Secrets
2 Capítulo I
Notas iniciais
Faziam mais de dois anos desde que eu não visitava aquele lugar. Todo o verde, as flores, as árvores, minha casinha de boneca... tudo estava exatamente como eu havia deixado, como se a ação do tempo em nada tivesse afetado aquela paisagem.
Olhei ao redor, sentindo a nostalgia chegar, juntamente com a vontade de chorar. Respirei fundo. Apesar de não aparentar nenhuma mudança externa, meu antigo refúgio, percebi, estava bem diferente – no modo em que eu o via.
– Isabelle – chamou meu irmão — Eu... eu sinto falta dela também.
Dela. Minha avó. Minha doce e simpática avó. Aquela que me recebia com um forte abraço e doces cookies de chocolate. Eu havia parado de contar a quanto tempo ela partira, assim como eu havia parado de visitar o meu – o nosso – refúgio.
– Você não era tão ligado a ela quanto eu, Frank – retruquei ao meu irmão – Sabe disso.
Ele sorriu de lado e se apressou em minha direção, olhando-me nos olhos e abraçando-me pela cintura.
– Acho que esta é a hora de dizer, maninha, que este lugar não era apenas o seu refúgio. Era o meu também. – ele pausou – Quem você acha que vem fazendo com que tudo isso seja cuidado?
– Você não...
Frank suspirou.
– Belle, eu cuido das coisas que eu gosto. Você me conhece. – disse
Assenti. Passei meu braço pelas costas de meu irmão e pedi, com uma voz de garota assustada:
– Vamos para casa?
*
– Ah, olá! E então, como estão se sentindo, agora que estão de volta? – pediu minha mãe, Stela, com um sorriso enorme e cheio de expectativas no rosto – Sei que é difícil voltar depois de todo esse tempo, mas tenho certeza que vocês irão se reabituar rapidamente.
Olhei com o canto de olho para meu irmão, que sorria como se aquele fosse o dia mais feliz de sua vida, enquanto respondia:
– Não se preocupe, Mãe. Estamos muito felizes por voltar.
Revirei os olhos. Ah, Frank, por que você não para de ser o filho perfeito por apenas um minuto?
Não, eu não estava feliz por voltar. Eu queria ter ficado em Londres, junto com meu pai, que me aceitava do meu jeito, longe desta casa velha e aconchegante, longe dessa mãe que preferia mil vezes o filho – nerd – perfeito, a essa filha cheia de defeitos e, principalmente, longe de todas aquelas boas memórias que insistiam em voltar.
– E você, Isabelle, está feliz por voltar? – perguntou Stela, olhando diretamente para mim.
Desviei o olhar para o programa que estava passando na televisão e suspirei, sem nem ao menos tentar demonstrar simpatia.
– Estou, estou. – respondi – Agora, vou subir para o meu quarto. Estou exausta da viajem.
Minha mãe assentiu, sorrindo compreensivamente. Droga. Por que ela precisava ser tão legal?
Subi as escadas que levavam até o corredor do segundo andar – onde ficavam os quartos – vagarosamente, até alcançar a porta do meu antigo e, paradoxalmente, novo, quarto.
Entrei, sentindo uma nova onda de nostalgia abalar minhas bases.
Suspirei e, sem pensar duas vezes, deitei em minha cama, esperando o sono chegar.
#-#-#
FRANK POV
Sentei no sofá, ao lado de minha mãe, ouvindo os vagarosos passos de minha irmã, a caminho de seu quarto.
– Você acha que ela vai... – começou Stela, sua voz quebrando antes de terminar a frase.
Reprimi a vontade de sorrir. A personalidade forte de minha irmã era admirável, embora muito inoportuna.
Não, eu não estava feliz em voltar. Queria ter ficado em Londres, onde meu modo de vida e, bem, eu mesmo, não chamava a atenção e não despertava nada além de indiferença. Entretanto, apesar de não estar satisfeito em ter de ficar em uma cidade minúscula do interior do estado de Washington, eu jamais demonstraria isso. Minha mãe precisaria do apoio, ela estava tão machucada quanto eu ou mesmo Isabelle, a diferença era que minha mãe não tinha ninguém além do deus em que ela acreditava e nós, seus filhos, para ajudá-la.
Assim, antes que minha pausa fosse interpretada erroneamente, respondi:
– Tenho certeza que ela vai se acostumar – respondi, olhando-a nos olhos – Talvez leve um tempo, mas não se preocupe, ela a ama demais para ficar chateada por muito tempo.
Stela sorriu.
– Obrigada, filho. Estou mesmo muito feliz em ter vocês aqui comigo... – seus olhos ficaram repentinamente molhados – Você não faz ideia do quanto.
Culpa atingiu-me em cheio e, antes que pudesse me conter, a abracei fortemente.
Seus longos cabelos negros roçaram no meu rosto e um doce perfume me invadiu. Tranquei a respiração. Não ela.
– Eu te amo, Mãe, senti sua falta. – disse, me afastando.
Uma lágrima molhou sua face e ela assentiu, sorrindo.
– Eu também te amo, Frank. Mas agora é melhor você subir. Tome um banho e descanse, você deve estar exausto.
Sorri para ela e desejei-lhe um “boa noite”, enquanto subia até meu quarto.
Logo que passei pela porta, senti uma onda inevitável de saudades. Saudades do que já havia passado, do que eu já havia vivido, mas, no meio de meu antigo – novo – quarto, do que mais eu sentia falta era de quem eu costumava ser. Sentia falta daquele menino brincalhão que tantas vezes entrara correndo dentro daquele mesmo quarto atrás de mais algum brinquedo perdido no meio da bagunça.
Suspirei e coloquei minha mala em cima da cama, abrindo-a rapidamente e retirando de lá a coisa que eu mais precisava no momento.
Depois de ingerir a substância, abri meu guarda roupas e notei, com assombro, que o fundo falso do mesmo ainda estava lá, assim como meu frigobar. Sorri. Tudo estava indo melhor do que o esperado.
*
Olhei para baixo. As pessoas que andavam na rua não passavam de minúsculos pontinhos e, ainda assim, eu era capaz de enxergá-las perfeitamente bem. O vento bateu em meu rosto e senti o costumeiro perfume de Londres. Olhei para baixo novamente e sorri, pulando do alto do prédio de 60 andares.
– Frank!
Abri os olhos assustado e olhei para o lugar de onde vinha a voz. Ao lado de minha cama estava Isabelle, seus olhos negros fitando-me profundamente.
– O que houve? – perguntei, tentando parecer meio rouco.
Mesmo no escuro, pude ver as bochechas de minha irmã tomarem um tom mais avermelhado. Seus olhos faiscaram e, então, eu entendi.
– Está tendo aqueles pesadelos novamente, pequena? – perguntei, com um suspiro.
Ouvi Belle engolindo em seco, antes de perguntar, insegura:
– Posso... posso dormir com você?
Sorri um pouco e acariciei seu rosto, percebendo, então, que este estava um pouco molhado. Ela havia chorado.
– Sempre que quiser. Pegue seu travesseiro e venha aqui. – disse, batendo a palma da mão no colchão.
Ela sorriu e correu novamente para seu quarto, fazendo o que eu havia pedido. Suspirei e fui para o outro lado da cama, esperando Belle voltar. Depois de alguns instantes, minha irmã entrou novamente em meu quarto, fechando a porta ao fazer isso, e deitou timidamente em minha cama, virando para o lado e sussurrando um “obrigada” que eu jamais ouviria se minha audição não fosse tão boa.
Sorri e a abracei pelas costas.
– Bobinha, não precisa agradecer. – disse, acariciando seus cabelos.
Ela se virou para mim e me abraçou apertado, logo depois deitando em meu peito. Eu podia ouvir sua respiração se acalmar e, pouco antes de pegar no sono – usando-me como colchão – ela disse, arrastando as palavras:
– É claro que eu tenho de agradecer... Você é a única pessoa que nunca me abandonou.
Meu coração se apertou. Ela estava enganada e não tinha ideia do quanto.
Fechei os olhos e, eventualmente, adormeci, abraçado a ela.
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