Schyler
10 Anjos e demônios
Notas iniciais
Caleb não deveria ter perguntado aquilo, agora havia algo dentro de mim dizendo que eu não deveria ter respondido “tenho”, ainda mais porque não possuía tanta certeza assim se queria mesmo saber o que estava acontecendo. Tristan estava muito nervoso ao meu lado, o corpo tenso de uma forma em que só conseguia mover os braços, às vezes batendo-os em mim.
Os dois se entreolharam algumas vezes, quase como se comunicassem mentalmente tentando deixar-me alheia ao que acontecia. E sinceramente, isso estava me deixando nos nervos.
- Tudo bem, se você tem certeza do que quer, vou lhe dizer o que está acontecendo, Schy. – senti um calafrio percorrer meu corpo. – Lembra-se quando me viu pela primeira vez e... logo depois disse alguma coisa sobre eu ser quem salvou você do bêbado?
Assenti com a cabeça e logo, imagens intensas do dia em que fui atacada percorreram minha mente. Mais um arrepio.
- Bom, realmente era eu naquela noite. – não fiquei surpresa, seus olhos já haviam o entregado. – Há um motivo para... eu ter feito o que fiz.
E assim, mais uma vez o silêncio reino completamente no recinto. Ninguém disse nada por longos segundos e provavelmente não o fariam, pois aquela frase ainda estava sendo raciocinada por meu cérebro. Se ele tinha motivos para ter feito o que fez, ainda restavam dúvidas naquilo tudo: quais eram os motivos?
- Você não vai acreditar. – voltou a dizer. – É tudo muito diferente do que está acostumada, mas não vou mais esconder nada de você, Schy, pois sei o quão curiosa pode ser. – ele e Tristan se entreolharam mais uma vez. – Eu... eu e Tristan não somos como você. Já deve ter percebido que ele... é o que muitos de vocês mundanos chamam de...
- Anjos. – interrompi colocando a palavra instantaneamente em sua boca. – Vi o que ele fez com aquela coisa que quase me matou. Ele... tinha asas e, acho que uma espada.
Tristan se remexeu de uma forma agoniada.
- Exatamente. – disse Caleb. – Tristan... é um anjo, Schyler. Pode ser estranho, mas você está envolvida em coisas que provavelmente acreditou que não existiam. – senti a tensão em sua voz, como se o que estava dizendo não fosse permitido.
Não era verdade sobre minha crença em anjos, o fato era que sempre acreditei de alguma forma neles. Quando eu era criança, mais ou menos 9 anos, tive um sonho muito estranho em que recebia a visita de uma pessoa com ar protetor e no outro dia, acordei com a palavra anjo rondando minha mente. Eu sempre soube que aquela, havia mesmo sido uma espécie de visita de um ser celestial, mas nunca levei tão a sério.
Até agora.
Porém, preferi não dizer nada daquilo para os dois, pois tinha uma certa impressão de que eles já sabiam sobre isso.
- Ok, anjos existem, Tristan é um deles, mas o que quero saber, é o que tenho a ver com tudo isso? – perguntei tentando juntar todos os fatos sem esquecer de nada.
Caleb engoliu um seco, ficando mais sério que o normal.
- É minha culpa o demônio a atacar no mercado. – disse de uma vez, sem me dar chance de pensar. – E também o porquê de seu pai não a querer, é minha culpa você estar envolvida com os anjos e demônios... é tudo minha culpa. – Caleb abaixou os olhos quando arqueei as sobrancelhas de nervoso. – Eu... eu sou como Tristan, mas ele ainda pode ir ao céu, eu não posso mais, pois sou um anjo caído, Schyler. Fiz.. uma coisa a qual não me orgulho muito no passado e por isso, você está envolvida nisso.
Minha respiração se tornou ofegante. Foi como se o mundo inteiro girasse ao meu redor, minha mente ficasse confusa e difícil de raciocinar. Caleb e Tristan eram anjos, o que me atacou no mercado era um demônio e... o culpado de eu estar envolvida nisso... era Caleb?
Mas que merda está acontecendo?!
- Não... não, não, não!! – me levantei do sofá. – Isso não está certo! Eu fui abandonada porque meu pai não me queria, o bêbado me atacou no beco porque era... um bêbado!! E aquela coisa me perseguindo no mercado, só estava ali, pois achava que eu conhecia um tal de Gabriel!! Eu não estou envolvida com seu erro do passado, Caleb!
Ele moveu a cabeça de forma negativa.
- Se ficar quieta, eu posso contar exatamente o que aconteceu. – ordenou, de uma forma que me fizera voltar a sentar no sofá. – Aquele homem que a expulsou, não é seu pai. Schyler, você é uma mestiça, filha de um humano e um anjo caído das eras passadas. Alguns chamam de Neflin, mas nós anjos caídos, preferimos chamar vocês de mestiços. Seu pai soube isso quando você era pequena e disse ter recebido uma visita de um anjo, ele sabia sobre seu verdadeiro pai, então não a quis mais, achava que você era um mau presságio.
Eu tive que piscar muitas vezes para compreender o que ele havia acabado de dizer. Neflin? Mestiça? Meu pai verdadeiro é um anjo caído?
Droga.
- Eu... eu sou o que? – foi tudo que consegui dizer, pois tremia muito. – Então... quem é a pessoa que o demônio estava atrás? Quem é Gabriel? Ainda não entendendo o que você tem a ver com isso!!
Caleb olhou bem fundo em meus olhos sem desviá-los nenhum segundo sequer.
- Schyler... – murmurou. – Eu sou o arcanjo Gabriel.
[...]
Eu estava paralisada, as mãos suavam e tremiam, minha mente não registrava mais nada além do que meus olhos viam em minha frente. Eu podia distinguir as imagens de Caleb (Gabriel?) e Tristan tentando me tirar do transe, colocando algo gelado em minha testa e até mesmo gritar meu nome.
Mas... eu estava em silêncio por dentro.
Caleb era um anjo caído, ex arcanjo Gabriel, usava o nome de agora para fugir dos demônios que os perseguiam, pelo menos essa foi minha conclusão. Meu pai nunca fora meu pai, na verdade sempre foi algum anjo caído desconhecido e eu... era uma mestiça, de acordo com Caleb.
Não consegui compreender mais nada além disso, pois ainda faltavam o porquê de ele ter me salvado do bêbado no beco e... qual foi seu erro do passado.
- Schyler, pelo amor de... droga, não posso falar isso. – ouvi a voz de Gabriel dizer perto de meu rosto. – Tem que dizer alguma coisa, eu sei que é difícil, mas era isso que você queria saber: o que está acontecendo.
Pisquei algumas vezes, mostrando aos dois que havia acordado do transe.
- Ainda bem, já estava achando que você matou a garota. – Tristan soltou um risinho abafado, seguido por um tapa forte de Gabriel bem no braço do anjo.
- Quieto, Tristan. – murmurou ele e logo depois se voltou a mim. – Você entendeu o que estou dizendo, Schy? – assenti, assim ele soltou um suspiro aliviado. – Há mais uma coisa que precisa saber.
Olhei-o nos olhos, mostrando que eu estava pronta para mais alguma bomba. Mas, Tristan é o tipo de anjo palhaço, e acabou interrompendo tudo.
- Agora você saberá da crise de identidade do nosso querido ex-arcanjo. – ele riu sozinho enquanto Gabriel o encarava de forma sombria. – Ei, você era meu superior, agora estou um cargo acima de você, anjo caído.
Revirei os olhos para ele.
- Caleb... Gabriel, quero saber o porquê de ter me salvado do bêbado. – falei respirando fundo.
- Eu estava pagando minhas dívidas. – murmurou de forma triste. – Meu erro fora mais que grave, uma coisa que desrespeitou todos os arcanjos. Eu... eu estava com raiva dos humanos, nós anjos havíamos sido criados como criaturas bondosas e fazíamos apenas o bem, mas... não era o suficiente! Criou-se os humanos e... eles tinham tudo, a capacidade de sentir, libre arbítrio... tudo! Enquanto nós anjos, éramos apenas quem os tirava de problemas. – ele suspirou. – Cansei de assistir isso e por isso, me envolvi com um demônio chamado Alanssim, quem me prometeu que se eu os soltasse do inferno, acabariam com os humanos.
Engoli um seco.
- Fiz o que prometi e os soltei secretamente do inferno. Eles possuíram muitos corpos humanos e... isso causou a segunda guerra mundial – liguei isso a imagem da guerra em minha visão no píer. – Meu... “chefe” ficou furioso comigo, de uma forma que não fora capaz de perdoar meus atos. Então, me castigou colocando-me como um anjo caído e... que eu teria que proteger uma mestiça do passado... uma mestiça que estava como alvo dos demônios, pois haviam sido mandados novamente para o inferno e eles queriam se vingar de mim. Sabiam que... essa mestiça era importante, então, estão atrás dela e de mim para a vingança.
- Como o demônio que me atacou?
- Sim. – ele se apoiou na cadeira de uma forma que ficasse mais perto de mim. – Eles sabem como o quão apaixonado eu havia ficado no passado por essa mestiça, tanto que eu era seu anjo da guarda antes de ser banido. Depois disso, ela foi atacada muitas vezes e como meu pagamento com o “chefe”, tinha que protege-la e acabar com os demônios.
Fiquei desconfortável com ele próximo daquela forma, mas queria continuar ouvindo a história. Eu estava bem a frente do grande arcanjo Gabriel, bom, ex-arcanjo e tinha que me sentir confortável com isso, não deveria?
- Schyler, tem mais uma coisa. – ele desviou o olhar para Tristan, quem apenas assentiu com a cabeça. – Você... você é a mestiça de quem falei.
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