A hierarquia angelical é mais complexa e profunda do que a vã apologia humana conseguiria alegar. Todavia, para simplificar a história, dividiremos os anjos em três espécies de Tríades, com subcategorias eloqüentes de acordo com a experiência e capacidade de cada um.

Da Primeira Tríade, temos duas hierarquias convenientes: os Serafins e Querubins. O nome serafim vem do hebreu saraf e do grego séraph, que significam abrasar. É a categoria mais alta das Tríades. Os serafins são incandescentes, chamas que ardem nos céus. Eles são também os guerreiros mais próximos de Deus, e raramente chamados a Terra para missões mundanas. Querubins, comumente associados àquelas peças de porcelana, são guardiões do trono de Deus, e o ruflar de suas asas enche todo o templo da divindade, com sons que se assemelham a vozes humanas. São cheios de amor, e concedem graças aos humanos com mais frequência, possuindo então a denominação de cupidos. São oniscientes, e possuem quatro faces: leão, touro, águia e homem.

Na Segunda Tríade, encontraremos apenas uma camada oportuna: Potestades. Os anjos do Nascimento e da Morte fazem parte da Segunda Tríade, e Potestades são conhecidos como condutores da ordem sagrada, por serem extremamente fiéis a Deus, e diretamente encarregados de questões humanas que envolvem o pensamento superior, tais como: ideais, ética, religião, filosofia e a política em seu sentido mais abstrato.

Quando se menciona a Terceira Tríade e se diz Arcanjo, os nomes que automaticamente chegam à sua mente são Gabriel, Raphael e Michael, não? Eles são os principais, compondo três dos sete que estão diante do Senhor. Sete, o número da perfeição. O fato que se desconhece é que existem muito mais Arcanjos por aí, e, por mais estranho que pareça, eles também fazem o papel de anjos da guarda. Sim, eles existem, e não, os anjos não caem em seu ombro com a função de protegê-lo de todos os males. É algo muito mais implexo do que você pode imaginar.

Milagres existem, mas não são conduzidos por nós. Induzimos os humanos a interagir, a comandar, a liderar. Somos vozes, e não mãos ou braços. Conversamos, explicamos e ensinamos, mas apenas vocês possuem o livre-arbítrio e a força necessária para interatuar direta e explicitamente com o mundo que os rodeia. Estamos aqui como luzes, chamas acesas para guiá-los na viela escura.

E existem os demônios. São eles os que sussurram ao pé de seu ouvido todas as noites, e colocam em sua mente idéias das quais você não se orgulha. A diferença entre um anjo e um demônio? Eles estão sempre por perto, mesmo quando não se deseja, empurrando você para o fundo. Anjos esperam a aceitação, sempre prontos para amparar a queda.

Quando você cai, não está sozinho. Quando se ergue, esquece da mão que o ajudou a levantar. Uma atitude típica dos egoístas e hipócritas, e esse não é um pensamento ruim para um anjo. Para saber como lidar com humanos, é preciso entendê-los. Não são raros os sinceros, mas muitos são os corrompidos pelo poder que lhes foi concebido pela mão do Pai.

Nas rotinas metódicas de meu papel como Arcanjo, tornei-me o guardião da humana Aurora Müller, que, diga-se de passagem, é a mulher mais complicada que já vi em toda minha existência. Diagnosticada com TOC desde os sete anos, Aurora comumente é vista chacoalhando os ombros, como se estivesse envergonhada, e movendo o tronco como se possuísse algum propósito maior. Seu tratamento é à base de clomipramina, o único remédio que compra é Anafranil, e Müller precisa tomar duas doses diárias de 25mg, ao acordar e antes de dormir. As reações mais comuns ao medicamento são secura na boca e dor de cabeça. Se ao acordar ela já está suficientemente mal-humorada, acrescente isso ao seu repertório, e você pode ter a certeza de que deveria tê-la dopado. Seu noivo, Caleb Kendrick, é alguém que pode confirmar esse fato.

E, como se já não bastasse ser obsessivo-compulsiva, Aurora é hiperativa também. Viciada em cafeína, Nerd, moderna. Louca por tecnologia, amante de livros, e “estilista” nas horas vagas. Mas cursou a faculdade de publicidade, e se prende ao escritório como se sua vida dependesse disso. Nunca vou entender os humanos.

Mas naquele, especificamente, ela estava agitada. Bem mais que o normal, pra falar a verdade.

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— Oh, não, Lizzie, você sabe que odeio festas! — Aurora mexeu nas papeladas sobre a mesa, procurando algo específico enquanto falava ao telefone com a irmã mais nova.

Seu cabelo estava um verdadeiro desastre, preso, fazendo parecer que seus cachos nada mais eram do que uma desordem matinal que Müller não se deu ao trabalho de organizar. Ela prefere assim, diz que isso afasta seu chefe. Particularmente, com ou sem Robert lhe passando cantadas baratas a cada meio segundo, prefiro quando ela resolve jogar tudo isso às favas e soltar os cachos rebeldes. Com essas roupas indecentes, Aurora realmente acha que ele vai se dar ao trabalho de olhar para seu rosto? Ou melhor: para a aliança de ouro em seu dedo anular da mão esquerda? Definitivamente não.

— Elizabeth Müller. — o tom que usou foi sério, e eu quase posso ver a pequena Lizzie se encolher do outro lado. — Nós não podemos dar outra festa! Lembra-se quando você tentou convidar seus amigos para um aniversário?! O síndico ameaçou chamar a polícia!... E não adianta dizer que é porque ele não passa de um velho cafona!

Aurora e Elizabeth estão nessa discussão há dias. Daqui a uma semana, no dia 13 de maio, Aurora irá completar 26 anos. E, no dia 30 deste mesmo mês, casará com Caleb, após quatro anos de namoro. Lizzie está louca para comemorar, mas ela se nega. Não porque não quer, e verdadeiramente partilha a opinião da irmã sobre a cafonice do síndico, mas sim pelo fato de não possuir uma vida financeira estabilizada. Mesmo unindo seu salário ao de Elizabeth, Aurora mal consegue pagar as contas e, ao mesmo tempo, manter os armários cheios. E é simplesmente orgulhosa demais para aceitar um dólar que seja do noivo, até porque as demais mulheres de seu trabalho alegam que ela só está com Kendrick por causa de seu dinheiro. Isso também provoca muitas discussões entre eles, uma vez que foi Caleb quem a ajudou a pagar a faculdade, e até hoje Müller está juntando dinheiro para extinguir essa dívida que acredita existir entre eles.

— É sério, Lizzie. — o suspiro de Aurora me obrigou a focar minha atenção unicamente em suas feições tristonhas, enquanto ela soprava a franja. — Não dá. Nós não temos dinheiro e... Você o quê?!

Isso é ruim. Posso ver sua alma agitando-se descontroladamente em seu receptáculo, tremulando. E tentar alcançá-la mostra-se uma tarefa ligeiramente árdua quando percebo que sua mão cerrada em punho acaba de atingir a mesa. Müller não é uma mulher descontrolada, mas perde as estribeiras quando algo lhe escapa do planejamento.

Provavelmente Elizabeth contou que pediu dinheiro aos pais para arrumar uma festinha num salão particular, e isso despertou alguma lembrança que Aurora provavelmente não gostaria de compartilhar com ninguém. É uma pena que ela não tenha escolha com relação a isso.

— Você está louca?! — levantou-se num salto, e as primeiras mechas começaram a escapar do penteado mal feito. — Vá devolver esse dinheiro agora!

São vagas as lembranças que não ferem seu orgulho, são poucas as palavras que não magoam Aurora. Flashes preenchem sua mente, indo e vindo, com apenas uma memória: o momento em que partiu para o apartamento da irmã mais nova, aos prantos, implorando para que lhe desse abrigo e alegando que logo partiria. Isso foi há sete anos. Elizabeth tinha dezoito na época; Aurora, dezenove. Nunca me permiti invadir sua mente para saber o que se passa, e nenhuma das duas toca nesse assunto.

Tornei-me seu protetor um ano depois, quando Almira, seu verdadeiro anjo da guarda, arriscou-se a perder tudo e cair. Müller teria sofrido um acidente, e ela desviou o caminho do carro que vinha em seu encontro. Foi nessa ocasião que Aurora conheceu Caleb, pois ele era o motorista. Desde então, é necessário que eu fique de olho. De maneira antinatural esse relacionamento começou. Ele pode não terminar bem.

Quando Aurora estava prestes a praguejar, depositei a mão em seu ombro.

{ Aceite } sussurrei, como uma brisa, e, embora seu corpo não tenha relaxado de imediato, ela ao menos pensou antes de dizer qualquer outra coisa.

— Olha, quando eu... Quando eu chegar em casa a gente discute isso, certo? — Müller fechou os olhos e suspirou profundamente. — Também te amo, Lizzie. Até mais.

Deixando o celular de lado, ela pareceu pensar na situação, mas eu sabia que estava dividida entre o dever de trabalhar, e o desejo de se afogar nas memórias e jamais retornar à superfície. Seus dedos pálidos correm pelos fios que se soltaram em seu curto surto, e Aurora conclui que pode terminar aquele projeto mais tarde. Na verdade, não há uma motivação por trás de toda essa paranóia com relação ao que deve fazer. Ela já terminou o que precisava, e está apenas adiantando o restante.

Precisa voltar para casa, e logo. Está começando a escurecer. São quatro horas dentro do ônibus, de Detroit a Walkerville, e Aurora não quer correr o risco de adormecer e perder o ponto. Por isso, junta seus documentos o mais rápido que a tensão lhe permite. As doses diárias de cafeína estão se unindo aos medicamentos e fazendo mal ao organismo dela, mas essa reação não é de hoje.

Faz muito tempo que não posso mais tocá-la instigá-la a qualquer coisa. Aurora quase não ouve, quase não vê. Seus olhos estão fechados, sua alma não reconhece a proximidade. Ela se perdeu. Perdeu a fé, perdeu tudo.

E não lhe resta mais nada agora.

Notas finais
Sobre as Tríades, pesquisei no Wikipédia e resumi aquelas que utilizaria. Provavelmente irei criar outras, ou utilizar nomes vindos de lá, mas isso apenas mais futuramente. Aqui, eles ainda estão no ano de 2009. Enfim.
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Com relação aos medicamentos que Aurora toma, pesquisei no Google, no Wikipédia e juntei os fatos mais simplórios. A dose diária máxima é entre 100-150mg, e não há uma dose mínima. Desconheço esse ramo, então, se alguém puder me dar alguma certeza, ficaria feliz.
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Quando Jason conversa com ela, se trata da língua dos anjos, e por isso os colchetes. Müller pode não ouvir, tampouco compreender, e, como foi comentado nos últimos parágrafos, sua alma está deixando de responder aos apelos do anjo. Mas ela ainda o reconhece. Ah, e os motivos de Almira poderão ser explicados quando esse fato se tornar mais importante.
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Espero que tenham apreciado! Beijos e agradeço ;)