Scars

8 For you


“Por quanto tempo você vai ficar aqui?” Blaine perguntou a Kurt, que já estava naquele hospital a duas semanas, em uma das tardes que ele havia ido visitá-lo.

Kurt não aguentava mais ficar naquela cama, comendo a mesma comida horrível de hospital todos os dias, sem contar a raiva de que ele tinha a impressão que seu pai sentia dele.

Que pai não ficaria com raiva de um filho suicida? Kurt se perguntou depois que seu pai tentou falar com ele no dia em que ele acordou.

“Kurt, você sabe que eu o amo.” Burt havia dito assim que entrou em seu quarto no dia em que Kurt acordou. “...Por que você tentou fazer isso?”

Kurt havia apenas desviado o olhar, escondendo as lágrimas que se formaram rapidamente em seus olhos. Ele queria tanto se desculpar por ser uma decepção, entre outras coisas.

“Semana que vem já estou de alta.” Kurt respondeu, de volta a realidade. Ele olhou para Blaine, que se encontrava sentado ao seu lado, como em todas as tardes desde que Kurt esteve naquele lugar. “Bem a tempo das Regionais!”

Blaine olhou para ele seriamente, sua mão procurando pela de Kurt, e disse:

“Kurt, você acha que vai estar bem para as Regionais? Eu não quero que você participe se não estiver totalmente recuperado...”

“Com certeza. Não posso perder essa competição por nada, Blaine. É o que vai decidir se vamos ou não para as Nacionais!” Ele respondeu.

Blaine deu um sorriso e soltou uma pequena risada, olhando para baixo.

“O que foi?” Kurt perguntou, sorrindo também.

“É só que... Você está tão diferente... Sorrindo mais, rindo, e é incrivelmente bom ver esse brilho em seus olhos quando você fala de algo que o faz feliz.” Ele disse.

Kurt ia dizer que era por causa dele que esse brilho estava de volta depois de anos, mas esqueceu quando Blaine começou a falar de novo.

“E falando nas Regionais, eu tenho boas notícias.”

“E quais seriam essas?”

“Todos do New Directions estão pensando em lhe dar um solo para a competição, se você estiver bem a tempo, claro. O que acha?”

O sorriso do rosto de Kurt caiu. “B-Blaine, por mais que eu queira esse solo, não posso aceitar.”

“Por que não? Kurt, você sabe que sua voz é fantástica e ganharíamos na hora se você cantasse, certo-“ Blaine começou, mas Kurt o interrompeu:

“N-Não, não é só por isso. É porque eu sei que vocês só estão fazendo isso porque estou no hospital. E além do mais, eu provavelmente vou errar alguma coisa no meio do palco e estragar tudo...”

Blaine riu. Então, colocou suas duas mãos em cima das de Kurt, o confortando.

“Não é por pena, realmente queremos sua voz! Você já se escutou cantando, Kurt?”

“Eu vou pensar sobre isso.” Ele disse e no momento, só de ver o grande sorriso do moreno, Kurt soube que aceitaria, se após sua alta, o New Directions ainda o quisesse. “Como anda lá em McKinley? Alguém se preocupou comigo?”

Blaine parou de sorrir. Ainda com seu olhar –hipnotizante, na opinião de Kurt- em Kurt, falou:

“Ainda acho que todos deveriam estar morrendo de preocupação, mas, infelizmente, só o pessoal do coral me perguntou o que aconteceu...” Ele disse.

“Você falou a verdade?” Kurt se apavorou só de pensar na possibilidade de todos seus únicos amigos descobrirem sobre seus “problemas”.

“Não.” Blaine respondeu. “Eu disse que foi apenas um acidente. Aliás, eles não podem te visitar porque estão muito ocupados com os ensaios e-”

“Esse é o lado bom do suicídio...” Kurt falou, sacudindo a cabeça e olhando fixamente para a parede em sua frente. “Sempre dá para fazer parecer que foi um acidente.”

Ouvir aquilo deixava Blaine triste. Ouvir que, mesmo depois do que aconteceu, Kurt ainda tinha esses pensamentos. Ele estava decidido a fazer tudo isso ir embora.

"Kurt, escute, por favor, eu sei que estou sendo egoísta dizendo isso, mas...” Agora ele olhava profundamente nos olhos do mais velho. “Você pode me prometer que nunca mais vai tentar algo assim? E-Eu não consigo imaginar o que teria acontecido se tivesse demorado mais para você acordar ou se você n-nunca tivesse acordado, e-eu não consigo.” Agora ele estava tremendo e quase desabando, Kurt pôde perceber no toque de suas mãos.

Kurt não respondeu por um momento. Então ele perguntou de novo:

“Você pode me prometer isso? É a única coisa que lhe peço, Kurt. Por mim.” Blaine removeu a única lágrima que descia pelo seu rosto e voltou a segurar a mão dele.

Qualquer coisa por você. Ele pensou.

“Sim.” Foi a única coisa que ele disse. E dessa vez, ele não mentiu. Ele foi cem por cento sincero, assim como ele decidiu que seria com Blaine a partir dali porque ele não iria mais mentir para alguém que o amava. –e que, mesmo ele ainda não admitindo para si mesmo, alguém por quem ele sentia o mesmo.

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“Então, já pensou em alguma música para as Regionais?” Blaine o perguntou no dia seguinte.

“Não sei...” Kurt respondeu. “Isso me lembra, como eu vou acompanhar a coreografia dois dias antes da competição?”

“Mike consegue lhe ajudar, relaxe.” Blaine disse. “Se você não se incomodar, eu tenho uma música que acho que se encaixa perfeitamente com sua voz, e com a situação também...”

“Qual?” Ele perguntou, curioso.

“Acho que você conhece, My Own Worst Enemy, da Idina Menzel.”

O queixo de Kurt caiu na hora. “Claro que conheço! E, wow, eu adoraria cantar isso!”

Blaine abriu um sorriso gigante. “Ótimo. No seu tempo livre, seria muito bom se pudesse praticar até o dia...”

“Com certeza. E Rachel? Ela não ficou meio... chateada por não ter o direito de cantar um solo?”

“Você não tem ideia.” Ele riu e começou a contar como estavam indo os ensaios do coral a cada dia que se passava.

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No dia em que Kurt teve alta do hospital, uma quarta-feira, ele estava no caminho para casa, no carro de seu pai, quando Burt decidiu quebrar o silêncio.

“Filho, eu não sei porque você não está me respondendo. Eu não estou com raiva, sabe? Só com muito medo e preocupação.” Burt parou o carro no sinal vermelho, virando-se para Kurt, que mantinha seu olhar em direção reta. “Não posso perder um filho...”

Kurt ainda não havia respondido, mas agora estava olhando pela janela.

“Eu te amo, ok? E a partir de agora, vou te apoiar e conversar mais contigo. Sei que não tenho muito tempo e-“

“Tudo bem, pai.” Kurt finalmente falou, virando-se para ele, que voltou a dirigir. “E-Eu só não quero falar sobre isso. Prometo nunca mais fazer algo assim.”

“Acredito em você, Kurt.” Seu pai sorriu, o que fez Kurt um pouco mais satisfeito com a atual situação.

“Sinto muito mesmo por toda a preocupação... Eu não sei no que estava pensando ao fazer isso.” Kurt mentiu. Ele sabia exatamente no que estava pensando. Ele estava pensando em tirar toda a dor, em desistir de tudo. Em algo que ele tinha começado a pensar há muito tempo.

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Era uma sensação estranha, a sensação de andar nos corredores do McKinley três semanas depois. Três semanas que Kurt passara no hospital, tudo por causa de um –para falar a verdade, vários- incidente que ocorreu naqueles corredores.

A cada passo que ele dava, algumas pessoas olhavam para ele, outras apenas o ignoravam. Ele se perguntou se era algo bom ou ruim o fato de que ele ainda não havia tido sinal de nenhum atleta do time.

Porém, assim que ele fechou seu armário, dirigindo-se até sua primeira aula do dia, Kurt foi empurrado contra o mesmo armário, provavelmente por Karofsky.

“Bem-vindo de volta, Hummel.”

Antes que pudesse se levantar, ele avistou Blaine, que virava o corredor, correndo em direção a Karofsky.

“Ei!” Ele parecia estar com raiva, de um jeito que Kurt nunca o vira antes.

“O que foi, bicha?” Kurt pensou que após Karofsky se aproximar de Blaine com seu olhar intimidador, Blaine iria recuar.

Mas, não. Ele percebeu que Blaine fechou suas mãos, contendo sua raiva, e se aproximou, pronto para enfrentá-lo.

“O que você ganha fazendo isso?!” Ele quase gritou, o que fez o corredor inteiro parar para observá-los.

“O que você disse?”

“Eu disse: o que você ganha empurrando as pessoas contra armários e jogando raspadinhas nelas?” Blaine respirou fundo e esperou alguns segundos antes de continuar: “Você acha que é melhor do que elas?! Uma novidade: você não é. Você sabe como machuca alguém, não apenas fisicamente, quando você faz isso? Espera, deixe eu lhe dizer uma coisa: você nos chama de 'perdedores', certo? Mas, daqui a alguns anos, aquele garoto que você empurrou contra um armário e que quase literalmente morreu por sua causa, vai estar sendo uma estrela, realizando seus sonhos! E você vai estar aqui, julgando e machucando as pessoas. Quem você acha que vai ser o perdedor?”

Karofsky não respondeu. Ele apenas olhou para Blaine por uns segundos, antes de o empurrar, virar-se e continuar andando pelos corredores.

Kurt o encarava, com um olhar perplexo, aproximando-se.

“Ninguém nunca fez isso por mim antes.” Kurt disse, sua voz saindo em quase um sussurro. “Obrigado. Você poderia ter se machucado.”

“Não importa.” Ele colocou um braço em volta de Kurt, guiando-o até sua primeira aula. “Eu faria de novo, por você.”