Nathalia já conseguia ouvir a bagunça que se formava pela janela do seu quarto. O hotel não era grande, tinham cerca de seis andares como a maioria das pousadas em Carrancas e, com ela estava hospedada no terceiro, o som das pessoas conversando na área externa era completamente audível.

Ela se aproximou da janela, estava um tanto desinteressada e ainda não havia descido para participar da social de seus amigos. Todos já estavam lá embaixo e o final da tarde já mostrava sinais de escuridão. Chandelly imitava alguém que ela não conseguia identificar quem era, mas todos riram das palhaçadas da amiga. Alguns funcionários da parte técnica da novela tocavam e cantavam músicas populares brasileiras em uma roda, outros ainda conversavam isolados dos grupos maiores. Ao canto, Nathalia conseguiu ver o objeto de seu desarranjo conversando com Malvino Salvador, que também era seu companheiro de cenografia.

Quando o foco de sua visão capturou a imagem de Thiago, Nathalia sentiu um tremor passar por todo seu corpo. Estava apavorada. E o pavor era mais consigo e com a sua impulsividade do que propriamente com aquele homem que agora passava as mãos no cabelo e o jogava lentamente pra trás, enquanto levava um sorriso largo no rosto.

Havia passado o resto da tarde depois das gravações deitada na cama do hotel, passeando por os canais de televisão e conferindo suas contas nas redes sociais. Não conseguira pregar o olho, mas aquilo não tinha nada a ver com as distrações das tecnologias que carregava. Na verdade, navegar por aquelas mídias era mais uma forma de não pensar no que acontecera no começo do dia.

Mas fora inútil. E ela sabia que seria.

A cada vez que tentava ignorar as lembranças das gravações que lhe invadiam, com mais e mais frequência as imagens voltavam para sua mente. E seu o pesar também. Não conseguira ignorar o nó que prendia sua garganta.

Traíra seu namorado. Era uma cena de novela, ela sabia. Línguas escapavam ocasionalmente, mesmo não havendo intenção para tal. Mas não fora isso que aconteceu naquele dia. Ela beijou-o intencionalmente, aproveitando-se da cena do casal que protagonizavam. E não havia uma explicação plausível para o seu impulso.

Nathalia não sabia de onde a vontade havia surgido, nunca tinha olhado para Thiago com intenções desejosas. Não nega a sua beleza e nem a masculinidade que ele exalava. Mas o amigo era casado, então não havia possibilidade alguma de algum envolvimento romântico. Foi difícil ignorar a boca seca antes de tocar os lábios aos do Thiago durante a encenação, foi mais difícil ainda impedir seu corpo de reagir tão fortemente com o objetivo de aliviar o formigamento que se instalou entre suas pernas quando Thiago a puxou pela cintura. Tão facilmente. Tão seguro. Com tanta posse.

A menina respirou fundo. Não sabia o que fazer, sequer o que pensar. Teria sido uma sede momentânea? Um impulso voraz que logo se dissiparia? Ou um desejo reprimido que nunca havia dado as caras? Nathalia, ao se indagar a respeito de suas razões, logo balançou a cabeça, tentando eliminar todas aquelas perguntas. Não deveria refletir sobre os seus sentimentos para com Thiago, o certo seria pensar sobre como seria sua relação com Pedro dali em diante. Porque o foco da sua angustia não era esse? Sua consciência deveria pesar mais que o seu peso corporal com essa questão. Mas a sua apreensão advinha da forma com que aquele beijo despertara o seu corpo. E em como aquilo era errado em todas as equações possíveis.

Nathalia despertou de seus pensamentos quando sentiu um par de olhos verdes presos na sua imagem. Thiago a encarava enquanto Malvino parecia tagarelar com ele, os olhos do homem pareciam dividir a atenção entre ele e Nathalia. Ela não tinha ideia de quanto tempo Thiago a olhava observando-o. Sentiu suas bochechas queimarem.

Thiago fez um sinal com a cabeça, erguendo a sobrancelha e apontando para o grande portão que separava a área interna da recepção, da externa. Ele estava pedindo para que ela descesse, e aquilo se confirmou quando ele sussurrou um “vem” com os lábios mudos, enquanto Malvino voltava sua atenção a cantoria do elenco.

Nathalia pensou em negar com a cabeça, desconfiava que ainda não estava preparada para encará-lo ou ter algum tipo de diálogo. Não se afastaria do amigo, gostava muito de Thiago para que algo como aquilo, mesmo que cheio de significado, acabasse com a amizade dos dois. E ela sabia que esse era o medo do homem, visto a forma com que quase suplicava por uma conversa com Nathalia depois das gravações.

Nathalia viu Thiago fazer um biquinho disfarçado pra ela, e ela não conseguiu deixar de sorrir ao ver a cara do amigo lá embaixo. Ele sorriu de volta e aquilo pareceu quebrar um pouco da barreira que havia se erguido.

Ela fechou os olhos e inspirou o ar da noite. Fez um gesto para Thiago com a mão, indicando para esperar. Antes de deixar a janela, viu o sorriso de Thiago se alargar.

Nathalia mordeu o lábio, apesar da aparente dúvida se descia ou não, uma força parecia puxa-la para baixo. Precisava resolver tudo aquilo. E agir naturalmente parecia uma boa opção para o momento. Em cinco minutos, Nathalia colocou um jeans, uma jaqueta e um cachecol, e logo tratou de descer e se juntar aos amigos.

Nathalia mal colocou o pé para fora do hotel e Chandelly a puxou para roda em que estava, impedindo seu caminho em direção a Thiago e Malvino.

— Miga, porque demorou? Você perdeu quase toda a cerveja. – Chandelly exclamava já um pouco mais alterada que o normal. Sua amiga era boa de copo.

— Não estava me sentindo muito bem.

— O que você tinha? – questionou, enquanto sentava em um dos bancos espalhados pela área, seguida por Nathalia, que sentou ao seu lado.

— Ah, nada demais. Só uma indisposição mesmo. Acredito que seja o cansaço da viagem. – Era uma meia verdade.

— Ai, amiga. Pode ser mesmo. – Chandelly pegou outra latinha no fardo que estava na mesa do seu lado, e deu outra pra Nathalia. — E você ainda teve que gravar ao chegar. Isso é desumano! Mas agora aproveita, viu? A noite é uma criança. – Chandelly riu alto.

Os amigos começaram a cantar um misto de sertanejos antigos e atuais. Nesse momento, Thiago se aproximou da roda, sentando ao lado de Chandelly. Foi a cadeira que conseguiu mais próxima de Nathalia. O rapaz havia visto quando a moça entrou, ativando seu nervosismo. Mas logo viu Chandelly puxar Nathalia pelo braço, desviando a rota da moça. Thiago não entendeu a frustração que lhe invadiu.

Nathalia olhou de soslaio para Thiago, que a encarou de volta. Seus olhares pareciam falar uma conversa silenciosa.

“(...) Tanto amor guardado tanto tempo, a gente se prendendo à toa, por conta de outra pessoa, só da pra saber se acontecer.”

O som ambiente parecia combinar com aquele momento, com aquele dia, com aquela situação. E quando a letra que tocava atravessou seus ouvidos, Nathalia olhou pra baixo. E aquilo não passou despercebido por Thiago, que logo se agarrou a letra também.

“(...) É, e na hora que eu te beijei, foi melhor do que imaginei, se soubesse tinha feito antes, no fundo sempre fomos bons amantes.”

Thiago mal acreditou quando Chandelly levantou da cadeira e foi em direção a Malvino, seu par na novela. A menina chegou sorrindo e brincando com a rapaz. Provavelmente fora conversar com ele, então essa era a oportunidade de Thiago. Quando percebeu que a amiga não voltaria ao seu lugar, Thiago pulou para a cadeira ao lado de Nathalia.

— Você está bem? – Thiago começou, oferecendo um sorriso tímido a Nathalia.

— Estou sim, Thi! – sorriu de volta, esclarecendo: — Melhor.

— Eu fico feliz por isso. De verdade. Não sei se quer falar, mas...

— Tem necessidade?

— Você quem sabe.

Nathalia apertou suas próprias mãos e murmurou:

— Acho que não. Acho que não precisamos tocar no assunto. É melhor esquecer isso. – Nathalia falava rápido, claramente nervosa com aquele assunto abordado de forma tão rápida e direta. Nathalia sentiu uma ponta de decepção no olhar de Thiago. Mas não foi isso que saiu de sua boca.

— Eu... eu também acho. Se não falarmos, não sentimos, né?

— Se não falarmos, não sentimos. – afirmava com a cabeça. Se repetisse aquela frase, convenceria a si mesma da veracidade das palavras?

A social transcorreu como de praxe e umas bebidas a mais já soltavam Nathalia e Thiago. Nathalia, como sempre, filmava todo mundo com a câmera do seu iPhone. Em alguns momentos, até cantava algumas músicas aleatórias para todos os seus amigos. Adorava cantar. Thiago, por outro lado, mantinha-se no seu canto, envolto a alguns amigos, mas pouco conversava. Não era um homem que se enturmava com tanta facilidade. Ele preferia muito mais observar e ouvir do que de fato participar das conversas.

Com a farra que se instalara, Nathalia já começava a sentir o corpo esquentar apesar da temperatura fria. Passara boa parte da noite encarando Thiago ocasionalmente, mas naquele momento, ele não se encontrava por perto. Estranhou, mas o efeito da bebida logo a fez esquecer o seu desaparecimento.

Ela entrou no hotel e foi em direção ao quarto cantarolando a música alta de fora, precisava se livrar daquela jaqueta que não deixava a menina se mexer. Nathalia tinha uma latinha na mão quando, saindo do elevador no terceiro andar e tentando tirar sua jaqueta de couro um tanto desengonçada, esbarrou com um peitoral duro no meio do corredor.

— Ai! – Nathalia exclamou com um gritinho.

— Opa! – Thiago segurou os braços de Nathalia, impedindo-a de cair. – Meu deus, Nath! Toma cuidado.

Nathalia encarou Thiago, com um sorriso aberto.

— Me desculpa, Thi! Foi sem querer. – mordeu o lábio, tirando o resto da jaqueta que ainda estava em um dos braços. – Eu já não aguentar mais essa roupa pesando. Odeio ir pra festas toda encapuzada! – explicou. — Porque não está lá embaixo?

— Vim respirar.

— Dentro de um quarto de hotel? – Nathalia levantou uma das sobrancelhas, com um sorriso nos lábios.

— Exatamente. – Thiago riu baixo.

— Você é realmente bem estranho. – constatou, direta. – Eu só vou deixar minha jaqueta aqui e já desço com você. Me espera. – a moça não esperou Thiago responder e já foi abrindo sua própria porta. Nathalia jogou sua jaqueta em cima da cama e se olhou no espelho, antes de sair novamente.

Ao sair do quarto, encontrou Thiago de costas. Observou-o assim. Odiava o efeito que a bebida tinha sobre ela, não conseguiu ignorar o leve tremor que lhe percorreu. Aproximou-se dele e tocou seu ombro.

Thiago sentiu o toque de Nathalia pela primeira vez depois do ocorrido naquela tarde e seus músculos se contrariam involuntariamente. Ainda de costas, colocou sua própria mão em cima de Nathalia e a segurou. Virou devagar, com cuidado para não mexer suas mãos.

— Vamos? – Nathalia sussurrou, quase inadiável. A moça tinha um olhar escurecido e Thiago não deixou de notar o brilho que emanava deles.

— Vamos? – Não era uma resposta. Sua voz também era sussurrada.

Nathalia não respondeu, limitou-se a olhar para o rosto de Thiago, encarando-o com profundidade. Sua boca estava seca, assim como naquela manhã. Mas o efeito do álcool, mesmo que não tão intenso em seu sangue, fazia com que aquilo se intensificasse. Thiago olhava para Nathalia com os olhos estreitos e uma brecha pequena se formou em sua boca, soltou a respiração que estava presa desde que Nathalia o tocou.

Os dois deram um passo maior em direção ao outro, tocando a superfície de seus corpos. A mão dos dois caiu, mas ainda continuavam unidas. Entrelaçaram seus dedos.

— Vamos? – Thiago murmurou.

— Vamos? – Nathalia fez a mesma pergunta. Sua respiração já se tornava rápida demais, e Thiago já sentia o calor da boca de Nathalia bater em seu rosto.

Sem aguentar mais aquela tensão que o ar se transformou, Thiago, com a mão livre, agarrou os cabelos de Nathalia, que soltou um grunido baixo com o prazer que sentiu com o ato. Sem esperar mais, chocou as costas de Nathalia com a porta fechada atrás dele, prensando o corpo da moça entre seu próprio corpo e a superfície de madeira. Nathalia sentiu o corpo esquentar, e roçou-se em Thiago antes de tomar a boca dele com a sua. Nathalia parecia faminta. Ela começou o beijo de forma intensa, invadindo a boca de Thiago com pressa. Mas ele não ficou atrás, aprofundou ainda mais os dedos dentro dos cabelos da menina e direcionava sua cabeça no ritmo do beijo. Thiago soltou a mão que ainda apertava a mão de Nathalia e a usou-a para outros propósitos. Bateu com a mão nas nadegas dela, apertando-a no momento em a palma se chocou com o tecido da calça. A mão do rapaz deslizou forte para baixo, levantando a coxa de sua amiga enquanto tentava cravar os dedos ali. Com o espaço a mais da posição, Thiago tentou aproximar seu centro do de Nathalia, levantando um pouco seu corpo na porta. Ao sentir o contato, ela gemeu baixo, mordendo o lábio inferior de Thiago, prendendo. O ato fez Thiago sorrir de maneira sensual e, ao sentir Nathalia soltando seu lábio, ele repetiu o movimento com os lábios dela. Ficaram nessa brincadeira por um tempo, enquanto Nathalia roçava seu corpo freneticamente no do Thiago.

O movimento só parou de se repetir quando Thiago trilhou os beijos do rosto da moça até a curva do seu pescoço, quando o abocanhou. Nathalia jogou a cabeça pra trás, curvando mais o seu corpo e, apoiando a mão que não segurava a cerveja no ombro do Thiago, pendurou-se nele com as pernas. O homem continuava a explorar o pescoço de Nathalia, entre um revezamento de beijos molhados, mordidas e roçar de lábios. Ela emitia alguns sons baixos, o que só fazia o frio da barriga de Thiago aumentar. Nathalia sentiu a plenitude do prazer do homem a sua frente ao roçar com o membro no dele. E as pernas abertas em volta de seu quadril intensificava o contato.

Thiago voltou a beijar a boca de Nathalia, raspando a língua na dela de forma demorada. O beijo, dessa vez, começara lento, sentindo todo o gosto da língua um do outro. Ele circundou a boca dela com a língua, ela repetiu o movimento. Mas Thiago já não aguentava aquele toque superficial de suas mãos. Ousando mais, colocou as mãos por baixo da blusa de lã que Nathalia vestia, tocando a pela nua da moça. A menina sussurrou o nome de Thiago no momento em que sentiu as mãos frias em sua pele quente, o contato fez com que ela sentisse seu centro umedecer ainda mais. Thiago apertou a pele de Nathalia com força, tinha as mãos possessivas na pele da moça. Arrastou sua palma pelas suas costas, explorando cada pedaço da pele descoberta. Gemeu ao tocar as mãos no sutiã dela, a proximidade o fazia imaginar onde aquilo iria chegar.

Nathalia desgrudou suas bocas, precisava respirar. Os rostos dos dois se tocaram ao se remexerem no corpo um do outro, Nathalia deixou sua cabeça pender no ombro de Thiago, olhando para o espaço entre os dois. Ela apertou mais seu quadril em Thiago, o contato não parecia mais o suficiente.

— Nathalia. – Thiago sussurrou no momento em que tirou uma das mãos das costas dela e pegou seu rosto. Thiago posicionou o rosto de Nathalia de frente pro seu e, segurando-a, mordeu seu queixo.

— (...) eu também. Mas amanhã a gente se comporta de novo.”— A voz não era de Nathalia. A voz não era de Thiago. A voz era de Chandelly saindo do elevador junto a Malvino.

Nathalia e Thiago, de súbito, se largaram antes da outra dupla voltar a atenção para o lado do corredor em que o casal se encontravam.

— Thi? Nath? O que fazem aqui? – Nathalia estava completamente desalinhada. Seus cabelos bagunçados e a boca mais vermelha que o habitual causaram estranhamento em Chandelly.

— Eu... eu vim dormir. – conseguiu dizer. – Eu te falei que não estava muito animada e... Thiago veio me buscar novamente.

Sabia que a desculpa não convencera a amiga, que só confirmou com a cabeça, com a testa franzida. Malvino parecia não estranhar nada.

— Que interrogatório. – Malvino brincou.

— Vamos descer, então. Eu só vim aqui pegar um limão para mostrar pra Chandelly a mistura dos deuses. – riu. Entrando no seu quarto.

Chandelly olhava com os olhos semicerrados para Nathalia e Thiago, que sorriam tentando passar naturalidade para a companheira de elenco. Não demorou muito para Malvino voltar com os limões na mão e os quatro retornarem para a área externa.