Scarloon Leandro II - Tosse
1 REVENDO NOVOS TEMPOS
Notas iniciais
30 de dezembro de 1799
Hoje eu completo vinte e oito anos desde que vim para Scarloon.
Vinte e oito anos.
Parece muito tempo. E é. Desde então, treinei, lutei, venci. No começo, era só pela vitória — aquela obsessão de provar que eu não era fraco, que meu Impar não era uma piada. Mas hoje… hoje já não me importo tanto assim.
Acumulei troféus. Descobri novas habilidades. Recentemente, desbloqueei a tosse — mas isso é papo para outro dia.
Agora, meu papel é outro.
Ajudo a Sara no treino dos alunos dela. Praticamente virei um treinador. Gosto de ver a evolução deles, a forma como os olhos brilham quando descobrem algo novo sobre seus próprios poderes. Sinto algo nostálgico. Ver esses Scars que sonham em ganhar o torneio, as rivalidades bestas, os treinos exaustivos… É algo que está me faltando hoje.
Não há ninguém que eu considere um rival. Um oponente digno.
Acho que é isso que acontece quando você chega ao topo: você olha para baixo e percebe que está sozinho.
Enquanto eu filosofava sobre essas bobagens, ela veio.
Não falou nada. Apenas se sentou ao meu lado.
O pôr do sol desse mundo é parecido com o da Terra — mas com suas diferenças. O sol tem chifres e uma auréola. A lua, quando aparece, é minguante, com as pontas alongadas e um sorriso largo gravado em sua superfície. Meio estranho, confesso. Mas ainda é charmoso. Talvez até mais bonito que o original.
Sara finalmente abriu a boca.
— Só curtindo a vista, né, Leandro? — Ela deu um sorriso caloroso.
— Sim — respondi, com um tom de deboche. — Filosofando no que sobra depois que você tem o que tanto buscava.
Ela inclinou a cabeça, me avaliando.
— Você já tem tudo que queria? — provocou. — Você não disse que queria vencer os torneios com cada uma das suas habilidades individualmente?
— Sabe como é — dei de ombros. — Isso é mais um extra. Não é um objetivo que eu realmente quero completar. Claro, seria legal se eu conseguisse, mas… eu já consegui o que almejava.
Ela cruzou os braços.
— Entendi. Então você tá tristinho por que não tem mais desafios?
— Isso. — Suspirei. — Não tem mais necessidade de eu treinar tanto. Afinal, eu sou o mais forte entre os lutadores.
Olhei para ela de soslaio.
— Acho que já te superei faz tempo.
Falei brincando, mas a reação veio na hora.
— O QUÊ?! — ela se levantou, indignada. — Você acha que superou sua mestra?
— Eu não acho…
Ela me encarou, como se dissesse “É bom mesmo”.
Completei com um sorriso:
— Eu tenho é certeza.
O silêncio durou dois segundos.
Depois, ela riu. Mas não era um riso de quem estava se divertindo. Era aquele riso que precede uma tempestade.
— Ah, é? Beleza então, Leandro. Você ficou bem convencido disso. — Ela cruzou os braços, o olhar determinado. — Então que tal um desafio? Um duelo. Eu contra você.
— Tem certeza? — Levantei, esticando o corpo. — Não gosto de…
Pousei a mão no ombro dela, com um sorriso.
— …Bater em idosos.
O rosto dela empalideceu.
— O QUE?
— Você ouviu bem.
— Você foi longe demais, Leandro! — ela avançou, apontando o dedo no meu peito.
— Agora eu não vou ter um pingo de dó de você!
Depois dessa conversa normal entre Scars civilizados, seguimos para o campo de treino do Dôjo.
O sol já estava baixo, pintando o céu de tons alaranjados. A arena estava vazia — os alunos já haviam ido embora. Só nós dois.
Me posicionei de um lado. Ela do outro.
Pensei bem.
Nunca vi Sara usar seu Impar de verdade. Sabia que ela treinava, que desenvolvia coisas novas, mas nunca vi em combate. Sempre achei que ela só treinava os outros.
Hoje, eu descobriria.
— Preparado, Leandro? — ela perguntou, confiante.
— Sim, Mestra.
Seus olhos brilharam.
A luta começou.
O que eu vi me surpreendeu.
Com seu Impar, Sara criou sangue. Ele flutuou na palma da sua mão, denso, vermelho-escuro, pulsando como se tivesse vida própria.
Sangue? O Impar dela é sangue?
Não tive tempo de processar. Criei meu muco e cobri meus braços com a camada endurecida.
Sara ergueu a mão livre. Com o dedo molhado de sangue, desenhou um símbolo no ar — algo que brilhou em vermelho antes de se dissipar.
— [Otamiana] — ela pronunciou, a voz tomada por um tom agressivo que eu nunca tinha ouvido.
Suas veias ficaram mais aparentes. Um tom avermelhado percorreu seus braços, seu pescoço, seu rosto.
O que isso fez?
Não sei ao certo. Mas provavelmente era bom para ela e ruim para mim.
Avancei.
Tentei acertá-la com um soco direto. Ela desviou com uma facilidade absurda. Seu contra-ataque veio rápido — um punho que acertou meu braço coberto de muco.
CRACK!
O muco endurecido rachou.
Caramba.
Na última vez que testamos, ela não conseguiu causar tanto estrago. Sua força aumentou significativamente. E a velocidade também.
Ela se agachou. Suas mãos agarraram minha cintura.
Eu sabia exatamente o que vinha a seguir.
Em vez de tentar fugir, criei o máximo de muco que pude e endureci na minha cabeça, formando um capacete improvisado.
SUPLEX!
O impacto fez o chão tremer. O capacete rachou — mas segurou.
Sara não parou. Segurou minhas pernas e começou a girar.
O mundo virou um borrão.
— VAI!
Ela me lançou para longe como um estilingue. Meu corpo cruzou o campo em segundos — mas eu me posicionei no ar e aterrissei em pé. Nada que eu não estivesse acostumado.
Sara já estava se movendo novamente. Outro símbolo traçado no ar com sangue.
— [Clariculação] —
Seus olhos ficaram vermelhos.
Mais um símbolo.
— [Ramaduar] —
Uma armadura escarlate cobriu seu peitoral, brilhando sob a luz do entardecer.
Ela está ficando mais forte.
Três símbolos. Três aprimoramentos. Força, visão, proteção.
Isso é temporário?
Não importava. Eu queria ver mais.
Ativei a febre. Quarenta graus — só para aquecer.
Meu corpo ficou mais rápido. Mas eu não ia parar por aí.
O muco começou a envolver meu corpo por completo. Camada após camada, endurecendo até formar uma carapaça sólida, mas com uma parte interna mais macia para absorver impactos. Algo que desenvolvi nos últimos meses.
Armadura Lazuli.
Sara viu minha "transformação" e riu.
— Vamos ver quem é mais forte! — desafiou.
— Acho que já sabemos o resultado dessa batalha, Mestra — respondi, com um sorriso.
O que veio depois foi guerra pura.
Dez minutos de trocação franca. Sem truques. Sem estratégias elaboradas. Apenas dois Scars se enfrentando com tudo o que tinham.
Socos. Chutes. Esquivas. Contragolpes.
Minha armadura Lazuli aguentou boa parte do dano, mas os golpes dela estavam mais pesados do que eu imaginava. Cada impacto fazia o muco tremer, rachar, se regenerar.
Do outro lado, os efeitos do Impar dela começavam a mostrar desgaste. A armadura escarlate se fragmentou. Os olhos voltaram ao normal. As veias desincharam.
O sangue… acabou.
Ao mesmo tempo, meu Impar também chegava ao limite. A armadura Lazuli se dissolveu. A febre arrefeceu.
Restaram apenas nós dois. Exaustos. Marcados.
Mas ainda de pé.
O último soco foi meu.
Ele acertou o queixo dela com o peso de todo o treino, toda a frustração, toda a vitória acumulada em anos.
Sara caiu no chão.
Fiquei ali, ofegante, olhando para ela.
— Ugh… — ela gemeu, tentando se levantar. — Acho que já temos um vencedor, né?
— Eu ainda não fui nocauteada! — ela insistiu, mas a voz saiu fraca.
Quase por reflexo, ativei a dor de cabeça. Apontei a mão na direção dela.
O olhar de Sara mudou instantaneamente.
Em um movimento rápido, ela mudou de postura e se ajoelhou.
— Entendi — ela disse, levantando as mãos. — Você ganhou. Parabéns, Leandro.
Desviei a dor de cabeça no último segundo e comecei a rir.
— Do que você tá rindo? — ela reclamou, ainda ajoelhada. — Tá achando graça da minha derrota?
— Não, Mestra — respondi, ainda rindo. — Só achei engraçado sua reação instantânea assim que eu ameacei nocauteá-la.
Ela fez biquinho e se revirou no chão como uma criança birrenta.
Estendi a mão.
— Então, já que eu ganhei, já pode sair do chão.
Ela olhou para minha mão por um segundo. Depois, com um suspiro dramático, a pegou e se levantou.
Quando ficou de pé, algo em seu rosto mudou. O deboche deu lugar a algo mais… sincero.
— Leandro — ela disse, a voz mais calma. — Não precisa mais me chamar de Mestra.
— Como assim?
— Você já está superior a mim em lutas. Então, na verdade, eu quem deveria te chamar de mestre, não é verdade?
A frase caiu no ar como um tijolo.
— Então vou te chamar como? — perguntei.
— Sara. Só Sara. Esse é meu nome, afinal. Não precisa me tratar com tanto respeito depois de me vencer numa batalha, Leandro.
— Hm… — coçei a nuca. — Vai ser difícil me acostumar… Sara.
— Que nada! — ela bateu no meu ombro. — Uma semana e você se acostuma.
Olhou para o céu. A lua já havia surgido, seu sorriso largo iluminando o Dôjo.
— Bom… — ela se virou para mim. — Tá ficando meio tarde. Acho que você deveria ir pra sua casa descansar. Você usou muito seu Impar hoje.
— Sim — concordei, sentindo o peso nos ossos. — Eu vou.
Virei para sair, mas parei.
— Tchau… Sara. Descansa também.
Ela sorriu.
— Eu vou. Não precisa se preocupar. Eu faço isso como ninguém!
Caminhei para casa sob a luz da lua sorridente.
Meu corpo doía. Meu Impar estava no limite. Mas havia uma sensação estranha no peito. Não era vitória. Não era orgulho.
Era… paz.
Então é isso que sobra depois que você tem o que tanto buscou.
Entrei em casa e desabei na cama.
O sono veio antes mesmo que eu pudesse fechar os olhos por completo.
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