Acordei no meio da noite.

01 de janeiro de 1800

Isso, por si só, já era estranho. Meu corpo nunca me acordava sem motivo. Mas naquela noite… algo me puxou do sono como uma mão gelada agarrando minha espinha.

Acorda. Agora.

Levantei da cama antes mesmo de processar o pensamento. Meus sentidos estavam em alerta — algo que não acontecia há anos. Não desde que me tornei o mais forte.

Mas aquilo… aquilo era diferente.

Era um pressentimento. Pesado. Escuro.

Tem algo acontecendo. Algo grande. Algo muito, muito perigoso.

Abri a porta.

O mundo tinha mudado.

Sangue.

Por toda a estrada. Nas paredes. Nas árvores. Nos riachos que cortavam o caminho. Tudo estava banhado em vermelho.

Meu coração gelou.

Nunca vi sangue em Scarloon. A não ser aquele que a Sara criava com seu Impar.

Mas isso… isso era diferente. Isso era real. Era morte.

O que aconteceu aqui?

Ativei a febre antes mesmo de pensar. Minha velocidade disparou. As árvores viraram borrões ao meu lado. Eu corria como nunca corri antes.

Para o Dôjo.

Para ela.

As perguntas martelavam na minha mente enquanto eu corria:

O que está acontecendo?

Como isso aconteceu?

Quem fez isso?

Por quê?

Não havia respostas. Apenas sangue. Mais sangue. E corpos.

Quando cheguei perto da cidade principal, a visão piorou.

Scars corriam desesperados. Alguns sem membros. Outros sangrando tanto que mal conseguiam se manter de pé. Gritos ecoavam por todos os lados.

Mas eu não parei.

Continuei correndo.

Até chegar em frente ao Dôjo.

A porta estava fechada.

Meus pés pararam sozinhos.

E então… eu senti.

Algo ali dentro. Algo que fazia cada fibra do meu corpo gritar para fugir.

ELE está lá dentro.

Ele.

Quem era ele? Eu não sabia. Mas meu corpo sabia. Meu instinto sabia.

Fuja.

Minhas pernas tremiam. Minhas mãos suavam frio. Eu tentava me mover, tentava dar um passo à frente — mas meu corpo se recusava. Como se entrar ali fosse a morte certa.

Ela precisa de mim.

O pensamento surgiu fraco, sufocado pelo medo.

Ela está em perigo.

O medo apertou mais forte.

Eu tenho que salvar ela.

Minha respiração ficou curta.

Ela está com ele.

O suor escorria pelo meu rosto.

Ela vai morrer.

Meus olhos se arregalaram.

Ela vai morrer.

A imagem dela surgiu na minha mente. O sorriso. O abraço. O tapa na nuca.

Ela vai morrer.

— ELA VAI MORRER!

BOOM!

A dor de cabeça explodiu da minha testa. A porta do Dôjo voou em estilhaços.

Eu não pensei. Não senti medo. Apenas corri.

O que eu vi quando entrei era impossível.

Inacreditável.

O Dôjo… estava coberto de corpos.

Os alunos. Todos eles. Mutilados. Espalhados pelo campo de treinamento como bonecos quebrados. O chão, antes de grama macia, agora era um lago vermelho.

E no centro de tudo…

Sara estava de joelhos.

E diante dela, de pé, ele estava.

Um ser escuro. Uma presença que esmagava o ar ao redor. Eu mal conseguia respirar perto dele. Era como se a própria luz tivesse medo de tocá-lo.

Então eu vi seu rosto.

A lua.

O mesmo rosto que aparecia no céu todas as noites. A lua minguante. O sorriso largo.

Mas aqui, naquele rosto, o sorriso não era sereno. Era cruel. Os dentes eram pontiagudos. Os olhos, negros como abismos. Uma espécie de lodo escorria de sua cabeça como se sua própria existência estivesse apodrecendo.

Ele me notou.

Mas nem se dignou a olhar.

Sua voz saiu calma. Serena. A calma de quem já venceu antes mesmo de começar.

— Então… vai aceitar?

Sara tremia. Seus ombros sacudiam. Sua voz saiu trêmula, quebrada:

— Eu… Eu…

— Ah… não chore, Sara.

Ele moveu a mão.

Não houve golpe. Não houve som.

Apenas o braço esquerdo dela se separou do corpo como se nunca tivesse estado ali.

— AAAAAAAAAAHHHHHH! —

O grito dela perfurou a noite. Ela agarrou o ombro cortado, o sangue escorrendo entre seus dedos.

— Sim! — ela gritou, a voz desesperada. — Eu paro! Eu paro…

Parar o quê?

Minha voz saiu antes que eu pudesse controlar:

— O que… você está fazendo?

O homem virou a cabeça lentamente na minha direção.

O sorriso dele se alargou.

Sara ergueu os olhos para mim. Seu olhar… não era de dor. Era medo. Medo de verdade. Medo por mim.

— O que eu estou fazendo, Leandro? — ele riu, um som que parecia rasgar o ar. — Não é óbvio?

Eu tentei avançar. Minhas pernas não se moveram. Tentei erguer os punhos. Meus braços não responderam.

Por que eu não consigo me mover?

— Deixa ela ir — minha voz saiu forçada, trêmula. — Se não, eu te quebro na po—

Minha boca se fechou sozinha.

Como se algo tivesse agarrado minha mandíbula e selado meus lábios.

— Leandro! — Sara gritou, o desespero estampado no rosto. — Por favor, foge! Só foge daqui, logo!

O homem se virou para ela, divertido.

— Então você tem a audácia de dizer que consegue me fazer um arranhão?

Sara olhou para ele, os olhos marejados.

— EU ACEITO! — ela berrou. — EU ACEITO, MAS SÓ SE VOCÊ NÃO MATAR ELE! É TUDO QUE EU TE PEÇO!

O homem pareceu considerar. Seu sorriso se alargou ainda mais.

— Entendido, Scar do Sangue. — Sua voz era doce como veneno. — Você será uma ótima Mada.

Mada?

O que era aquilo?

O que estava acontecendo?

POR QUE EU NÃO CONSIGO FAZER NADA?

— Eu vou cumprir meu acordo — o homem disse, ainda sorrindo. — Então, moleque, saia daqui se quiser garantir sua vida.

Senti algo que não sentia há muito tempo.

Impotência.

Ele apareceu na minha frente. Não andou. Não correu. Simplesmente estava ali. Seu rosto a centímetros do meu. Seu hálito gelado contra minha pele.

— Eu disse pra você fugir? — sussurrou. — Não ouviu a garota? Se você não correr, vou ter que te matar. E depois matar ela.

Pausa.

O sorriso.

— Que pena, né?

Meu sangue ferveu.

Minhas mãos se fecharam em punhos. A raiva subiu como um incêndio. Eu ia acertar ele. Ia acertar com tudo o que eu tinha.

— LEANDRO! —

A voz de Sara cortou minha fúria como uma lâmina.

— PARA DE SER IDIOTA! ME ESCUTA! — Ela gritava, o corpo trêmulo, o braço faltando, o sangue escorrendo. — VOCÊ VAI MORRER SE LUTAR CONTRA ELE! FAZ ISSO POR MIM! POR FAVOR! SÓ FOGE! PRO MAIS LONGE QUE VOCÊ PUDER!

As palavras doíam.

Doíam no fundo da alma.

Porque eu sabia que ela tinha razão.

Eu vou morrer se lutar contra ele.

Respirei.

Respirei fundo.

Respirei até o medo parar de tremer meus dedos.

— Desculpa, Sara… — minha voz saiu baixa, quase um sussurro. Dei um sorriso, mesmo com os olhos marejados. — Eu sou fraco demais pra lutar contra esse aqui.

Ela me olhou. Seus olhos brilhavam.

— Mas eu vou fugir só porque é a minha mestra que está mandando, viu? — completei.

O sorriso que ela abriu, mesmo depois de tudo aquilo… era o mesmo de sempre.

— Seu idiota! — ela riu, e o som veio molhado de lágrimas. — Vê se não me desobedece, viu? Talvez a gente se encontre mais tarde, em algum dia. Aí a gente pode olhar o pôr do sol juntos. Mas agora…

Sua voz endureceu.

— …mete o pé, pivete!

— Po-po-pode de-de-deixar comigo! — gaguejei, o sorriso congelado no rosto.

O homem — Adam, ele havia dito — observava a cena com os olhos brilhando de diversão. Como se aquela despedida fosse o melhor espetáculo que ele já tinha visto.

— Meu nome é Adam — ele disse, quase gentil. — Só pra constar.

Fechei os olhos.

Ativei a febre.

E corri.

Corri como nunca corri na vida. Para a floresta. Para longe. Para o mais longe que eu pudesse ir.

O vento cortava meu rosto. As árvores passavam como fantasmas. O sangue nos meus sapatos sumiu na escuridão.

Mas as imagens ficaram.

Sara de joelhos.

O braço no chão.

O sorriso de Adam.

Corri.

Corri e não olhei para trás.

Notas finais
Agendar alguma coisa? Nada a ve