Se cuida, Luís
5 Capitulo 5 - O prazer é todo meu
Seguimos o trio elétrico por uns dois quilômetros. Foi impossível continuar parado e calmo depois de cinco minutos o assistindo correr e dançar. Ele circulava no amontoado, jogaram glitter nele, confete, goma, água. Sua roupa mudou de verde claro para verde musgo. Eu só o seguia e ria muito, porque era cômico. Às vezes, quando não me olhava, eu fazia umas dancinhas rápidas e batia o pé. Se o eu de dois dias atrás me visse seguindo uma micareta, ele iria me xingar um pouco.
Eu fui saindo da multidão e puxando ele pelo braço, para demonstrar retorno por ele ter me tocado.
— Patrick, foi um prazer te conhecer. Moro aqui perto. Tô indo pra casa.
— O prazer foi meu. Obrigado por ter vindo comigo — ele estava sujo de tudo o que continha nos arredores daquele carro que continuava seguindo mais lá na frente. Eu também estava um pouco sujo, porque ele vez ou outra, pedia glitter dos foliões e jogava em mim. Como se quisesse me marcar daquele dia. — Eu sempre quis participar de algo do tipo, mas nunca tive a oportunidade. Foi irado — ele falou.
— Patrick, sobre você ter sido expulso hoje — iniciei —, aquela professora é muito durona mesmo. Mas não é tão difícil tirar notas boas na matéria dela. Cê vai recuperar os pontos perdidos rapidinho. Só precisa prestar atenção à aula e ler um pouco. Pelo o que vi de você hoje, acredito que goste de ler, então não é problema.
— Cara — Patrick pegou no meu ombro —, relaxa. De verdade. Aquele cão é conhecido, só late e não morde.
— Ahm? Você conhece a professora Rejane?
— Sim, e antes de tê-la como professora, eu a tinha como mãe.
Um “puta merda” explodiu na minha cabeça e deve ter refletido na minha expressão fácil.
— Sério? — eu perguntei incrédulo.
— Supersério — ele disse, coçando a cabeça.
— Nossa, mas não tem nada a ver.
— Pois é.
Fiquei encarando o chão por alguns segundos, calado, assim como ele. Nada fazia sentido. Não que antes as coisas fizessem algum sentido, mas só que naquela hora tudo parecia mais bagunçado. Uma questão não parava de me cutucar:
— Patrick, e por que ela te expulsou da sala?
— Acho que porque ela me odeia.
O silêncio voltou. Estava anoitecendo. Já não conseguíamos ver ou ouvir o som do trem elétrico. Patrick estava com o cabelo mais seco agora, duro até. Não deixava de ser bonito. O dia foi longo demais. E mais uma vez, eu iria me despedir, só que agora seria para valer. Antes que eu abrisse a boca, ele abriu:
— Meu pai deve estar morrendo.
— Você deveria ter ligad... — pausei. — Ah, aposto que não tem celular, né?
— Acertou.
Nos despedimos com um aperto de mão. “Até amanhã”, um falou para o outro. E ele partiu.
Minhas pernas queimavam quando fui para casa. Tinha andado muito naquele dia. No caminho, ainda estava refletindo sobre minha professora ditadora de geografia, que é mãe do meu novo e legal amigo. Todas as minhas suposições para a expulsão de Patrick estavam longes de estarem certas.
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