Seeking the truth
2 Ethan Break
Notas iniciais
O dia em que o conheci.
Corria pela casa, mas ela parecia não ter fim.
Estou tão cansada, não quero mais fugir, mas não quero que aquilo me pegue.
Alguém me ajude, eu gritava, mas nada saia.
Lagrimas escorriam dos meus olhos quando eu passava desviando dos corpos da minha família.
Podia ouvir, cada vez mais perto, os passos daquilo.
Como em um daqueles filmes clichês de terror, tropecei no tapete, caindo no chão em desespero.
Eu ia morrer, aquilo iria me matar, assim como matou minha mãe, como matou meu pai, como matou meu irmão mais novo.
A dor me atingiu, quando senti a faca me perfurando primeiro, então com aquela primeira perfuração vieram muitas mais.
Não conseguia proferir nenhuma palavra, a vida se esvaindo por minhas mãos, então pude ver algo caindo ao meu lado.
O bilhete.
Acordei gritando apertando os lençóis como todas as noites.
Aquele pesadelo de novo.
Já fazia dois anos que minha família havia sido assassinada, dois anos em que eu tinha aquele pesadelo todas as noites, menos quando eu bebia sem parar, então eu desmaiava e não tinha aquele maldito pesadelo.
— Clary? – Roberta abriu a porta do meu quarto, descabelada e com sono.
— Desculpe Berta. – suspirei esfregando os olhos. – Pode voltar a dormir, foi só um pesadelo.
— Foi O pesadelo não é? – ela disse preocupada. – Eu posso ficar com você, não tem problema.
— Não, não precisa, pode voltar a dormir, amanha você tem um encontro com o Jay não é? Tem que estar linda e com essa cara de morta não vai dar. – sorri de canto provocando-a.
— Eu devia sufocar você com o travesseiro enquanto você dorme, sua idiota. – ela riu brincando comigo. – Bom, vou dormir, encontro com Jay, encontro com Jay, encontro com Jay. – ela saiu do meu quarto cantarolando animada.
Sorri observando-a ir. Roberta era minha melhor amiga a muito tempo, sua família era vizinha da minha, então brincávamos desde muito pequenas. Quando meus pais morreram ela me chamou para morar em seu apartamento, afinal meus pais sempre foram afastados da família, então eu não tinha para onde ir. Ela foi a única que me ajudou a aguentar.
Levantei da cama, indo em direção ao meu guarda-roupa e então puxei um quadro de trás dele observando os papeis conectados por fios vermelhos. Eu realmente não sabia o motivo dos fios, mas os detetives dos filmes usavam e parecia funcionar.
Passei os olhos por um recorte de jornal do dia do assassinato, lendo as palavras a muito decoradas.
Assassinato brutal deixa filha órfã
Jack e Lauren Baskerville, policiais renomados, foram encontrados mortos hoje em sua casa, junto com seu filho de 4 anos, David Baskerville. A filha mais velha do casal, Clarisse Baskerville, de 18 anos, foi quem descobriu o corpo e permanece internada pelo choque pós-traumático que sofreu. A policia esta tendo dificuldades para encontrar as pistas que levam ao assassino.
Dificuldades.
A policia esta com “dificuldades” até hoje. O caso já foi fechado e aberto varias vezes em dois anos, mas nada levou até o assassino. Só uma pista foi deixada para trás por ele em seu crime perfeito, o bilhete.
“Espero que tenha aprendido com seus pais a não se envolver no que não deve. Estarei sempre te observando pequena Clarisse.”
Eu lia a mensagem escrita em meu quadro sentindo a revolta se acender dentro de mim. Aquele bilhete só havia complicado ainda mais as investigações da policia. Um policial se envolve com muitas coisas perigosas, esse foi o motivo da morte dos meus pais, o problema era saber quem tinha cometido o crime. Jack e Lauren eram policiais excepcionais, com recordes de prisões, com milhares de suspeitos, era quase impossível descobrir.
Nenhuma digital foi deixada para trás. Nem ao menos um fio de cabelo, uma pegada, nada. Impossível.
Eu não me importo com o impossível. Eu só tinha um objetivo, eu tinha que acha-lo, achar o assassino. Eu tinha que ver com meus próprios olhos quem ele era, ouvir o motivo, vê-lo pagando por tudo o que ele os fez passar, nada importava mais.
Junto com os recortes de jornal e o bilhete existiam também pistas que eu havia coletado durante o tempo. Fotos da câmera da rua que mostravam uma pessoa não identificada com uma mascara oriental branca e roupas pretas dos pés a cabeça saindo da casa horas antes, depoimentos de pessoas que viram o suspeito sair no dia e muitas outras coisas.
Empurrei o quadro de volta para o lugar e virei, olhando os troféus e medalhas de tiro com arco que eu havia ganhado por toda a minha adolescência. Eu sentia falta de atirar com um arco, sentia falta de competir, dos treinos pesados, mas eu não conseguia ver aquilo mais como um hobby.
Lembrava a antiga Clarisse, que ouvia os pais gritarem das arquibancadas torcendo, que ensinava o irmão mais novo como segurar o arco, que sorria com os lábios e olhos, sem preocupações. Infelizmente ela havia morrido junto com sua família.
Fechei os olhos por alguns instantes, balançando a cabeça para calar aqueles pensamentos, não era hora de ficar sentindo pena de si mesma. Precisava dormir, amanhã iria para a faculdade.
— Vai se atrasar. – Roberta avisou rindo enquanto pegava a mochila.
— Eu sei, eu sei. – choraminguei enquanto colocava a sapatilha e puxava a mochila indo para a porta.
Todo dia era a mesma coisa, acordar atrasada, sair correndo sem ter tempo de tomar café, malditos pesadelos.
— Aqui. – minha amiga estendeu um saquinho com torradas e uma garrafinha de café assim que entramos em seu carro.
— Eu te amo sabia? – disse piscando os olhos exageradamente sorrindo, enquanto pegava o saquinho e o café.
— Quem não me ama? – ela disse se divertindo.
Ri comendo as torradas e bebericando o café.
— Onde você e Jay vão? – perguntei com a boca cheia de torrada.
— Sorveteria, cinema e depois vamos ver o que rola. – ela piscou sorrindo maliciosa.
— No apartamento não. – implorei choramingando.
— Espero que chegue beeeem tarde hoje Clarisse. – Roberta riu alto estacionando.
— Mais uma noite no cinema. – disse emburrada saindo do carro.
Ela riu saindo do carro e andando comigo ate o corredor da faculdade.
— Luna a frente, proteja-se. – ela disse resmungando irritada.
Luna Yeam, a garota mais insuportável que eu já tinha conhecido em toda a minha pequena existência se aproximava de nós seguida por suas fieis escudeiras, todas trajadas com roupas de marcas absurdamente caras, mas nenhuma comparada a chefe, que parecia ter o lema singelo de “quanto mais cara e mais curto, melhor”.
Instintivamente fiz careta ao ver seu vestido incrivelmente apertado e curto. Luna nunca foi feia, seus cabelos loiros curtos e lisos e seus olhos castanhos eram realmente bonitos, magra como uma modelo e alta, ela era o meu completo oposto. Meus cabelos ruivos ondulavam até a metade das minhas costas, meus olhos verdes e brilhantes e a minha estatura baixa, cheia de curvas nos lugares certos faziam Luna parecer um anjo perto de mim, isso até você conhecê-la.
— Clarisse querida, precisa de dinheiro para roupas? – Luna dizia em seu tom veneno habitual me observando.
Bocejei entediada e olhei minhas roupas. Calça jeans preta surrada, blusa branca, jaqueta jeans e sapatilha preta. Qual o problema daquela garota? O que ela tinha que se meter com minhas roupas?
— Isso não te cansa Luna? – disse revirando os olhos entediada.
— Desculpe se eu tenho pena de órfãs. – ela disse piscando, fazendo meu sangue ferver.
— Repete. – Roberta disse antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, puxando Luna e apertando seu rosto com força. – Na minha cara. – ela completou com raiva.
— Berta, deixa. – puxei minha amiga ignorando os xingamentos de Luna.
Luna era filha de um grande empresário, que sempre contribuía com grandes quantias para a faculdade, então consequentemente a filha podia fazer o que quiser e nunca ser punida, mas ninguém a enfrentava e saia impune.
— Eu vou matar aquela magrela filha da mãe. – Berta dizia com ódio sendo arrastada por mim.
— Obrigada por me defender. – sorri olhando-a. – Agora vai, Jay esta te esperando na sala. – pisquei rindo.
— Se cuida, se ela fizer qualquer coisa me fala e eu arranco aquele cabelo oxigenado dela. – ela disse repentinamente animada beijando minha bochecha e saindo correndo para a sala.
Que bom que finalmente eles iam sair, desde pequenos eles se gostavam, mas nunca tiveram coragem de falar um com o outro.
Andei ate o armário esbarrando em alguém distraída, derrubando os livros da pessoa a minha frente.
— Desculpe. – pedi me abaixando para pegar os livros.
— Podia olhar por onde anda sabia?
Levantei meus olhos encarando o garoto a minha frente. Coturnos, calça jeans preta e moletom azul passaram por meus olhos, mas o que mais me surpreendeu foi seu rosto. Ele era com certeza o garoto mais bonito que eu já havia visto. Loiro de olhos verdes, com o rosto ridiculamente normal, mas ainda assim lindo. Nunca tinha visto ele por aqui, talvez seja um aluno novo.
— Não babe. – ele disse revelando seus dentes brancos em um sorriso cafajeste.
Lindo ate abrir a boca.
— Eu pedi desculpas seu imbecil. – disse jogando os livros com força em seu peito.
— Tão cedo mostrando as garras? – ele disse se divertindo com minha raiva.
Revirei os olhos ignorando-o e indo até meu armário, revirando a procura do livro da próxima matéria e ouvi rindo-o atrás de mim.
— Sou Ethan Break. – Ethan se escorou ao lado do meu armário me observando.
— Que bom. – respondi seca fechando o armário.
— Clarisse Baskerville? – ele disse puxando o livro que eu segurava observando a etiqueta.
— Não te interessa. – disse puxando o livro de suas mãos com força irritada.
Vi ele sorrir de canto me observando e estremeci com seu olhar. Parecia um predador observando sua presa. Ele pareceu notar meu olhar e isso só o fez sorrir mais.
— Prazer em conhecê-la, Clarisse. – ele disse em meu ouvido, enquanto eu me arrepiava, passando por mim e sumindo no fim do corredor.
Como se minha vida não fosse complicada o bastante.
Entrei no cinema noturno, sentando no fundo com uma pipoca grande no colo. Maldita Berta e maldito Jay, parecem adolescentes com hormônios a flor da pele.
Me concentrei nos trailers a minha frente quando senti o banco do meu lado direito afundar. O cinema estava praticamente vazio, por que se sentar ao meu lado? Será um pervertido? Preparei-me para virar devagar e encontrei os olhos verdes predadores ao meu lado.
— O que você esta fazendo aqui? – perguntei assustada vendo-o sorrir de canto.
— É um cinema sabia? Eu também posso frequentar. – Ethan disse com tranquilidade.
— Sente em outro lugar. – pedi desviando o olhar dele.
— Minha proximidade te deixa desconfortável Clarisse? – ele disse divertido.
— Tudo em você me deixa desconfortável. – o vi sorrir mais e corei tentando consertar a frase. – Por que você é insuportável mesmo mal tendo te conhecido.
— Oh, que injusta, nem ao menos me conhece direito, deveríamos nos conhecer? – ele diz se aproximando com seu sorriso cafajeste.
— Fique longe de mim. – disse desesperada corando e colocando a pipoca entre nós dois ouvindo-o gargalhar.
— Você precisava ver sua cara. – ele disse ofegante das gargalhadas.
— Seu cretino filho da p... – parei de falar ao ver o “lanterninha” nos lançar um aviso com o olhar.
Droga, por que ele tinha que estar aqui logo hoje? Por que eu tinha que ter esbarrado com ele para começo de conversa? Maldito Ethan Break.
O filme seguiu sem conversas entre nós, mas francamente, eu nem sei o que se passou no filme, por que passei o tempo inteiro sentindo o olhar de Ethan me queimar. Quem era aquele garoto? Ninguém nunca me fez ficar tão desconfortável assim apenas com um olhar.
Levantei quando as luzes se acenderam e sai andando rapidamente procurando fugir de meu colega indesejado. Sai do cinema andando pelas ruas escuras, droga, se eu fosse sequestrada ou estuprada, seria tudo culpa da Berta.
Ouvi um barulho alto de motor ao meu lado e virei rapidamente encontrando Break sentado em sua harley toda preta segurando um capacete.
— Quer carona? – Ethan me olhou com seu melhor sorriso cafajeste.
— Nem que me mate. – disse me virando e voltando a andar rapidamente.
— É perigoso para uma garotinha – ele disse dando ênfase no “inha” – andar por ai tão tarde.
Ele tinha acabado de me chamar de baixinha? Era realmente isso? Eu devia empurrar essa moto ate ele cair dela, imbecil arrogante cretino.
— Olha aqui, não vou pegar carona com você, nem agora, nem nunca. – falei irritada e me virei vendo dois homens bêbados me observando no fim da rua. Oh, eu estava ferrada, aquela era uma rua que eu devia passar para ir para casa.
— Acho que você deveria subir. – Ethan disse em meu ouvido me provocando com um sorriso de canto.
— Imbecil, cretino, eu te odeio. – resmunguei baixinho pegando o capacete, subindo na moto de Ethan me encaixando atrás dele.
— Isso são modos de tratar um cavalheiro que esta te dando uma carona? – ele diz rindo. – Segure-se.
Mal me avisou e a moto já estava saindo em disparada pelas ruas. Me agarrei surpresa a ele, vendo-o sorrir satisfeito. Maldito, foi de propósito.
Guiei ele pelas ruas ate minha casa, pulando da moto meio tonta pela velocidade, tirando o capacete entregando a ele.
— Obrigada pela carona. – eu disse emburrada e virei entrando no prédio.
— De nada. – Ethan disse ao meu lado me seguindo.
— Por que esta vindo junto? – olhei-o assustada.
— Quero ter certeza de que entrou sã e salva. – ele disse me provocando enquanto sorria.
— Vá embora logo.
Parei em frente ao meu apartamento vendo a porta meio aberta. Berta nunca deixava a porta aberta. Nunca. Oh meu Deus.
Entrei correndo e tampei o nariz automaticamente sentindo aquele cheiro novamente. O cheiro de morte. O mesmo cheiro daquele dia. Andei devagar até o quarto de Berta e gritei ao vê-la junto com Jay, mortos brutalmente no chão.
Pensei que ia cair, mas em um instante Ethan estava ali, me abraçando forte, me impedindo de ver mais aquela cena.
Tudo tinha acontecido de novo, minha melhor amiga, a única pessoa que eu tinha, foi morta por minha culpa.
Chorei sem parar nos braços de Ethan, tremendo descontrolada, enquanto ele me abraçava e acariciava meu cabelo tentando me acalmar um pouco.
Vi algo estranho grudado na parede e foquei os olhos no papel.
Um bilhete.
Um bilhete parecido, mas com palavras diferentes.
“Eu te avisei para não cometer o mesmo erro pequena Clarisse, eles tiveram que pagar por sua teimosia.”
Então tudo ficou escuro.
Acordei no hospital no outro dia. Ethan estava lá sentado na poltrona ao meu lado e me disse que a policia tinha chegado e feito todos os procedimentos.
Tive que parar um momento para engolir tudo aquilo.
Roberta Acker e Jay Eidt estavam mortos.
E era tudo minha culpa.
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