Notas iniciais
Olá!!! Desculpem mesmo a demora! Essa fic demorou pra sair, como todas as fics nas quais estou trabalhando. Mas muito obrigada pelos comentários lindos que eu recebi, pelos favoritos e pelos leitores. Sério! Muito obrigada. Esse capítulo é onde os dois núcleos se juntam, mas o Gajeel não aparece ainda. Ele vem no próximo.

Enjoy.

Lisanna conseguia ouvir Cana gritando a plenos pulmões que o delegado era um incompetente que estava ocupado demais culpando as pessoas erradas em vez de procurar o agressor. E o delegado estava ocupado mesmo, gritando para alguém prender aquela mulher por desacato. Foi quando os instintos da albina se alarmaram. Cana não poderia ser presa, mas Lisanna não poderia machucar policiais, ainda mais aquele policial.

O que eu posso fazer? Cana não pode ser presa, eu deixei a espada em casa e não sou tão ágil sem os patins. Como criar uma distração? Não era um bom dia pra ter dar de boazinha. Eu sempre carrego alguma coisa! Droga! Respire Strauss! Respire. Não adianta você estourar, não é proveitoso. Não vai salvar ninguém e ainda vai se meter em problemas. Se o policial aparecer, não conseguirei fazer nada. Ainda foge da minha compreensão o efeito que ele tem sobre mim. Me acalma, na verdade, ele tira a minha vontade de assassinar ameaças, o que me deixa totalmente inútil. Fraca! Podia matá-lo, mas apenas pensar nisso faz com que eu me sinta enjoada. Será que eu preciso ir ao médico? Mas o que eu diria? Quem sabe eu pergunte algo pra Kinana? Sem divagação. É o momento de salvar a Cana.

Depois desse fluxo de consciência atípico, Lisanna traçou um plano rápido e de contenção de danos. Pegou a faca que estava enganchada em sua coxa e fez um corte irregular no braço, um corte amador, feito por alguém desesperado, provavelmente um viciado em abstinência. Agora, era o momento de procurar alguém que preenchesse aquele perfil.

A albina sabia que perto da delegacia era um ponto de uso de drogas. Ainda não tinha entendido o motivo daquilo, parecia mais uma provocação. Entretanto, ela não perderia o tempo dela divagando sobre isso. Tinha que salvar sua amiga da prisão certa, então foi até o beco, escolheu o que parecia mais alterado para executar seu plano, chegou próximo, deu um chute no cachimbo e esperou a reação.

O homem parecia um zumbi, tanto que nem percebeu quando ela salpicou um pouco de sangue nele. Lisanna era profissional, sabia forjar uma situação como ninguém e tinha conhecimento suficiente do código penal pra saber que o homem não seria preso. No máximo teria uma noite na cadeia, o que seria mais do que um favor. Um teto e uma refeição. A garota ficou feliz pela sua boa ação diária.

Quando ele reagiu, ela tentou gritar, mas sua condição de muda não permitiu, então, começou a correr em direção a Cana, que estava no meio do décimo xingamento para o delegado.

A morena soube no momento em que viu o sangue que se tratava de uma armação e detestou. Quando viu o sangue no ombro da outra, já concluiu que o que quer que tivesse cortado a garota, já estava na mão daquele pobre coitado que teve o azar de estar na frente de Lisanna. Cana não sabia até onde Lisanna era capaz de ir em nome dessa enorme lealdade, mas essa manipulação era assustadora. Entretanto, o mais assustador era a maneira a qual Lisanna justificava suas ações.

Aconteceu tudo dentro do planejado. Lisanna correndo com o ombro sangrando e uma pessoa que mais parecia um zumbi a perseguindo com uma faca na mão, que estava sangrando também. Cana já supunha que o ferimento estava completamente irregular, para não dar margem às dúvidas sobre quem o fez. Lisanna tinha esse tipo de minúcia.

Quando Lisanna alcançou os braços de Cana e ela a envolveu, percebeu uma sombra que se tratava de algum policial no cumprimento do dever. Claro que o ato não poderia acabar ali e Lis teve a presença de espírito de tremer e ainda fingir algumas lágrimas. Fingir sim! Ela tinha uma tolerância altíssima à dor. Cana podia se surpreender com as atitudes de Lisanna, mas uma coisa era fato: nada daquilo era porque a própria desejava. Era tudo sempre em prol de outrem.

O delegado estava completamente embasbacado. Primeiramente, estava acostumado com as mulheres simplesmente fazendo o que ele desejava, em quase todos os aspectos. Agora, quando uma mulher como Cana, que parecia ter nascido em berço de ouro, dar uma de esperta e ficar colocando defeitos no seu trabalho, ele perdia as estribeiras. O interessante foi que ela reagiu a isso. Não ficou com medo, mesmo quando ele urrou. Ela o olhou como se ele fosse uma barata. Pronto pra ser esmagado por aqueles saltos altíssimos e finíssimos, como se fosse um nada.

A mulher nem se encolheu com os gritos, gritos esses que transmitiam medo e pavor e uma noção de ordem e regresso. Aquele dia não estava normal.

Agora, tinha uma moça muito delicada com o ombro sangrando e encolhida nos braços daquela mulher. E um viciado imbecil que teve a pachorra de fazer isso na frente da delegacia dele. Uma providência era evidente. Caso Laxus prendesse Cana por desacato e não prendesse o homem por agressão, aquilo repercutiria de uma forma negativa demais à sua imagem de protetor da lei e da ordem.

Muitos não compreendiam a suposta proteção que Laxus dava aos viciados, principalmente aqueles que se instalavam próximo à sua delegacia. A questão era que o próprio Laxus era um viciado em recuperação e ele simplesmente teve as chances e a proteção devida. Passou por um tratamento considerado por muitos, invasivo, entretanto funcionou.

Embora a dependência química não seja uma doença passível de cura, a de Laxus estacionou e ele pode dizer que foi sortudo. Porque teve todo o tratamento disponível e apoio incondicional. O que ele tinha certeza que aquelas pessoas que perambulavam pela área policial não recebiam o mesmo, então Laxus, em uma forma pouco ortodoxa, começou a zelar pela segurança daquele pessoal. Alguns tinham onde dormir, não traficavam e nem roubavam quando estavam por ali. Era uma maneira dele zelar pela lei e pela ordem. Não muito ortodoxa.

Então, quando alguém usava ou ainda provocava ou ainda era atacado por aquele grupo específico, Laxus se sentia duplamente derrotado. Porque suas medidas não estavam dando certo e ainda não impunha respeito ou medo algum. As pessoas cometiam crimes debaixo do nariz da representação da ordem. Que tipo de gente idiota que faz isso?

O homem bufou e foi obrigado a segurar o simulacro de zumbi e levá-lo para dentro e chamou Natsu para atender a moça incrivelmente branca. Mas não sem antes ter a oportunidade de conversar mais com aquela mulher irritante que atendia por Cana Alberona.

“Por favor, quem é essa moça?”

“É minha amiga.”

“O nome dela?”

“Pra que quer saber?”

“Pra colher depoimento.”

“Não vai dar.”

“Não vai dar o que?”

“Pra colher depoimento.”

“Como assim?”

“Ela não fala.”

“Você está zoando com a minha cara.”

“Eu não sabia que um delegado podia falar tão informalmente assim.”

“Há poucos minutos, estávamos em um debate inflamado, onde você e eu estávamos trocando palavras pouco amigáveis pra pessoas que acabaram de se conhecer.”

“Você acha mesmo que não nos conhecemos, delegado? Essa foi a primeira vez que nos vimos pessoalmente, mas serei muito honesta. Você é o homem com quem eu mais converso nos últimos meses. Eu realmente o conheço, meu caro.”

Laxus não conseguiu formular uma resposta coerente para aquela afirmação que não poderia ser mais verdadeira. A única coisa que ele conseguiu gritar foi: “NATSU, VEM AQUI AGORA.”

Cana sentiu a amiga, tremendo em seus braços e finalmente soube o nome do policial que ela protegia. Sorriu resignada e só esperou o moço chegar.

“Fala Laxus.”

“Tenta recolher o depoimento dessa moça, enquanto eu ficho o Bob e tento descobrir como ele conseguiu uma faca dessa categoria e não trocou por umas pedras. Pode ser?”

“Claro.”

Natsu estava empolgado e não sabia dizer o motivo. Ele não gostava quando tinha que recolher depoimentos de mulheres. Aquilo geralmente significava que elas tinham se machucado. E pelo que ouviu na sala de Laxus, Cana Alberona poderia ter saído muito machucada dessa conversa. O rosado nunca tinha visto Laxus tão nervoso na vida, o homem urrava. O que era muito estranho, já que ele sempre se empolgava por um motivo ignorado quando Cana ligava. O natural seria que eles se dessem bem pessoalmente, não? Mas nada era natural quando Laxus estava envolvido.

Natsu foi se aproximando da dupla e viu um cabelo platinado com o qual ele sempre sonhava, ou melhor, era essa cor, mas o formato era diferente.

“Olá, boa tarde, meu nome é Natsu Dragneel e eu gostaria de fazer...” as palavras morreram quando Natsu chegou perto das moças e observou com mais cuidado a de cabelo platinado. Ele não conseguia abrir a boca e o ar parecia lhe faltar. “Natsu, se controle.”

“Gostaria de fazer...” Cana zombou.

“Perguntas. Isso, perguntas. Eu estou aqui para perguntar perguntas.”

“Pode começar.”

“Como é seu nome?”

“O nome dela é Lisanna. Ela não fala.”

“Não fala?”

“Não fala. Desde criança.”

“Oh, mas ela escuta?”

Sentiu um puxão e um leve menear de cabeça, da cabeça mais platinada.

“Me desculpe. Então, Lisanna, meu nome é Natsu e é um gosto conhecê-la, apesar de a situação ser muito ruim.”

Natsu teve a certeza que nunca viu um sorriso tão lindo na vida dele. E aproveitou para falar amenidades e teve a presença de espírito de chamá-la pra sair. Claro que foi um péssimo momento pra isso, já que ela estava com o braço sangrando e uns salpicos de sangue em seu gosto, que Natsu teve o ímpeto de lamber e se sentiu nojento por isso.

Quando achou que estava fazendo progressos, ouviu o trovoar da voz de seu superior dizendo o seguinte:

“Natsu, já recolheu o depoimento? Já tomou as providências? Porque eu não sabia que cena de crime era lugar pra começar a flertar com as pessoas. Principalmente com as vítimas. TOMA VERGONHA NESSA SUA CARA LARGA, RAPAZ!

Natsu nem se importava com as ofensas do chefe, mas aquilo significava que teria que sair de perto da moça, que incrivelmente despertava um lado completamente novo nele. Coisa estranha.

“Peguei. Ela não se lembra. Normal, não? E o que o Bob disse?” Natsu respondeu estoicamente, arrancando um olhar surpreso da moça.

“Disse que estava chapado demais pra se lembrar se machucou uma moça tão linda.” Laxus respondeu aos brados.

“E o que Vossa Majestade fará?”

“Vou liberar o Bob e você leva a moça pro hospital. Não, não leva. Libera a moça e a acompanhante. Pergunta se ela quer prestar queixa.”

Natsu fez a pergunta e recebeu uma negativa delicada como resposta. E em um ímpeto: “você tem celular?” Pega o meu telefone. Me manda uma mensagem, um dia desses.” Pega o papelzinho e uma caneta, anota o número com uma pressa nunca vista e entrega nas mãos delicadas e ensanguentadas. Despede-se e sai correndo.

Quando as duas se veem sozinhas na frente da delegacia, Cana começa com o sermão.

“Lisanna, você é louca? Eu podia muito bem ter saído dessa sozinha. Você não precisava ter feito isso. Agora temos que ir pro hospital, poxa vida! Tenha um pouco de cuidado. Eu sei que você é uma máquina, mas você não deixa de ser humana por isso, olha o tanto de sangue!!!”

A albina fica cabisbaixa, pega o celular e digita rapidamente. [desculpe, fiquei com medo dele te prender, Cana. Ele gritava tanto e eu não podia machucá-lo porque eu sabia que o Natsu estaria perto e eu travo perto dessa pessoa. Se ele te prendesse, não teria como eu te defender fisicamente.]

“Trava? O Natsu? Você quer dizer o policial? Essa pessoa é quem você cuida? Ah, Lis, mas mesmo assim. Não precisava. Eu também tenho os meus movimentos. Você não é minha guarda-costas! Você é a minha melhor amiga. Junto com a Kinana. Eu não consigo conceber uma vida sem vocês duas. Vocês são a minha família e como você acha que eu vou viver sem a minha família? Você nem pensou que você tem a mesma importância pra mim? Eu também rasgaria meu braço por você.”

[desculpe Cana. Só que eu não penso nessas coisas. Você deve ser protegida por mim. Você aceitou esse monstro como família e deve ser protegida por mim. Não pense que eu farei algo diferente disso.]

Cana simplesmente desistiu de argumentar em relação à proteção de Lisanna e tentou levar a albina para o hospital, mas recebeu um olhar tão menosprezado que foram para casa.

Chegando no abrigo, as duas viram Kinana conversando com as recém-chegadas, que pareciam menos tristes e quando a médica as viu, foi correndo ver o que tinha acontecido com Lis.

“Mas que merda é essa? O que aconteceu Cana?”

“Eu estava com problemas e Lis me salvou. Dá uns pontos. Ela está bem.”

“Que ela está bem é fato, mas o que ela fez pra ficar assim? Quem bateu nela?”

“Ninguém Kinana. Ela distraiu o delegado que estava a ponto de me prender por desacato.”

“Espera um pouco. Ela não feriu ninguém?- voltando-se para Lis. — “Você não machucou ninguém? O que foi isso?”

Lisanna pegou o celular e digitou uma mensagem. [aquele policial estava perto e eu não sou tão idiota a ponto de matar o delegado na frente da delegacia. Não tenho nada contra o delegado, mas claro, se ele prendesse Cana seria uma outra estória. Ele mantém uns viciados perto da delegacia, foi mais fácil que tomar doce de um bebê. Agora tem como você fazer uns pontos? Isso tá doendo.]

“Você fez um esquema de distração? Nada de born to kill?

Lisanna nem se dignou a responder a pergunta.

Kinana bufou e foi levando a albina para a enfermaria e Cana foi deixada sozinha com as duas moças. Tinha um clima mórbido no ar, mas Levy quebrou o silêncio.

“Olá, meu nome é Levy. A doutora falou que você é a responsável por aqui.”

“A doutora também é responsável e a moça do cabelo branco também. A diferença é que o meu nome está na escritura da casa, mas questão de responsabilidade, é a mesma coisa.” Cana respondeu sorrindo.

“Você precisa de ajuda?” Levy perguntou rapidamente.

“Ajuda?”

“Sim, de mais gente pra trabalhar aqui nesse abrigo. A doutora explicou que vocês deixam as mulheres ficar um tempinho, mas depois elas precisam sair, justamente por causa das instalações que são pequenas, mas se oferecermos nossa força de trabalho, não teríamos que necessariamente sair daqui, certo?”

“Não somos uma empresa e vivemos de doações. Não temos como pagar salários fixos e muito menos fazer um registro trabalhista. Não sei até onde isso seria interessante para vocês.” Cana respondeu séria.

“Dinheiro não é problema” — Juvia respondeu solene. — “Minha família é rica e separamos uma verba pra esses momentos. Como se fosse um projeto de vida. Claro, não direi que aconteceu a violência, mas tenho de onde tirar o dinheiro e acontece o mesmo com a Levy. Queremos ajudar e é uma causa necessária. Nos permita ficar, por favor.”

“E como explicarão isso? Porque pelo que parece, vocês desejam morar aqui. E a faculdade? Vão parar?”

“Não precisaremos explicar. E não precisaremos parar de estudar também. Na verdade, a gente terminou a faculdade há um tempo considerável. Só não quisemos voltar pra casa. A gente tem esse dinheiro e não gastamos muito. Fazemos cursos de extensão e aperfeiçoamento na faculdade, mas não tem créditos nem nada. Só que isso é muito teórico. E somos a favor de tirar benefícios das porcarias que acontecem. Nos deixe ficar.”

Diante daquilo, Cana não conseguia articular uma recusa. Elas tinham dinheiro, motivo e vontade. Só esperava que Kinana não tivesse incutido a ideia de vingança nas duas e que Lisanna não ficasse sabendo disso. Por mais que Cana estivesse receosa, era notório que o abrigo necessitava e muito daquela ajuda, mesmo que não fosse financeira. Só as três não eram capazes de fazer tudo o que era preciso. A morena respirou fundo e disse:

“Sejam bem-vindas, senhoritas. Espero que gostem.”