Screams and Silence
2 9 de Setembro de 2014
É, eu sei que faz algum tempo que eu não escrevo aqui. Mas vou contar tudinho que aconteceu, não se preocupe.
Na verdade, esses dias passaram bem devagar. O Jefferson ficou doente e passou umas três semanas trancado no quarto dele porque era contagioso. Durante esse tempo, tive que fazer novas amizades. Me aproximei bastante da Mary Margaret, a voluntária. Ela me deixou bem mais a vontade do que qualquer outro por aqui. (...) E ainda tem Henry. Eu sei que ele tem metade da minha idade e continua com a fixação pelo livro de contos de fadas. Ele até me disse que eu fazia parte dele e era a Rainha Malvada da Branca de Neve. Sério, garoto?!
Apesar de tudo, ele é uma ótima companhia. Nós nos damos super bem e passamos bastante tempo juntos. Eu às vezes ajudo ele nos deveres de casa e ele parece gostar bastante de mim. Isso quando ele não tem medo de mim por eu ser a "Rainha Malvada".
E também tem o Dr. Robin. Ele tem cuidado de mim e... Eu tô começando a achar que... tá rolando alguma coisa entre a gente, sabe?! Outro dia, eu tava pintando na sala de artes e ele entrou e se sentou do meu lado.
"Regina." Quando percebi que não tava sozinha, parei de pintar e olhei pra ele. "Eu tava imaginando se a gente poderia conversar."
"Ah, claro." Empurrei o que tava fazendo um pouco mais para longe e me sentei de frente para ele. "Sobre o que quer conversar?"
"Sobre você na verdade."
"E...eu?"
"Sim." Ele olhou pra todos os cantos da sala, menos para mim. "Eu sei que você consegue falar com quem já se foi."
Ele finalmente olhou pra mim e eu arregalei os olhos.
"O que? Nã...Não. Como assim?" Fiz o melhor que pude para disfarçar e acho que não consegui, porque logo depois, Robin sorriu e falou:
"Não precisa negar, Regina. Eu sei que é verdade."
"E é agora que você nunca mais vai falar comigo, eu entendo."
Abaixei os olhos porque não conseguiria suportar mais uma pessoa me abandonando. Principalmente naquele lugar. Onde não deveríamos julgar uns aos outros.
"Regina, eu..." Robin segurou minha mão e se abaixou no chão para entrar no meu campo de visão. "Eu nunca vou deixar de falar com você. Principalmente por uma coisa tão banal quanto essa." Ele acariciou minha bochecha e sorriu. O que me fez sorrir.
"Mas eu... Eu sou louca."
"É exatamente por isso que você é completamente normal." Confesso que fiquei um pouco confusa com essa parte e ainda não entendo muito bem, mas ele continuou falando. "O primeiro paço para a sanidade é não afirmar que é normal. E quem precisa ser normal hoje em dia? Cada um é especial do seu próprio jeito. Você é especial porque é linda, madura e se importa com o sentimento dos outros. Como o de Henry. Você sabe que é loucura aquela história toda de livro, mas você não fala nada. Sabe que isso iria magoá-lo. E é por isso que você é especial. Você é assim e eu não poderia ter pedido para conhecer alguém melhor que você." Ele endireitou a coluna e ficamos praticamente da mesma altura.
"Então... Você me acha linda, é?" Robin sorriu e corou um pouco.
"Mais do que isso, eu te acho maravilhosa." Dava para ver que ele sorria com os olhos. E apesar de estar chovendo muito do lado de fora, pela primeira vez em meses, meu coração não estava frio como as gotas d'água que molhavam a janela. Eu finalmente conseguia senti-lo contra algum órgão oco do meu corpo. Robin chegou cada vez mais perto e ambos sabíamos que nenhum de nós recuaria.
Nossos lábios se tocaram e periodicamente, nos afastávamos para recuperar o fôlego. Suas mãos percorreram as minhas costas e eu pude sentir o seu corpo contra o meu. Segurei sua nuca e o beijei de verdade. Exatamente como fazia com Daniel. Beijei seus lábios e pescoço. Robin beijava-me e mordia meus lábios.
A hora de parar foi quando um belo trovão ecoou ao longe e a luz do prédio acabou. Vários pacientes gritaram de susto e me afastei de Robin. Aquilo era tão errado. Ele era meu médico! Lambi os lábios e no escuro, me afastei dele, tentando encontrar o caminho de volta ao meu quarto.
O beijo não sai até hoje da minha cabeça. Já faz mais de uma semana e desde então, eu tenho o evitado, mas não posso fazer isso para sempre.
No dia seguinte, Mary Margaret veio me visitar e resolvemos jogar poker com Henry. Naquele dia todos havíamos ganhado cupons para pegar biscoitos no jantar, inclusive Mary, então, apostamos as fichas.
Após ensinarmos Henry e jogarmos um pouco, eu vi Robin passando pela sala. Ele acenou pra mim e sorriu, e eu desviei o olhar.
Depois disso não consegui me concentrar mais no jogo e Henry ganhou todos os meus biscoitos. Passei então, a ser a banca. Até o garoto ganhar as fichas da Mary e sorrir de orelha a orelha. Depois, ele nos deu uns dois cupons e foi brincar com o livro dele.
"O que aconteceu, Regina?" Eu tava embaralhando as cartas tentando não olhar pra qualquer lugar que Robin pudesse estar.
"Nada. Tá tudo bem."
"Não, não tá. Do nada, você perdeu completamente o interesse do jogo. E querida, você ganharia de nós, de lavada, se continuasse prestando atenção." Mary apoiou sua mão no meu braço e eu estremeci.
"Tá tudo bem, Mary. Sério."
"Quando quiser contar o que aconteceu, me avisa, tá bem?"
"Tá bem. Obrigada." Finalmente olhei pra cima e me deparei com Mary olhando e sorrindo pra mim. Não pude evitar de sorrir e me sentir como se ela fosse minha amiga de verdade. Foi a primeira vez que a vi assim.
"Eu beijei o Dr. Locksley. Ontem de noite, durante a tempestade."
"Quem?" Ela pereceu um pouco surpresa.
"O Dr. Locksley!"
"Eu.. Não o conheço."
"Como não?! Ele tá aqui de noite normalmente..."
"Ah, eu quase nunca tô aqui de noite. Deve ser por isso que eu não o conheço."
"Ah, deve ser. Mas enfim, eu beijei um médico. Isso não é errado?"
"Olha Regina... Sim, é errado. Mas, ele te parou?! Como foi? Me conta!"
E aí eu contei a história toda e Mary ficou um possuo perplexa, porém feliz por mim, eu acho.
"Mary... Você acha que algum dia eu posso sair daqui e ser voluntária que nem você?"
"Claro que sim, querida. Você sabe por que tá aqui, não sabe?"
Refleti um pouco sobre a pergunta e, eu sabia sim. Minha mãe tinha me deixado lá porque eu tinha depressão e ela achava que não poderia me ajudar, mas, eu estava melhor, não estava? Bom, eu tinha achado que sim, até alguns dias passarem.
Alguns dias depois da conversa com a Mary, eu tava terminando a minha pintura e vi o Robin conversando com uma garota loira. Ele tava de jaleco como sempre e ela usava uma jaqueta vermelha e calça jeans. Não dava pra ver o rosto dela mas ela era loira e tinha o cabelo meio cacheado. Parecia que eles estavam flertando e fiquei um pouco triste com aquilo porque achei que realmente havia acontecido alguma coisa entre a gente, então eu voltei pro meu quarto e deitei na cama.
Acho que ele me viu passando porque logo depois de eu deitar, ele apareceu no quarto.
"Regina... Eu tava imaginando se a gente podia conversar."
Eu não respondi e ele tentou de novo.
"Eu não sei o que você viu, mas ela é só minha amiga."
Eu continuei sem responder, e ele tentou mais uma vez.
"Regina, eu realmente acho que a gente deveria conversar..."
"Dr. Locksley," antes que eu pudesse terminar, ele suspirou "acho que a gente não tem nada para conversar."
"Mas eu quero ouvir o que você tem a dizer." Ele fechou a porta e acendeu a luz. Andou até a minha frente e sentou na cadeira de metal. "Você vai falar comigo?"
Não olhei para ele, ou respondi, ou fiz qualquer coisa. Apenas fiquei deitada. Encarando o chão.
"Regina, por que você não tá falando comigo? Eu te disse que nunca vou desistir de você. E essa é uma das vezes no qual não vou." Ele suspirou e se levantou.
Eu sei que o deveria ter impedido, mas ele saiu do quarto e fechou a porta atrás de si. Suspirei e fiquei um bom tempo acordada até enfim levantar e apagar a luz.
Olhei no despertador que eles haviam me dado alguns dias antes e o relógio batia 00:47am. Abri a porta e saí do quarto, procurei pelo quarto do Henry na ala infantil.
Andei bons dez minutos até finalmente achá-lo. Entrei no quarto do garoto e me aproximei da cama. Ele estava dormindo com o livro aberto em alguma página aleatória, o abajur estava aceso e eu tirei o livro do colo dele. Antes de fechá-lo, percebi que Henry tinha feito algumas anotações no livro. Me sentei na escrivaninha e comecei a ler o que o garoto tinha escrito "Regina = Rainha Malvada" "Mary Margaret = Branca de Neve" "Regina e Mary Margaret estão se dando bem" "Jefferson = Chapeleiro" "Chapeleiro odeia Rainha" "Jefferson e Regina se gostam". As afirmações estavam ficando um pouco confusa e cada vez mais malucas. Não éramos contos de fadas. Estávamos presos num lugar para loucos! Como isso pode ser um contos de fadas?!
Fechei o livro de qualquer jeito e olhei para Henry, preocupada de que ele pudesse ter acordado. Cheguei perto da cama dele e apaguei o abajur. Deitei do lado dele e dormi até o dia seguinte.
Desde essa noite, eu passei praticamente todo o tempo no meu quarto, quando a Mary chega, eu peço para não vê-la ou o Jefferson ou o Henry. Não posso evitar que Robin venha já que é meu médico. Mas quando ele o faz, pergunta algumas coisas, me examina, escreve na prancheta que eu preciso de um novo anti depressivo e sai do quarto.
Noite passada, quando ele veio me ver, ele sentou na minha frente e perguntou:
"Já tá pronta pra me contar o que houve?"
Fiquei quieta alguns segundos e ele suspirou para depois se levantar.
"Espera." Eu sentei na cama e ele se virou para mim "Você não vai mesmo desistir?"
"Não. Eu prometi."
"Eu tô te libertando da promessa." Olhei pra baixo.
"Eu não quero ser libertado." Ele sentou na cama e segurou meu queixo. "Eu gosto de você, Regina. De verdade. E a Emma é só minha amiga. Na verdade, ela tava me dizendo como eu podia me aproximar de você depois do nosso beijo... A Emma é lésbica." Ele sorriu, o que me fez sorrir também.
"Aquele dia... Você olhou pra trás?"
Robin suspirou e se afastou de mim.
"Desculpe, eu não..." Ele me interrompeu tocando a minha coxa.
"Eu olhei pra trás."
Ficamos nos encarando por um tempo até que ele me beijou.
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