Se cuida, Luís

4 Capitulo 4 - O trio elétrico


Ele estava lendo um grande e grosso livro, quando me reconheceu, se levantou e deu palmadas na calça para tirar o sujo do chão.

— Opa! Você. Saíram mais cedo? — Ele me perguntou.

— Nada. Eu que saí.

— Por quê?

— Deixa pra lá. Longa história — eu disse quando notei a capa do livro que segurava. — Que livro é esse?

Ele ficou embaraçado: — Eita, longa história também.

— Diz, poxa — pedi.

— Só se me disser o porquê de você ter saído mais cedo — disse arregalando os olhos por cobrança.

— Ok. Eu disse para a professora que iria fazer uma consulta. Mas só estava com dor de cabeça e quis sair.

— Seu mentiroso — brincou.

Eu ri: — Então, do que fala esse livro que você tá tentando esconder de mim?

— É de bruxaria.

— Bruxaria?!

— É.

— Eu não sabia que livros de bruxaria eram permitidos numa escola, assim, de boa.

— É que não é bem de bruxaria. É de seitas e religiões exiladas, malvistas na sociedade.

— E por que você está lendo? — o questionei.

— Não é por mim. É pelo meu pai. Ele é bem supersticioso — guardou o livro na estante mais escondida da biblioteca, na última fileira. — Nesses dias, ele disse ter visto uma moça estranha, que o encarou por alguns minutos. Desde então, sua coluna dói muito. Até tá com uma unha encravada.

— Caramba!

— Você acredita nessas coisas? — me perguntou.

— Mais ou menos.

— Eu não.

— Então por que tá lendo sobre?

— Ele que me pediu.

— Deu certo?

— É... Não.

— Por que não olha na internet?

— Ah, não temos internet em casa — antes que eu pudesse enchê-lo de mais questões, ele disse: — meu pai diz que é prejudicial e não permite. Prefere contatos físicos e tudo mais. No máximo telefonemas.

— E como você lida com isso?

— Me acostumei há tempos. Nem ligo mais. É meio chato para trabalhos escolares, mas faço na casa de amigos.

Ele parecia cada vez mais interessante para mim. Cada resposta que ele dava me enchia de dúvidas ao seu respeito. Seu jeito, olhar, falar, nada igual aos que já vi. Eu queria conhecê-lo.

Nos encaramos em silêncio, ainda em pé na biblioteca, como se pensássemos em algo para falar:

— Você veio entregar algum livro? — ele me perguntou.

— Uhum. Descobrindo o mundo, da Clarice Lispector.

— Eu amo! — e mais uma conversa se iniciava.

Conversamos sobre livros, autores, arte. Me disse algumas obras que ele não gosta e eu o disse algumas que gosto. Me falou mais coisas sobre seu pai, como o fato de que ele é escritor. Aparentemente nos daríamos bem se tivéssemos a oportunidade de nos conhecer, eu disse, já leitura é tudo para mim.

— Preciso ir embora — falou olhando para o relógio e apanhou sua bolsa do chão.

— Eu também preciso — devolvi.

Saímos da escola e caminhamos pelo mesmo caminho por alguns quarteirões. Já íamos nos despedir, quando um barulho de batidas, que já se ouvia distante, vinha aumentando.

— O que é isso? — perguntei-o.

— Cara — ele disse em busca do barulho —, não faço ideia.

Uma multidão de pessoas entrou numa esquina na nossa frente. O som só ficava maior e as pessoas se aproximavam. Elas seguiam um trio elétrico que tocava músicas agitadas.

— Eu já sei! — o garoto gritou. — É o carnaval fora de época.

— Puts. Eu odeio esse tipo de coisa. Eles tão vindo, vambora daqui — eu disse, dando a volta.

— Você tá brincando?! Eu adoro isso — o ouvi dizer.

Pensei que ele tivesse me acompanhado, mas não. Me virei para trás e o vi correndo na direção do público.
Não sabia o que pensar. Na verdade, "o quê" foi a única coisa que pensei.

Não sei se existe alguma linguagem corporal que diga "eu não gosto de carnaval", mas se existisse, essa seria a dele. Eu estava surpreso.

— Ei! — dei um grito, porém ele não me ouviu.

"Depois falo com ele", pensei enquanto me virava de volta. Tenho problema com multidão e com carnaval. Mas também tenho problema com o "amanhã". Me lembrei que não sabia nem ao menos o seu nome e não quis deixar isso para o outro dia.

"Mas que droga", soltei para mim mesmo quando mudei meu caminho de novo e corri em sua direção, "o que eu estou fazendo?". Ele não corria rápido. Era como se esperasse, como se soubesse que eu iria.

— Olha só, você de novo — me disse quando o acompanhei finalmente.

Era quatro horas da tarde daquela sexta-feira do abril de 2012. O sol estava baixando, o céu estava cheio de nuvens brancas e dispersas. O tempo estava um pouco frio naquele dia. Pelo menos até o momento em que nós nos infiltramos no meio daquelas pessoas e ele me puxou pelo braço para que não nos perdêssemos, como se fossemos conhecidos o bastante para contato físico. Bem, a partir daquele momento nós éramos.

Era muita gente. Alguns bebiam, uns dançavam, outros pulavam, mas todos acompanhando a micareta que passava naquela pista principal, rumo ao centro.

Ele falou alguma coisa, mas eu não entendi. Pedi para que repetisse, e pela segunda vez, também não entendi, mas fiz que sim e sorri, porque ele sorria.

Eu tentava me controlar para não ter nenhum ataque de pânico ali. Ele era o único de camisa verde, eu não o perderia. E eu era o único com a camisa da farda, ele não me perderia. Mas o medo não era que nós nos perdêssemos, na verdade, o meu medo era que eu me perdesse.

— Ei, qual o seu nome? — perguntei, o cutucando, enquanto ele olhava todo mundo admirado.

— Meu nome é Patrick. E o teu?

— Me chamo Luís — respondi sem saber se ele tinha entendido.

Não sei em que momento me apaixonei pelo Patrick. Não me lembro a partir de que momento comecei a amá-lo. Mas eu diria que ao vê-lo correr para o meio daquele aglomerado, ao vê-lo curioso, tentando entender, se enturmar com aquelas pessoas, que pareciam tão diferente dele, algo me tocou, algo ainda mais forte do que aquilo que me tocou durante a nossa conversa. O cabelo dele já estava bagunçado pelo vento e em algum instante uma jorrada de cerveja caiu de cima do trio e o molhou. Eu teria ficado bravo, mas ele sorriu.

Não digo em comparação às bilhões de pessoas do mundo, mas digo em comparação às dezenas de pessoas que conheço: aquele garoto era especial. E eu gostaria de mantê-lo na minha vida.