Secrets
2 Fim
Notas iniciais
Parte 1:
Nobreza
Livro por livro colocava na estante, alinhando em perfeita simetria. Observava-os de centenas de ângulos diferentes, tentando notar algum fora do lugar. Não demandava minutos para organizar a livraria, por mais que ficasse a arrumar e arrumar os volumes coloridos.
Terminado por fim, a última estante se encontravam inúmeros romances, por mais que achasse seus nomes engraçados e melosos, já havia lido quase todos. Olhava atenta pela última vez, prestando atenção em cada destalhe. A seu julgamento estavam perfeitos.
Ainda faltava algum tempo para que June destrancasse as portas, naquele frio, não acreditava muito que alguém viesse comprar livros, independente do quanto estivesse entediado. Não havendo mais nada a fazer, fora se juntar a livreira no balcão. Ela não notara sua presença, seus olhos permaneciam vidrados na televisão.
–Isso não vai prestar — estava em quase transe, não notando nada a sua volta, para ela existia somente a televisão. -Não vai prestar — olhara a imagem na tela. Algumas pessoas vestidas formalmente estavam a entrar em um salão, o cinegrafista filmava apenas a parte externa. "Hoje nossos lideres tentarão estabelecer a paz".
–Por que você acha que não vai presta?– June desviara o olhar da tela.
–Em primeiro lugar os governantes nunca fazem nada direito. — suspirou — Eu não sei exatamente — Não dissera mais nada. Alguns segundos em que o silêncio pairava no ar, antes de resolver deixá-la em suas teorias. Preferia pensar que no final tudo daria certo, que reinaria a paz.
Voltara vagarosa as estantes. Era quase impossível encontrar uma ficção, que ainda não houvesse lido. Já havia se aventurado por tantos mundo, que se tornara difícil encontrar mais uma para conhecer. Lia títulos e mais títulos, procurando, novos mundos, sem sucesso.
Estava agora ela em quase transe, procurando títulos desconhecidos. Batidas no vidro assustaram-na, desligando-a dos livros. Olhara através da vitrine, por entre enfeites e livros, Annie estava a acenar freneticamente, tentando a qualquer modo chamar a atenção. Dirigiu-se à porta, sem pressas, assistindo sorridente a garota desesperada do outro lado.
Ao abrir a porta, entrara o vento gélido junto a ela.
–Você está atrasada — June desviara rapidamente o olhar da televisão. Annie abrira a boca para explicar, porém notando que ela não se importava mais permanecera calada.
Estava prestes a lhe perguntar o motivo do atraso, no entanto, a garota a garrara pleo pulso, ainda estava com as luvas cobertas de neve. A arrastou facilmente até os fundos. Puxara-a para trás de uma estante. Annie aproximara-se da ponta, com intuito de olhar a livreira.
– Por que chegou atrasada?
–Tinha uns caras na rua... -sua voz em tom baixo era difícil de entender — vestidos com uniformes pretos... Eu os segui.
–Isso é serio? — Annie sinalizará, para que mais baixo falasse, logo assentiu com a cabeça. — Por quê?
–Porque eles pareciam estranhos...
–Isso era só mais um motivo para você não segui-los.
–Oras Lily, seja sincera. No meu lugar você teria feito a mesma coisa. — queria contesta. Eu faria a mesma coisa?...Faria. Permanecera em silêncio. — Bem, isso não vem ao caso. O que importa é o que eles estavam fazendo... — Annie olhara para os lados, chegara mais perto de Lili, sussurrara. — Estavam destrancando os túneis.
A primeira coisa que lhe viera em mente, uma noite em que alguns de seus amigos tiveram a ideia de invadir os túneis, levaram quase hora para acabar com as trancas. Aquilo fora divertido, correr sobre a cidade, como se fosse o fim do mundo. Sua menção não alarmara, suas lembranças a eles relacionavam apenas risos e diversão... Mas não é pra isso que eles servem. Engolira seco. Os acordos...
–Você acha...
–Eu tenho certeza.
–Mas eles podiam ser vândalos...
–Vândalos não teriam as chaves. -Lily permanecera em silêncio. Annie tirara as luvas, casaco e cachecol.
–O que a gente faz?
–Espera. Pode ser apenas por precaução. Fora guardar as coisas, deixando Lily sozinha, olhando perplexa o chão. Esperar.
–Já podemos abrir?
–Não vamos abrir hoje.
–O quê? — Annie arregalara os olhos indignada.
–Não vamos abrir hoje.
–Eu ouvi da primeira vez. Mas por quê? -Lili havia largado o livro, na mesinha do lado. Como assim não vamos abrir?
–Porque hoje não vamos abrir.
–Hum... — A resposta não a satisfez- Então podemos ir embora?
–Não. — O que deu na June?– Fiquem aqui. É mais seguro. -Annie abrira a boca. — Não discuta comigo.- a garota permanecia no mesmo lugar, os pés batendo incansáveis no chão. June ergueu a cabeça, olhando fundo em seus olhos. — Confie em mim. — cessara as batidas, a voz se June soara melancólica. — Vá ler um livro, conversar com a Lily, se quiserem tem bolo de chocolate na cozinha podem comer. Ouviu Lily? — ela assentiu. -
June voltara a televisão. Annie ficara parada por alguns minutos, até que fora se sentar, em uma poltrona ao lado de Lili.
–O que foi isso? — abaixara um pouco o tom de voz, mas tinha a impressão que poderia gritar sem que June a notasse.
–Eu não sei. Talvez ela esteja pensando que hoje vai ser o fim do mundo
–O que será que ela quis dizer com, estaremos mais seguras? — Tentou falar o mais baixo que podia.
–Não sei, tipo o túnel mais próximo daqui é a 7 quarteirões de distância. E o mais perto da minha casa é tipo, no fim da rua.
–Talvez ela estivesse se referindo a outro modo de ficarmos seguras. — voz falhara.
–Eu sei lá. Talvez ela só tenha ficado maluca mesmo.
June não desviava seu olhar da tela nem por um segundo sequer, parecia aflita aos olhos de Lili. Não vai prestar, ela dissera, aquilo começara a perturbá-la. June nunca agira assim, nunca a vira tão... tensa. É como se ela soubesse, mordera o lábio, que tem algo errado. Tentara afastar a ideia da mente, poderia June estar assim, tão certa de que falharia a tentativa de paz?
–Esse é legal?
–Ham? — esquecera por um momento o que acorria a sua volta.
–Eu perguntei se esse livro é legal? — Lily olhara o livro, Legendary.
–É, mas eu gosto mais do dois.
–Hum. — Annie dera para Lily segurar, seus braços já doíam com tanto peso, olhara para os lados tentando avistar uma das mesinhas. Havia uma a poucos metros. Deixara Annie vasculhando os clássicos, seguira até o pequeno móvel de madeira, deixara os livros sobre ela.
–E esse é bom?
–Não. — o livro voltara a seu lugar, Annie deixara-o torto. Lily notara, mas não se importara, pela primeira vez na vida. Sua cabeça estava ocupada, revirando-se em pensamentos, coisas mais importantes do que a perfeição de uma estante.
Alguma coisa caíra, ouvira o vidro chocando-se contra o chão, estilhaçando em infinitos pedaços. Lily voltou á realidade, seguira o som. June havia derrubado o jarro de flores. Estava de pé, olhos castanhos arregalados, a mulher se via pálida como um fantasma.
–June, você está bem? — Não notara Annie a seu lado.
–Vão para a porta dos fundos! Agora!
–Por quê? — Ela não explicara, num salto já estava fora do balcão.
–Rápido — Ela agarrara o pulso de cada uma, os dedos gordos apertavam com força o fino pulso de Lily, deixando-o vermelho e dormente.
–Espere! — Protestara, firmara os pés no chão antes que pudesse ser arrastada. — O que você está fazendo! — June olhara-a torto. Deveria estar contando com a rebeldia de Annie. Ela, por sua vez, permanecia em silêncio.
June olhava-a fundo nos olhos da garota, sem dizer uma só palavra, virou a cabeça em direção ao monitor. "As Quatro Wolgnias e China declaram guerra!"
–Me ajudem a abrir! — June havia levado-as até o outro lado da livraria, onde não haviam mais vitrines, apenas paredes com livros. Enrolara de qualquer jeito o tapete. Revelando assim, um alçapão. Como eu nunca notei?
Nenhuma delas dissera nada, apenas ajudara June a levantar a grosa tábua de madeira. Um estreito túnel feito em pedra, a escada junto a parede parecia estar a enferrujar. Por mais que tentasse, não era capaz de ver o fim.
–Agora desçam.
–Você quer que a gente desça por ai? — June não espantara com a revolta de Annie.
–Quero, mas caso ache que ser bombardeada é uma ideia melhor, fique à vontade e permaneça onde está. — June era habitualmente calma, independente do que houvesse, porém a tensão em sua voz entregava-a.
–Bombardeada? — Lili quase não tinha mais voz.
–Sim. Os aviões já estão quase chegando, eles estavam escondidos à espera de ordens, agora eles vão vir pra cá, detonar as maiores cidades. -Estava quase desesperada. Como ela sabe disso? Lili notara que Annie estava prestes a questionar, deu-lhe uma cotovelada disfarçada. Ela olhara pela lateral do olho, e permanecera em silêncio.
Ficara surpresa em ver June descer astuta a escada, sem hesitar, sem falhar. Na teoria, ficaria entalada. Andara atrás dela, junto a Annie. Conhecia June desde de sempre, ela sempre fora amiga de sua mãe, sempre esteve por perto. Mas nunca a havia visto daquele modo. Não era apenas a aflição que estranhara, mas a expressão de seus olhos, era... inexplicável.
–Não deveria haver mais gente aqui? — a voz de Annie quebrara o silêncio.
–Pegamos outra rota, logo vamos ver pessoas correndo como loucos por suas vidas. — sua voz não era mais tensa, retornara a calmaria.
Andava em ritmo acelerado, ao longe Lili já podia ouvir pés correndo, pessoas gritando, em desespero. Os sons iam aos poucos se alastrando, cada vez mais altos, mais claros, mais perto.
Um estrondo mais alto do que qualquer grito, uma explosão. Seus ouvidos chiaram, o túnel tremera por completo, sentiu como se tudo acima de si fosse desabar. Mais um estrondo, este parecia mais ao longe. Vamos morrer. Os gritos cessaram, mas os passos permaneciam.
–Corram! — June gritara, ambas começaram a correr.
O teto havia rachado em centenas de locais, terra caía lentamente sobre elas. Mais um estrondo, mais alto, mais próximo, o túnel tremera às suas costas, parte dele desabara, levantando nuvens de poeira.
Eles deveriam aguentar... tinham de aguentar, os túneis desabavam, suas estruturas sucumbiam a cada bomba, corredores eram soterrados por inteiro. Podia-se ouvir os prédios desmoronando, pessoas gritando pelos corredores, a cidade se tornando pura cinzas.
–Não parem! Continuem! Mais rápido! — June gritava, tentado incentivar as garotas. Lily queria parar, se jogar no chão, esperar a morte iminente.
Não posso parar. Continuara a correr. Não posso. Aumentara o passo, mais bombas eram atiradas. Será que meus pais estão bem? Túneis desabavam. Meus amigos? Balançara a cabeça. Apenas corra.
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