Secret
2 Capítulo 2
Se Thiago pudesse descrever o frio que fazia para que alguém entendesse o ambiente congelante em que se encontrava, certamente ele mandaria uma foto de Nathalia naquele momento. Nathalia tremia dos pés a cabeça, além de adquirir bochechas absurdamente vermelhas e, por incrível que pareça, uma pele ainda mais branca.
Estavam no alto de um dos morros em que geralmente gravavam em Carrancas, representando os campos do Vale do Café. A cena que seria gravada era de uma beleza incrível em questão fotográfica e eles sabiam que boas criticas viriam através dela. A sequência consistia em Elisabeta e Darcy caminhando sobre o alto daquele morro, sendo seguida por uma declaração de amor e releitura dos votos de noivados, com direito a alianças improvisadas.
Nathalia e Thiago passavam os textos sentados sobre a grama, enquanto a produção cuidava da parte técnica do cenário. Thiago, reparando que Nathalia tremia o queixo enquanto falava, disse:
— Seus dentes vão quebrar se continuarem batendo dessa forma. – Thiago riu. – Darcy vai até te “des-pedir” de casamento.
— Ah me poupe! E não ria, seu chato! – reclamou, fazendo careta pro Thiago enquanto batia os dentes. – Claro que você não deve sentir o mesmo frio que eu, você é um urso! Esse tanto de camada de pele deve te proteger bem.
Thiago abriu a boca, em uma fingida expressão ofendida e disse:
— Tá falando que estou gordinho?
— Não. Você só é maior em todos os quesitos que a maior parte da população mundial. – indicou altura com as mãos.
— Muita carne. Muitos ossos. Muito homem! – Thiago riu ao dizer as palavras, enquanto via Nathalia revirar os olhos. – Mas sou muito cavalheiro também!
— Ahn? – perguntou, levantando a sobrancelha.
Thiago tirou o casaco que estava sobre si por cima do terno do personagem. E, em um movimento único, debruçou o tecido sobre as costas de Nathalia. Nathalia franziu o cenho, ameaçando tirar o tecido com uma das mãos. Thiago adiantou-se:
— Nanão. – fez com o dedo. – Como a senhorita disse, está com mais frio que eu. E eu realmente acredito nisso.
— Mas Thi, você vai ficar com frio. – justificou, devolvendo um sorriso ao companheiro de cena.
— Eu estou bem, Nath. E posso ficar aqui do seu lado. – puxou a amiga para um abraço de lado e ficou ali, sentado com o braço em volta dela.
Nathalia, que tremia de frio há segundos atrás, sentia-se mais aquecida com Thiago ao seu lado. Sempre foi próxima do amigo, mas galanteios daquele tipo eram bem raros vindos de Thiago. Claro que o homem sempre fora muito educado e cordial com todas as pessoas que estavam ao redor dele. E isso era absolutamente perceptível. Mas Thiago sempre teve um jeito mais fechado, então não era muito adepto a troca de carinho com os amigos. Era estranho estar ali, entranhada a Thiago. Mas não reclamaria, afinal de contas, o frio era alucinante e tudo que queria era se manter aquecida. Ainda mais se fosse com aquele perfume totalmente agradável a suas narinas.
— Seu casaco está com um cheirinho ótimo. – Nathalia disse, cheirando a manga caída do casaco.
Thiago olhou pra Nathalia com um sorriso de lado, mordendo o lábio inferior.
— É o cheiro de Thiago. Quer sentir mais?
Nathalia olhou pra Thiago com uma expressão confusa, estreitando os olhos. Não havia resposta para aquilo. Thiago, por sua vez, aproximou-se do rosto de Nathalia e, com a mão que a envolvia pelos ombros, fez-se uma descida por o braço da amiga, tomando a cintura dela em um aperto leve. Nathalia arrepiou-se ao sentir a mão grossa em sua cintura e manteve-se reta, esperando o próximo passo de Thiago. Os pensamentos de Nathalia já não processavam muita coisa, impedindo-a de pensar no por que não saia correndo dali. Com a outra mão, Thiago tocou o rosto de Nathalia, acariciando a bochecha vermelha com o polegar. Com um sorriso sensual, deixou a boca levemente aberta e chegou com os lábios um pouco mais perto dos de Nathalia. A respiração pesada que ela deixou escapar fez Thiago perceber o estado que a amiga estava. E, em um movimento rápido, Thiago assoprou o rosto de Nathalia e voltou-se de lado rindo. Mas o riso só se transformou em uma gargalhada alta quando Thiago voltou o olhar pra amiga e visualizou um olhar decepcionado.
— Você é um imbecil. – Nathalia pôs-se de joelho, espalhando tapas no peito de Thiago que, imediatamente, a segurou pelos braços enquanto ria.
— Isso que dá zombar do meu tamanho. – Thiago continuava rindo. – Sentiu a intensidade, né? É grande também. – Thiago já sentia o ar faltar devido ao seu divertimento.
— Ai, você é ridículo. Muito ridículo. Completamente ridículo. – Nathalia voltou a sentar do lado de Thiago. Em poucos segundos, estava rindo com o amigo. – Eu não acredito que cai nisso.
— Caiu. E gostou.
— O que? Me respeita, Thiago! – fez uma expressão desinteressada. – Eu nunca cairia nesse jogo. Na verdade, você caiu.
— Eu? – apontou pra ele mesmo, negando com a cabeça.
— Você acha que eu cai no seu jogo, mas eu só fingi que cai.
Thiago olhou pra Nathalia indignado, negando com a cabeça. Quem cairia naquela conversa? Nathalia era uma péssima mentirosa. Estava completamente entregue ao momento e, se sua brincadeira fosse uma realidade, com certeza ela cederia aquele beijo. Era estranho, mas constatar aquilo fez o corpo de Thiago sentir alguns frios que nada tinham a ver com a temperatura em que estavam.
Thiago voltou a olhar para o rosto de Nathalia, que agora já conversava com o diretor para começar a gravar as cenas do casal e, sem querer, pensamentos inusitados tomaram conta da mente do rapaz. Nunca havia pensado em Nathalia como mulher, não de forma explicita. Era inegável a beleza dela e claro que sempre o atraíra. Mas a respeitava. E isso, em grande parte, vinha por a admiração que sempre sentiu por ela. Era difícil ver Nathalia como uma possível companheira quando a mesma sempre o tratou como amigo e quando Thiago possuía um relacionamento sério – mesmo que com alguns deslizes –. Sem contar que Nathalia, na maioria das vezes, sempre estava em uma relação.
Era inegável que gostava dos beijos, dos abraços e, em especial, do cheiro que Nathalia tinha e que ele não poderia deixar de inebriar-se. Mas nunca passou disso. A relação mais intima dos dois sempre foi completamente profissional.
Os pensamentos de Thiago foram interrompidos por o grito do diretor para o inicio da gravação. Ele agradeceu por isso. Aquele novo pensamento não o levariam a lugar nenhum.
A gravação decorria sem muitos erros, para a satisfação do diretor e deles mesmos que, quanto mais cedo gravassem, mais rápidos poderiam ir para uma temperatura mais amena.
— “Elisabeta Benedito – Thiago reproduzia a fala. – você aceita ser novamente a minha digníssima, lindíssima, cheirosíssima, – ele improvisava parte da fala, fazendo a parceira de cena rir por dentro e se segurar para o som não explanar pra fora de si – esposa?
— Senhor Darcy Williamson, depois de você me fazer descobrir o que é o amor, eu não só aceito hoje, como amanhã e depois e depois, pra sempre, ser a sua digníssima esposa. E não aceito nada menos que um beijo em troca.
E, com a conclusão do diálogo dos personagens, os lábios dos atores se juntaram. Não foi despercebida a agitação que se alojou no corpo de ambos com o primeiro contato. E muito menos a ânsia percebida pelo contato. Nathalia passou as mãos ao redor do pescoço de Thiago que, com uma mão, a puxou pela cintura, grudando em completo os seus corpos. O frio desapareceu. O calor tomou conta dos dois corpos que antes tentavam se aquecer. Nathalia não sabia se aquela vontade que crescia dentro de si era produto da brincadeira de Thiago há minutos atrás, mas o formigamento que passeava pelo seu interior era absolutamente real. Em um ato mais ousado, Nathalia abriu mais a boca e deixou sua língua passar. Não estava pensando, muito menos queria pensar naquele momento. Sua língua transitou para a boca de Thiago, tocando a ponta do mesmo.
Ele, ao sentir Nathalia invadir sua boca, soltou um grunido baixo. Em um lampejo de consciência, torceu para aquela parte não ter sido captada pelo áudio, mas não pode evitar o prazer que sentiu. Um prazer novo. Já tinham tocado a língua algumas vezes, mas nunca de maneira proposital. Nunca duas vezes seguidas, e muito menos de maneira ritmada como Nathalia fazia agora.
Thiago deixou a mão do rosto de Nathalia e a introduziu dentro dos cabelos dela, pegando uma parte e puxando um pouco pra trás. Aprofundou o beijo, entrelaçando a língua dela com a sua em um beijo real, tão real que sua excitação começava a se fazer presente. Apertou mais a cintura de Nathalia, fazendo-a roçar. Nathalia fez um som pequeno com a boca entre o beijo, fazendo Thiago perder os sentidos e apertar mais o corpo contra si. Mas uma voz logo se fez presente no alto daquele morro, quase ecoando por entre as montanhas. O diretor gritava corta. E eles sinceramente não tinham ideia de quantas vezes aquilo fora repetido. Thiago, ao se separar de Nathalia, mordeu o lábio inferior da moça discretamente e sorriu de lado. Ela se limitou a colocar a mão na boca, atordoada com o ato que ela mesma criou.
— A cena ficou maravilhosa. E que beijo! Beijem mais assim. – exclamou o diretor, maravilhado com a cena.
Thiago olhou pra Nathalia, que mantinha as mãos nos lábios. Por a expressão que Nathalia possuia, o homem já desconfiava que aquele beijo um pouco – ou completamente – fora do tom, poderia ter sido um grande erro.
— Bom, vamos arrumar as coisas e voltar? Apesar do frio, o dia foi produtivo. – sentenciou o diretor.
— E a outra cena? Que eles estão deitados e se beijam? – perguntou, quase desesperado. O tom só foi percebido por Nathalia.
— Essa nós gravamos amanhã. A temperatura está bem baixa. Ainda temos algumas cenas a gravar aqui e não quero vocês doentes. – explicou.
Thiago não queria sentir aquilo. Mas o desapontamento foi inevitável.
A volta para o hotel transcorreu-se de maneira estranha. Thiago e Nathalia eram sempre os mais falantes do carro, mas dessa vez, só Thiago tentava puxar assunto com a produção. Nathalia olhava pela janela, claramente incomodada com alguma coisa. Thiago exatamente o que era e temia por aquilo. Nathalia namorava, era óbvio que pensava que aquilo configurava algum tipo de traição, já que perderam o tom da cena.
Não demorou muito para estacionarem em frente ao hotel.
— Nathalia, espera! – Thiago segurou o braço de Nathalia assim que cruzaram a porta do hotel.
— Não, Thiago. – disse, simplesmente, olhando profundamente para o rosto do rapaz.
— Vamos conversar. Você... tá estranha.
Nathalia analisou a expressão de Thiago.
— Você não? – perguntou, intrigada. Seu coração estava pesado. Era claro que Thiago sabia o motivo do seu comportamento e falta de jeito. Ela namorava. Ele era casado. Aquilo, que ela não gostava nem de nomear, não fora nada profissional.
— Não. – confessou. Não se arrependia e, apesar de ser algo ruim de se dizer em sua situação, ainda sentia o cheiro de Nathalia impregnado em si. E aquela essência não conseguia fazê-lo pensar racionalmente.
— Como? Você é... cas – Thiago colocou o dedo sobre os lábios de Nathalia, que arrepiou-se.
— Não fala isso. Eu só não me arrependo.
— Thiago, não quero falar sobre isso. – a voz era baixa. — Me deixa subir. – Nathalia não queria discutir, sentia-se exausta, confusa e estranha, mas o homem ainda mantinha a mão grande em volta do braço dela, soltou ao perceber.
— Você vai voltar pra social que vai ter aqui embaixo a noite? – quis saber. Era uma oportunidade de falar com Nathalia, não queria uma situação estranha entre os dois. Não só por serem amigos, mas por a evolução dos personagens. Thiago sabia que Nathalia sempre fora muito profissional, mas aquela situação era tão inusitada que suas certezas se confundiam.
— Não sei. – disse, sinceramente. Nathalia baixou a cabeça. Thiago sentiu seu coração se retorcer. Uma ponta de arrependimento começou a se fazer presente, e não era por conta do ato.
— Desculpa. – Thiago tentou, a sinceridade vinha de ambas as partes.
— Fui eu. – levantou a cabeça e apertou os lábios, respirando fundo. Nathalia se virou e começou a se distanciar.
Thiago viu Nathalia se afastando e esperava fortemente que fosse um afastamento temporário. Amara o beijo que eles deram, mesmo que em cena. Mas, pelo desenrolar que estavam tendo, desconfiava que não fora uma boa ideia. Não queria ela estranha com ele, não queria que isso causasse um mal estar no convívio ótimo que tinham. Ainda era a tarde e, naquela noite, teriam uma pequena festa com os amigos de elenco que chegaram naquela tarde e a equipe técnica. Seria a oportunidade de conversar com Nathalia e esclarecer tudo. Uma opção era propor que esquecessem aquele beijo, apesar da consciência que essa fala nunca faria com que a mente o obedecesse.
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