Schattenseite
3 Capítulo 3
A diferença entre uma alma cujo corpo sofreu um acidente, e a outra cujo corpo continua intacto... Bem, é quase nenhuma, nas primeiras 24h; o que significa que o espírito demora a reconhecer o estado no qual se encontra. Algumas pessoas compreendem mais rápido. Outras, nem tanto. Leva um tempo a mais para as almas obstinadas, aquelas que se prendem involuntariamente a algo no último segundo.
Quando o caminhão se chocou contra a lateral do ônibus, o primeiro pensamento em choque de Aurora foi direcionado à sua irmã. Todos dizem que, quando se está prestes a morrer, sua vida passa diante de seus olhos. Não é exatamente assim, para ser sincero. O horror que se sucede antes e durante a colisão faz com que tudo se agite dentro dessa pessoa: cérebro, coração, alma. É um dos poucos momentos em que há, de fato, uma forte ligação entre todos esses fatores. Porque o cérebro comanda o corpo, o coração bombeia o sangue e os nutrientes, e a alma contém todas as lembranças, todas as emoções. É por meio dela que vocês sentem de verdade.
Por um breve instante, o cérebro tem acesso à alma, que faz o coração bater mais rápido, causando o que vocês chamam de ansiedade, nervosismo. É quando podem sentir a vida pulsando, a verdadeira ligação entre o corpo e o espírito. Existem pessoas mais propensas a essa ligação, enquanto outras só tomam consciência do fato no momento em que ocorre o desespero, quando se acredita que está verdadeiramente prestes a morrer.
Müller se lembrou da irmã por esta ser a pessoa mais importante para ela. Dentre tantas outras coisas, foi à imagem de Elizabeth que seu cérebro se prendeu no exato instante em que ocorreu essa junção.
Logo em seguida, sua cabeça bateu na janela, e sua consciência se esvaiu.
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As ambulâncias não demoraram muito a chegar, assim como a polícia, mas foi tempo o suficiente para que o estado de algumas pessoas se agravasse. Aurora, àquela altura, já corria algum risco. A respiração falhava em alguns momentos, havia algo trêmulo em seu corpo. Talvez não passasse de uma reação adversa provocada por seu cérebro, talvez ela estivesse aos poucos voltando a sentir.
Ser um anjo não significa que eu saiba de tudo. Não sou onisciente.
E havia muitas outras pessoas ainda piores que ela. Espíritos se desprendendo, projetando-se de maneira astral a poucos centímetros de distância de seus receptáculos. Outros guardiões, ajoelhados ao lado de seus protegidos, numa oração silenciosa e mútua que compartilhávamos em meio às sirenes e palavras perturbadoras. Mesmo que essas pessoas não passassem o dia a dia, umas com as outras, mesmo que provavelmente nunca tivessem uma verdadeira chance de se conhecer.
Isso funciona assim para nós, patronos. Pode não haver vínculo algum entre vocês, humanos, mas isso não vale nada mediante ao espetáculo da vida. Dizem que Deus nos criou para evitar que os males atingissem às pessoas, mas isso também não passa de um boato. Foi Ele quem nos deu a vida, sim, mas há sempre uma escolha. Por livre e espontânea vontade de aprender, de compreender o verdadeiro significado da palavra amor, o dever de todos os anjos se tornou defendê-los de maneira discreta. Criamos laços, ternura para com nossos protegidos. E assim, não são apenas vocês que evoluem.
Mas não significa que não existam as dúvidas. Não há medo, porque as coisas decorrem da maneira que cada humano levou a acontecer, em consequência de suas escolhas. Mas, como já disse, nem sempre sabemos o destino de sua espécie. Quando um protegido sobrevive, por algum tempo, seu espírito pode estar exultante ou funesto; é o que vocês chamam de trauma. E, quando morrem, o ciclo se reinicia.
Não apenas para os anjos, que são designados para proteger os recém-nascidos. Uma alma pode escolher renascer, ou ir para o descanso eterno. Muitas, cerca de 99,9%, preferem a primeira opção. O que vocês chamam de carma, para ser sincero, não passa de outra escolha humana. Quando se é um espírito, pode-se pensar com mais clareza, e não com a pressão do momento, com a raiva. Com amor, com calma. Diferentes situações causam diferentes formas de se enxergar um mesmo ângulo. Mais um tabu quebrado.
É bastante preocupante, na verdade, esperar que cada protegido ouça seu anjo e salve as vidas que correm risco. É desesperador aguardar que suas almas respondam aos estímulos, que acordem após o acidente e possam voltar ao ritmo normal de suas vidas. Mas só nos resta a esperança, o desejo de que tudo termine bem para todos.
Claro que, nas atuais circunstâncias, eu deveria saber que o verdadeiro milagre provocado por Almira traria suas implicações.
Eles sempre trazem.
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Não estou ao seu lado para ouvir, ou sentir. Ou temer. Mas a imagem se forma em minha mente, nítida como a água. Elizabeth estudando em sua cama, esperando a irmã mais velha voltar, começando a se preocupar com a demora. Terá uma importante prova daqui a algumas semanas, para tentar utilizar seus conhecimentos sobre psicologia e ingressar num trabalho que possa ajudá-la a conseguir mais dinheiro, possivelmente numa tentativa de não precisar tanto da ajuda de Aurora quando esta se casar.
Porque é tão teimosa quanto a irmã, talvez até um pouco mais, por ser um ano mais nova.
O telefone toca pela primeira vez, e ela ignora. É sempre assim. Primeiro toque, nada. Segundo toque, já se preocupa. Afinal, não é muito comum as pessoas ligarem para o telefone da casa das irmãs Müller. Cada uma tem seu próprio celular; se for algo particular, ligam para uma em específico. Até mesmo seus pais preferem essa privacidade, já que a primogênita os ignora deliberadamente.
Ainda assim, Lizzie vai distraidamente para a pequena sala do apartamento, pois acredita que seja sua irmã. Aurora costuma lhe dar esses sustos, fazendo-a acreditar que é algo sério, quando, na verdade, comumente não passa de uma dúvida ou um alerta. Se elas têm comida na geladeira, se precisam fazer compras, se as roupas ainda servem. Ou se Elizabeth está estudando, se não convidou ninguém para ir até o apartamento, se não está com um rapaz em sua cama naquele exato instante.
Existem até mesmo os momentos nos quais a mais velha liga apenas para conversar sobre banalidades, alegando sentir a falta da voz da mais nova. Lizzie se diverte com esse tipo de coisa, e atende já com um sorriso, esperando de todo o coração que seja Aurora do outro lado, xingando porque dormiu no ponto e agora precisa de uma carona de Caleb para voltar para casa.
Mas sua face se contorce no mais puro desespero.
Posso ver até mesmo seu anjo da guarda tentando obrigá-la a escutá-lo, sussurrando palavras de consolo, tentando tocá-la e fazer com que sua alma se acalme. Mas Elizabeth já está em prantos, e não sabe se deve deixar o desespero consumi-la enquanto liga para o noivo de sua irmã, ou se vai direto para o local indicado.
A vida cobrou sua dívida.
E Aurora Müller está em coma, nesse exato momento, no Detroit Receiving Hospital.
Notas finais
Espero que gostem :D
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