Schattenseite
4 Capítulo 4
Os celtas acreditavam que Nemed foi o primeiro druida, que limpou doze planícies e formou quatro lagos antes de finalmente morrer e ter seu povo oprimido pelo Fomhoire. O que eu acho disso? Balela. Nemeds significa, literalmente, Bosques. Algumas culturas* os conhecem como Bosques do Sigilo, ou simplesmente lhes dão outros nomes. A Dama Verde, conhecida como Blodeuwedd na mitologia irlandesa/gaélica? Ou Habondia, para os anglo-saxões? Ambos Nemeds; apenas vistos de formas diferentes. Você o teria como um... Digamos assim, limbo. Uma pessoa que transita pelos Bosques do Sigilo não está morta, porque não se desprendeu completamente da forma física, mas também não está viva por não interagir diretamente em seu corpo com as outras formas de vida existentes na Terra.
Como prova, temos o espírito que se desprende e não encontra uma saída para nenhum dos lados. A partir do momento em que essa alma se encontra num dos Nemeds, é dever do anjo guiá-la para alguma válvula de escape, por pior que ela seja. Não estou dizendo que é o guardião quem decide se uma pessoa está viva ou morta. Os Bosques são como um grande labirinto. Nós, anjos, enxergamos cada tênue feixe de luz; alertamos vocês, humanos, e vemos onde isso vai dar.
O fato é que todos os espíritos têm uma grande tendência a saber para onde devem voltar; a encontrar o caminho para o estado físico da coisa. Então, tecnicamente, vocês têm mais uma escolha em mãos. Mas não são todos os que podem, de fato, utilizar essa vantagem a seu favor. O corpo é o mais importante nesse caso. De que adiantaria uma alma voltar para a Terra, se sua “casca”, seu receptáculo não pode mais recebê-la? É por isso também que existem os Nemeds: dar o tempo necessário para que o quadro físico se estabilize. Cada Bosque pertence a uma pessoa, por isso existem milhões. É como... Como um Paraíso, mas sem todas as memórias boas ou qualquer coisa do tipo. Apenas fragmentos de, por exemplo, uma sala, um móvel, algo a que a pessoa seja apegada.
Quando nós, anjos, estamos dentro desses Bosques, somos visíveis a qualquer tipo de ser vivo que existe no lugar; o que significa, tecnicamente, que até mesmo nossos protegidos são capazes de nos enxergar, e isso pode ser consideravelmente bom, se você tem uma relação no mínimo agradável com eles. Eu deveria saber que com Aurora as coisas não seriam assim tão fáceis, principalmente se considerada toda a sua crença em entidades protetoras.
Ela não é uma humana comum, e não estou dizendo isso como se tentasse sugerir que existe algo de sobrenatural em Müller. Apenas... É interessante. Em todos esses anos e milênios protegendo a raça considerada mais fraca, foi raro encontrar pessoas assim.
Mais raro ainda, foi proteger uma pessoa que molda o próprio Nemed estando plenamente consciente da realidade que a cerca. Não completamente, porque isso é impossível a menos que já tenha passado por um trauma parecido, mas, de alguma forma, como se soubesse como as coisas funcionam dentro daquele lugar.
É uma experiência impressionante.
xxx
Aurora estava deitada sobre um pequeno montinho de folhas, encolhida em posição fetal próxima ao tronco de uma árvore caída, sacudindo-se no ritmo de uma melodia inexistente; algo que eu não conseguia compreender. Ao seu redor, algo que me parecia um vale interminável, que encontrava o céu com nuvens fofas em algum ponto distante. O forte cheiro que tomava o ar era de rosas, apesar de eu não ver absolutamente nada vermelho naquela paisagem.
Tentei me aproximar, lentamente, mas esse de certo foi meu pior erro. Müller ergueu o rosto no momento em que dei o primeiro passo, e pude ver a desconfiança em seus olhos esverdeados. O medo. Era como se eu pudesse tocar sua alma, e sentir com a mesma intensidade as emoções que assolavam seu peito naquele momento.
Dúvida. Inquietação. Choque.
Ela não parecia nem um pouco assustada com o ambiente no qual se encontrava, e de maneira alguma isso foi uma surpresa. As almas estão habituadas a viver em locais assim; o próprio receptáculo, o lado carnal, é semelhante a isso. A mente humana é incompreensível, exatamente por ser tão misteriosa. Não existe uma maneira correta de interpretá-la, porque nada é concreto o bastante para tal. O que deveria ser um imprevisto, não passa apenas de uma ligeira impressão desconfortável.
Mas, ora essa, por que alguém estaria desconfortável dentro da própria mente? Humanos são criaturas completamente inexplicáveis.
— Quem é você?
Não me mover, naquele instante, era o melhor que poderia fazer. Por isso, apenas a encarei, tentando demonstrar uma confiança que não sentia. Aí está um dos grandes problemas de não conseguir conversar naturalmente com seu protegido: até que se prove o contrário, para ele, você é um total estranho. Poucas vezes tive o azar de encontrar espíritos que não me reconheceram, mas essa estranheza acabava no momento em que dizia alguma coisa.
Com Aurora não foi assim tão simples.
— Meu nome é Jason.
— O que está fazendo aqui?
Humanos perguntam, e ignoram as respostas, fazendo mais e mais questões. Outra coisa estranha para mim, no fim das contas. Toda uma vida de incertezas, dúvidas e palpites, certamente torna as pessoas um tanto paranóicas com relação ao desconhecido. Algumas, pelo menos. Grande parte teme a morte. A outra metade simplesmente não sabe o que esperar. E existem alguns poucos, no meio dessa vasta multidão, que apenas aceitam de bom grado.
Deixar um receptáculo para trás não é a coisa mais fácil a se fazer, principalmente para uma alma que se apega. No fim, quem não o faz é um tolo. Porque são essas pequenas coisas, os pequenos detalhes, os laços que se formam durante a estadia terrena... Acredito que é isso que faz com que a vida realmente signifique algo para vocês.
Por isso muitos espíritos decidem reencarnar: encontrar velhos amigos, rever os parentes. Quando nascem, podem não se lembrar de nada, mas são as sensações que denunciam o que de fato ocorre no interior de alguém. Uma empatia muito grande, um sorriso que escapa num momento que não lhe parece oportuno. Até mesmo aquelas pequenas coisas que chamam de coincidências. É realmente tão estranho assim, sair e, por acaso, trombar numa pessoa que irá, em algum momento, se tornar sua melhor amiga? Ou até mais que isso?
Não há nada previamente predestinado para cada um, mas existem as regras naturais com relação a tudo isso. Sempre existem. Os espíritos que permanecem em seus Nemeds por tempo o suficiente para notarem o quão errônea é a situação... Bem, eles não ficam lá apenas por ficar. Alguns dependem da escolha externa, as escolhas vindas da Terra. Uma pessoa que entra em coma, por exemplo, e precisa de toda a aparelhagem para ajudá-la a sobreviver. Por que muitos parentes simplesmente se negam a desligar todos aqueles aparelhos? Impressões, desejos, vontades. Quem sabe até alguma ajuda de um arcanjo que resolveu sussurrar algo aos ouvintes alheios, a pedido de outro ou no intuito de ajudar seu protegido a manter as esperanças.
— É meu dever ajudá-la, Aurora.
Müller comprimiu os lábios numa linha fina, e, quando ameacei avançar mais um passo, automaticamente se levantou e recuou. Não tentei me aproximar novamente, talvez pela falta de oportunidade, talvez pela leve admiração de ver que, apesar de seu nítido desconforto, ela não parecia nem um pouco assustada com a floresta que começava a rodear sua forma mais pura.
Uma mudança quase lenta demais para ser notada. Como uma leve brisa soprando os grãos sobre a terra, ou um fio sendo lentamente puxado, desfazendo uma costura. E então, num piscar de olhos, as coisas se materializavam, sumiam, voltavam. Apenas fragmentos, indo e vindo, rasgando em partes e montando árvores, como peças disformes de um quebra-cabeça doentio.
Pedaços de lembranças, de memórias boas e ruins. Aurora não parecia ter notado nada disso; os olhos ainda estavam cravados em mim. Que aparência eu teria, do ponto de vista humano? Anjos não são seres que possuem, digamos assim, uma forma definida. Nós mudamos com o tempo, assim como pensamentos. Mas, aos olhos da espécie humana, sempre teremos asas, e expressões indefinidas, ou sentimentais em demasia.
Ou, talvez, nem mesmo as pessoas mais religiosas possuam algo concreto para nós.
Encarando Müller, eu tive a certeza de que ela não era uma mulher que pensava muito a respeito disso. E, também, minhas asas estavam resguardadas; uma reação angelical natural quando se entra num Bosque do Sigilo, provavelmente porque os humanos surtariam se as vissem. De qualquer forma, tenho a nítida sensação de que nem mesmo com isso, Aurora seria capaz de confiar em mim. Totalmente incapaz de crer que eu poderia lhe mostrar algum caminho, seja ele qual for.
Um espírito completamente obstinado.
— Não acredito em você.
Notas finais
------------
P.S.: O que acharam da nova capa? Antes eu imaginava a personagem como Amanda Seyfried, mas dia desses estava pesquisando fotos na internet, e achei Frances Bean Cobain simplesmente DIVA na foto atual. Mas estão livres para imaginá-la como quiserem :D
Fale com o autor