Screams and Silence
1 8 de Agosto de 2014
Notas iniciais
xx
"E por fim, esse é o seu quarto." O cara provavelmente sorriu, mas eu tava muito ocupada ignorando ele para notar. Entrei no que era meu "quarto" e me sentei na cama.
Na verdade, aquele lugar era bem simples. Tinha uma janela que dava vista pra floresta, uma cama com pernas de metal, uma escrivaninha de madeira branca e uma cadeira de metal branca. Tudo muito simples, porém nada afiado. Tinham medo de que eu fizesse o que já fiz tantas vezes antes...
Tudo bem, eu vou explicar tudo desde o início...
Faz três meses que Daniel, o amor da minha vida, foi atropelado por um estranho. Ele morreu na hora e a culpa é toda minha. Ele havia saído para comprar cigarros para mim.
Eu sei que sou muito nova para fumar e essas coisas, mas sabe, aquilo tornava-me tão leve. Como se eu fosse a fumaça que expelia do meu corpo após cada tragada.
Desde que Daniel se foi, eu não tenho comido direito, ou tomado banho, ou ido a escola ou feito qualquer coisa. E acho que isso preocupou um pouco a minha mãe já que ela me jogou num hospital para loucos.
Loucos que nem eu.
Quer dizer... Eles dizem que eu sou louca. Eu sou louca?
Enfim. A minha mãe também me deu esse caderno que eu deveria anotar as coisas que acontecem aqui ou que eu sinto. Isso aconteceu quando... Bem, você sabe. Mas eu só resolvi escrever agora. Acho que nunca precisei. Ou nunca me senti tão sozinha como agora.
Ok, você já percebeu que eu vou escrever bastante o que eu penso porque afinal, o diário é meu e pronto.
Só mais uma coisa: Eu não sou louca.
E agora, eu vou te contar um segredo: Às vezes, eu escuto vozes. Pessoas falando comigo. Mesmo quando eu estou sozinha. Estranho, não é? Nunca vi ninguém, mas por vezes ouço essas pessoas.
Mas não fique com medo, querido caderno. Vai ficar tudo bem.
Ao chegar no hospital, eu conheci uma enfermeira muito delicada. O nome dela era Mary Margaret. Na verdade, ela não é uma enfermeira, ela é voluntária. Mas foi a responsável por me levar para comer e trocar de roupa e essas coisas. Depois veio um outro cara que me mostrou as coisas por aqui. Comecei a escrever pela parte que eu chegava no quarto porque foi quando finalmente fiquei sozinha e pude fazer o que quisesse. Antes disso é só um desperdício. Só gastaria papel.
Fiquei sozinha durante algumas horas, quando finalmente vieram me chamar para jantar. Eu não estava com muita fome, mas comi um pouco. Conheci um cara. O nome dele era Jefferson. Ele tem mais ou menos a minha idade e já tá aqui faz 3 anos. Ele não me disse o motivo de estar aqui, como também não perguntou o meu, o que foi legal da parte dele. Acho que vou ficar um tempo com ele. Jefferson parece ser um garoto legal e me explicou como as coisas funcionam. Me levou para ver a sala de TV onde me apresentou pra algumas pessoas que agora, eu não lembro o nome.
Depois disso, ficamos sentados assistindo algum filme que eu não sei qual é. E eu também não prestei atenção. Eu fiquei pensando em Daniel. Eu sinto a falta dele demais.
Também tem um garotinho aqui no hospital. O nome dele é Henry e eu não sei o que ele tem. Ele parece tão sensível e sozinho.
Quando o filme acabou, eu fui falar com Henry.
"Então... Eu sou a Regina" Obviamente sorri, também não sou tão dura assim... Né?
"Eu sou o Henry." O garoto sorriu, era tão fofo.
"Henry? Que nome bonito. Era o nome do meu pai." Sinto falta do meu pai também. Mas ele morreu, eu era muito pequena, quase não lembro dele.
"Em que quarto você tá, Regina?"
"8B"
"Nossa... É na ala dos adultos... Quantos anos você tem?"
"16. O que é a ala dos adultos?"
"É o corredor onde só moram adultos. O Jefferson tá lá também." O pequeno menino apontou para o meu mais recente 'amigo'. "Mas não se preocupe. Os adultos são mais legais do que as crianças daqui... Eles me entendem."
Não tinha muita certeza do que isso significava, então apenas sorri e Henry correu até a estante de livros. Eu me levantei e sentei de novo no sofá, ao lado de Jefferson.
Alguns minutos depois, ouvi alguém me chamar.
"Pssss. Regina" Era mais pra um sussurro do que qualquer outra coisa. Olhei para o lado e Henry estava sentado no chão do outro lado da sala, me chamando. Andei até ele e sentei do seu lado. No seu colo, havia um livro grande com uma capa marrom e alguns detalhes em dourado. "Olha só isso." O garoto abriu o livro e apontou para uma foto. "Você sabe o que é isso?"
"São... Contos de fadas, não é?"
"Não. Esses são de verdade. Eles aconteceram de verdade." Henry olhou quase na minha alma e eu percebi que ele falava sério. Ele realmente acreditava nisso? Bem, pelo menos agora não precisava mais me perguntar porque ele estava aqui... Tadinho...
Depois da minha conversa estranha com o Henry, voltei para o quarto e ouvi meu pai falando comigo. Nós conversávamos sempre e eu simplesmente não conseguia entender porque Daniel não vinha falar comigo! Isso me frustra tanto! Eu contei a meu pai sobre Henry e ele ficou feliz de saber que eu havia feito um amigo.
Alguns minutos se passaram e um médico entrou.
"Boa noite, Regina. Tudo bem?"
Eu tava deitada na cama, olhando para as árvores fora da janela, de costas para a porta.
"Aham."
"Eu sou Robin, e vou ser seu médico enquanto estiver aqui."
"Aham."
Ele pigarreou antes de continuar falando comigo.
"Pode olhar para mim um segundo, tenho que te examinar."
Eu me descobri e sentei. A primeira coisa que vi, foi uma tatuagem de leão por debaixo da manga do jaleco. Robin era bem bonito. Alto. E parecia ser bem novo, na verdade. Ele me fez algumas perguntas sobre a minha vida, deu uma olhada nas minhas pupilas ou algo do tipo, me deu um pirulito (achei que estivesse na ala adulta...), sorriu e saiu.
Ele era bem simpático na verdade.
Então eles apagaram as luzes, e eu tive de dormir.
Na verdade, fiquei acordada a noite toda. Pensando em Daniel. Pensando em Henry. No pequeno Henry, não o meu pai. Provavelmente a noite mais torturante da minha vida.
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