Schyler
11 A barreira
Notas iniciais
Passei a tarde inteira cortando papel pra montar a bandeira da Inglaterra na minha parede, querem ver a foto? Quem quiser é só pedir que eu mando o link da foto no meu twitter :3
Para sugestões, reclamações ou apenas conversar ---> @gigicarlesso
Como se deve reagir logo após ouvir coisas como “você é uma mestiça” e “eu sou o arcanjo Gabriel”? não existe um curso para o preparar para algo assim, simplesmente tenho que aprender com os dias que se seguirem. Não sei ao certo qual era minha expressão naquele minuto em que ouvi suas últimas palavras, mas tinha certeza de que desmaiaria se não tomasse um grande copo de água.
Tristan apenas observava minhas reações ao meu lado, tentando entender o que se passava em minha mente logo após ouvir tudo aquilo.
Sinceramente, nem eu sei ao certo o que se passa em minha mente, entretanto ele e Gabriel ainda me encaravam esperando que eu dissesse algo.
– Eu... acho que preciso de um minuto. – murmurei me levantando rápido demais do sofá da casa de Gabriel. Eles não fizeram nada além de me observar, então arqueei uma sobrancelha até que Gabriel se levantou lentamente e me indicou o banheiro.
Passei por um corredor estreito com quadros de paisagens e carpete cinza até que encontrei a porta do banheiro. Entrei lá dentro e tranquei a porta logo atrás de mim, ficando de costas contra a madeira. Deixei com que meu corpo deslizasse pela madeira até que encontrei o chão. Soltei um longo suspiro.
O que eu deveria fazer agora? Claro, além de tentar entender melhor que... meu pai não era quem eu pensava, eu ser uma mestiça filha de um anjo caído que nunca vi na vida e... que Caleb na verdade era o arcanjo Gabriel.
Respirei fundo novamente abraçando minhas pernas contra o peito. E pensar que haviam dois anjos de verdade a apenas alguns metros de mim, conversando ou... tentando descobrir se eu não iria pirar a qualquer momento. É, digamos que eu tive quase que certeza absoluta de que iria mesmo pirar.
– Se acalme, Schyler... – sussurrei com a voz abafada pelo corpo comprimido. – Não vou enlouquecer. Não vou enlouquecer. Não vou... ah, droga, quem eu quero enganar?!! É claro que eu vou enlouquecer!!!
Gabriel
– Vou ver se ela está bem. – murmurei já me colocando de pé ao ouvir a voz de Schyler vindo de dentro do banheiro. Ela parecia que estava dizendo algo como “não vou enlouquecer” e isso me preocupou. – Estou preocupado.
– Acho melhor dar um tempo para ela. – disse Tristan ajeitando o casaco. – É muita informação de uma vez. Coloque-se no lugar dela, deve estar sendo muito difícil.
Suspirei e voltei a me sentar. Mais uma vez o anjo Tristan estava certo, droga, odeio quando ele sempre sabe o que dizer. Talvez seja porque ele ainda é um anjo que pode subir, enquanto eu, estou aqui preso na terra por culpa de um ato estúpido e arrogante.
Afinal, que tipo de arcanjo eu sou?!!
Schyler
Tudo bem, eu realmente precisava me acalmar, esquecer que estava prestes a enlouquecer e inspirar e expirar o ar para dentro e fora dos pulmões, pois não queria nenhuma crise de ansiedade. Levantei-me do chão e olhei para meu reflexo no espelho – eu estava com os cabelos castanhos um pouco desgrenhados e muito pálida. Joguei um pouco de água gelada no rosto e domei os fios de meu cabelo, pronta para sair dali e enfrentar o que estava por vir.
Abri a porta lentamente até voltar para a sala novamente. Os dois permaneciam no mesmo lugar, o que mudava era que Gabriel batia muito os pés a minha espera e Tristan, bom, ele ria da forma ansiosa que Gabriel estava.
Quando perceberam minha presença, os dois se levantaram muito rapidamente, tanto que fiquei assustada.
– Tudo bem, eu pensei e... pensei mais um pouco. – Tristan soltou um riso tímido e Gabriel continuou com a mesma expressão. – Acho que... entendi o que está acontecendo aqui. Mas... o que vamos fazer agora?
[...]
Se as coisas já eram estranhas a alguns minutos atrás, estavam prestes a ficar ainda piores. Se existiam realmente anjos e demônios, deveria existir também uma espécie de barreira a qual escondia as criaturas dos olhos humanos e era isso que Gabriel queria me mostrar. Mesmo sendo apenas um anjo caído, ele ainda conseguia fazer com que a barreira abaixasse e eu pudesse ter a visão completa de todos os seres que humanos não conseguem ter a oportunidade de ver.
– Então irá mostrar a ela o que há por baixo na barreira? – murmurou Tristan no banco de passageira ao lado de Gabriel dirigindo. Eu estava no banco de trás, apenas ouvindo aquela conversa. – Não vou poder ficar, tenho que continuar meu trabalho.
– Que... tipo de anjo você é, Tristan? – perguntei me intrometendo.
– Assim como o ex-arcanjo aqui do lado, sou um anjo da guarda. – ele sorriu quando Gabriel fez uma careta ao ouvir “ex-arcanjo”. — Sou encarregado de proteger uma menininha de seis anos. O nome dela é Sarah, mesmo sendo tão nova, posso ver o quão bonita sua alma é. Não vejo a hora de vê-la crescida e mudando o mundo.
– Não vá se apaixonar. – ouvi a voz baixa de Gabriel dizer. Ele parecia arrependido em ter dito isso naquele instante e eu sabia bem o porquê. Gabriel, antes de ser expulso do céu, era meu anjo da guarda, o anjo que havia sido designado para me proteger... um arcanjo.
Gabriel parou o carro em uma rua um pouco deserta e Tristan desceu, apenas piscando para mim e já indo em direção à calçada. Em segundos, seu corpo desaparecera junto ao ar, sumindo de minha vista muito rápido, como se nunca tivesse estado ali.
– Uma das vantagens de ser quase invisível. – murmurou Gabriel um pouco antes de indicar o bando de passageiro ao seu lado para que eu fosse até lá. – Além de você estar sempre cuidando de alguém, pode ficar invisível em menos de um segundo para ninguém o reconheça sem ser seu protegido.
– E... qual seria a vantagem do protegido? – perguntei assim que sentei no banco de passageiro ao seu lado.
Ele hesitou em respondeu, pareceu pensativo enquanto guiava o carro pelas ruas lotadas de New York.
– Além de ser o protegido? – ele mostrou o sorriso mais bonito que já vi.
Espera, eu pensei mesmo isso?
– É. – eu ri quando ele continuou com aquele sorriso estampado em seu rosto.
– Ter alguém que se pode confiar 100% sem nenhum dúvida ou ressentimento. – respondeu, porém sua expressão se tornou séria e sombria logo depois ao perceber uma coisa que afetava aquela frase.
Eu confiei nele como anjo da guarda e em resposta, Gabriel quis se vingar dos humanos.
– Eu sei seus motivos para ter feito o que fez, Gabriel. – eu disse lentamente quando paramos no semáforo. – Mas, sabe, acho que em parte você teve razão. Os humanos são egoístas, muitas vezes se acham melhores do que os outros e... não mereciam anjos protetores. Só não acho que você deve se culpar por tudo isso.
Ele apertou os dedos contra o volante. Aquilo deveria ser difícil para ele.
– Sinto muito. – ouvi-o dizer. – Sei o quão ruim fui como anjo da guarda. Mas eu vou mudar isso, você vai ver.
Em silêncio, continuou dirigindo pelas ruas até chegarmos a parte mais pobre da cidade. Haviam muitos mendigos na rua, pessoas pedindo dinheiro ou fazendo acrobacias ou cantando por dinheiro. Muitos deles nos encaravam quando passamos de carro e me senti estranha, eu queria muito ajudar aquelas pessoas.
Gabriel estacionou em uma daquelas ruas, a mais silenciosa e vazia, onde apenas uma senhora andava com seu cachorro. Quando desci do carro, Gabriel deu a volta rapidamente, segurando firme minha mão a sua e puxando-me para mais perto dele, de uma forma protetora.
A senhora que passeava com seu cachorro sorriu ao nos ver daquela forma e sussurrou um animado “vocês formam um casal lindo! Que graça!”, resultando em meu rosto completamente vermelho e Gabriel apenas arqueando uma sobrancelha de forma brincalhona.
– Não sei como sua mente vai simular a visão do que há de baixo da barreira, então quero que me diga tudo, está bem?- ele andava me puxando levemente pelo braço para que eu o acompanhasse até um dos prédios. – Mesmo sua mente não sendo mundana, é despreparada e há grandes chances de você se assustar.
Assenti com a cabeça enquanto era empurrada para onde ele queria ir. O prédio era muito antigo, ainda com apenas os tijolos, escadas enferrujadas de emergência e portas e janelas quebradas, com apenas restos dos vidros ainda presentes.
– Aqui é onde a maior parte de... nós nos escondemos, onde podemos ser quem somos sem que haja humanos gritando assustados.
– Tem alguma chance de eu ver como você é? – fiz uma careta ao perceber como a pergunta soara estranha. – quero dizer, suas asas?
Gabriel hesitou, entretanto logo depois observei sua cabeça assentindo.
Fiquei um pouco ansiosa para isso, mas me contentei em apenas me concentrar no fato de que veria muitas “coisas” além do normal naquele prédio. Gabriel me guiou por entre os corredores do prédio antigo até que paramos logo a frente de uma porta dupla feita de uma madeira entalhada. Ele me encarou com um olhar duvidoso e tive a certeza de que ali seria o local onde eu veria as coisas.
Ele foi lentamente até a porta dupla e a abriu rapidamente, dando-me tempo apenas de ver parcialmente o que havia ali dentro.
Estava vazio.
Absolutamente nada.
Encarei-o com um grande ponto de interrogação em minha mente a tempo de vê-lo sorrir de lado e chegar mais próximo de mim. Fiquei ainda mais confusa quando ele passou um dos braços ao redor de minha cintura. Se eu achei que ele fosse me beijar? É claro que sim!! Eu já estava entrando em desespero quando Gabriel apenas estalou os dedos bem a frente de meus olhos e senti algo estranho em meu estômago.
E assim, tudo ficou diferente.
Agora eu podia enxergar por de baixo da barreira deles e assim, pude ter a visão completa do que havia dentro daquele prédio.
E acredite, não eram coisas nada comuns.
Notas finais
Ah. e para os que me perguntaram, Schyler se pronuncia "Scailer" ook? kkk eu sei que é um nome muuuito complicadinho kkkkkk
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