assustadas, revelavam que os pensamentos voltados aos monstros não tinham acabado, talvez se intensificado ainda mais. Impossível retirá-los da mente, mesmo os tendo visto à longa distância. Por aquilo nunca tinham esperado ver. Provindos da terra, correndo como se fossem pular na primeira pessoa que vissem. Os três sentiam que uma maldição caíra neles assim que viram as coisas.
— E se...e se a gente encontrar um deles?- Mark tinha se amedrontado mais que os outros dois, porém seu medo não era distante do medo deles.
— Se formos rápidos não vamos.
— Mas e se?
— Não vai acontecer.- Rafael garantia, tentando fingir que não estava igualmente assustado.- Só confia em mim, tá bem?
Rebeca não confiava, na velocidade que estavam indo não seria impossível um daqueles monstros o pegarem. Até bastante provável de acontecer.
No instante da diminuição de seus passo, ouviram um grito rouco, uma voz de homem, bem perto de onde estavam. Quando desviaram os olhos para a direção do som, perceberam que por um acaso tinham chegado na aldeia Ídria. E que por sorte as árvores os camuflavam.
Espiaram, escondidos por entre os troncos, vendo outra diabólica cena que os traumatizaria ainda mais.
A aldeia se encontrava em luta por todo o canto. Os monstros pulavam em desespero em cima dos nativos armados, lutando ferozmente contra eles. Mark arregalou os olhos quando viu uma coisa que se parecia com uma perna muito branca, desmembrada numa poça de sangue.
Rebeca tinha acertado. Deu tempo deles os alcançar.
Em uma luta há três metros deles, um manequim abriu a boca repleta de cacos desalinhados, e enfiou-os com violência no pescoço de um Idrio no chão implorando para ser salvo.
Mark nunca viu algo tão traumático igual aquela cena. As coisas estranhas só tinham um objetivo: matar todos que vissem pela frente.
O sangue jorrando do nativo atingiu os pés de outro Idrio, que chegara tarde demais para socorrer o de seu povo. Frustrado, a cabeça do monstro foi brutalmente arrancada em uma série de golpes que descontava todo o ódio que sentia da criatura. Logo, o idrio correu para socorrer outros companheiros em combate, também encurralados pelos violentos monstros.
A verdadeira chacina vinha dos antagonistas que mal esperavam que existissem. Uma terceira peça que pegou todos de surpresa e agora destruía tudo, sem aliados ou coerência. Apenas atacavam sem hesitação alguma.
Os três perdidos na floresta, ainda paralisados, ouviram um estrondo vindo da direção da profecia. O chão tremeu, mas obsoleto de raios.
Não deu tempo de se entreolharem quando uma bomba atingiu a aldeia, os arremessando para longe até atingirem madeira.
Tudo ficou turvo, ninguém que abrisse os olhos conseguiria enxergar direito.
A aldeia Ídria em poucos segundos não era mais nada amigável. Os destroços e as pessoas mortas por entre eles, era um minúsculo vislumbre do que tinha acontecido em Sanru. Dylan não pouparia nem pequenas comunidades de suas bombas. Era seu novo jeito de trazer ênfase a um espetáculo.
Rafael retomava a consciência com um zumbido insuportável em seus ouvidos, vendo uma névoa se aproximando dele e de seus companheiros caídos.
Não sentia mais nenhuma gota de chuva tocar sua pele. Pela primeira vez desejara que aquele sangue todo lavasse seus ferimentos.
Viu a aldeia destruída, em choque com o caos. Seu corpo implorava por descanso.
Com dificuldade, conseguiu com que Mark também voltasse a ter noção, e aos poucos se levantaram.
Infelizmente, Rebeca parecia ter desmaiado ao bater a cabeça, o que os prejudicou muito quando descobriram que a névoa que vinha dos destroços não era apenas fumaça, mas uma nuvem que os impedia de respirar.
Mark entrou em desespero, tentando com força puxar ar para seus pulmões. Sua garganta ressecava com a boca aberta, trazendo gosto de produto químico à língua.
Rafael colocou Rebeca nas costas, tendo que controlar a si mesmo e a Mark para não surtarem.
Foram o mais depressa que conseguiram. Atravessando a cortina de morte que os rodeava. Rebeca parecia pesar uma tonelada nas costas de Rafael, ficando para trás e vendo Mark se perder em meio ao branco.
Rafael enquanto corria sentiu o palmo de seu pé direito sendo cortado por espinhos, mas se parasse por um segundo que fosse, não sabia se iria conseguir retomar o movimento.
Todos os seus membros, especialmente suas costas, doíam. E um desmaio por falta de ar estava prestes a chegar.
Retomara a vida toda na cabeça, tentando se lembrar de momentos bons.
Quando colocou o nariz para fora da névoa pela primeira vez, Rafael quase despencou junto com Rebeca.
Mark estava logo ali, inspirando todo ar que conseguia, sem parar de correr.
Rafael enfim conseguiu se lembrar de um momento bom: Quando sua maior preocupação era completar um álbum de figurinhas de desenhos animados.
Antes de acelerar, verificou se a mulher desacordada em suas costas tinha morrido durante o trajeto. Entretanto, Rebeca continuava respirando, para seu alívio.
Pelo menos agora, com uma névoa mortal os guiando pelo o caminho, sabiam como chegar na cachoeira.

Bahan ia na frente, conhecia a floresta mesmo não tão bem iluminada. Agora já não tinham mais nada fora a luz rubra do céu para os mostrar o caminho. Mesmo se quisessem acender uma tocha, a água vermelha quando voltasse a cair em cima deles, não deixaria que o fogo resistisse por muito tempo.
Jason era o guarda-costas do quarteto, olhando para os lados com receio de que algo ou alguém viesse em sua direção.
Lídia tentava ser um apoio ao marido. Ele tinha um jeito acunhado, como se visse uma assombração. E vira mesmo.
Ela o entendia. O cadáver da criatura estirada no chão, também não conseguia parar de pensar naquilo.
Os quatro tinham ferimentos por todo o corpo. Cortes leves e fundos, braços e pernas raladas, hematomas em diversas outras partes, e ossos doloridos.
Mesmo na situação em que se encontravam, pareciam tentar ao máximo se manterem sãs. Não que fosse realmente possível. Mas de que adiantaria sentar e chorar no meio de um festival de mortes.
Ouviram então o estrondo. O barulho da primeira bomba acertando o sacrifício. Ficaram imóveis, esperando o pior acontecer. Mas nada aconteceu, apenas suas mentes trabalhando para tentar descobrir o que aquele barulho significou.
— O avião.- Daniel murmurou, reconhecendo o outro som que vinha logo em seguida.- Ele jogou alguma coisa.
O som veio outra vez e mais forte.
— Temos que ir, agora!- Bahan fez com que todos corressem, antes que fosse tarde.- Não dá mais pra lutar!
Era exatamente isso que Dylan queria.

Kauan apoiava os braços no amurado da sacada vazia. Agora sem flores ou vasos, ou uma garota segurando um bebê, tentando fugir do braço direito de um assassino.
Admirava a coloração do céu, sem grandes expectativas de descobrir tão cedo o porquê dela, mas queria muito saber.
Diferente da região onde os adultos estavam, lá não caíra uma mísera gota de sangue-água. Tudo continuava seco, em um clima agradável e bem menos assustador.
Se Kauan sequer imaginasse o massacre por trás das árvores, o montarel de pessoas mortas no chão, agradeceria por ter ficado em um castelo sendo tratado como um burguês. Ou não. Morrer não parecia uma saída tão ruim.
Os ouvidos atentos do garoto azulado captaram as batidas do sapato de Alan contra o piso. Os dois se encontraram mais uma vez. Kauan sorriu para ele, com um certo deboche.
— Garoto, vai dormir.- Proferiu em um tom cansado, quase adentro da sacada.
O menino virou para o céu novamente, tendo seu rosto branco avermelhado, no aguardo se Alan passaria reto ou continuaria ali, deixando-se perturbar.
Tendo em conta que não ouviu-se mais sapatos acertando o chão pelos próximos segundos, sabia que ele tinha ficado lá.
— Eles estão bem?- Tentou com que dissesse sobre sua equipe, quase amigos. Se fosse notícia ruim, preferia não saber. Só que queria saber.
Alan se juntou a ele no parapeito, encarando o sereno rubro sob o cemitério.
— Também não sei.
Kauan se virou para ele, examinando o lado direito de seu rosto bem cuidado. Enquanto olhava o nariz apontado para a lua, pensou em coisas que aconteceram em um passado não tão distante. Algo que ainda era vívido quando relembrado.
— Você quer que eles vivam?- Kauan perguntou.
As respirações começaram a ficar barulhentas, tornando tudo desagradável. Sem resposta, o clima ficou pesado. A energia exalada pelos dois trazia mágoas. Memórias que nunca foram comentadas antes. Tinham um empasse muito grande, que só agora fora tocada.
Alan se virou devagar, aprofundando-se nos olhos dele, pronto para lhe dizer:
— Eu não torço pela morte de ninguém. Só que elas acontecem, queira você ou não.- Pensou ser a única resposta possível.
— Já eu, acho que você queria que a minha família morresse quando matou ela.
Se encararam, duas facetas sérias e resistentes, sem intenção de darem o braço à torcer. Aquele ressentimento guardado era mais sério do que as dores atuais. E dizia respeito aos dois, apenas aos dois.
— Até amanhã.

Sara desconfiava do que poderia ter acontecido para que Marcos ficasse sozinho ferido no meio da floresta, mas nada do que pensava importava naquele momento. Tinham que achar Marina, a única médica que estava no time deles.
Marcos já não aguentava mais de dor, o sangue que sujava suas mãos o trazia o maior desconforto que já teve em vida. Queria acabar com aquilo logo.
Na cruzada pelo ambiente avermelhado, seguiam na esperança de chegarem na altura onde estaria a tal ponte
da caverna. Só saberiam aquilo quando saíssem de entre as árvores, para o chão rochoso. A mulher ensopada já tinha visto como era. Um caminho em que cinco pessoas conseguiriam andar lado a lado por cinquenta metros, se assim confiassem uma na outra.
A trilha de rochas nos cantos da cachoeira, abaixo da entrada da ponte, precisaria ser escalada se decidissem começar a subir pela região mais baixa, por isso tinham total preocupação de acertar onde sair. Nem tão em baixo, e nem tão em cima. Precisava ser de frente para o caminho-ponte aberto na própria cachoeira, sem complicações.
Imaginava se Jason, Daniel e Lídia já estavam lá. Ou se agora já eram cadáveres.
Sara foi impedida de dar sequer um passo amais quando Marcos estirou o braço em sua frente. Ela prestou atenção ao redor, quando viu um a poucos metros a criatura que não cabia em palavras para expressar. O bicho mastigava a carne do pescoço de um nativo morto na terra. As unhas do monstro eram grandes e afiadas. Não muito distante de unhas humanas, e eram cravados no rosto do morto.
Os dois ficaram assustados, apenas olhando aquilo, sem saber o que fazer.
Segundos após o choque, Marcos a puxou de mancinho, para que saíssem dali sem serem notados. Então, ouviram outro estrondo, bem mais perto do que os outros dois. Aquilo foi o empurro que precisavam para sair dali, e os dois que não aguentavam mais andar, dispararam enérgicos.
Sem se importar com tropeços, galhos, espinhos, terra ou folhagem. Apenas fugiam da criatura horrenda devorando um ser humano.
As mãos dos dois se encontraram, almejando que nenhum ficasse para trás. Aquilo melhorou o desempenho na corrida de Marcos, que por pouco não caíra aos tropeços.
O bicho não os perseguia, muito menos os tinha notado, mas o medo era tanto que mesmo assim não ousaram parar.
Piorando a situação, novos clarões de luz começaram a piscar no céu, como os raios fizeram, tremendo tudo, só que agora constantes.
Sara via tudo como se a luz estivesse sendo ligada e apagada, ligada e apagada, ligada e apagada em questão de poucos segundos, acompanhada de trovões tão altos quanto as bombas.
Aqueles chuviscos vermelhos também voltaram a pingar em seus corpos. Os deixando apreensivos com um possível temporal de sangue.
Os pés enlameados afundavam com vontade na terra aguada. O cheiro metálico que entrava em suas narinas, os deixavam presos em angústia, conhecendo que o final de que tanto fugiram, se aproximava.
Quando se deram conta, pisaram de encontro à uma superfície áspera e dura, chegando finalmente na área rochosa.
Assim que deixaram a última árvore para trás, Sara precisou esfregar os pés num pequeno pedregulho, enquanto o som barulhento da cachoeira penetrava em seus ouvidos.
Marcos esperou, aproveitando para olhar para cima. Estavam mais abaixo do que esperavam, praticamente onde exatamente não queriam estar.
Ele respirou fundo, e a deixou que percebesse sozinha a queda de seus planos.
Ela olhou. O peito dela esvaziou totalmente o pulmão cheio de ar, deixando uma expressão de tristeza e desistência em seu rosto suado, molhado e machucado.
Não aguentavam mais.
Marcos teve quase a certeza de que a viu chorar, mas ela virou o rosto tempo o bastante para deixar a dúvida.
Um grito de horror no alto da cachoeira, exatamente onde almejavam estar, foi proferido em alto e bom som.
A batalha tinha começado, e já era possível ver trechos da luta quase atrás da cascata d'água, entre alguns neoidrios na porta da cachoeira e os idrios tentando entrar.
Marcos balançou a cabeça. Já não tinha mais saída. Estava ferido, e Sara nunca conseguiria o levar para lá sem serem pegos no caminho. Seja por...monstros ou nativos.
Ele soltou o pano que usava para estancar o sangue, colocou as mãos nos bolsos e de lá tirou seu isqueiro e maço. O fumante começou a se afastar dando passos para trás na direção da água.
— Você vai fumar agora?
— É meu último cigarro.- Murmurou com ele na boca, enquanto tentava o acender com as mãos sujas de sangue.
Sara reparou que seu maço ainda estava preenchido pela metade.
— Não vamos morrer se a gente achar a Marina e...- Nem pra terminar existia disposição.
Ele conseguiu acender o cigarro.
— Você não vai morrer, se começar a correr agora.- Tragou a droga.- Pra mim já deu.- Marcos tacou o isqueiro de supetão nas mãos de Sara, que quase o deixou cair no chão.- Usa pra vocês explodirem tudo.
Ele voltou a se afastar, e em três passos estava onde já dava para saber o que pretendia fazer. A queda era grande. O suficiente para bater a cabeça em uma rocha e morrer de imediato.
— Não deve ser agradável, mas é mais rápido que ser devorado por aquilo.- A fumaça saia de sua boca enquanto falava.- Ou pego pelos índios.
— Marcos, dá tempo.- Ela se esforçou para parecer segura, mas não conseguia enganar.
Ele olhou para cima. Novas pessoas tinham se juntado ao combate na ponte, e tudo ainda iria piorar.
— Acho que vou ficando por aqui.- Disse olhando para baixo.
Sara não conseguiu pensar em nada para dizer. Ele tinha razão. Não dava tempo. E se esse era o jeito mais digno que encontrara de morrer, deixaria acontecer.
Prestes a dizer suas últimas palavras e aceitar seu fim no tabuleiro, os olhos de Marcos se arregalaram de uma escuridão para um clarão. Sara só conseguiu ver o vulto dele passando ao seu lado e voando para cima do monstro que ia atacá-la.
Ele imobilizava o bicho no chão, entre apagões de luz, depositando toda a força que ainda possuía. A boca aberta da coisa tentava a todo custo morder os braços que o prendiam no chão, desesperado para se ver livre.
— Vai! Corre! Vai!- Marcos gritava na loucura de prender o monstro.
Sara procurava algo que servisse de arma para ajudá-lo a sobreviver, mas não achava nada.
— Vai! Porra!- Grunhia, tendo as unhas da criatura perfurando sua mão.- Sara, vai! Vai logo! Caralho! Vai!
A mulher nua fez o que foi mandado, mas não fugiu pelas ordens dele. Tinha uma pedra grande ali perto, iria pegá-la para o ajudar, mas quando viu os três monstros saindo da floresta em sua direção, começou a subida frenética entre as rochas, na busca de que pelo menos um deles não tivesse a vida perdida.
Ela não ousou olhar para trás, mas sabia que Marcos estava morto, cedo ou tarde. Jamais sobreviveria numa luta com quatro daquelas coisas.
O som da cachoeira se misturou com os gritos da ponte e os urros vindo de baixo. Suas pernas doíam enquanto se esforçava para não cair de entre as pedras.
Fechou os olhos com força quando não aguentou mais a troca de luzes. Senão subisse mais, os monstros iriam pegá-la.

Daniel vinha eufórico por entre os troncos, junto dos três companheiros que fugiam da névoa e dos Idrios armados, no desejo de matar um por um.
Já viam a entrada da ponte há alguns metros, se preparando para duelar com as criaturas e os nativos que vissem pela frente.
Os clarões repentinos faziam seus corações estourarem no peito, atordoados por não dar para enxergar naquele tempo, e o barulho assustador que fazia.
Lídia cravou completamente um espinho no palmo do pé durante a corrida, o que a fez lacrimejar de dor. Bahan percebeu que ela vinha ficando para trás, então a pegou a mão e acelerou o passo.
Daniel foi o primeiro a pisar nas rochas, orientando para que todos fossem o mais depressa possível para a passagem, mas quando olhou para trás, viu Bahan escorregar ao chão, e não muito distante, a manada de Idrios, Neoidrios e monstros vindo de todas as direções e fugindo da névoa.
— Corre!- Gritou à Lídia, indo depressa ajudar Bahan que chorava gritando com o tornozelo torcido.
Jason puxou Lídia para a ponte, antes que também tivessem um empecilho no início do lugar.
— Não!- Ela resistia querendo voltar, mas Jason continuou a conduzindo.
Eles nem tiveram tempo de discutir. Já nos primeiros passos da ponte, um Idrio afrente tentou os acertar com a espada. Jason caiu para um lado e Lídia para outro, vendo mais gente dos dois povos no meio da travessia brigando.
Lídia percebeu que ele iria acertar de novo a espada, então chutou as pernas do inimigo, que se desequilibrou de tal maneira, que a si mesmo jogou de lá de cima.
Jason olhou para trás por um instante. Aquilo seria surreal. Todos aqueles monstros correndo para se aglomerar numa ponte e matar qualquer um que não seja dos seus. Aquilo sim era mais temoroso que qualquer outra coisa.

Era difícil escalar segurando o isqueiro. As mãos que já faziam esforço para se segurar, precisavam manter o objeto entre os dedos. Mas não o queria soltar, e nem iria. Sabia exatamente para o quê precisava dele.
Sara sentiu quando seu tornozelo foi agarrado por um manequim, cravando as unhas dolorosamente na pele já ferida.
Sua reação foi de desespero. Olhou para baixo e viu não só a queda, como os grandes cacos de vidro na boca do monstro.
Gritou, enquanto uma trovoada iluminou cada canto da floresta.
Sara chutou com força a cara do bicho, ouvindo o som de vidro quebrando.
Começou a subir mais rápido, enquanto ele vinha atrás, com sede de pegá-la.
O coração acelerou. Nem se preocupou mais em olhar a confusão aumentando lá em cima. Estava prestes a ser morta por aquela coisa doentia.
Num infortúnio, o pé esquerdo de Sara deslizou na rocha molhada. Ela se segurou com tudo no pedregulho para não cair, cortando seu seio ao bater com força contra a pedra áspera.
O bicho a alcançou, pegando seu pé sem apoio e o puxando para baixo com violência.
Sara chorou, agarrando aquela rocha mais aflita do que nunca. A chuva não parava de aumentar, e tudo ao redor parecia um verdadeiro apocalipse. Gritos para todos os lados. O vermelho sangue em absolutamente tudo. E um sabor ácido que podia afirmar sim ser o gosto da morte. Pois era como se sentia, não só agora, mas como quando descobriu ter perdido metade da sua vida.
Aos poucos, a mão fortiva foi amolecendo de sua carne. E quando um quase cadáver despencou aos berros na cachoeira, Sara impulsionou seu pé e desequelibrou o monstro, que ao largá-la desabou entre as pedras, abrindo várias feridas em seu corpo liso, até que morresse em alguma batida de crânio ou de tanto sangrar.
Um alívio a tomou, mas ainda não tinha ganho nada.

O grupo de Rafael foi o último a chegar na área rochosa. Ele ainda carregava Rebeca nas costas, completamente desacordada, mas quando viu todos aqueles inimigos juntos, partindo feroz um para cima do outro, não tinha mais fé de conseguir sobreviver com ela nos ombros.
Em média trinta pessoas ou coisas estavam ali, no início e um pouco antes da ponte.
Idrios e Neoidrios tentavam se esfaquear com as espadas, enquanto os monstros simplesmente partiam sem distinção alguma. Arrancando, mordendo, perfurando qualquer vestígio de carne que lhes passasse.
Se unissem forças para deter apenas as criaturas na travessia, talvez não fossem dizimados.
Mark teve que se esforçar muito para não surtar ou paralisar com os berros e o sangue nas pedras. Os três se mantinham escondidos, mas logo teriam que ir à luta se quisessem viver.
Rafael procurou alguém conhecido no meio daquela confusão de pessoas se matando, e depois de passar o olho por entre vários feridos, encontrou alguém.

Daniel recebia e destilava socos no nativo ora embaixo e ora em cima de si. Rolaram para longe na briga sem armas, se afastando alguns metros da muvuca e indo para a beira de uma queda.
Dessa vez, ele ficou por baixo, e quando virou o rosto para o lado, viu Bahan ao longe socorrido por parceiros.
O inimigo o deu outro soco, enchendo sua cara de ainda mais sangue. O nariz doía há cada puxada de ar, e suas mãos já tinham cortes abertos.
O nativo se levantou consideravelmente, e o arrastou para o precipício, o deixando na beira onde com apenas um impulso forte ele caía.
Desferira outro soco na cabeça dele.
Daniel ficou tonto o bastante para não conseguir mais reagir aos ataques. O mundo girava através de suas pupilas, e provavelmente seria a última coisa que veria.
Ele só se recompôs quando viu a boca do monstro cravar seus dentes no ombro esquerdo do Idrio.
Daniel segurou o corpo do inimigo na sua frente, usando de escudo para a criatura não o ver atrás dele. Pensou em alguma artimanha para fugir, ao som do quase morto se esguelando perto de seus ouvidos.
Porém, com impulsividade, largou o corpo estremecido e correu o mais veloz que pôde. Indo procurar uma arma.


Os apagões não eram mais constantes, mas a chuva continuava a piorar, agora caindo como um dilúvio.
Sara escalava entre as rochas, iluminada por um fúnebre vermelho rubro, em meio ao caos que soava mais acima.
Sua visão se fadava a um borrão, com a quantidade de água entrando nela.
Imaginava se seus aliados estariam agora mortos ou lutando contra os monstros, sejam os novos ou os antigos.
Tudo o que sentia além de medo e dor, era a chuva fria aterrissando em sua pele branca desnuda, em absoluto nenhum tecido, recebendo a coloração do sangue derramado naquele exato instante na passagem para o refúgio. Precisava de mais esforço, já estava quase lá. Tinha vencido o monstro, não podia parar.


No meio da ponte, depois de conseguir uma espada passando por todo o distúrbio movido para lá, Daniel se enrroscou caído entre três ameaças. Dois nativos lutavam entre si, enquanto um monstro tentava agarrar os dois, sendo desmembrado aos poucos.
Um trovão ressoou. Daniel usou a lâmina para acertar a barriga do Idrio, deixando o Neo livre para cuidar do monstro.
O inimigo escorregou no molhado, caindo de frente para quem o tinha ferido.
Daniel recebeu em troca um corte no braço, que deslizou para a região de seu peito, rasgando a camisa já feita de trapos.
O monstro tropeçou em seu tronco, indo com tudo na cara do Idrio.


Lídia, quase na entrada da caverna, segurava com força o punho do Idrio que tentava a acertar com a espada. Suas lágrimas escorriam depressa, levadas com a chuva. Em um grito de ódio, pôs toda a energia nos braços e o jogou com força para dentro da água que despencava da cachoeira. Logo em seguida, foi derrubada no chão molhado por uma daquelas coisas. A boca dela se abriu, assim como a de Lídia, que agora berrava de pavor.
Jason decapitou o bicho com a espada e a colocou de pé. Eles foram para a porta, impedir que os inimigos passassem, antes que a caverna fosse tomada por eles.

A névoa já estava começando a ocupar a área rochosa.
Rafael e Mark se entreolharam, sabendo já ser a hora de entrar na zona.
Não sabia como faria aquilo com Rebeca nos ombros, mas tinha que fazer. Jamais a deixaria para trás.
Quando iam partir para o ataque, viram um nativo cambaleando para perto deles, sem saber se era do time bom ou do mal. Mark respirou fundo, empondo a espada para no caso de qualquer movimento abrupto.
Um outro nativo apareceu, indo ajudar o do seu povo atordoado. Ele olhou para o trio, que retribuiu com as armas em posição de ataque.
— Dê me her!- Pediu, enquanto trazia o parceiro de volta para o agora. Não dava para perder alguém por besteira.
Rafael pensou por alguns segundos. Mas não dava mais para permanecer sozinho ali. Assim que os nativos se reergueram dispostos, a levou até eles, entregando nas costas de um, enquanto o outro permaneceu na retaguarda.
Rafael estava prestes a ir com eles para a travessia, quando viu Sara se esforçando para subir totalmente na borda da área finalmente plana.
Ele foi até ela, abrindo um sorriso de orelha a orelha, mas o desfazendo ao ver o cansaço em seus olhos.
— Te peguei.- Disse segurando as mãos feridas dela. Estava feliz por vê-la viva.
Sara respirou fundo, restaurando energia ao ser trazida para um terreno seguro. Por poucos segundos, tiveram descanso da batalha.
Mark chamou pelos dois. A névoa já quase os alcançava, precisavam ir urgente.

Lídia e Jason entraram refugiados na caverna. Os Neoidrios que protegiam a entrada, davam tudo de si para manter a área segura, e não queriam mais ninguém do povo de Sanru do lado de fora.


Daniel vinha distribuindo cortes por todos os lados na ponte, tentando desesperadamente chegar na porta.
Aquela situação era surreal. Como tinham feito tudo isso? A chuva vermelha despencando, a névoa pela floresta, as bombas, o céu, os monstros, e os povos lutando entre si.
Aquela era a pior situação em que já esteve.
— Sara?!- ao vê-la por perto gritou, tentando chamar sua atenção, quando foi atingido nas costas.


Sara e Rafael tinham se metido no meio de dezenas de pessoas, escoltando Mark que não tinha habilidade alguma para fazer o que eles faziam.
Deixavam o garoto atrás, enquanto enfiavam e retiravam suas espadas dos inimigos.
Rafael formava equipe com os neoidrios que levavam Rebeca, protegendo eles sempre que um monstro ia pra cima.
Sara ouviu seu nome ser gritado, e ao olhar para a direção, viu Daniel quase sendo empurrado para fora do caminho.
Passou na surdina por entre cinco adversários que lutavam entre si, e chegou onde seu parceiro se encontrava lâmina contra lâmina.
Ela se meteu na briga, sendo derrubada em cima do inimigo por consequência de outra luta ao lado. Aproveitou a oportunidade e enfiou a espada em seu pescoço.
Ia arremessá-lo de lá, quando Daniel pegou o corpo e o arremessou contra uma criatura que vinha correndo. Agora, estava fora de vista lá embaixo.
— Toma!- Sara entregou o isqueiro, esperando que Daniel soubesse o que fazer.
Ele a olhou rapidamente, movendo-se acertivo com a cabeça.

Quando Rafael deu a deixa, Mark começou a correr pelo canto da ponte, na esperança de passar por todo o conflito ileso.
Não foi o que ocorreu quando um nativo o puxou pelo ombro, derrubando-o no chão e o colocando no meio de uma batalha de espadas.
O Idrio preferiu acertá-lo, do que continuar no bater de lâminas com o pecaminoso.
A coxa de Mark abriu uma ferida funda. Ardendo sua garganta de tanto berrar.
O Idrio foi esfaqueado pelo rival, e continuaram a luta metros na dianteira.
Rafael pegou Mark o mais rápido possível, correndo com ele enquanto esbarrava e cortava com tudo pela frente.

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Daniel respirava e soltava o ar sem parar, numa tentativa frustrante de se acalmar agora na porta da caverna. Suas mãos tremidas se meteram nos bolsos, pegando a dinamite que ainda mantinha lá.
Observou Rafael e Mark adentrando na caverna, logo após Rebeca ser colocada lá por um Neoidrio que voltou à luta.
Todo mundo havia se ferido durante a travessia. Via as mãos estancando diversas partes do corpo. Precisariam de muito tempo de repouso para superar aquilo mentalmente e fisicamente.
Não sabia bem a hora certa de exercer o plano, mas agora não parecia ser. Ainda andava tudo misturado, muita gente por toda a ponte.
Ficou atrás de neoidrios protetores, olhando para longe a névoa se espalhando. Tinha certeza de que alguma hora chegaria neles.
Precisava impedir que todo mundo morresse sufocado, ou tudo seria em vão.
Quando vultos começaram a serem vistos por entre a névoa na floresta, Daniel se receou, sem ter ideia de qual mais artimanha iria acontecer.
Então, ele viu. Se arrepiou por inteiro, aceitando que não daria mais pra lutar.
Um aglomerado com mais de cem daquelas criaturas brancas começaram a sair da floresta, vindo em direção a ponte.
— Corre!- Daniel berrou entrando totalmente pra dentro da caverna, segurando o isqueiro e a dinamite na mão.- Tá vindo mais daqueles monstros!
Todos que estavam lá dentro começaram a correr na frente dele. Rebeca foi carregada por Jason, e iam velozes para longe da abertura.
Os neoidrios não entraram. Daniel gritou de novo para que viessem, mas não atenderam o chamado.
Quando ia voltar para os obrigar a entrar, viu a primeira faceta da nova leva de manequins pular em um dos protetores da entrada. As criaturas iriam entrar.
Daniel acendeu a dinamite e voltou a correr assim que a tacou para trás.
Todos do grupo corriam com tudo que tinham, assim como fizeram na floresta. E as criaturas já adentravam, indo começar a perseguição.
Rebeca, no colo de Jason, foi a única que olhou para trás e viu assim que acordou, quando a dinamite explodiu e tudo desmoronou em cima dos monstros.
Um impulso os jogou para longe, com um barulho que era o mais alto que já tinham ouvido em suas vidas. Superior a qualquer bomba que tinha explodido naquela noite.
Uma parte da caverna tinha cedido, os trancando lá dentro com escombros. Tudo era oculto pela poeira e a falta de luz lá.
Depois de quase dois minutos, Daniel teve coragem de se levantar. Aos poucos a poeira foi cessando, e mesmo que não conseguisse ver, sabia que todos aqueles de seu grupo permaneciam caídos, com feridas em diversas partes de seus corpos. E passado pela noite mais traumática de todas.
Novamente, Daniel caiu de joelhos, exausto.
Tinha terminado.

Quando abriu os olhos sentiu ter despertado de algo profundo. Reconheceu o teto de imediato, ainda estava no quarto da Coruja Negra.
Rose levantou parcialmente seu corpo, com o cabelo ruivo emaranhado.
Olhou para o lado e viu Luke dormindo, com o rosto amassado babando em seus travesseiros. Se perguntara quanto tempo dormiu, e por que ele tinha vindo para seu quarto.
Ouviu barulhos de passos vindo do corredor, a deixando alerta na expectativa de coisas ruins acontecerem. Já que era tudo o que acontecia lá.
Ficou perdida sem saber o que perdera no tempo em que não ficou acordada.
Viu o movimento de uma sombra tampar a luz por debaixo da porta. Tinha alguém parado na frente dela.
— Já está sabendo da novidade?!- Pronunciava Dylan, dando toques na porta fechada.- Será realizado o primeiro baile de máscaras do castelo. Com convidados especiais.
Rose se levantou da cama, passando a mão pelo cabelo e dando uma olhada completa pelo quarto.
— Vai ser legal...pode confiar.- Um silêncio permaneceu. Até que os passos foram embora.
Rose caminhou depressa até a porta. Abriu-a e olhou para os dois lados do corredor. Não tinha mais ninguém lá.
Quando olhou o horário no relógio do quarto, achou ainda estar na madrugada de ontem. Quem dera.
— Rose?!- Luke pronunciou ao vê-la na porta.
Ele saiu da cama e correu para dar-lhe um forte abraço. Parecia com uma pessoa que não via alguém querido há muito tempo.
— Finalmente você acordou.- Luke, lacrimejou um pouco, mas tentou esconder.
— Aconteceu alguma coisa?- A ruiva perguntou.
Kauan virou no corredor no mesmo instante, voltando da sacada e acelerando o andar para impedir que Luke abrisse a boca.
— Cadê meu irmão?
Luke lançou um olhar de tristeza para Kauan.
— Ele tá bem.- O garoto de cabelo azul começou.- Mas durante o dia houve mais um jogo.
— Durante o dia?!
— Você dormiu por um dia inteiro. E...a clara foi a vítima da vez.
Ela não conseguia acreditar. Se lembrava de ter tomado os remédios, mas não esperava dormir tanto. Seu coração apertou quando pensou em como Miguel deveria estar se sentindo. Não queria nem saber os detalhes, queria apenas o confortar.
Rose agarrou a maçaneta da porta de Miguel, prestes a invadir o quarto.
— Não!- Kauan a impediu, segurando sua mão.- Demoramos muito pra fazer ele dormir, por favor não abre a porta. Amanhã você vê ele. Sério. Senão vai ser o inferno de novo.
Depois de relutância, concordou. Imaginava que ele tivesse tido uma crise de ansiedade pesada.
Amanhã seria um novo dia e poderia cuidar dele, como a mãe sempre fazia.
Luke não abriu a boca para dizer mais nada, porém a sua cara dizia que algo estava muito errado.


Continua...

Notas finais
Um baile acontece no castelo.