Secret
1 Capítulo 1
O sol tapava a visão de Nathalia no momento em ela chegava ao Projac. Naturalmente, fazia um dia de calor no Rio de Janeiro, mas sua mala com um bocado de roupas mais grossas indicava o frio que estava por vir. Enfrentaria uma temperatura extremamente baixa nas próximas horas, mas isso não a desanimava. Muito pelo contrário, sentia uma saudade imensa da estádia em Carrancas. Era a segunda vez que iria ao lugar a trabalho. Na primeira, fora com praticamente todo o elenco de Orgulho e Paixão, novela que é a protagonista no momento. Nesta segunda, iria com alguns profissionais e seu companheiro Thiago, par romântico no atual papel.
— Nathalia! — Gabidu entrava no departamento, coincidindo com Nathalia, olhou para a amiga com uma expressão confusa. — O que faz aqui? Achei que não teria cenas hoje. Não vi seu nome na grade.
— Bom dia pra você também, amiga! — Nathalia riu da falta de decoro da colega. — Vejo que saudade não sente de mim. — fez biquinho, fingindo tristeza.
— Deixa disso. — riu do comentário e cumprimentou-a com um abraço. — Claro que sinto.
— Então vai sentir mais. — piscou. — Não tenho cenas aqui. Eu estou indo pra carrancas gravar as cenas do Vale com Thiago.
— Mas já? — questionou. Gabidu estava consciente das cenas que se seguiriam na novela, por isso sabia que as que Nathalia citava demorariam a ir ao ar.
— Sim, aparentemente vão precisar trabalhar bastante nelas, por isso a pressa. Estou ate ansiosa, — sorriu — as cenas serão lindas!
— E quais cenas de Darcy e Elisabeta não são? Até eu shippo esse casal. — riu.
— Boba. — Nathalia soltou um riso. — Mas você tem razão, é impossível não se encantar com essa história.
Nathalia suspirou. Sabia que o término da novela estava diante de si e suspeitava que Elisabeta fosse uma das personagens que teria mais dificuldade em se desapegar. Elisabeta era uma obra prima e agregaria muito a sua carreira, mas, além disso, a sensação que sempre sentia ao interpretar a personagem era diferente de todos os papéis que já fez. Elisabeta era como mágica, Nathalia sentia-se dentro da personagem, que a tomava por sensações reais demais. Não hesitou nem por um segundo quando o papel lhe foi proposto. Adorava Jane Austen, a quem leu na infância. E orgulho e preconceito estava no rol de seus livros preferidos. Nathalia se desprendia da personagem como um trabalho e via Elisabeta como um presente. Um presente que tinha o prazer de vestir por todos aqueles meses de gravação.
Não era atoa que a crítica era constantemente positiva. Sempre foi de uma facilidade enorme a sua interpretação. Não só por a adoração a Elizabeth Bennet, mas por a familiaridade que sentia com a personalidade que Marcos Bernstein depositou em Elisabeta. Muitos dos trejeitos, falas e até atitudes de Nathalia foram postas nas palavras escritas pelo autor. Elisabeta era uma mistura de Nathalia e Elizabeth que fazia a moça levantar da cama e aprender todo dia uma nova maneira de amar sua personagem por a sua própria essência.
Uma voz tirou Nathalia daqueles devaneios quando ela chegava à porta de seu camarim para pegar alguns dos roteiros que havia deixado ali na noite anterior.
— Ô, minha parça! – A voz do Thiago tomou conta do corredor. Ele vestia uma camisa amarela, fazendo jus ao dia aberto.
— Thiago! – exclamou. O homem, ao se aproximar, passou os braços em volta da cintura de Nathalia, puxando-a para um abraço caloroso. Nathalia retribuiu, apertando-o um pouco.
E era sempre assim ao se encontrarem. Nathalia e Thiago eram bem opostos em seus gostos e personalidades. Enquanto Nathalia era um tanto espalhafatosa, Thiago era bastante reservado. Mas isso não foi empecilho para a amizade dos dois surgir e, contrariando essa questão, se adoravam e tinham um grande companheirismo.
Haviam se conhecido há alguns anos, quando contracenaram juntos em uma novela intitulada Joia Rara e, apesar de serem de núcleos diferentes, ocasionalmente se esbarravam nos corredores do estúdio. Mas nesse primeiro momento, conquistaram apenas uma pequena afinidade, já que suas conversas raramente eram longas. A amizade transformou-se quando foram chamados para Alto Astral. Nathalia fez a protagonista da novela ao lado de seu ex-namorado, que também era seu par romântico. Já Thiago fazia o vilão da teledramaturgia.
No começo da trama o personagem de Thiago tinha um envolvimento com a personagem de Nathalia e, mesmo que não fosse de fato o par da moça, mostraram-se bem envolvidos como dupla. Ali começou a amizade dos dois. Nathalia namorava e Thiago era casado. Mas isso não deixava com que os abraços contínuos quando se encontravam fosse negligenciado e nem que as conversas longas no camarim cessassem. O casal de amigos tinha muito em comum.
A grande euforia veio quando receberam o convite para contracenarem mais uma vez em Orgulho & Paixão. Thiago adorou o personagem, já que já havia lido Orgulho e Preconceito e gostava bastante de encarnar personagens do gênero. E, assim como Nathalia, aceitou de pronto. A surpresa de ser par romântico, depois das desavenças dos personagens anteriores, veio como uma grande alegria. Já admiravam o trabalho um do outro e sabiam que seria fácil demais contracenarem juntos por a intimidade que já possuíam como amigos. Nathalia lembra que quando encontrou Thiago nos corredores do estúdio quando foram pegar seus roteiros, prometeram um ao outro ser uma das melhores adaptações de Jane Austen.
E de fato aquilo estava se concretizando. Nathalia e Thiago se doaram tanto aos personagens que a novela se tornou uma das melhores da grade, assim como seus personagens continuam esbanjando química em todas as cenas que se seguem.
Nathalia e Thiago se separaram do habitual abraço de todas as manhãs e olharam um pro outro sorrindo.
— Já está pronta pra nossa viagem? – Thiago perguntou, passando a mão no cabelo e se encostando à porta do camarim de Nathalia. Nathalia entrou no camarim.
— Ai, Thiago. – colocou a mão na cabeça, pensativa. — Acredito que sim. – riu. – Se eu não esquecer nada, como sempre. – Thiago sempre brincava que Nathalia só não esquecia sua cabeça porque ela estava grudada ao pescoço.
— Claro que vai esquecer. E vai lembrar quando estivermos a quilômetros daqui. – brincou com a amiga, entrando no camarim e sentando no sofá. – Esses fones são seus? – Thiago pegou os fones que estavam atrás da almofada.
— Ah, meus fones! – Exclamou, pegando o objeto das mãos de Thiago.
Thiago riu de lado e balançou a cabeça enquanto a moça mostrava a língua pra ele. Ela sabia o que ele estava pensando.
Nathalia terminou de pegar os resumos e o pegou que tudo que era necessário e estava jogado no seu camarim.
— Bom, vamos?
— Vamos, parcinha! – Thiago respondeu, seguindo Nathalia no corredor. – E o resumo da cena do morro esta aqui. – tirou as mãos de suas costas. – Sabia que esqueceria um deles.
Nathalia encostou a cabeça no ombro de Thiago, arregalando um pouco os olhos e sorrindo travessa pra ele. Thiago negou com a cabeça. Eles seguiram.
A viagem transcorria tranquila, no carro estavam só duas pessoas da equipe técnica e a dupla de atores. Eles se revezavam ao dirigir.
— Thi, vamos fazer um vídeo. – Nathalia mexia no celular enquanto falava.
— Agora não, Nathalia. – respondeu.
— Thiago, por as nossas Darlisas? – chantageou enquanto encarava a tela. – Olha, elas estão pedindo. – mostrou a tela pra ele.
— Eu odeio aparecer.
— O que me deixa intrigada por o fato de você ser... um... – pausou a fala – ator?
— Atuar é diferente. – argumentou.
— Ai, deixa disso, Thiago. Vem!
Nathalia apontou virou a câmera, tornando-a frontal e enquadrou os dois. Thiago, dobrando-se as vontades de Nathalia ficou ao lado dela, inclinando-se um pouco, já que estava no banco da frente.
— Indo pra Carrancas. – Nathalia disse enquanto gravava o vídeo.
— Carrancas, estamos chegando! – Thiago completou.
— Daqui a algumas horas longas estaremos lá. – Nathalia continuou. A dupla sorria enquanto gravava o vídeo.
— Não doeu, né? – Nathalia brincou com Thiago ao desligar a câmera e voltar às suas mensagens.
— Só você me faz gravar essas coisas, parça! – disse Thiago. Adorava o humor de Nathalia, mesmo que bem diferente do seu.
— É que eu sou demais, né parça? – gabou-se, mandando beijinho pro Thiago.
A viagem transcorreu assim. A dupla conversava enquanto os outros dois revezavam-se no volante. Nathalia e Thiago não estavam na direção, já que haviam gravado na noite anterior e teriam uma cena logo que chegassem a Carrancas, sem muito horário pra descanso. Dessa forma a equipe técnica resolveu poupa-los.
Em um determinado trecho da viagem, o homem que estava do lado de Nathalia trocou de lugar com Thiago, já que no inicio da viagem o rapaz estava ditando o caminho para um dos que dirigiam e, não sendo mais necessário, era melhor que Thiago descansasse no banco de trás.
— Que sono. – Nathalia disse, passando as mãos nos olhos. Não havia dormido direito a noite, assim como Thiago, já que a externa da dupla durou até às 2 horas da manhã.
— Dorme um pouco, Nathalia. Eu também estou cansado. Sem contar que daqui a pouco gravamos mais uma cena.
— Mas aqui é desconfortável.
— Vem aqui. – Thiago a puxou para seu peito, fazendo com que Nathalia passasse as mãos ao redor da cintura dele. Ela sorriu.
— Mas aí não vai ficar desconfortável pra você? – perguntou com a cabeça sobre Thiago, levantando-a um pouco para encará-lo.
— Você é leve, Nathalia. E está esfriando. Vou me aproveitar do seu calor. – Thiago brincou ao proferir aquelas palavras. Mas isso não foi empecilho nenhum para Nathalia sentir um frio passar por todo o seu corpo e lhe arrepiar até a nuca. Já havia sentido aquilo em algumas cenas, o que era natural em sua profissão. Mas nunca fora do seu personagem. Apesar disso, deixou o comentário passar e tentou ignorar aquela sensação.
— E como Elisabeta já disse. Você é quase um colchão. – riu, lembrando de uma de suas falas. Thiago acompanhou seu riso, passando a mão nos cabelos de Nathalia.
— Então aproveita e dorme, minha parcinha. Esse colchão é pra poucas.
— Me sinto privilegiada. – Nathalia já fechava os olhos, e sentia seu corpo relaxar. Thiago também sentiu suas pálpebras pesarem e, em menos de dez minutos, eles viajaram ao mundo dos sonhos.
Nem 3 horas se passaram e os quatros chegaram no hotel.
— Gente, vamos acordar. – Um dos técnicos gritou ao chegarem no hotel.
Nathalia e Thiago não haviam saído da posição nem por um segundo. Desvencilharam-se, passando as mãos nos olhos e bocejando.
— Acho que dormimos bastante. – Nathalia disse, se espreguiçando.
— Com certeza. – Thiago riu, já abrindo a porta do carro.
Era final da tarde quando chegaram a Carrancas. A dupla fez check-in no hotel e todos foram para seu quarto. Apesar das horas de estrada, não poderiam se dar ao luxo de descansar em uma cama confortável, já que a externa ia começar logo naquela tarde. Nathalia e Thiago só trocariam de roupas e entrariam nos personagens, já que daqui à uma hora, teriam que sair para onde gravariam suas cenas.
Thiago ouviu a porta bater, estava colocando o terno de Darcy.
— Já vai. – Thiago se direcionou até a porta. – Nath! O que faz aqui? – estranhou.
— Preciso da sua companhia para comer.
— Eu já estou comendo. – abriu mais a porta para ver a bandeja que tinha em cima da cama.
— Ai, fui desprezada. – Nathalia brincou. – Só têm nós dois aqui e você ainda vai comer sozinho? Thiago, você não tem jeito!
— Não imaginei que não comeria no seu quarto. Não me culpe. – Thiago colocou as mãos pra cima, em sinal de rendição.
— Eu que deveria imaginar em como minha companhia em Carrancas é individualista. – sorriu. Nathalia conhecia o jeito de Thiago. O amigo gostava de fazer tudo sozinho. Ele ia ao cinema e ao teatro sozinho constantemente. Mas, naquele momento, ela queria companhia.
— Bom, você poderia me convidar para um almoço. – insinuou.
— A senhorita aceita almoçar o resto do meu almoço comigo? – entrou no jogo, levantando a mão a ela como um lorde.
Nathalia olhou para mão de Thiago estendida pra ela e caiu na gargalhada.
— Dessa forma eu vou te confundir com o Darcy.
— E vai se apaixonar? – desafiou.
— Cria vergonha na cara, Thiago. – deu um tapinha no ombro de Thiago. Nathalia entrou no quarto, negando com a cabeça. – Você é um safado!
— Você que deu a ideia. – levantou as mãos novamente. Fazendo Nathalia rir.
Thiago ligou para a recepção e pediu mais comida no quarto, os dois almoçaram envolvidos por conversas, brincadeiras e risadas, dessas que sempre arrancavam um do outro. A atmosfera quando estavam juntos sempre era excepcional e se descobriam todo dia em uma características diferente. Acho que isso que os ligava como opostos, a forma de se surpreendiam sempre com uma nova forma de pensar e como se adaptavam fácil um com o outro. Oposto também é complemento.
Mas a conversa com durou muito, logo foram chamados para irem para a externa, gravar as cenas de Darcy e Elisabeta.
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