Se não fosse por você... Rufy
1 Capítulo 1 Pet Shop
Notas iniciais
— Alô, Pet Shop seu Pet é Show! Bom dia! – disse pela quinquagésima e nem eram 10:00 horas ainda.
Suspirei ao pensar que aquele dia seria especialmente difícil de lidar, receberia 3 cachorros, 2 gatos, 1 periquito e 2 louros. Não é que eu não goste do meu trabalho, pelo contrário me sinto infinitamente melhor com a companhia de animais do que pessoas, mas eu estava naqueles dias onde você acorda com o pé esquerdo e pensa “Hoje vai ser um dia daqueles!”, e não deu outra.
No meio do banho meu chuveiro queimou e tive que terminá-lo na água congelada. Saí de casa cedo, mas tive que voltar quase quatro quarteirões porque esqueci o guarda-chuva e a carteira, peguei o ônibus vazio (suspirei por finalmente algo ter dado certo até agora, mas não se deve cantar vitória antes de ter certeza, conclusão: me ferrei!) e quando estava na metade do caminho ele quebrou, o motorista parou o próximo e eu me senti como o gás do desodorante tudo comprimido em um espaço que era óbvio que suportava tudo aquilo (quase perdi um braço ao saltar, a famosa guerra do seu espaço). E para fechar com chave de ouro Tamy, a outra funcionária chegaria um pouco atrasada por causa da chuva, o tempo amanhecera com um céu carregado de nuvens pretas (não era nem cinza).
Senti uma cosquinha na perna e vi uma bolinha de pelos pequenina se enroscando, era Marrie a gatinha que morava na loja, foi achada na rua perto de uma caçamba de lixo. Seu pelo era branco puro, os olhos verde água e tinha 4 meses. Peguei-a no colo, acariciei suas orelhas (sou uma tarada por orelhas de animais, sempre brinco com elas).
— Olá Marrie! Só vem com carinho quando quer comida né?
Ela deu uma ronronada suave e me encarou.
— Ok, ok. Vou pegar sua comida e pode deixar que não vou esquecer os biscoitos de chocolate.
Os biscoitos eram para cachorro, mas ela simplesmente amava e eu não podia recusar a aqueles olhinhos brilhantes.
Quando estava próximo do relógio chegar ás 9:10h, ouvi o sininho da porta tocar e Tamy surgir com um guarda chuva na mão pingando e a barra da calça completamente encharcada.
— Céus! Esqueceram de me avisar que ia rolar um dilúvio, teria comprado um barco seria mais rápido! – ela praguejava enquanto lutava com o guarda chuva que insistira em não fechar direito. — Oie flor! Desculpa a demora.
— Oi Tamy! Está um tempo bem fechado hoje né? – Ela é uma pessoa muito amorosa e chama as pessoas de “flor e querido”, mesmo que não a conheça e isso a torna uma pessoa muito querida.
Aproximei com uma toalha, ela me agradeceu e foi para os fundos trocar de roupa. Fiquei parada a porta olhando o céu e ao longe alguns raios luminosos, parecia que os deuses gregos estavam dando uma festa e encostei a porta.
— Pronto! Agora estou bem melhor, deixei a calça pendurada no ventilador, espero que seque logo. E então flor, o que temos para hoje? Cadê o Gabriel?
— Bom, hoje vai ser um dia cheio... — e contei o que nos esperava. – Ele não vem hoje, dia de folga, lembra?
Gabriel era o nosso “dog-boy”, ele que ia nas casas das pessoas e pegava os animais quando solicitado. Eu sei que o nome sugere que ele só busca cachorros, mas a maioria dos nossos clientes eram de fato dogs.
— Hum, estamos bem enroladas hoje. Mas, é assim que eu gosto! Nada de bobeira e mãos na massa! – e sorriu.
Não demorou muito e nossa primeira cliente chegou, Dona Lurdes, tinha um poodle toy que mais parecia uma bolinha peluda. Era um dos poucos animais que me obedeciam.
— Oi Dona Lurdes! Oi Hércules, como vai meu rapaz? — Me aproximei e ofereci uma xícara de café.
— Oh, obrigada minha filha. Pensei que não conseguiria chegar inteira, está começando a ventar forte. Você trouxe agasalho? Vai precisar! Está um frio terrível, terrível. – Sorri, ela era uma senhora simpática e sempre me contava sobre seus netos e as travessuras que deixaram seu cabelo em pé.
— Bom, vou deixar meu menino com você, sei que vai estar em boas mãos como sempre. Tchauzinho Hércules e se comporte! – acariciou a cabeça do bichinho e saiu. Ele estava com uma roupinha de caminhãozinho e enrolado em uma toalha bem quentinha, entreguei-o a Tamy que logo tratou de lhe dar um banho morno.
A manhã passou lenta e arrastada, no fim os donos ligaram cancelando e só vieram os cachorros e um dos gatos que haviam marcado hora. O expediente acabou mais cedo graças ao mau tempo, coloquei minha toca, vesti o casado e me despedi de Tamy que ficaria para fechar a loja apropriadamente.
Enquanto lutava contra o forte vendaval vi ao longe um cachorro lindo que ao correr na chuva dava o contraste perfeito, sua aparência lembrava um lobo da neve, ela branco no peito e um fumê nas costas. Era a terceira ou quarta vez que o via correndo pelas ruas e uma figura ao longe desesperada atrás dele.
Não pude conter um risinho.
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