Scenes Of Our Lives
80 Separação
Notas iniciais
A casa quadrada ainda era visível pelo retrovisor do carro quando mais uma vez Duddley perguntou:
– Porque ele não está vindo com a gente? Eu ainda não entendi.
Petunia trocou um olhar nervoso com o marido antes de responder:
– Já dissemos, Dudoca, ele... ele não quer.
– Por quê?
Os pais se calaram, de novo aterrorizados com os questionamentos do filho.
– É para a segurança de vocês. – Dédalo interviu, a expressão facial e o tom de voz sugeriam que ele falava com uma criança de não mais que cinco anos de idade. – Para proteger vocês.
– Mas... do que exatamente ele quer proteger a gente?
– Vocês, com certeza, sabem por tudo o que o sobrinho de vocês passou?! – Hestia indagou outra vez indignada. – Desde muito novo!
– Sabemos. – Vernon respondeu secamente e rápido demais. – Duddley, ele mexeu com gente que não deveria mexer, gente da laia dele, e agora colocou todos nós nessa enrascada.
– Ele não mexeu com ninguém! – Hestia protestou. – Você-Sabe-Quem está atrás dele desde que ele era um bebê! Você deve saber disso! – Ela se virou para Petunia, que corou violentamente.
– Quem é “Você-Sabe-Quem”? – Duddley perguntou. Deixando os dois bruxos nervosos e inquietos dessa vez.
– Nós não dizemos o nome dele, meu jovem. – Dédalo respondeu despois de algum tempo.
– Por quê?
– Nós... nós... ah...
– Tenho que ir reto? – Vernon perguntou abruptamente ao se aproximar de um bifurcamento.
– Ah sim! – Dédalo exclamou, visivelmente aliviado. – Mais alguns quilômetros em frente, por favor. Alias, vejo que você dirige muito bem! Parabéns!
Vernon meramente grunhiu, bufando e fazendo o basto bigode tremer sobre a boca. Os nós dos dedos estavam brancos devido à força com que ele apertava o volante. Petunia, no banco de trás, tinha os olhos fixos a frente, mal piscava, retorcendo nervosa as mãos por sobre o colo.
Os cinco integrantes do carro ficaram em silencio. Duddley, com o cenho ligeiramente franzido, parecia seguir uma linha de raciocínio muito complexa e tortuosa. Vernon estava ansioso e irritado na mesma medida, dirigindo em alta velocidade pelo caminho deserto.
“Está quase na hora.”, a voz vinda do bolso de Dédalo anunciou após alguns quilômetros de silencio, mais uma vez sobressaltando os Dursleys.
– Estamos chegando, estamos chegando... — O bruxo murmurou em resposta, mais para ele mesmo do que para qualquer outro. – Calculo que em menos de cinco minutos... não deve demorar muito agora.
E de fato, dentro de pouco tempo Dédalo pediu para que Vernon parasse o carro e que todos saíssem. Eles tiraram a bagagem do porta-malas e esperaram. Um campo aberto se abria a frente deles, até o horizonte já razoavelmente escuro.
– E agora? – Vernon perguntou irritado quando de juntaram todos no meio do caminho.
– Vamos acompanhar vocês em uma aparatação para o local seguro dentro de instantes. — Hestia respondeu. Ela não parava de olhar tudo ao redor, parecia ter um tique nervoso. Mas eles definitivamente estavam sozinhos.
– Uma o que?
– Uma... bem... vocês vão ver. Melhor nos prepararmos. Vocês três fiquem juntos, deem as mãos, não discuta... isso... fiquem entre mim e Dédalo. Vamos mandar a bagagem na frente.
– E o carro? – Vernon perguntou, olhando surpreso das malas, que sumiam sob um aceno de varinha de Dédalo, para o automóvel.
– Não é importante.
– Como não é importante? É um...
– Não solte as mãos! – Héstia ordenou, ainda segurando firmemente a mão de Petunia. O homem fez uma careta e segurou Dédalo mais uma vez, a expressão mostrando claramente o quanto detestava ter que fazer isso.
– Mas meu carro! Não vou simplesmente...
“Agora.”
Vernon não pode terminar a frase. Em menos de um segundo os cinco foram engolidos por uma escuridão compressora.
O vento soprava sobre uma pequena charneca junto ao mar, o silencio no ar salgado foi quebrado por um grito agudo. Petunia quase caiu de joelhos. Vernon estava completamente pálido e Duddley refreava um forte impulso de vomitar.
– Que merda foi essa? – Vernon berrou assim que recobrou por completo os sentidos.
– Aparatamos. – Dédalo respondeu simplesmente. – Pode ser bastante desconfortável mesmo, principalmente da primeira vez.
– Estamos em outro lugar. – Duddley observou com os olhos arregalados.
– É. – Hestia respondeu. – Para isso que serve a aparatação. Desaparecemos em um lugar e quase instantaneamente reaparecemos em outro.
– Legal. – O adolescente disse sorrindo brevemente.
– Vamos entrar logo. – Dédalo sugeriu, olhando em volta e apontando para a charneca. – Já estamos dentro dos feitiços de proteção, mas é melhor prevenir.
Vernon olhou feio para a pequena casa, resmungando enquanto caminhava, sobre o tamanho e a idade da cabana.
– Nós vamos ver ele outra vez? – Duddley perguntou de repente ao entraram na casinha, assustando os pais.
– Q-quem, Dudoca?
– Harry. Vamos vê-lo de novo algum dia?
Vernon olhou nervoso par os dois bruxos, se sentando em um pequeno sofá velho, ao lado da bagagem deles, e respondeu para o filho, em um tom frio e irritado:
– Não sei.
– Mas... mas certamente pensam em se reencontrarem depois que toda essa confusão acabar. – Dédalo começou incerto. – Não pensam?
– É... é... talvez... – Vernon respondeu, cada vez mais nervoso.
Petunia estava a um canto do cômodo, ainda pálida, e tinha uma expressão curiosa no rosto, uma mistura de medo, aflição e espanto. Ela ainda retorcia as mãos e olhava para um ponto fixo qualquer.
– Você sabe o que aconteceu a sua irmã, não sabe? – Hestia perguntou estreitando os olhos para a outra mulher.
– Eu... eu... sei. – A mulher respondeu desviando por alguns poucos segundos o olhar.
– Sabe mesmo?
– S-sim...
– Sabe que ela foi assassinada?
– E-eu... eu s-sei disso.
– O quanto ela sofreu antes disso? Sendo perseguida, vivendo escondida com medo e... você , com certeza, sabia disso na época... ela deve ter te contado. Ela precisava do apoio de uma irmã.
– É... é ela... contou. – Petunia parecia mais aterrorizada do que nunca, agora não conseguia desviar o olhar de Hestia.
– Tudo isso para proteger o seu sobrinho. Harry. Sabe de tudo isso, não sabe?
– Sim.
– E mesmo assim não gosta dele? – Ela perguntou duramente. – Não se importa em se separar do ultimo pedacinho de Lily? Da sua irmã? Não liga se nunca mais for vê-lo? Não se importa por nem um momento em cuidar e proteger a pessoa que sua irmã morreu para salvar?
– Hestia... – Dédalo alertou.
– Não! Dédalo! Como... como? Eles não ligam! Não estão nem ai! Não se importam se Harry vive ou morre. O sobrinho deles! É o filho da irmã dela, pelas calças molhadas de Merlin!
– Escute aqui, minha senhora... – Vernon começou, se erguendo do sofá.
– Escute aqui você! Eu me importo! Eu que mal conheci James e Lily! Eu que não tenho nenhuma relação de parentesco com Harry! Eu que nunca convivi com ele! E mesmo assim eu me importo.
– Hestia... – Dédalo tentou outra vez.
– Vocês criaram ele desde que ele tinha pouco mais de um ano! Viram ele crescer! Não é possível que não tenham se afeiçoado ao menos um pouquinho ao garoto! Ele é da família de vocês!
Os Dursleys pareciam petrificados.
– Não estou falando para... vocês não tem que... mas... pelo menos gostar dele! Ou no mínimo se importarem se ele vive ou morre!
– Eu me importo. –Petunia respondeu, a voz apenas audível.
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