Se cuida, Luís
3 Capitulo 3 - Expulso
Notas iniciais
Se passaram algumas horas dentro de três minutos. Olhava o tempo no relógio e sentia algo me revirando. Num movimento de reflexo, quando a turma já tinha voltado com a atividade após a saída do garoto, levantei o braço.
— Professora Rejane?
— Pode dizer — ela parou de ler o livro e me olhou pelos óculos.
— É que... eu quero sair de sala.
— Idas ao banheiro somente no intervalo.
— Não, professora. Eu quero sair da sala mesmo. Tipo, ser expulso.
— Oi? — ela soltou o livro na mesa e fez um olhar de questão.
— Eu estava conversando com aquele garoto que a senhora expulsou. E não acho que seja justo só ele sair de sala e eu não.
Senti que nesse momento as pessoas pararam suas atividades novamente, só que para me olhar.
Eu não consegui ter forças sequer para movimentar minha visão. Estava realmente concentrado em não desafinar tanto ou tremer demais, coisa que já estava fazendo.
Ela acalmou as sobrancelhas: — Bem, você sabe que isso vai te tirar dois pontos, não sabe?
— Sei sim — mas não sabia. Não poderia voltar atrás com toda a sala de plateia — Tá tranquilo, professora. — E não estava tranquilo. Eu estava agitado por dentro. Aquilo parecia ser libertador. Eu queria sair.
— Então tudo bem, deixe a sala.
Me levantei e sai com passos altos para chegar mais rápido à porta. Meus braços estavam duros e colados ao corpo. Naquela hora consegui olhar para a sala e confirmar que realmente estavam me assistindo. Quando fui chegando perto da porta, Rejane disse:
— Ei!
— Oi?
— A bolsa. Hoje todas as outras aulas são minhas.
— Ah, ok — e voltei pra pegar a bolsa, mais desengonçado ainda.
Nunca entendi a razão da professora Rejane não ter me expulsado naquele dia. O novato estava conversando com alguém, que no caso era eu. E por que só ele saiu e teve ponto retirado?
Na minha cabeça criei hipóteses.
A professora não foi com a cara dele.
·A professora quis mostrar como funciona o sistema nas aulas e puni-lo logo de cara pareceu uma ótima forma de fazer isso.
· A professora gostava de mim e fingiu que não me viu, só para não ter que me punir — mas como ela gostaria de mim? Não que eu fosse odiável, mas eu era tão neutro e invisível. Talvez ela não sabia nem do meu nome.
· A professora era maluca.
Antes de fechar a porta, ouvi de um garoto que estava sentado lá próximo algo meio que "isso sim que é ser homem". Como se só com o homem estivesse o direito de ser honesto, corajoso, atrevido e impulsivo — ter sido chamado de qualquer um desses adjetivos cairia bem melhor do que "homem". Mesmo assim, eu saí reluzente.
Pensei que ou o novato estaria lá fora sentado, ou já teria ido embora. Ao sair e dar de cara com o vazio, a segunda ideia era a mais convincente. Ele com certeza havia partido. Eu só queria me desculpar. Dizer como eu sentia muito. Falar que a Rejane era muito grosseira mesmo, mas tirar nota boa para compensar os pontos perdidos não era difícil. Mas ele já tinha partido e eu, ainda na flor da emoção, tentava me acalmar com a ideia de fazer aquilo no dia seguinte.
Passei na biblioteca para entregar um livro que estava comigo pela terceira vez, "A descoberta do mundo", de Clarice Lispector. Entreguei-o, e fui ver nas estantes de estrangeiros se tinha coisa boa. Um garoto estava sentado com as costas apoiadas na parede de plástico da biblioteca. Suas pernas estavam cruzadas e ele lia algum livro grande, de capa grossa. Foi quando ele espirrou nos meus sapatos, tendo que levantar a cabeça para me pedir desculpas e eu abaixando a minha para dizer "saúde", que eu o reconheci, assim como ele me reconheceu. Era o novato, o garoto que não ligava em ser expulso de sala e me fez ser expulso por ele.
E eu achando que ele tinha ido embora.
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